domingo, 26 de junho de 2016

ÀS PENAS DA LEI...

DEMOCRACIA EXCLUDENTE
 
- quando a obviedade beira o precipício -
 
"A democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder." Carlos Drummond de Andrade
 
Dois pombos-correio arrulhavam sob o peso das informações presas às garras. Adestrados, haviam subestimado o valor do carregamento diário. Uma ida, duas voltas e lá estavam, acima das penas alheias. Isentos de culpa, responsabilizavam-se tão somente pela entrega. Ninguém os interpelaria, tanto quanto não levantariam a menor suspeita: a que voavam? Voavam baixo, à espreita do menor movimento inquietante: alguma novidade no ponto de pouso? Nenhuma novidade. Nenhuma alteração na entrega pré-estabelecida. Apenas, não contavam os desavisados adestradores com a faculdade pombística de aprendizagem acelerada. Os pombos-correio aprenderam a arte da persuasão e do convencimento no dialógico movimento de ir e vir: repetido movimento que imperava na situação política das terras demarcadas abaixo de suas patas. Terras de ninguém!
- Não! Terras são espaços de contenção e manifestação de poder. Estás a supor que a ninguém interessa um marco de posse? Ora...terras são sempre e inegavelmente de alguém!Sem elas, não haveria um governo: não existiriam guerras...refugiados.. essas coisas que mancham a paisagem social.( Era o pombo acinzentado tomando a dianteira da argumentação).
- Não discordo, mas complemento - disse o segundo pombo. Veja que terras são metáforas de papéis em branco, feito nações delimitadas pelo valor de troca.Algo que se deseja ter às mãos para comandar. É a DEMOKRATIA em seu auge...aqui na terra como nos céus! Olha a fronteira aérea! Idem e ibidem!
- Hummmm... pois penso que estás a alargar o escopo da conversa. Diálogos nem sempre servem à valentia de um comando. Veja a nossa situação. Desconhecidos, servimos à pátria, sem qualquer condecoração. Volúpias democráticas! Tergiversou o pombo coberto pela cor dos dias sem sol.
- Tu me fazes lembrar do querido Shaw: que as libélulas o cubram. "A democracia é apenas a substituição de alguns ..."
- "...corruptos por muitos incompetentes." Saudade de Bernard.Já não se sabe pensar como antigamente. Ah! Nostálgica saudade! Arrulhou o mais sensível dos bípedes. Saudade é uma prisão sem muros da qual não se deseja a fuga.
- Vejam só! Pois estás a cometer plágio de baixo calão! "... uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga (...)."
- Aldous Huxley! Claro! É de direito que eu o cite: " A ditadura perfeita terá as aparências da democracia...". Saudades...saudades tomam forma de...
- Pare! Não adultere a citação! Ei-la:"A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." E tenho dito. Quero dizer...repetido!
- Tolinho! Eu falava de saudade! - Também falo de saudade! Ora! Já esqueceste que nascemos em cativeiro? Tenho saudade da liberdade que nos foi negada...
- Cumprimos ordens: voamos!
- Tudo pela história desta terra de ninguém.
- ... ah! bem desejaria votar antes de obedecer às ordens!
- Irmão! Deixe o Bukowsky onde ele deve estar agora!" A diferença entre uma democracia e uma ditadura consiste em que, numa democracia se pode votar antes de obedecer às ordens."
- Ah! Charles...
Ivane Laurete Perotti

sábado, 18 de junho de 2016

FLORES DE PANO



JARDINS URBANOS

- e os pés descalços cobrem os canteiros de cimento cru -

"O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem passa por ele indiferente. E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver." Mário Quintana

