domingo, 25 de setembro de 2016

TIRANIA


REALIDADE DO EMPOBRECIMENTO



IMBONDOS A CARGO DA INÓSPITA REALIDADE

- o improviso que confere outras significações à sustentabilidade –

“(...) Liberta o homem, e ele criará.”
                                         Antoine de Saint-Exupéry
                                                                                         

                                         Hipácia de Alexandria, nascida no Egito, por volta do Anno Domini 370, pode parecer, aos incautos, não ter qualquer relação com a capacidade mineira de significar-se linguisticamente e de improvisar diante dos necessários ajustes que a realidade obriga. Só parece! A primeira mulher de que a história tem notícia a galgar fama internacional no universo da matemática, da botânica e da astrologia teve a sua pele violentamente arrancada por enfurecidas mãos masculinas, esquartejada e queimada em uma pira de ignorância e medo. Por séculos e séculos a leitura foi proibida às mulheres e aquelas que burlavam os costumes eram classificadas como histéricas, neuróticas, desequilibradas.  Fortes como o vislumbre da liberdade, mulheres sedentas de conhecimento tomaram consciência do mundo unindo-se na leitura proibida: aprenderam muito cedo a improvisar, a imbondar diante dos riscos de ler e ler demais.
                                       O maior inimigo da criatividade é o bom senso.” (Pablo Picasso). Se o bom senso estreitado pela sobrevivência das mulheres em uma sociedade absolutamente masculina não ceifasse o medo em sua raiz mais profunda, não teríamos hoje outro significado para a palavra mineira, conhecida à boca pequena como gambiarra. Prefiro lançar o viés pejorativo aos túmulos das impraticabilidades insustentáveis e alçar a palavra imbondo ao campo da criatividade ecológica: “O segredo da criatividade está em dormir bem e abrir a mente para as possibilidades infinitas. O que é um homem sem sonhos.” (Albert Einstein). Assim fazem-no os valorosos mineiros no interior produtivo de Minas Gerais. Livres, dormem o sono das possibilidades valendo-se de seu entorno; o que parece certa bagunça, nada mais é do que o esforço digno de burlar as precariedades da vida e recriar oportunidades para o plantio de novos sonhos. Eu imbondo, tu imbondas e nós aprendemos a refazer o caminho do que é ditado por falsidades filosóficas a favor de comportamentos que direcionam o lugar dos sujeitos na sociedade eivada por maquinações valorativas.  
                                        Se, a partir do século XIX, entre as mulheres e os livros criou-se uma relação de poder contra o ostracismo, o desterro social e o aprisionamento intelectual, há de se inferir que o conhecimento pode imbondar o vazio da existência com sentidos ressignificados: libertar pela imaginação, pela criatividade, pelo pensamento crítico é tarefa política antropologicamente provada.  E nos laços do retrocesso educacional que impacta este país de desassistidos intelectuais - e não se pode pedir desculpas pela generalização diante do empobrecimento educacional dos brasileiros -, o pensamento crítico será enterrado por camadas de maquiavélicas propostas institucionais.  As vozes imberbes que aprendiam a passos lentos despregar-se das cordas da aniquilação social parecem morrer mais a cada dia. Morrer mais equivale à triste metáfora do silêncio consentido.
                             Que Brasil é este?
                             Talvez devêssemos aprender com os mineiros do interior do estado a prática da imbondação e garantir a esta nação alternativas plurais de ação participativa. Parece desejar demais, mas diante do triste cenário, voltar atrás é perder a única ponte semântica entre a esperança e a realidade: liberdade consciente.
                               À Hipácia de Alexandria e aos meus alunos de Fonética e Fonologia por ensinarem a arte de renovação. Que sejamos mais, mesmo que em vultosas minorias.

