domingo, 29 de junho de 2014

UM JOGO PELA SORTE

  A MASSA QUE NOS RECOBRE
                 - Brasil e Chile: um jogo redondo na Copa das Revelações-
   
                                                                  "Eu sou feita de tão pouca coisa e meu
                                                                  equilíbrio é tão frágil, que eu preciso de um
                                                                  excesso de segurança para me sentir mais
                                                                  ou menos segura."
                                                                                Clarice Lispector

                           
                         Quando o calo aperta, o calçado perde a função. Difícil é decidir  mancar, mantendo a elegância e a necessidade da proteção, ou descalçar o pé afetado. Uma vez que, o que nos protege também esfola,  as escolhas acerca de um e de outro não são tão simples quanto parecem ao primeiro "ai!". Grossas camadas de comportamentos adquiridos, técnicas de sobrevivência, etiquetas sociais nos cobrem, recobrem, mascaram, disseminando uma ilusão - talvez necessária - de quem somos e do que se espera que sejamos.
                        No cadinho dos espelhos quebrados, qualquer lâmina reflete a imagem de nossa identidade - fragmentada, claro! -, mas no samba dos sentidos e das imposições, o reflexo é crível o suficiente para envolver-nos em uma única crença: EIS-NOS!  E do alto de saltos agulha ou do conforto  colorido de chuteiras lustrosas, retumba o jogo da vida para colocar no devido lugar a fragilidade de nossos complexos calos humanos. Todos os temos: os calos e os jogos. Fazem parte do circo contínuo que armamos com ou sem picadeiro, em terrenos nem sempre sólidos, ou por estações na maior parte das vezes, altamente ingratas e inférteis. Depende da sorte.
                         Sorte! Sorte? O místico e o técnico andam juntos nas goleadas de maior ou menor competência e, infelizmente, dizer que apenas um deles dita a mão do destino seria demais até mesmo para um texto despretensioso como este. E deixar de admitir que o subjetivo nos ampara ou derruba ( exagero, óbvio exagero!), seria o mesmo que valorizar apenas um ou outro. Somos o resultado de uma grande soma de camadas sobre base com maior ou menor tutano, estofo, cacife, alma, espírito, energia... sentidos! Não faz muito sentido, mas o que está dentro também está fora e por aí vai o processo de construção do SER  neste mundo coroado por apitos e julgamentos: as regras nos salvam quando não sucumbimos a elas. Digam-no em alto som os nossos jogadores em campo nesta competição de suculentas mordidas, cédulas cheirosas, patrocinadores tiranos, treinadores ansiosos, atacantes paralisados, goleiros emocionados, cartadas não reveladas: todos, todos, todos marcados pelo trauma de VIVER EM SOCIEDADE!
                         Viver é sempre traumático: por menor que seja a demanda de ações exigidas na luta pela manutenção da própria vida, ou do próprio poder.
                         Sob pressão, as massas que nos recobrem sofrem o efeito da realidade e tanto podem servir de armadura quanto de armadilha: ambas permanecem a serviço da identidade cultivada, exigida, necessária, esperada, imposta, criada. E tudo isso para assumir uma discussão sem fim: não estamos prontos! Vivemos um eterno devir. Grande jogada para os que cultivam a humildade, pegadinha incontestável para os que alicerçam o ego em reflexos remendados pelas linhas do sistema, seja ele qual for: social, político, desportivo, econômico, cultural...  É ingenuidade barata apostar na identidade sem emaranhados, sem INteração, sem espírito de conjunto, de soma, de perdas, de complexidade inacabada.
                       Talvez, seja igualmente ingênua a temática deste espaço, mas, sem chuteiras, posso tentar a rede e , quem sabe, acertar na trave. Afinal, sorte é um privilégio? É uma crença? É um dote? Quem merece o quê? Quanto de sorte para mim e quanto de sorte para você?
                         A imprevisibilidade inquestionável da vida deveria nos servir para maior estofo. Se existe um eu existe um tu, já o discutiu deveras BEM, Bakhtin em Marxismo e Filosofia da Linguagem. E o quanto um jogo de futebol nos reserva, poderia ser assunto para várias escolas de pensamento, certamente! Ainda mais, pensando que a identidade nacional também mergulha em campo aberto e dele sai, mais verde, ou mais amarela. Quem sabe? A segurança é um lastro que levanta muitas bandeiras!
                        

