domingo, 28 de fevereiro de 2016

BANDEIRAS FURADAS

EM JUÍZO, O JUÍZO

- desvirtuada virtualidade do juízo final -

"Todas as bandeiras se encheram tanto de sangue que é tempo de as banirmos por completo. "Gustave Flaubert ( o grifo é meu )

                            Rasgou-se a flâmula do empoderamento pessoal  na cabeça das gentes que tombam à sombra de julgamentos sem tino. Por onde ecoam as vozes da razão? Enquanto a lei se faz aplicar na velocidade  de um cavalo manco, as patas - membros de algoz rapidez - da individualidade contemporânea tornam-se garras de assombrosa violência física, moral, psíquica, emocional, social, pessoal, virtual... e o léxico não fecha o leque. Do indivíduo para a massa e no caminho das massas para o indivíduo,  as pedras da insensatez sobram nas mãos dos juízes de ocasião: feito lacaios das ideias recheadas de preconceito e ignorância, agem por conta de um suposto "controle moral". A Inquisição, que de santificada nunca chegou perto, instalou-se  novamente e ganha espaço diante de fatos que d-e-v-e-r-i-a-m beirar a absoluta normalidade, igualdade de direitos e diversidade cultural. De um olhar de reprovação diante da homoafetividade, ao espancamento de seres humanos mergulhados em amor, em crenças, em cores, em sabores ou em despudorada miséria: as estatísticas não salvam os moradores de rua queimados vivos em nome da higiene social urbana. Na mesma "panela" jogam-se os ingredientes de um conceito inflamável: a ideologia da intolerância. Serve, a intolerância,  para o festim dos julgamentos. À boca rota, os comensais da imbecilidade apontam o dedo e as pedras ao sabor de um cardápio que varia com aterradora fugacidade. Basta dar-se conta da propagação dos memes - tão mortal quanto o vírus Zika - , da sutileza e crescimento vertiginoso do  bullying  camuflado em política de educação para a vida, do descrédito para com a maturidade física - velhice -, das certezas que matam e não vingam justiça, da impraticabilidade do amor humano.
                               Flâmulas de PERIGO enrolam-se no sistema de banalização dos fatos e não chegam aos sofás das salas vazias de civilidade. A sociedade fecha-se em conchas cujas pérolas apodrecem pela acidez do hálito ácido. Acostumado aos  festins da irracionalidade, o indivíduo que "sai fora"  dos lugares pré-determinados corre dois riscos: a loucura induzida - a identidade é um conjunto de valores pessoais que não podem ser traduzidos por qualquer formato digital - e a morte social. Esta última, apesar de mortal, pode sinalizar a ressurreição do homem, especialmente aquele que aprende a conviver consigo mesmo. Mas esta é uma lição que só o tempo e a paciência permitem quando há um estômago e um coração conectados à inteligência emocional.
                           Que no próximo cardápio sirva-se a bandeira da civilidade, ou, no mínimo, embrulhe-se  nela a nodosa vergonha de nossa indiferença.

