domingo, 17 de fevereiro de 2013

Valores são valores...


VALORES SÃO VALORES, 
AQUI OU EM QUALQUER OUTRO LUGAR

                                                                         "Não seja inóspito a estranhos,
                                                                          pois eles podem ser anjos 
                                                                          disfarçados."
                                                                           (George Whitman)
                Em tempos de valores que se perdem na cauda das maquinações inexplicáveis, dos medos vivenciados ao pé da violência gratuita, os exemplos de honradez e solidariedade sinalizam a fé e a esperança que precisam, sob qualquer circunstância, ser mantidas no cadinho de nossa alma.
             É fácil perdermos a motivação diante de agruras e imprevistos. Dizem os sábios que por testes de resistência todos passamos, ou não. Podemos ficar a remoer dificuldades e a chorar perdas sem levantar os olhos para além do próprio umbigo: é uma escolha!
            A insensatez, a dureza de alma, o caráter difuso, os hábitos cristalizados entre outros elementos DESUMANIZADORES, facilitam a descrença leviana no ser humano. Generalizar não é inteligente, é uma forma de justificar sem razão, a exemplo: "é o fim dos tempos", "o ser humano está perdido", "todos os homens são iguais", "mulheres falam demais". Não é inteligente, mas nós o fazemos, sem dó nem piedade. Talvez, talvez, estejamos a esconder pedidos de socorro atrás de tantas falas sem sentido. Talvez!
            Ainda assim, existem aqueles que conseguem romper a barreira do comum e serem inteiros, honestos, solidários, prontos, sensíveis, amorosos, verdadeiros. E diante de um ser humano assim, há de se aprender a manter a fé e a esperança, há de se aprender a ser melhor. Há se se aprender a louvar atitudes que salvam, que constroem, que comungam, que partilham o que levam nos braços, na mente, no coração.
            Deve-se reconhecer e demonstrar gratidão por aqueles que são a própria essência da bondade.  Urge aprendermos com eles a respirar mais fundo, a rir pelo simples prazer de sentir a alma leve, a aceitar o que não tem solução aparente, a ficar em pé em meio às dores que podem deixar qualquer um sem chão.
           Podemos passar pela vida reclamando do que não conseguimos, ou deixando de fazer o que viemos fazer, ou simplesmente, negando expressar o que nos vai n'alma _ até 2016, n'alma, permanece pendurada na corda sem lona do Novo Acordo Ortográfico. Novo Acordo? Não sei quem "acordou" o quê com quem, mas certamente a novidade se faz velha há muito e muito tempo.
            Expressar ou deixar de fazê-lo é sempre uma escolha, por mais que seja uma escolha emaranhada nas armadilhas conceituais que criamos ou aceitamos prontas.
            Valores são valores em qualquer lugar, mas somos nós a fazer com que eles se manifestem ou deixem de existir. Valores simples, como a palavra sem julgamento, a honestidade nas relações que estabelecemos ao dizer BOM DIA!, a tranquilidade com que podemos olhar para os outros sem apontar os defeitos (os mesmos que, possivelmente, estão primeiro em nós...), a honestidade ecológica do olhar que não oprime nem massacra, o dizer de alguém apenas para dizer "BEM" o BEM que o outro tem! Penso que esse é um exercício que não deveria custar caro. É fácil, simples e "barato" (no sentido de econômico) ser feliz! Somos nós que encarecemos o custo da felicidade acreditando que ela está onde não podemos alcançá-la. Trazer a felicidade para perto, exatamente para o lugar no qual estamos deixando que os valores da vida se manifestem sem medo é um exercício passível de aprendizado. Temos tudo de que precisamos no exato momento de nossa necessidade. Sim, acredito nessa premissa quase que absurda, pois afinal, o planeta Terra continua nos "eixos" independentemente de nossa vontade.
         