                                     Lápides vazias atravessam a avenida abarrotada de transeuntes. Letárgicas, caiadas com o pó da miséria indolor à vista dos olhos indiferentes. Flores de pano gasto hasteiam-se no desenho da grama cinza. O asfalto engole os botões insistentes: espremidos embriões na sementeira desguarnecida. Borboletas não voejavam ali. Quebradas asas deitavam vida por entre as fissuras dos paralelepípedos empoeirados. Uma, duas, incontáveis lápides humanas encarceram almas inconscientes. No bojo de cada qual, o espaço de uma ilusão: a existência nega-lhes a consistência da imaterial ubiquidade. Onipresente, apenas a intenção de agarrar-se à sombra do jardim urbano. Não se lhes emprestam a definitiva morada. Morrer e morar são verbos de pertencimento subjetivo: morrem, não moram. Jamais compreenderão a deixa do poeta ausente: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas." ( Quintana ).
                                   O poeta mora, não morre. Mora na ânsia do pensamento nutrido, do discurso digerido à mesa das poéticas: estética da gastronomia. Guardanapos à boca faminta: discursos em travessas esquecidas imitam jardins sopesados de lápides sem inscrição. Lápides não pensam, confabulam significados no calcário dos parágrafos frios. Apenas o poeta entende porque nascem as palavras eivadas de pétalas coloridas. Apenas o poeta deita a mão sobre o dorso nu de sentidos e razões: por onde morre o homem do sepulcro caiado?
                                  Por sobre o pranto inaudível, a multidão desatenta esmaga as flores de pano que brotam dos pés à beira do asfalto. Pés de homens morridos, vagalumes sem lume, mendigos do interminável anoitecer.Tolhidos, desvalidos, indigentes do poder. Cavam-se os túmulos da sangria assistida.Fatídica democracia, artesã da inaudita cidadania: "Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação" (Quintana)
                                   Insólita multidão atravessa a fila das lápides desabitadas. O homem está fora de seu túmulo e procura por uma rosa com alfinete de pressão. Uma flor de seda, gatilho para o jardim urbano. Cegos, todos cegos, perdem-se antes de encontrar a linha de absolvição: " Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria..." (Mário Quintana)

                                Este não é um texto, é um espinho. O mesmo espinho que atravessa a divisória entre a cidade e os jardins. Jardins de homens, codinome: ai de mim!, jardins plantados em trapos e nuvens de fome: gafanhotos da civilização.
                               Este não é um texto, é uma pedra. A mesma pedra que calça as lápides ambulantes no centro das cidades fantasmas, enquanto muitos escondem-se atrás de janelas tombadas.
                        Este não é um texto, é uma erosão. A mesma erosão que devasta o umbral da sociedade falida em apoio aos muros de contenção.
                             Este não é um texto, é um plágio da vida real. O mesmo plágio que  arde diante dos olhos em visita ao mundo natural.  
                        E este não é um fim! O mesmo fim que consolaria os indigentes, mendigos, miseráveis lápides que transitam pelos jardins de nossas cidades: "... atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas." ( Quintana)


Ivane Laurete Perotti





domingo, 12 de junho de 2016

PALHAÇOS DO DESTINO

PICADEIRO ATEMPORAL
 
- o passado morre no exato instante em que o agora se faz presente -
 
“O que é isso que eu sei sem que ninguém me tenha perguntado, mas que, se eu quiser explicar a quem me perguntar, eu não sei explicar ? A resposta é : o Tempo.” Santo Agostinho
 