Ivane Laurete Perotti

domingo, 21 de fevereiro de 2016

VERGONHA

NO CALOR DE UM TEXTO

- eu sofro de vergonha alheia -

"As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara." Sócrates

                                Após as tormentas do verbo, as barricadas da liberdade alcançam as frases. Mais uma madrugada de lamentos não ouvidos varrem os fatos para debaixo do tapete puído, da cama sem lastro e da janela sem vidro. Houve um tempo em que uma canção levava o nome da música na moldura da pauta: quadros de vozes e instrumentos a favor da esperança. Houve um tempo em que sonhar não era um evento psiquiátrico e valia dizer por onde andava a vontade de fazer da felicidade um momento  real - mesmo que por míseros segundos de volátil solidez. Houve um tempo em que os heróis plantavam e colhiam a luta diária de manterem-se em pé sobre as dificuldades da própria história. Houve um tempo em que a história não era o resultado de tantos e tão portentosos jogos de manipulação: teoria da conspiração? Teoria da exterminação !
                            Então, o que deu errado?
                            Não sei..., parece justo e sábio argumentar em  legalizado estado de negação; mas,  envergonho-me pela desconfiança em sabê-lo, posto estar diante de retorcidos acontecimentos cuja ignorância alimentada pelo  desespero transforma-nos em joguetes de pouca monta. "Assim foi, assim será...", disse-me a senhora na fila de um grande Pronto-Socorro conveniado com um dos planos de saúde mais caros - para os assegurados, obviamente DESASSEGURADOS! - deste país de braguilha aberta. Cambaleava a senhora bem mais do que eu, ambas em estado de sintomática dengue e as suas escabrosas manifestações. Tanto crescia a fila da epidemia, quanto descia ladeira abaixo o atendimento no qual AINDA se colocava fé: fé e necessidade. " Que encontras de mais humano? Poupar a vergonha de alguém." ( Friedrich Nietzsche.  Que vergonha é essa que sentimos, quando se procura um profissional de acordo com a sua legítima formação e o que encontramos nos deixa em estado de lastimável  prostração? Que mercado da doença é este que não põe medida na moeda de troca e a libera ao uso e abuso do descaso? Tabelas de atendimento não atendem mais ao pague o que leva:  volta-se para casa sem o que se pagou e ainda, de crédito, carrega-se o estupor assintomático: a humilhação e o desrespeito! Ambos crescem na voluptuosa fecundidade do  Aedes aegypti  alimentado no calor de todas as estatísticas mercadológicas. Quantas picadas são necessárias para acordarmos?
                       Sim, sinto vergonha alheia... e assumo senti-la em minha pele, em meus olhos e na alma que teima habitar-me por tempo indeterminado. Sinto vergonha por não conhecer mais a medida interna de minha indignação e a manifestação externa de meu descompasso. Sinto vergonha acompanhada de uma dor sem nome, algo que teima em lembrar-me que ser heroico não prescinde de largos movimentos, que somos todos, absolutamente todos perecíveis... sim, esta é a palavra deslocada na frase das tormentas. Escolho-a a dedos tortos: p-e-r-e-c-í-v-e-i-s ! Somos falhos, certo. Mas a epidemia não é a dengue, como tanto repetimos. A epidemia é a política da desvalidação da humanidade. Nem o vírus Zika dará conta de nossa violenta transformação em zumbis da dignidade, em homens sem vergonha na face - face? sem vergonha na cara, na alma, nos olhos - corremos para o podium da descaração, do descaso, da brutalidade gratuita, da lei do mais rápido. Diria um infeliz e antigo conhecido meu: " Essa é a lei da natureza: sobrevive o mais forte...ao fogo, os demais!". Ao fogo do esquecimento, ao fogo do descuido, ao fogo do demérito, ao fogo da humilhação...à morte sem digna atenção. Talvez a natureza tenha leis inflexíveis por conta do universo no qual precedem a existência das coisas e a sucessão dos seres ! Mas, aos animais selvagens ainda há o crédito da irracionalidade.  Ainda, posto estarem a sinalizar a evolução de sentimentos e emoções que em nós rareia e desaparece.
                            Sinto vergonha.... e morre em mim a vontade poética de salvar este texto da desgraça verbal.
                            Às barricadas da verdade, que não se descubram obstruídas pelos pontos e vírgulas, eternamente presentes nas histórias que têm dois lados: dois? Penso na matemática das ilusões e imagino o novo prédio do seguro-saúde que teimo em pagar com a esperança de que seja FUNCIONAL. E os atendimentos públicos? Sem palavras... Para a escuridão de um único texto, basta começar por onde termino: morre em penúria o povo  deste país de lobos esfomeados. Peço desculpas retóricas aos Canis lupus, naturalmente fora do espectro desta metáfora triste!
                         O que deu errado?

Ivane Laurete Perotti
               
                          

                          

domingo, 14 de fevereiro de 2016

CONFISSÕES

SENTIDOS

- quando da vontade de compreender vem  a razão do sentir -

"Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?" Saramago

    הַלְלוּיָהּ 
     Halləluya!
                                 Sobre  a cordilheira de palavras abertas, uma nota voejava com asas de estrela livre. Mais livre e aberta do que todas as palavras que garimpavam para o alto e para dentro: Acord agum hu mistori...( transliteração do hebraico) Acorde secreto e misterioso....
                               No caminho das palavras fazia-se necessário abrir a caixa de sentidos que o homem carregava em algum lugar dentro de si, fora de si, em si mesmo ou em lugar nenhum. Abrir e fechar em ordem de existir: tomar para si e dar ao outro. Assim  movimentavam-se as palavras pelas cordilheiras da existência e do poder. Nulas em si mesmas e carregadas de força alheia. Alheias à nulidade improvável e marcadas pela mão da vontade somada ao eu e ao tu: sortidas!
                             No caminho da nota livre, o som manifesto não exigia espaço e desconhecia moradas. Cavalgava o vento dos ouvidos fechados com dotes da razão imaterial. A nota pré-existia. Sem muletas, sem caixas, adejava ao sabor da própria vontade. Sobre as montanhas beijava o sol, soprava as nuvens pratas da noite sem voz, deslizava na extensão da terra úmida, umedecia o chão ressequido e seguia. Seguia imune à pauta riscada  ao custo de sonhos e bênçãos. Pedidos e súplicas que da cordilheira de palavras amontoavam-se em contínuo vir a ser. Afinal, a que vinha ela? Não vinha: estava! Antes da criação, antes das caixas e dos homens, antes do sopro, a nota circulava as oitavas superiores. Na Terra das palavras e dos homens transpunha a poesia longe do verso, rimava pelos  olhos da alma e desconhecia as queixas do silêncio confesso. Alimentava o suposto vazio justificado ao pé da montanha lexical:  ao verbo o poder do acidente, ao substantivo, a deixa do conceito. Substancial adesão dos sentidos, jugo à essência desvalida: retórica perdida?
                      No caminho da nota viva, um híbrido anjo lachast li ma korê bfinim ...(transliteração do hebraico), sussurrou-me o que acontece por dentro... Anjo de pés descalços e flavos lírios à cabeça calva. Ve ech nashanu paam naa...(transliteração do hebraico), E como cantávamos juntos... trouxe à lembrança o canto do regresso implicado.  Original, precípuo, vital canto de uma nota só: " Dentro de nós há uma 'coisa' que não tem nome, essa 'coisa' é o que somos." ( Saramago)
                    Sobre a cordilheira de palavras, a nota voejou e retornou carregada, desdobrada, plural: a profusão das vozes híbridas dera ao canto o múltiplo lugar das sensações e à nota cabia agora tornar-se outras . " Ah! Felicidade! Em que vagão de trem noturno viajarás?" ( Chico Buarque )
                   O anjo calvo e descalço, antes de voltar para algum lugar, depositou na base da cordilheira verbal que se desfazia em repetidos movimentos , uma caixa sem tampa. Lia-se ao fundo dela: Ahavah azra li rak...(transliteração do hebraico): O amor só me ajudou...


