domingo, 24 de abril de 2016

IRONIA


BEIJA.....


NO BANCO DE RESERVAS...

AFINAL, QUAL É A PROSA?
- no rodar da carruagem,  discursos conduzem parelhas -

              Em um tamborete de instantes passados, algumas vozes trocam  vicissitudes. A continuidade das falas inaudíveis repetem-se ainda agora, sob camadas de atravessamentos e vieses que as estatísticas não cobrem. Um pouco da conversa:
             Glória Steinem:     
               _ A verdade te libertará. Mas primeiro, ela vai te enfurecer.
              O tamborete estremece com o movimento da  jornalista estaduniense e William Shakespeare interpela-a sem exatamente fazê-lo:
              _ O mundo inteiro é um palco.  E todos os homens e mulheres não passam de meros atores. Eles entram e saem de cena e cada um, no seu tempo, representa diversos papéis.
              Aforista, Martha Medeiros, também jornalista, acorre:
              _ Há homens que têm patroa. Há homens que têm mulher. E há mulheres que escolhem o que querem ser.
              Cervantes, o Miguel de 400 anos interrompe:
              _ Os homens honrados casam-se rapidamente, os inteligentes nunca!
              Inquieta pelo rumo do  quiproquó, Steinem argui:
              _ Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta.
              Cervantes deixa no tamborete a dedução dos séculos pesados:
              _ A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas.
              Rousseau contemporiza:
              _ Há um pequeno número de homens e mulheres que pensam por todos os outros, e para o qual todos os outros falam e agem.
              Jean-Jacques sente na pele o sopro de Estagira. Aristóteles destila-se na presente ausência. Mas é Drumond de Andrade quem toma o turno da fala:
              _ Os homens distinguem-se pelo que fazem e as mulheres, pelo que os levam a fazer.
             Contrita, Frida Khalo interfere rapidamente:
             _  A mim já não me resta a menor esperança... tudo se move ao compasso do que encerra a pança...
             Sussurra a primogênita francesa, Simone de Beauvoir:
             _ É horrível assistir à agonia de uma esperança.
             O autor de Les Misérables procura por entre os brancos fios de sua barba a frase dedilhada:
              _ Vós que sofreis de amor, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele.
              A advertência sublinhada vem de Sartre, com As Palavras embaixo do braço:
              _Cada homem deve inventar o seu caminho.
              _Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas, reflete Nietzsche , o prussiano entusiasmado pela composição e pela crítica.
              Gaston Bachelard filosofa com um pé na ciência:
             _ Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios.
             E Platão parece concordar. Parece...
              _ Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o Amor toma conta dele.
             Interfere Freud, o Sigmund da psicanálise:
              _ A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.
             Carl Junga, diante da figura de pai e mentor emenda:
              _ O sapato que se ajusta a um homem aperta o outro; não há nada para a vida que funcione em todos os casos.
             Mandela retoca a fala:
             _ Você não é amado porque você é bom, você é bom porque é amado.
             O tamborete, até então silencioso, desbanca os intocáveis:
              _  Afinal, qual é o assunto?  Nem todas as verdades são para todos os ouvidos!
             _ Ei! Essa frase é minha! Grita Umberto Eco, no vão de meio silêncio.
             _ E quem disse que eu a quero? responde o banco, soltando lascas da velha madeira.
             _ Precisamos resolver (...) nossa insanidade oculta! arremata Foucault
             O tamborete retira-se da cena enviesando as pernas de pau:
             _ Não retorno até vocês decidirem qual é o tema.
             Bakthin concilia:
             _ Na verdade, não são palavras que pronunciamos ou escutamos...
             Mas o tamborete segue surdo na recuada sem parelhas.
                            
Ivane Laurete Perotti




domingo, 17 de abril de 2016

TARAMELAS DA IMPROBIDADE

PORTAS ABERTAS À INTELIGÊNCIA

-  qualquer duto de repressão tem entradas e outras saídas -

“A dor, o prazer e a morte não são mais do que o processo da existência. A luta revolucionária neste processo é uma porta aberta à inteligência”
Frida Khalo

