sábado, 22 de agosto de 2015

A ÉTICA DAS GARÇAS...

A PRÁTICA DA FELICIDADE : A FELICIDADE PRÁTICA

- em águas rasas afoga-se a ética e as garças criam barbatanas -

      "Houve um momento de estupor: o homem nadou de costas..."
       Ivane


                               Quando a praia secou-se em lágrimas de sal, alguns peixes pediram água; outros, pediram boias e, ainda outros, afogaram-se na areia quente.
                                  Pedidos áqueos costumam alcançar alta ressonância: reverberam em ondas de filtrada urgência; mas, os "peixes"  desta cena jaculatória - em latim ambíguo e propositalmente movediço, que não se faça a combinação semântica com /e/-jaculatória, uma vez que esta nos faz navegar ao desamparo pelas condições genéticas de possibilidades ejaculatórias, pelos recipientes ejaculatórios e pelas pessoais incapacidades de examinarmo-nos "potentes" - cambiaram limites de fervorosas solicitações e êxtase místico. Vozes, vezes e intenções interpelaram possíveis acessos à estabilização da felicidade : entre aqueles que acreditaram precisar de água, secou-se a boca; entre os que solicitaram boias, justificou-se a inaptidão ao nado; entre os que se afogaram, claro!, nada se fazia ouvir! Fenecidos, sucumbidos súplices faziam-se morrer pela vontade infértil de viver... sem estilo, descumpriam o antiético desejo de superar o lapso entre a felicidade e a felicidade!
                                Requerentes pragmáticos, os peixes sedentos tornam  a vida um  soluço obscuro enquanto as garças de barbatanas crescidas aprendem  a usar o bico para atravessar as bolhas de sabão - neutro!. Com graça, elas, sempre elas - súcubos da agilidade humana ( succubus alimentam-se do que se lhes ofereça em prato de prata nobre... ou não! vale a deixa para quem gosta de sonhar ,sonhar, sonhar e permanecer no mundo onírico da fantástica fábrica de tradições culturais, fundamento basilar na criação dos medos e dos mitos.) - fazem troça dos pedidos que vão e vêm. Justificam-se? Não! Não se justificam: desenvolvem barbatanas!
                             A que altura do mar aberto a felicidade mergulhou à cata de outras praias? As garças não contam, a ética não garante e o ser humano debrua as costas em contínuo - e ininterrupto - processo de estupor funcional!  Pudessem os peixes e os homens viverem  de surpresa em surpresa sem o susto e o culto ao medo oculto- oculto culto, inculto pânico que não surpreende, apenas adoece. 
                           Não se admira que as boias não cheguem a tempo, que não se perceba a oração beijar o calor da areia, pois sentir e saber conjugam-se em espaços e modos diferenciados pela água que costeia a consciência. E esta, a água, carrega NaCl em soluções que se desdobram em fórmulas /in/descritíveis :  light é o mar de perspectivas  que a vida oferece em cenas de jaculatórias constantes! Haja areia!

Ivane Laurete Perotti

                        

domingo, 9 de agosto de 2015

UM...


ESTRELAS ABERTAS

TENTÁCULOS DA EDUCAÇÃO
-  braços são membranas cadentes, estrelas do conhecimento interno -