                  As palavras não têm o poder de dizer tudo, mas elas têm força. Acostumamo-nos a empregá-las sem observar o peso, o efeito, o poder que têm ao serem proferidas. Ah! Se pudéssemos recolher todas as "más palavras" que soltamos a esmo! Ah! Se pudéssemos estar conscientes do que dizemos antes de dizer.
                Acredito que algumas pessoas têm essa capacidade de dizer e dizer BEM até quando o "dito" ecoa em profundo silêncio.  Não precisamos vociferar para nos fazermos ouvir. Não precisamos gritar para fazer com que nossas verdades sejam aceitas, não precisamos humilhar os outros para mostrar a nossa força.
                 Sinto gratidão por vivenciar silenciosamente uma escolha: para ser forte, há de se fazer sensível ao mundo que nos rodeia. Que assim seja!
                
         
           
             

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Instrumentador de risco: o professor diante do espelho


          Instrumentador de risco: o professor diante do espelho

                             Um réquiem aos educadores por vocação e competência                                   


      "Me movo como educador, porque
                    primeiro, me movo como gente.                .
(Paulo Freire)
                                           
                                         Apesar da metáfora óbvia, tenho a triste sensação de que estamos todos sob uma "mesa de cirurgia", necessitando desesperadamente de uma incisão na moral, nos valores e na formação cidadã. Instrumentar essa "cirurgia" é um risco, pois a escola não é e nunca foi um hospital, e menos ainda, o lugar sagrado de uma mesa de cirurgia.
                                         O que é a escola? Um substrato do ESTADO! Pois... talvez! Até onde as notícias permitem a conceituação, é comprovadamente uma instituição em estado de potência. Esse é um pensamento otimista. Ouço vozes que me dizem estar atrasada na avaliação.
                                         Então assumo algumas leituras: a escola é um GRANDE LABORATÓRIO. Uma instituição INFORMATIVA e FORMATIVA que perdeu as "pernas" diante do compasso frenético de nossas intenções contemporâneas. Ou apenas segue a banda conforme a música é orquestrada. Ou ainda, é o "depositório" de nossas falácias humanas. Ou, talvez, o limbo político, o espaço de nossas esperanças não projetadas.
                                       
                                                                            "Se a educação sozinha não pode transformar a
          sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda."
(Paulo Freire)                                                           
                                         Quem é o professor atual?
                                         Como o professor ESTÁ no mundo e qual a imagem que "ele" tem acerca de si mesmo?                              
                                        Pensar o professor a partir de seus “lugares” (observe-se o plural empregado por medida de segurança) e conferir à palavra o poder de representá-lo pode ser o primeiro de muitos recortes perigosos. Uma vez que, ver o mundo e se ver no mundo passa pela palavra, dar sentidos ou não dar sentidos aos acontecimentos, às “coisas” tem a ver com as palavras.
                                        Com um olhar dialético sobre a compreensão do homem e suas relações sociais, a identidade pode ser entendida como constituição do sujeito, enquanto processualmente incompleto, inacabado, em estado de “fazimento”. Nesta perspectiva, a subjetividade pode ser pensada como uma dimensão do sujeito, tanto quanto a objetividade que, a partir das relações "experienciadas" torna-se espaço para a manifestação de sentidos. Então, como apontar o espelho para a escola e para o professor? Como pensar os fatos que indicam os "novos" perigosos caminhos que se refletem em uma imagem atualizada?
                                     A escola é um espaço de risco, como todo e qualquer laboratório pode ser. Mas depende de quem ou do quê a instalação de um projeto de segurança do trabalho? É claro que todas essas construções são uma tentativa retórica de não dizer, já que ao professor cabe ser tão profissional como outro qualquer e assim, acidentes podem acontecer. Claro!
                                     A escola atual têm professores que "apanham", professores que "batem", professores que "atacam", professores que "são atacados", professores que descumprem seu juramento de "educadores" e alunos que jamais saberão qual é o lugar de quem. Papéis invertidos e valores destituídos. A escola atual tem professores que amam:

                                                                            "Eu sou um intelectual que não tem medo de ser
                                                         amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo."
                                                                                   (Paulo Freire)
                                      O professor diante do espelho é uma imagem distorcida que reflete a insensatez de nossa modernidade. Tudo está em constante devir. E esse "devir" movimenta-se com a velocidade que nos caracteriza e massacra.
                                      Um réquiem aos professores que sobrevivem da esperança e aos alunos que ainda vislumbram um professor. Lugares sociais podem ser máscaras de poder, mas quando bem ocupados fazem a diferença no mundo que se constrói.
                                       Às questões que perambulam em nossa consciência, uma bênção: que sejam iluminadas para fora dos lugares que acomodam interesses mesquinhos de se chegar primeiro a lugar nenhum. Sucesso é uma escolha fundada na moralidade e não nas instâncias galgadas na "escola" que passa longe da vida.
                                                                                   "Educar é impregnar de sentido o que
                                                                                     fazemos a cada instante!"
                                                                                              (Paulo Freire)

domingo, 3 de fevereiro de 2013


UM OLHAR SOBRE OS FATOS

                                  
"Os contos de fadas não dizem às crianças que os dragões existem. As crianças já sabem que eles existem. Os contos de fadas dizem às crianças que o dragão pode ser morto."
                                      (Chesterton)
                                      
                     
            Alguns acontecimentos nos trancafiam no silêncio da incompreensão. Outros alimentam o desejo de encontrarmos nossa natureza mais humana onde quer que ela se esconda. No rol dos fatos, entre o inaceitável, o incompreensível, o imaginável e o desejável, desenha-se o universo infantil. Quando não maculado pela avidez da "adultice", configura-se em milagre de longa duração. Daquele tipo de milagre que nos faz olhar para o mundo com o encantamento da inocência embalada em esperança. Pois, esses milagres eclodem no limite tênue que margeia a surpresa e a dádiva da não distração.
            Por entre as gôndolas de um supermercado, com a visão embaçada pelo excesso de cores, informações e valores destacados, encontrei um menino:

           _ Perdão! - digo eu, pois ele surge como que carregado pelos ventos que vêm do Oriente.
            _ Perdão pelo quê? - pergunta-me ele.
            _ Esbarrei em você, desculpe-me!
            _ Não! Não esbarrou! Eu é que me assustei...
            _ Sério? Com o quê?
            _ Ora! Eu não sabia que você estava falando comigo!
            _ Pensei ter esbarrado em você... - explico-me, já encabulada pela situação.
            _ E eu pensei que você estivesse falando sozinha, sabe... m-a-l-u-q-u-i-n-h-a!

            Sanidade é um conceito mágico, promissor por si mesmo. Mas a verdade vista pelos olhos de um menino que já venceu os dragões da realidade, curam a alma da gente.
            Se a sinceridade é um valor engolido pelas arestas do falso polimento, abençoada a criança que não se deixou morder pela hipocrisia. Abençoado menino e os momentos que transcorreram.
            Feito um conto de fadas, coloriram-se os corredores com as histórias que me contou sobre a escola, a avó e o salário de sua mãe, professora. Movido pela gentileza natural das crianças que se reconhecem heróis da vida, estimou acerca do valor do provimento, salário da mãe, em uma perspectiva altamente ideológica. Grande menino! Pelo olhar que ele lançou sobre os fatos eu poderia jurar que estava diante de um grande homem: loquaz, íntegro, sincero, inteligente! Tão inteligente quanto bem preparado para as aventuras que certamente advirão com ou sem batalhas.
            Em dado momento contou-me ele, com a graça das "bem-ditas" palavras na boca de quem tem oito anos de idade:
            _ Eu tenho doze namoradas!
            _ O quê? - interrompi com incredulidade.
            _ Doze namoradas... sim!
            _ Mas...
            _ Uma de cada vez, tia! Claro!

           Claro! Claríssimo! Ele sabia "ler" as implicaturas que emergem das palavras não ditas, mas lá sabia eu de sua rapidez em reconhecer os "dragões" do mundo politicamente correto?
            O fato que narro é real, mas não pedi autorização à mãe do menino para expor seu nome que, em hebraico, tem um belo significado. Penso nele enquanto me esforço para estabelecer um paralelo entre os acontecimentos de nossa história "factual" e os episódios do mundo da "carochinha", das fadas, da fantasia: onde estão os monstros?
             Os "contos" e os "des-contos" não nos põem medos, antes: imprimem esperança. Que assim seja em todas as narrativas. Em TODAS!
           