Existe um picadeiro no circo da sociedade humana que mantém a bilheteria aberta para os espetáculos encomendados. A lona esticada sobre o piso de terra batida alarga-se na direta conveniência dos conceitos pré-fabricados. Palhaços mascarados de fajuta alegria vendem ideias em aspirais de necessidades: vai um pouco de caridade aí ? Vai, sim senhor! Vai um pouco de mesmice aqui? Vai, sim senhor! Vai mais um pé de coelho aí ? Vai, meu senhor! Meu senhor! O pronome possessivo , com evidente galhardia, estende as garras da proeza retórica à moda dos títeres nas cortes atemporais. Ave, palhaços corrompidos! Comei e bebei da estultice alheia que morre aos pés da consciência apagada. Tem-se o agora! E agora? O tempo passa ao largo das trilhas e das pegadas: toma o que tem e vai-se embora. Eflúvio, imperceptível, escapa por entre as nódoas do pensamento surdo. Pensar cobra uma ação defectiva; de imperfeições o circo está cheio. Vale-se delas, de todas elas, para armar o espetáculo das enganações. Corre o tempo na arena colorida, sangram versos de incomum convencimento.
O circo e o tempo não pagam impostos. Cobram a travessia aos vivos e deixam os mortos na paz etérea dos sonhos inconclusos. Um e outro não servem ao mesmo senhor, mas dele derivam e ajustam-se aos conceitos à serventia. Ao tempo cabe a promessa jamais cumprida; ao circo, a enganação dos sentidos. “Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria.” (Charles Chaplin) Hoje tem palhaçada? Tem sim, senhor! Hoje tem marmelada ? Tem, sim senhor... tem-se a presunção de tomar o tempo em uma das mãos enquanto a outra leva as pipocas à boca. Presume-se que as pipocas acompanhem a imprescindível ilusão de um hiato: um parêntese vendido por entre as janelas da bilheteria luminosa. Necessário vão que chama para si os sonhos de permanência e imanente criação: “...um eterno presente, um tempo-duração."(Bergson)
Existem dois circos no picadeiro da vida: um, armado com estratégias de guerra; o outro, armado para mantê-las. Ambos dirigem os espetáculos que controlam, à mercê das vontades, a vontade do público alvo: daí de comer e beber à plateia presente e controle pela alusão aquela que se faz ausente. Assim se constrói o mundo das decisões, e as decisões no mundo, como se a consciência não fosse um mundo à parte, cujo tempo margeia a linguagem dos sinais intraduzíveis. “ Precisamos pensar no fato de que ainda não começamos a pensar.” ( Heidegger)
Hoje tem palhaçada? Tem, sim senhor...
 
Ivane Laurete Perotti

domingo, 5 de junho de 2016

PÁLIDA FIGURA


TENSÃO


SOL


GAVINHAS

A SOBERANIA DAS ABÓBORAS

- as palavras abrem-se em ramas conceituais: fecunda terra das conversas vãs -

“É isto que amamos nos outros: o lugar vazio que eles abrem para que ali cresçam as nossas fantasias.” Rubem Alves

                                       A discussão ganhou fôlego de plenário. Diante da inquirição, a menina de cabelos afogueados respondeu:
                                     - Nada, não! Só estou falando abobrinhas!
                                     Refutação mágica no quadro das respostas. Hífen entre sílabas silenciosas.
                                       Mal escondia a menina que plantava sementes em terras do vir a ser, ponte pênsil entre o dizer e o apontar.  Sementes de casca dura. Tão duras quanto a nesga de cola fria a sustentar os dois lados do mesmo abismo. Figuras que saem da linguagem viva para tomar sol em terreno fértil. Ou não... Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar.” (Rubem Alves)
                                      Aboboreiras dão frutos e subvertem a ordem das gavinhas em sustentação rasteira, feito as conversas de sentidos suspensos. Diversificam-se em outras espécies, esses exemplares amarelados do gênero Curcubita :  esparramam-se em  bainhas sintáticas a fim de garantirem-se no plano da expressão. Abóboras servem à inteligência da humanidade, assim como as máscaras servem à composição dos sujeitos especializados nas práticas sociais. Abóboras são recheios semânticos libertos das sabatinas gramaticais: sentidos desafortunados rondam aqueles que desconhecem o poder catártico das abobrinhas nas conversas que a vida engendra. Aríetes do verbo, temei a densidade aleatória que esconde o dizer no dito aparente! Temei a suposta desordem na coroação da frase. Temei ! “Ver algo que não foi preparado pelo verbo é entrar no campo das sensações não organizadas, da alucinação, da loucura.” ( Rubem Alves)
                                    Acima das nuvens de significação acolchoada pelos repentes, as abóboras guardam a polpa doce e quase macia. Quase, pois que há de se considerar o paladar dos comensais e o estado das línguas de trapo ( sem hífen, para honrar os acordos e os desacordos da língua-mãe ... com hífen, para lembrar a materna confusão sobre os traços de composição vocabular) encolhidas por detrás das cordilheiras dos dentes cerrados. Línguas saboreiam abóboras no bojo côncavo que as palavras deixam entre si: palavras também produzem polpa, e distribuem-se em espaços sem donos, danos e panos. Essas constituintes da voluptuosidade humana não escondem as vergonhas. Antes, desnudam-se como fazem-no as cucurbitáceas em noite de halloween. Máscaras, para o que veem? Sabem-no antes de servir ao recorte da face escondida: " Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.”  (Rubem Alves)
                            No contorno das abóboras discursivas, a menina de cabelos de fogo saboreou o espaço do silêncio amoroso. E entre os frutos abobadados, pensou nas sementes que deixara cair entre os montículos de terra revirada no canteiro das poucas frases: "Pássaro, eu não amaria quem me cortasse as asas. Barco, eu não amaria quem me amarrasse no cais." (Rubem Alves)
                            