" ... o professor deveria ser polvo."
 Rosana Moura - professora

                                       Um sobe pela cortina entreaberta para espiar o compasso do dia. Outras notas, prazerosamente liberadas ao consumo da escrita empírica,  perambulam em busca de espaço nas linhas da classe regada pelo sol. No início da pauta, uma aula de Língua Portuguesa Brasileira: conjunto harmonioso de vontade e competência que, em muito, traz à memória sonora Guido D'Arezzo ( pequeno grande monge nascido na Toscana, em plena ebulição da Idade Média. Guido, criador  do sistema mnemônico que sobrevive cheio de dedos - e dados - na história da pedagogia como "Mão Guidoniana", fez esforço de polvo para ensinar a transcrição da altura das notas, transpostas em escala musical). À sintaxe da professora de LPB,  a regência de Guido agrega sentidos não ouvidos, suspeitável parentesco entre tempos e vontades partilhadas ao fundo das catedrais do saber. Ao fundo, pois que pelas abóbadas pouco celestiais gesticulam braços estelares, estendidos tentáculos humanos que transcendem o espaço aéreo das metáforas (escusas contundentes a Paul Ricoeur que, certamente, já foi elevado à tríplice dimensão de suas metáforas vivas!) e envergam - quando não vergam sob o peso das circunstâncias alheias à vontade política - o manto da esperança e qualificação professoral.
                                       Sol e descem ao mesmo tempo à mesma linha criando a dissonância do encontro para além do sítio demarcado na classe ensolarada.  Há um lugar para as notas e uma direção para as linhas. Desfeito o contrato, não há compasso nem pregas vocais que deem trato ao distrato: brumas desfazem-se ao beijo do sol,  ao sopro do vento norte,  ao poder das volubilidades humanas, especialmente aquelas que eclodem em épocas de pouco pito.
                                 e /do'/ , [dɔ] ou apenas dó parafraseiam as sílabas abertas na caixa de ressonância humana também conhecida pelo nick :boca  /'boka/ ou bocaberta e atingem em cheio o peito da professora.  Eis que surge o primeiro tentáculo da pedagogia humana. E não se pense que a palavra seja simples, pois ao som de tentáculo bailam as possibilidades morfológicas de juntar na mesma linha, em sucessivas cadências  semânticas, os pedaços que fazem da educação uma infinda tentativa oracular: / tenta+oráculo >  tentáculo = esforço divinatório/ ; longe, muito longe das compensações que a profissão deveria auferir.
                          Ré está embaixo do tapete, aguarda a definição de uma região qualquer entre o grave, o médio ou o agudo para manifestar o alcance do ensino inteligente na classe que o sol inunda. E não fica de fora: adverbialmente localizado, abraça  a professora que possui braços de estrela, estrela do céu, estrela-do-mar e nem se envergonha do hífen que vai e volta, vaivém, sem agradar a ninguém. Ah! Divina ortografia!
                           Si, em substantiva condição, briga para identificar o acidente - Bb (bemol) - e permanece  expletiva partícula de indeterminação, agregado reflexivo, apassivador inaudito: claro contraste na alteridade dos sujeitos sociais, estudantes passivos na escola da vida, até que um polvo os atinja o coração.
                            Polvo... o professor nasceu um: pragmática da profissão!


 * ESTE TEXTO É UMA NOTA DE ADMIRAÇÃO AOS PROFESSORES DESTE PAÍS, EM ESPECIAL, À PROFESSORA ROSANA MOURA, DIGNA ESTRELA DA PROFISSÃO!

Ivane Laurete Perotti

domingo, 2 de agosto de 2015

ATOS


TERRENOS MOVEDIÇOS

PARCELAS DA VIDA COMUM

- a paz é uma guerra ideológica que se alimenta da esperança alheia -

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra às guerras."
Pablo Neruda

                             E se pensava estar em paz!
                             Dorme-se!
                               Parcelados todos os sonhos, dormir ainda parece ser a  melhor forma de embalar o medo de não acordar.  Dorme-se para viver, vive-se para dormir e, no rol das veleidades insustentáveis, a vida comum lembra um barco raso cujo fundo não se anuncia antes de afundar. Uma paráfrase da necessidade humana de "afundar-se" um pouco a cada dia nos meandros nada aluviais de um sono r-e-p-a-r-a-d-o-r . Mesmo considerando o fato de que as planícies do sono humano não estão suficientemente maduras para sustentarem as possíveis variações dos terrenos psíquicos ao feitio do que ocorre na topografia de um curso d'água. E aí começa a primeira guerra pessoal contra a paz no mundo! Quem não dorme  sofre a tendência de parcelar os fatos da vida em contas distribuídas ao sabor das responsabilidades pessoais, sociais, como se tal fosse possível fora do campo das batalhas ideológicas. Se, então, dormir é um processo necessário para fomentar a paz, estamos todos em estado de guerra. Ou um, ou dois: o estado de guerra é campo minado por fontes de água viva, desenhos, sonhos e atrocidades. Como juntar elementos de natureza diversa no mesmo barco? Parcelando a vida! Atitude esta que aprendemos desde cedo, antes mesmo de operar com os elementos linguísticos que nos colocam em apoplexia verbal - derramamento de sangue em poesia continua sendo derramamento de sangue em prosa, verso e fronteiras da ambição. Os AVCs (acidentes vasculares cerebrais) também ocorrem na surdina da vida, das noites insones, no terreno do sono, dos pesadelos e dos fatos políticos, mesmo que externamente os movimentos em nada lembrem a privatização dos sentidos e... a suspensão da consciência.  
                         Dorme-se? Não! Parcela-se os sonhos e alimenta-se a esfera das guerras elaboradas em plataformas de esperança sem conferir sentido aos sinais previamente anunciados. E, enquanto descobrimos o fundo do barco, aprendemos a nadar em águas de turbulência calculada por quem domina o sono alheio e o traveste em investimento sem risco.
                      Tenho mastigado metáforas e perdido a poesia. Estou em guerra pela paz no léxico, uma insanidade que sustenta a insônia à qual agarro-me para continuar sonhando EM PAZ!

Ivane Laurete Perotti