           
           



                                    

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

MEU AMOR DE PROFE, Meu Primeiro Amor



 MEU AMOR DE PROFE, Meu Primeiro Amor


DEDICATÓRIA:
                           "Aos professores, mestres do aprender."


                            Eram tantas as portas que meus olhos tardaram em acostumar-se com o novo desenho.
                            Eu colocava um pé diante do outro como quem caminha por uma trilha desconhecida.
                            Em casa, em frente ao espelho bem ensaiei um tipo de choro que, se necessário, usaria. Eu o guardava perto do nariz para casos de emergência.
                           Sabe-se lá o que se encontra em um lugar no qual os pais da gente não ficam?
                           É um susto pensar que não se poderá contar com os olhos cúmplices da mãe da gente ou com a força do pai da gente – quando ele consegue esconder que fica mais fraquinho do que as mamães diante do choro que tiramos da gaveta.

                          Pois eu estava ali, junto com outras crianças que também tinham a sua gavetinha pronta para abrir.
                          Claro que todos sabem que gaveta de criança é um mundo de possibilidades.
                        Para cada ocasião nós temos uma coleção quase infinita de saídas ou entradas.
                        Nosso comportamento é pensado duas vezes, quando temos tempo para elaborar uma alternativa, ou então, usamos a que está mais à frente da coleção. Pois a gente pensa, e muito, na melhor maneira de andar pela trilha dos pernas compridas.
                        Ser criança em um mundo paralelo aos que já cresceram, aos que estão crescendo e aos que pensam que estão crescidos, exige muita força de vontade.

                         Não são poucas as dificuldades para se falar a mesma língua e nem sempre carregamos um banquinho para escalá-los em sua sábia altura.
                         Isso é verdadeiramente desafiante. Até mesmo porque todo o par de pernas tem lá a sua própria ciência: muitos gostam de nossas remelas, outros as rejeitam. Muitos se sentem fortes com o nosso agarra e agarra, outros se descobrem fracos e irritados, muitos sonham com a nossa chegada, outros a adiam por uma vida inteira.


                          É assim mesmo, cada qual a seu modo é um modo único de ser comprido – às vezes eles se repetem, tentam imitar, fazem do jeito que alguém disse e instalam a confusão. Olhando de baixo, parece divertido, mas sabe-se lá!
                      Falando em pernas, não posso negar que foi a primeira coisa que vi: um par de pernas maravilhoso dobrando-se bem junto a mim.
                     Não sei se ela sabe disso, mas naquele momento ganhava meu coração para sempre.

                      De joelhos, ela trazia seus olhos para a altura dos meus. Junto com eles, veio aquele tanto de braços desenhados por Deus para abraçar as crianças que têm medo de portas fechadas.
                      E exatamente no meio desses braços ficava o colo mais aconchegante que eu poderia conhecer para além de casa.
                      Seus cabelos derramaram-se sobre a minha cabeça e eu conhecia então o que era um “imprint”.
                      Todas aquelas portas, repentinamente, pareceram-me um grande salão.
                     Um salão de festas, colorido e alegre, que marcaria diariamente a minha chegada triunfal.
                     Sair de casa?
                     Ora, estava descobrindo com prazer que podemos ter mais de um lugar seguro para ficar até mesmo sem os pais da gente, especialmente em se tratando de um lugar marcado por ela.

                    Ouvi e percebi que para cada um de nós ela era uma. E para todos ao mesmo tempo era ela mesma.
                    De “pró” para “tia”, de “profe” para “fessora”, sabia que parente não era, então era mais do que eu pedia.
                    Quem disse que voz não acaricia?
                    Acaricia, faz cócegas, aquece, gela... e gela também!


                    Existem vozes que provocam a saída dos cabelos de seus bulbos capilares.
                   Existem vozes para todos os sentidos com ou sem sentido.
                   Mas junto dela conheci só o lado bom da voz.
            