                       

terça-feira, 24 de junho de 2014

SÓLIDA ESCURIDÃO

EM MEIO AOS ASSUNTOS QUE SE REPETEM
   - repetem-se os assuntos entortando a coluna com um pouco de poesia livre -

SÓLIDA ESCURIDÃO

Velhas vozes cantam baixo
A dor e o medo da solidão
Lépidas garras afinam elos
Entre o amor e a provação.
Falham lágrimas no viés da manta
erguida sobre o sisudo mar
Seco e frio vaga o passante
tangido,
solitário,
instado,
ambíguo
curto vaguear.
Beiram lides a todos os gostos
no limite do balcão
genuíno e filantropo golpe
fere o cenho,
cria ilusão. 
É grossa a luva da vida
calçada para saldar
as barreiras de cruz e credos
entre almas no altar.
Dos sacrifícios conscientes
Outros devem voltar
Tão mais puros ou cansados
Do tempo, do lugar,
Das chancelas construídas

Pedras de iluminar.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

MUDANÇA DE TÁTICA

UMA VERGONHA QUE EXPÕE VERGONHA MAIOR
         - o Brasil administra com eficiência o esquecimento dos esquecidos –


                             Não me falem dos gastos para com a Copa e seu grande objetivo de integração entre as raças. Empanturrei-me com os discursos servidos ao gosto de cada interesse. Além disso, minha estultice é limitada pela vontade e sede de justiça: uma carência até perigosa, a depender de por onde se pensa que ela começa. Mas sou de paz, da paz e pela paz, então, basta-me dizer: posso imaginar que a péssima maquiagem desta... desta... mundial custa bem mais do que a máscara apresentada.  E igualmente nego-me à epifania dantesca dos egos alvoroçados pelo patriotismo circular, bilionário e de fervor tacanho. Perdoem-me os que gostam dos jogos em foco. Eu, particularmente e com muita ênfase, sou devota do desportismo. Sim, devota: ponho fé nas bolas que rolam diante dos pés descalços, nas corridas de saco e barriga vazios, nos saltos sem vara, nos saltos à distância, nos jogos quase esquecidos pela disciplina da Educação Física, ou reinventados pela própria, no intento de fazer a escola mover-se sem o sonho único de competir, competir, competir.  Amo o desporto sem a maquiagem de grande acontecimento.  Não me engano: as mudanças foram enterradas junto com os objetivos de dar muito aos que já muito têm e ponto final e desse túmulo, os ectoplasmas fecundos continuam a alimentar apenas aos confrades de legião. Razão contrária a qualquer conceito de NAÇÃO e POVO. Povo? Que povo?
                            Visito muitas escolas. Esses sagrados lugares nos quais ainda sobrevive o espírito de vontade e de perseverança, não sem as lutas diárias contra os predadores de ocasião, os predadores infiltrados e aqueles outros, naturalmente mantidos pelo sistema de “faz-de-conta”.  E valha-me o direito de dizer que este discurso é enfadonho, mas a raiva atingiu-me a bílis e eis que se derrama o cálice da repetição. Veneno por veneno, o meu destila-se em poças de espuma: espuma de impotência manca! A pior delas: espoca, espoca e chega o momento em que preciso recolher-me diante do inevitável: estou atrás do texto, lugar confortável para derramar a bílis.  Mas não sem tempo, a política do esquecimento toma-me a boca aberta e sopra-me o hálito da podridão consciente.  Todos estão cansados de saber que é assim e assim é! Pois, ainda que seja, conseguirei deixar sair pelo canto da boca apertada que, enquanto nossos jogadores comem o QUE DEVEM e PRECISAM COMER, as crianças mantidas pelas escolas em regime integral do estado... também comem! Ah! E como comem! É o milagre da multiplicação dos centavos: 0,70 centavos por cabeça para manter um aluno de tempo integral na escola e seu almoço principal. Quero ser contestada. Preciso que mais alguém tenha cólicas biliares, intestinais e intelectuais e procure os registros REAIS nas escolas públicas e façam o cálculo deste valor AO ANO! É isso mesmo! AO A-N-O!
                       E pasmemo-nos todos em bom tom: as crianças estão almoçando na escola. Como? De que forma? Ora... ora...ora... esquecemos que os professores deste país são todos grandes prestidigitadores? Fazem mágicas? Fazem vaquinhas? Dividem o que têm, tiram dos bolsos furados a cornucópia da esperança e juntam tudo na mesma caçarola? Caçarola de escola pública tem a mão do amor e da fraternidade, essas coisitas esquecidas pela maioria de nós, diante do cansaço que diário que nos leva o pelego, ou que nos mobiliza a correr atrás do que já não nos pertence ou gostaríamos de adquirir. Coisas da vida normal.
                          Não tem graça falar sobre este assunto. É velho, batido, não tem glamour, não gera votos.... ops! Gera intenção e administração de votos sim, e sim mesmo! Tudo dentro de uma inteligente, planejada e bem equilibrada plataforma de mão dupla (uma externa, a que aparece nas bocas cheias de dentes, sorrisos promessas e a outra, aquela que cabe não dizer para continuar a manter os desdentados no lugar que lhes pertence: o do esquecimento); para que esses meninos não comam demais e passem a pensar mais e a querer mais (não que a gula ou a gordura excessiva sejam pró-estudo, mas até nossos alunos alcançarem esta fase de excesso... ai!!!! Vai longe a vontade e o medo de que aconteçam!). Ainda, gula por gula, aos glutões que se faça a oferta de trocar de campo. Eis a proposta para a FIFA: investir no campo adequado. Vamos jogar a copa mundial nas escolas da vida. Imagino o placar. Você não?

