domingo, 12 de fevereiro de 2017

SINTASE DO CONSTRANGIMENTO



ESPAÇO

- do mito ao grito –

“Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.” Virgínia Woolf

                                     Para todas as verdades há o inscrito: “... aqui jazem pedaços da alma de um pensamento.” Verdadeiro ou promissoramente reprovável, pensar não indica caminhos livres de intempéries. Muito pelo contrário, fazer pode ser bem mais intrigante e complexo. Entre suscitar e manifestar constroem-se muros de menor ou maior planejamento – isto quando não se desconta o fardo dos acasos e improbabilidades. Inconstâncias da vida pública (aquela que existe simplesmente porque pensar é um ato politicamente marcado, ou, em estado de política negação.)
                                       Mas, contrariando o dito, advém a quem pensa que, nem mesmo a possibilidade acima se expressa verossímil: no lugar de nossa contemporânea imersão social (consciente ou inconscientemente), cria-se um espaço de completo vácuo. Do lado de fora, aparentemente, permanece o universo do outro lado. Pelo lado de dentro, discutivelmente, transfigura-se o lado interno. Duas prisões sem habeas corpus. “Que tenhas o teu corpo”... em latim. E que deixes os demais, em qualquer língua (sem trocadilhos e picardias!), no lugar próprio do pertencimento e da antropologia.
                                    A história da humanidade esconde indignas masmorras e jamais revelará as estratégias por detrás das intenções. Tensões? Conflitos! A base do crescimento não reina em paz e nem dela se faz a coroa da vitória, infelizmente. Ainda assim, tensões e conflitos podem acarretar reinações de grande evolução. E que não se pense, pensando, na direta razão do aprisionamento desnecessário.
                                  Aos sensíveis, a guilhotina do envolvimento. Aos medíocres, o trono da indiferença. Lá dentro, onde dizem habitar as sombras das ideias – por mais que eu pense e repense que elas, as ideias, não têm endereço, lado ou lugar – uma forca de fios ideológicos aguarda, indubitavelmente, todo aquele que se apresenta em ingênua modelagem. Lá dentro - um lugar sem lugar que tanto pode ser a alma de um ser pensante quanto a enciclopédia embolorada do mundo dado a conhecer - é o espaço das suposições. Prisão e liberdade não ocupam a mesma categoria morfossemântica, mas dão conta da sintaxe do constrangimento. Dar espaço a uma ou outra é movimento que envolve muitos lados: dentro e fora podem ser apenas um começo.
                                  Que se tenha espaço para mobilizar a liberdade e conhecer a antonímia de suas inflexões.
                                Com carinho, despeço-me de meus leitores desta coluna, parceiros de uma história que não termina aqui.
                                
Ivane Laurete Perotti

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ASAS



RUDIMENTOS DE UMA ANALOGIA
- pássaros ausentes -

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Clarice Lispector

                                      Para quando se deixar de justificar a sóbria condução de nossas resistências, talvez, por debaixo das portas trancafiadas, infiltre-se uma nesga de fantasia. Considerando-se que as metáforas façam parte da vida e as invenções sejam suas respectivas provas, qualquer porta, por mais inconsistente que seja, manifesta uma ideia de lados: dentro e fora douram a face de uma só maçaneta.
                                    Com “a” chave nas mãos, abrir e fechar portas são performances dependentes de perspectivas e motivações: não suprimem lados! Deve ser assim – não? – quando nossos sentimentos criam asas; quando escolhemos uma parceria; quando defendemos uma tese; quando escolhemos uma agremiação e quando, inadvertidamente, ficamos a ver navios.  Longe do adágio popular, ver navios é um chamado aos versos, ao saudosismo, à arte da travessia, à espera de um amor ou à partida dele/deles (desde que não se sucumba à precariedade das condições de trabalho dos estivadores, funcionários portuários et alii, et cetera e...). Mas quem diz que a poesia não desnuda a vida? A vida desnuda a poesia... por fim, a nudez faz parte dos lados de qualquer porta.
                                      Navios e portas têm tanto em comum quanto o amor e os pássaros. Os dois primeiros criam distâncias, sustentam-se a partir de outras estruturas e desafiam aqueles que decidem bater em retirada: ir ou ficar termina sempre – sempre? -  em derrocada democrática. Quem foi di/fama, quem fica re/clama. Ousadias morfológicas.
                                   A segunda dupla, o amor e os pássaros, identificam-se pela valentia nos arremessos; voam alto; apresentam dificuldades em descortinar os predadores; criam asas.  “Asas” são metáforas robustas aplicáveis ao campo das figuras de linguagem e nem mesmo os pássaros podem alcançar os horizontes de suas possibilidades significativas. Mas, começa por aí o limiar de alguns lados: o fenômeno do amor postula dominar a própria realidade e desconsidera que, asas, portas e navios ameaçam-lhe a natureza volitiva. Os pássaros, por herança genética, não gostam de portas – até onde se sabe! Navios não atracam em qualquer cais, mas obedecem à força das correntes marítimas e podem, infelizmente, naufragar em terra seca. Sic! As portas, subtraídas de um lugar único, tendem para o lado com maior pressão, ou se voltam para onde o vento sopra, ou sucumbem, carcomidas, pela inércia de qualquer chamado.
                                   Para quando e se deixarmos de justificar a sobriedade de nossas convicções, talvez, quem sabe, possamos lembrar da nesga de luz que se infiltrou por debaixo da porta.  A nesga não tinha lado. A porta estava nua. Os pássaros nasceram livres. Os navios flutuam em águas profundas. E , de qualquer modo, a poetisa estava certa: “... viver ultrapassa qualquer entendimento.” ( Clarice Lispector).
                               

Ivane Laurete Perotti