                  Viajei embalado por gigantescas e gordas ondas de açúcar mascavo em um mar de carinho e afeição.   

                Destranquei gavetas e gavetinhas, entreguei as chaves de todas as portas, refiz um caminho para minha outra casa.
                Claro! Casa grande, com vários irmãos, “tias” que não são tias, mas são “profes”, “mães” que não são mães da gente, mas lembram daquela que a gente tem...
                Eu descobria a escola!

                Quem disse que somos pequenos só porque ainda precisamos aumentar de tamanho não deve ter pensado que também pensamos.
               Ah! E como pensamos! Pensamos em tudo o que vemos e até no que não vemos!
               Imaginamos fadas e monstros, anjos e não anjos; esperamos o Papai Noel e ainda arrumamos a cesta para o coelhinho da Páscoa.
                Desenhamos montanhas sem mesmo nunca antes tê-las visto, descobrimos o lugar do umbigo em bonecos de pernas de pau, rezamos de mãos juntas a oração do coração, mergulhamos fora da piscina em volumosas correntes de sonhos e alegria, viajamos em estradas de ferro construídas a pincel.


                      Nós somos os arquitetos das possibilidades.
                      Os engenheiros das nuvens tortas, os médicos da “sorrisologia”, da “abraçotipia”, e da “agarromania”.

                      Ninguém ainda escreveu que ser criança é deslizar pelas bordas de um arco-íris aceso pelos raios das estrelas cadentes?
                      Verdade que imaginar os dois fenômenos juntos deve ter impedido o acesso a tanta luminosidade! Isso para um “já crescido”, entenda-se, não impróprio para os “em fase de crescimento”.
                     Construir fronteiras é uma capacidade típica da fase que vemos de baixo para cima.
                      Isso leva um tempo e muito investimento!
                       Mas de volta ao meu salão de festas, entendi as dúvidas que não haviam chegado.
                      Dirimidas pelo “olhar de jabuticaba” eu podia embalar minha alma em doces brumas filosofais.
                      Não que eu já soubesse do que se tratava, mas pensei que ficaria engraçadinho colocar aqui.
                     Ondas indeléveis de pensamentos em formação atravessavam-me fazendo com que eu parecesse um pouco tímido. Tímido talvez eu fosse, mas não ao ponto de estrangular as palavras atrás de um sorriso aberto em cima do queixo.
                    Queixo? E eu lá tinha queixo em uma altura dessas?
                     Eu era um sorriso “bobificado” andando pelo salão de festas. Parecia um marujo em dia de folga... caminhava olhando tudo sem muito ver; era simples o prazer de deslizar por aquelas linhas e ângulos, de passar por todos aqueles cortes e recortes nas paredes que ora me lembravam de buracos, ora me lembravam de portas.
                     Portas!
                     É isso!
                     Portas são desenhos que abrem e fecham com a mágica das mãos _ só mais tarde eu descobri o jogo funcional das dobradiças, fechaduras e linguetas

                 Portas são pálpebras em pé.
                 A gente nunca tem certeza se elas abrem para quem entra ou fecham para quem sai.
                 Se atrás delas tem gente ou é a gente que está atrás.
                  Qual é a frente da porta se ela não é a porta da frente?
                 A gente entra ou sai quando ela se movimenta?
                 Tem porta com vida própria e até nome elas têm, algumas têm nome de gente e outras de vaivém.

                      Tem porta para toda a gente e gente tem porta também.
                       Falam da porta da alma, e da porta do céu, “abre a portinha minha filha, a taramela já tirei, come mais um feijãozinho que esta porta é do bem!”
                      Tem porta que guarda segredos, tem porta que vai além, tem porta que fala gemendo e outras gritam forte “rém! rém! réééééééééééééémmmmm!”
                          Há portas de caras fechadas e muitas nem caras têm.