                                          Negar o direito ao próprio grito é tão grave quanto afogar um sorriso: natimortos na cordilheira das negações. Gritar sorrindo é uma heresia musical, mas possível aos habilitados. Sorrir gritando é uma nota licenciada pela estética das convenções: hipocrisia no cardápio dos temperos amargos. Temperos e sensações trespassam verbos na esgrima dos discursos vulcânicos e as portas  políticas têm dobradiças de língua dupla: eu e tu dialogam em grito catatônico, saudável aos interesses massificados, ou comportam os dizeres sociais, imprescindíveis à inteligência dos recursos equitativos. Em que trilhas ágrafas perderam-se os últimos?
                                         Um muro de vergonhas separa as mobilizações  no útero das diferenças que fatiam o Brasil sobre a tábua do pão ázimo: não conversam entre si os eflúvios de empoderamento das minorias. O manto da democracia brilha só, isolado nos trópicos desencarnados: Yo nunca estuve tan seguro! Ironia dos fidalgos, filhos de algo, por detrás dos dispositivos de segurança - teúdo e manteúdo contingente das sobra/s/de guerra, interna guerra que José Onofre, em 1982, reviveu nas páginas de sua obra-prima. O "país do eu não sabia", " naqueles anos estúpidos (...)" ainda é o país dos silêncios entalhados em anos e anos de repetidos erros e dilatadas corrupções.
                                          1964, 2016... um hiato na memória condiciona versos de eloquente verborragia: fecham-se as portas escancaradas no caos da improcedência. A pressão nas ruas está oca de saberes e direcionamentos. Os dutos do encurralamento estrangulam os brasileiros marinados em fogo baixo: acostuma-se mais facilmente às mazelas cotidianas do  que às dádivas do viver qualificado. O suor marcado lava as faces dessa terra eivada pelas histórias mal contadas: ganha um conto quem volta ao princípio dos fatos. Atos? Injunção de prerrogativas, barbas de molho não se apuram: ulceram-se. Barbas e orelhas não levam pontos, mas padecem do mesmo mal: o esquecimento de seus portadores ...“Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece." (Frida Khalo)
                                            Nas dobras do manto seboso, um cadete esbarra a antiga baioneta: os nós do tecido político abrem-se em rotundos rombos - Cyperus rotundus . Decocção! As costuras de linha podre não resistem à primeira cutucada. Em formação, o soldado assusta-se e deixa o posto. Deserção?  Abandonos  não são prerrogativas das forças instituídas por um Estado de fato. Mas, de fato, a um Estado cabe jamais abandonar a legítima constituição de sua natureza política.
                         Estado Novo? Novo Estado? Quem dera a situação brasileira independesse da colocação de um adjetivo e nem fosse Getúlio Vargas lembrado como a única porta às memórias desmemoriadas de nosso povo: ad eternum banho-maria.
                         Vai outro grito aí?


Ivane Laurete Perotti

domingo, 10 de abril de 2016

TIJOLOS DE VÁRIAS MÃOS

CIRANDA DE PEDRA-POMES

- os cavos tijolos da democracia -

“A única arma para melhorar o planeta é a Educação com ética. Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” Nelson Mandela

                                       Iniciava o dia antes do sol beijar as orelhas do horizonte. Lava-se para deixar os sonhos por debaixo do travesseiro desgastado. Tantos depósitos ali jaziam que, em sua enxerga, conjuravam-se  antigas mortalhas: catre das vontades. Fazia sem ver o caminho para a rua e na rua, não via o caminho que avançava: chegar ao destino era ordem ditada  do estômago para os comandos motores e deles para o ir e o voltar sobre os passos de sempre e sempre, amém! Bocas de barrigas vazias  aguardavam a farinha de tantas lombrigas e, sem as letras da escola, cabia-lhe dar à sebosa carta a leitura da não alforria. À mão, um pedaço de púmice tão esponjosamente gasto quanto os gases de seu intestino. O naco da pedra vulcânica comia-lhe os calos das mãos, da alma, da identidade, enquanto roía pelas beiradas a ansiedade de mais um trabalho /des/garantido: cidadão livre, concorria com a ciranda de outras pedras.
                                         Seu nome: Alfabeto. Ingênua ironia da mãe que conhecera Adalbertos, Fabricianos, Beneditos e Tibúrcios ,  amigos da vida acantoada, uma vez que a solidão não se dá a conhecer de cara lavada e as faces das fomes escondem o gosto pela destruição da alma. Ia. Feito o dia que traçava o destino de algumas horas. E no ponto das quatro esquinas, armou-se diante do farol: um sinal e chegava-lhe a vez de, por variações de segundos, oferecer as mercadorias de viagem urbana. Verde: hora de saltar para o meio-fio e sustentar às costas o sol de abril enquanto protegia com a sombra do corpo, as balas de papel duvidoso. Vermelho: tempo de bater nos vidros escuros dos veículos obrigados à parada crucial. Fechados! Fechados! Fechados! Verde para o suor que escorria da testa, dos braços e lhe grudava a velha camisa ao corpo .
                                          Seu apelido: Beto. Resultado variável da lei de menor esforço  e das brincadeiras soltas entre as crianças dos primeiros anos. Poucos anos até entender que ser criança  era estar na infância mal nutrida do outro lado de um muro intransponível. Nasceu com a cor do ébano e dele herdou a resistência por tempo menor. A nobreza não lhe dera o lugar da graça, e como tantos outros, resignou-se à cadência das pedras que rolam morro abaixo. Não queria ser pedra, queria ser gente. Mas não entendia da alquimia social que provoca borbulhas no caldeirão das diferenças. Nem dos tijolos ocos que lhe sustentavam o espaço da cidadania inexistente. Ainda assim, rolava. Rolava os dedos contra a pedra-pomes como se lhe então clareasse a pele e as ideias. Trabalhado por outros momentos, quando tivera um emprego de carregador, servente de obras, jardineiro, limpador de qualquer coisa, agora não sonhava. Ia e voltava das quatro esquinas disputadas no adiantado das madrugadas escuras. Voltava. A farinha esperaria por mais um dia. As mercadorias também retornavam e não se serviriam à mesa das fomes acumuladas, pois as madrugadas colavam-se umas às outras: a necessidade encurtava o espaço das vendas. Vendas? Não vendera. Os vidros escuros guardavam o medo das pessoas e a indiferença do muro levantado.
                        No caminho de volta, um tijolo cavo encurtou-lhe a vida. Um tijolo em muitas mãos. Mãos forjadas no preconceito, na vilania dos julgamentos desordenados: precipício de uma sociedade incivilizada.
                          Alfabeto morreu como veio ao mundo: sem a leitura em voz alta de sua carta de cidadania.
* Texto baseado em fatos reais; nome extraído do obituário: CNF/Brasil.