Ivane Laurete Perotti
                            

domingo, 18 de setembro de 2016

RASTILHOS



BEIJOS DE PASSAGEM
- metáforas de uma saudade -

“No mistério do sem-fim/Equilibra-se um planeta/E, no jardim, um canteiro/No canteiro, uma violeta/E, sobre ela, o dia inteiro/A asa de uma borboleta.” Cecília Meireles

                                     Na virada de uma página alojou-se o desejo, mais do que um ensejo, antevista comoção; ao nascido fora posto, diante do desgosto, intangível compulsão: desvelar o manto tênue, berço solene, sono de ilusão.
                                    Em nascida trajetória, roteiro de amor e glória, vazam léguas, outras réguas, desdita alusão; que segredos se afastam, enganam e desbastam, obscura fascinação: por onde cavalga a vida, estrada desvalida , falsetes de orientação.
                                    À beira da noite cega, o céu ergue a fronte, rosto do horizonte, um beijo de adormecer; nos vincos do tempo ido, a voz do escolhido, murmura em despedida, sopro que vai embora, insustentável hora, medida do anoitecer.
                                   A morte carrega nomes, veste e desveste a fome, serve à saudade, múltipla verdade, ignoto alvorecer.  
                                Antes do último beijo, aceno do novo ensejo, talvez mais um desejo: a seu talante retroceder.
                                   Diante da noite triste, cai o véu do horizonte: rendado, esvoaçante, véu equidistante, fronteira de separação; memórias sustentam a linha, divisória ladainha, partida de alguém: a vida não rompe o cerco, refaz-se em duro terço, partes de único bem.
                                   Memórias de saudade choram órfãs...

Ivane Laurete Perotti
                                 

domingo, 11 de setembro de 2016

LENÇOS


LINHA


LASCAS


IMITAÇÃO


MOLUSCOS



O FLAGELO DAS MINORIAS

- a desigualdade social é uma estratégia para a manutenção do despotismo velado -

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” Albert Camus

                                    Durante os invernos da alma, o homem constituído pela e na consciência tenta justificar o caos no qual se dá a própria imersão. Procura pelo invólucro social e encontra a concha da prisão individual; descobre-se caracol em isolamento. Olha o todo pelas frestas da casca calcária incrustada em zonas de segurança; não olha: bisbilhota o mundo com as mãos às costas da indiferença. Torna-se molusco, gastrópode terrestre: lesma! Não que as lesmas sejam indiferentes ao seu ambiente, pois proliferam com amplitude territorial e geográfica, mas mantêm preferência pelos jardins. Não por acaso, claro!  E quando povoam as terras livres, tornam-se produtos de consumo em requintados pratos à portuguesa, à alentejana, à moda do barreiro: outra obra que não advém do acaso. Estratégias gastronômicas de controle e consumo apurado. Estratégias do poder concentrado em habilidosas mãos.
                                 Entre os jardins obscuros de nossa sociedade, às lesmas cabem as panelas temperadas em banho-maria: água e óleo marinam moluscos atabalhoados. A pressão do fogo mantido à lenha de corte ceifa o direito às escolhas de viver, morrer ou suportar: Julgavam-se livres (...) nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.” Abert Camus.
                                  Na ordem da justiça, Não há ordem sem justiça” (Albert Camus), as lesmas são minoria. A sopa social é antepasto no banquete do despotismo: os comensais identificam-se por jargões alinhados à mesa das decisões. Para poucos, muito; para muitos, quase nada. Nada além de discursos emocionalizados de convencimento e persuasão: modus operandi de governos arbitrários, coercitivos, centralizadores. E o habitat dos moluscos? Desviada a atenção sobre a fragmentação dos jardins, as lesmas perecem em colônias destituídas de poder de escolha, de educação para a cidadania consciente, de saúde para manter a casca calcária, sem prazo e fundos para o seguro social, desvalidos e desautorizados de seus direitos à sobrevivência digna.
                            O discurso da multiculturalidade esconde a exclusão devastadora; nos jardins obsoletos, os gastrópodes fenecem em panelas de desigualdade: nem todos nascem na cor das preferências, nem todos possuem o credo de preponderância, nem todos negam a origem quilombola, nem todos branquearam a herança indígena, nem todos... nem todos... nem todos... vivem a dignidade em parelha cidadania.
                            As lesmas e os homens perderam a liberdade, Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.” (Albert Camus) e mantêm curta memória: “Todas as revoluções modernas contribuíram para o fortalecimento do Estado.” Albert Camus.
                           
Ivane Laurete Perotti