Ivane Laurete Perotti

sábado, 4 de junho de 2016

ACENA


OCA


MAGENTA


JEITO


CLARO MÉRITO

UMA HOMENAGEM AO TRABALHO E À COMPETÊNCIA  
- na escalada de uma vida, o anúncio da vitória -
"Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores." Cora Coralina  
O sorriso é sereno. Uma vida entre outras vidas a cuidar que todas tenham lugar. Passos seguros. Pensamento aberto no abraço ao justo; belas mãos apertam o nó das evidências. Segue com a certeza que permeia as almas grandes e singulares. O mundo se lhe abre em forma de concha do mar. Ondas de competência e sensibilidade humana deitam-se à praia dos méritos claros: sabe a que vem e o faz por ciência e deleite. Colo de mãe, berço da firmeza, lugar de serena equidade: assim faz-se Mariza, a mulher que conhece a vitória sobre os fatos olhando-os na frequência em que se manifestam. Desapercebidos, os fatos fizeram-lhe a corte. A indulgência tentou-lhe a sorte. A não sobriedade procurou por um lugar para atracar-se, afoita. Todos, por sua vez e conta, deram por terra: um sorriso calmo esconde a tenacidade forjada na estética da vontade. Mariza não espera a cortina fechar-se diante dos atos: a prontidão escuda-lhe com agudeza e determinação. No silêncio eloquente, vê e argui; sente e prepara-se, entende e segue. Assim faz o caminho estender-se por sobre as peripécias, surpreendentes peripécias que a vida engendra às margens do leito cotidiano. Imprevistos não lhe fazem cochichos, melindres de dúvidas não lhe cegam a razão. Segue, busca a exata visão do que a muitos não se mostra possível. Faz contar o modo e a prática da verdade simples: outra forma de dizer da humana certeza que define as grandes almas. No palco da história, a designação da Delegada Dra. Mariza Andrade para ocupar a Chefia Regional de Polícia Civil em Sete Lagoas é o aceno comprovado do mérito. Ela sabe o que faz! E faz o melhor para aqueles que lhe conferem a confiança e o desvelo. Para quem conhece a força blindada em doçura e beleza, a Delegada Dra. Mariza não antecipa louvores. Antes, absorve-os no silêncio da sábia ponderação. Para ela, cabe o que deixou escrito o político inglês, George Halifax: "O verdadeiro mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz." Com o sorriso tranquilo, a Delegada Chefe da Regional de Polícia Civil de Sete Lagoas não busca aplausos: ela trabalha em equipe e reverencia a comunidade que lhe devota apreço e grata admiração.
À Delegada Dra. Mariza Andrade, o reconhecimento pela caminhada entre muros de paciência e pontes de grande alcance.
" Há muros que só a paciência derruba...há pontes que só o caminho constrói." (Cora Coralina)
Ivane Laurete Perotti