Ivane Laurete Perotti

LINHAS


TELAS


domingo, 3 de abril de 2016

TONTURAS NARRATIVAS

UM CONTO, PARA AMANSAR UM TONTO

                               O CARVOEIRO FANTASMA

                                   O suor escorria pelo rosto.  Sobre os ombros, uma leva de madeira. Pulsavam suspiros na  cacunda carregada. Anos e anos derrubando árvores conferiram-lhe um privilégio nefasto: ouvia o choro daqueles corpos. Os restos de seiva queimavam a pele. A floresta rugia lamentos diante do fogo das necessidades.Algumas árvores  dobravam em idade a sua própria. Não aprendera as letras. Não tinha leitura. Se a vida lhe dera oportunidades não as tomara para si. Trabalhava para a morte da floresta.Troncos e galhos alimentavam o forno de barro. Quando cheio de madeira viva e chorosa, barreava-se a boca com  terra molhada. Um respiradouro marcava o lugar por onde o fogo alimentaria sua vontade e cuspiria a fumaça pesada. Fogo brabo.Culpado, o corpo dobrava-se no esforço para não vergar sob o peso que vinha de dentro. Os fantasmas das árvores rodeavam-no sem tréguas. Via e ouvia. Um dia depois do outro. Dias sem começo nem fim. As marcas de sua vida estavam todas ali, agarradas aos troncos que se queimavam e aos copos da branquinha. Bebia sim. Como todos os outros. Bebia ao cair da noite esperando não amanhecer o dia. Mas a vida era teimosa. Acordava ainda mais iracundo a repetir-se quase vivo. Doía a alma de dentro para fora.
                                   Em dias de muito vento, sabia que um jeito ou de outro alguém tentaria segurar a farinha no bojo das mãos. Era aviso de rezinga, de briga certa. Tal como acontecera naquela noite de calor dobrado.Reunira-se com os demais carvoeiros para beber da pinga forte. Começo de uma despedida sem volta. A cachaça pesada descera rápido para o estômago e abrira buracos escuros na cabeça dos homens cansados. A desavença iniciou do jeito que sempre inicia: por qualquer motivo sem razão. Os facões saltaram em meio a conversa desconexa: carvoeiros tombaram sobre o chão imundo. O sangue voltou para o ventre da terra levando a alma de dois homens. Esgotava-se ali a caminhada de cada um deles. Tempo perdido na floresta, tempo perdido na vida encruada no barreado que consumia os que ainda estavam em pé. Quem estava em pé naquele acampamento dos infernos?
                                  O dia não amanheceu diferente, mas engoliu a noite em tragos ardidos que agora queimavam a boca do estômago. Não se faz velório em terra de homens perdidos.Embaixo de muitos palmos de terra, devolve-se o corpo para o lugar de origem. Lá estavam agora aqueles que um dia tinham sido companheiros de queimada. O fogo pedia alimento. Outras árvores arregaçavam suas raízes enquanto ele escutava os pedindo por um socorro que jamais chegaria. Ninguém  poderia ser salvo. A floresta agonizava deixando as feridas abertas para qualquer um ver. Ele via. Via e ouvia. Sua cabeça latejava desde a noite anterior. A cachaça, mais o cheiro do sangue derramado, afetavam os pensamentos.Variava das ideias. Não queria barrear o forno recém-construído. Desejava deitar o corpo para não mais levantar.
                                  No tosco acampamento, carvoeiros prestavam silêncio aos homens mortos. Ainda beberiam os defuntos, mas só depois de alimentar as bocas fumegantes dos fornos abobadados.  Foi um dia mais escuro do que costumavam ser escuros todos os dias. À hora da beberagem,  os nomes dos carvoeiros saltavam de boca em boca junto com mais um trago para a despedida derradeira. A escuridão do dia abria-se para aumentar a escuridão da noite. Bebiam os companheiros. Era pau e pedra. A caninha descia feito veneno e subia comendo a razão. Anuviava os olhos que se perdiam por outros lugares, outras florestas, ou sabe-se lá por onde o sujeito andara. A cachaça não era amiga dos segredos, mas facilitava a desconfiança sobre o lugar onde eram escondidos. Conhecia o sentimento de pisar nas nuvens e deixar a cabeça pender sobre o peito. Era assim que a vida o levava. Era assim que levava a vida!


Ivane Laurete Perotti