                      



segunda-feira, 9 de junho de 2014

CIRANDA


MORTE


BEIJO NU


UMA TRISTE FOTOGRAFIA

UMA FOTOGRAFIA DO BRASIL: O VALOR DA VIDA HUMANA


“Quando, sorrateiramente, sigo quase sem poder respirar, os macacos, os tucanos ou as pequenas aves nas matas, naquele momento entro em contato com o essencial significado da vida. Isso realimenta o meu espírito e dá sentido à minha existência.”
Luiz Cláudio Marigo

                                           Um homem sensível tomba.
                                           Verga o peito carregado de emoção e sabedoria no assoalho de um ônibus urbano. Urbana cena, não fosse a insensatez que se deflagra no transcorrer do quadro urgente. Gestos desesperados buscam socorro: “O papel dos fotógrafos é despertar a consciência do homem para a incrível riqueza da vida na Terra, sua beleza e valor espiritual.” No corredor do ônibus, os olhos que viram o mundo pelas lentes do amor e do respeito, procuram pelos olhos que lhe poderão acudir na hora em que a vida depende do conhecimento e da boa vontade.
                                        Se a solidariedade voluntária bastasse para manter-lhe a vida, o coração de Marigo estaria vibrando com o carinho angustiado de tantas mãos desconhecidas. Socorristas do acaso bateram às portas do lugar onde a medicina tem o privilégio de processar a cura, ou pelo menos, tentar alcançá-la. Desconheciam eles, cidadãos em trânsito que, além das palavras, as instituições brasileiras perdem o poder de referendar o que significam. Instituto Nacional de Cardiologia: desmotivados e inertes, não traduzem o pedido de socorro por uma simples questão retórica: quanto mal está aquele que está mal? Quem deveria dar a resposta usa-a como aríete de defesa indefensável. “Passar mal” é jargão popular e não mobiliza a consciência, os braços e outras partes inertes daqueles únicos capazes de fazer a leitura correta. Quanto mal? Muito mal? Pouco mal? Mais ou menos mal? O sensível coração do fotógrafo da natureza bombeia a gentileza genuína dos que lhe confortam na espera vã. Descaso. Desrespeito. Vergonha inominável vem do único lugar que legitimamente poderia atendê-lo. Lugar errado? Hora errada?  “Minhas fotos são dádivas que a natureza me oferece. Por sua vontade, o animal me espera, a luz brilha na hora certa, as flores abrem-se para a fotografia. Preciso apenas reconhecer sua beleza e estar no lugar e no momento certos para registrá-la...
                                      Lágrimas cobrem o corredor do ônibus. Pudessem antes ser coloridas pela bondade consciente de um homem que decidiu ver o mundo e mostrar o melhor do que via. Pudessem ser mornas e aconchegantes como os seus movimentos no meio da natureza selvagem. Pudessem ser lágrimas de aplauso por uma vida inteira dedicada a salvar e construir uma consciência em absoluta degradação: quanto vale um gesto em favor da vida?  
                                  “Espero que o meu trabalho transmita a mesma alegria e emoção que sinto nos ambientes selvagens e que as minhas fotografias não se transformem apenas em mais um documento do passado.”
                                           Ah! Grande e doce fotógrafo, vale pedir-lhe perdão pela selvageria humana que lhe negou um lenitivo? Sim, talvez fosse o seu momento e a sua hora, mas se diante deles você nos deixasse uma fotografia colorida, as lágrimas de dor não cavariam tão fundo, tão fundo o poço que nos registra ignóbeis e insensíveis na cátedra da negação instituída, fundada e instalada. Mais médicos? Não! Mais consciência! Mais dedicação, mais valor à vida.
                               Em plena luz do dia, a escuridão fétida de um sistema de saúde caótico expõe uma vez mais as fotografias do Brasil: verde e amarelo? Ora! ...Uma casa para o coração doente deste país que não bate no peito, mas fica na saudade fértil de que, um dia, talvez um dia voltemos à nossa origem mais humana, menos profissional.

                               Ao fotógrafo da vida, a VIDA ETERNA!

domingo, 8 de junho de 2014

FAVOS DE FEL


FOGO


HASTES


MITO


ABAS


MANTA...


OLHAR


IR...


GOTAS


VENTO


BEIJO