                            Foi pensando em tudo isso que primeiro eu me calei.
                             Vai que em uma dessas portas fique o medo de alguém?
                             Medo de alguma coisa é pior do que o medo de coisa sabida.
                            No primeiro medo mora o perigo de se saber o que não se quer, no segundo vive o perigo que já se sabe não querer.
                         Essa coisa de medo é muito natural, dizem os “já crescidos” com ar episcopal, parecem saber de coisas que consideram normal. Claro que não explicam se normal é natural, se é coisa desse mundo, se é fato, se é real.
                       Normal para mim é coisa que rima com igual. 
                       Igual é uma coisa que parece com outra e com outra coisa também. Somando umas às outras e outras que nem se veem, tem-se o mesmo resultado e logo o normal vem.
                       Vem depois do costume, do tempo que passou, do olhar que não pisca, da boca que taramelou.
                       Vem depois do primeiro espanto, do medo de perder o lugar, da falta de confiança ou da confiança demais.
                       O normal torna igual ou o igual faz o normal?
                     Há só uma linha entre o estranho e o igual: de um lado o que é novo, diferente e, do outro... o normal?
                     Não existe porta para o primeiro fugir, só se ele for esperto e fingir que já morreu “... quem gosta de mim é ela e quem gosta dela sou eu!”
                   Se o igual gosta de pirulito, o estranho vai gostar também, pois ninguém gosta de ficar sozinho e se ficar, o “bicho comeu”!

                Portas são cortes que não sangram.
                São buracos com tampa, são vazios que mostram o céu, são recados sem palavras, são riscos que alguém fez.
              Eu gosto de abrir portas, agora que as descobri.
              Desenhei duas em outro dia e ninguém entendeu a real.
              Fizeram-me tantas perguntas... para mim tudo estava normal. Não a série de perguntas, claro!, mas as portas, que eram portas para sair e entrar. Não contei onde iam dar que, o jogo, já sei esconder. Mas guardei em uma gaveta as duas portas que fiz.
               “Sempre” é muito tempo e fica longe também, mas sei que em outro dia, abro essas portas para alguém.

                  Alguém assim como ela, de onde agora ela vem?
                  Ao longo do alegre salão estendia-se como uma língua de criança um lugar para correr.
                  Mas eu preciso confessar: até hoje não entendo porque o chamavam de "corredor" e não nos deixavam nele correr. “Espere menino, para de correr”!, “Não corre menino..."," Fulano!, olha o corredor, anda devagarzinho...”
                   Era por ele que deslizavam as horas e as brincadeiras também.
                   Ela tinha fôlego de sobra! Ensinava as letras, brincava com as palavras, jogava com os números, cantarolava histórias.
                   Era um tal de ensinar e brincar, brincar e ensinar, construir e aprender, aprender e construir que ninguém se mantinha longe das rodas.

                        Quando era a hora dos números ela usava letras também, quando era hora das letras, os números contavam além.
                         E quando menos se esperava, vinha livre a poesia.
                         Palavras invadiam a sala e tomavam o coração de quem ouvia.
                         Mãos em baixo do queixo quem não bebia mergulhava... era a voz da professora que alcançava o lugar do sonho bom.
                         E quando alguém se machucava? Quem disse que beijo não cura?
                              Curava a dor da mão, do pé e da alma da gente.
                              Bem que criança já sente uma dor que não se explica, que não tem lugar ao certo, mas dói de qualquer jeito.           
                              Parece coisa que não existe que molha por dentro e por fora, mas eis que os “já crescidos” pensam saber de onde vem.
                                Se a dor vinha ou atrasava, ela dava um jeito de curar, senão de todo um pouquinho, para bem da dor passar.
                               E passava, isso era certo. Pois todos queriam saber: “... beijo cura, ‘pssora’?”
                               E ia beijo para provar.

                                 Deixava uma alegria tão quente no coração do beijado que o sorriso tomava lugar.
                                A dor fugia com medo de outro beijo ganhar.
                                 Essa era a tal da “profe”, prima-dona em declarar:

                        "É preciso saber para ensinar”.

                           Conheci uma professora que não foi “professorinha”, nem foi “tia em dia de escolinha”.
                               Era um amor de professora!