Ivane Laurete Perotti

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

DIGA-SE...


LUAR


IMATERIAL


SILÊNCIO...


PÚBIS PÚBLICO

MÁSCARAS DE UM LADO SÓ

- nascem ratos na terra dos homens-

"Os fatos são inimigos da verdade." (Cervantes)

                                      O esmeril da vida agarra-se aos resíduos salientes para avantajar os montículos da história: todos no mesmo lugar. Nem pedra de polimento, nem destino escrito no rastro das estrelas: viver é um exercício de justificativas cujos fatos primários escondem-se em fantasias sem retoques. Vírgulas abertas: os fatos e as fantasias valem-se da mesma alegoria. Daí a importância saliente dos resíduos que parecem sobrar na ação de atrito da "coisa" - tome-se lá o substituto desejado para relocar na coisificação implicada neste dito  ( como se já não o fizéssemos natural e espontaneamente !) - contra os abrasivos que a tornam mais polida, mais adequada, menos imperfeita.  E na contramão dos ventos, vem o resultado alcançado em vias duplas, triplas... se as "coisas" brilharem aos olhos alheios, homens e ratos podem ser atraídos pelos raios da cobiça, essa máscara que se vende como interesse prodigioso  ou feito valor de mercado ( aos incautos , o poder das sombras internas negam-se descer da arquibancada na qual assentam os verbos da  ganância ): "A inveja vê sempre tudo com lentes de aumento que transformam pequenas coisas em grandiosas, anões em gigantes, indícios em certezas." (Cervantes)
                                   Houve um tempo, há muito tempo, no qual aos ratos cabia permanecer nas sombras lúgubres e úmidas dos esgotos saburrentos. Por ausência de vontade política, ou esparsos contingentes de condições sanitárias, os mamíferos roedores galgaram status cosmopolita e pululam ao nosso redor, em um contingente de praticamente quinze ( 15 ) animais para cada habitante deste planeta de muitos lugares. Diversidade à parte, às legítimas ratazanas pertence ainda a capacidade de nadar - nadar! à moda dos tubarões ( só posso pensar nessa figura das grandes águas em detrimento do sentido que gostaria de imprimir ao texto: uma tentativa !). Os ratos não toleram a fome e são, eca! eca! eca! e são repulsivamente coprófagos ( melhor não explicitar essa condição, apesar da vontade escatológica de fazê-lo). Entretanto, ( essa palavrinha permanece na contramão das conexões com argumentos tortos e até consegue ser ensinada nas escolas como sendo dica permanente (sic) para escrever bem (sic)  nas redações do ENEM!(sic) mas, essa é outra história e ainda depende da ação de um bom  esmeril ...), entretanto, há de se lembrar que os ratos não existem em ambiente selvagem: eles dependem de nós, humanos e migram nos mesmos padrões de nossa urbana vontade com a inverossímil - e provável - capacidade de revirarem-se em labirintos e tubulações de pequeno raio. Que raio! "Elimine a causa e o efeito cessa." (Cervantes). Que se aplique Cervantes! Aqui, no Planalto, na quarta-feira de cinzas ( pois de cinzas estamos fartos!), nos púbis publicamente alheios - afinal, porque a região pubiana alcança tanto destaque no carnaval brasileiro? Se os tapa-sexo fossem colados nos lugares naturais de nossas "vergonhas" acumuladas, jamais esconderiam os pudicos pecados da nossa ignóbil intransigência.
                            Que raio! Esmeril no Brasil de tantas máscaras, ratos e púbis destronados! Pois, na anatomia dos opróbrios , em existindo a anatomia e o ultraje, os desatinos começam mais acima, com inferência  e destacada  instância para o endereço da consciência no labirinto dos neurônios. Possível? Se a consciência é um conjunto imaterial de montículos conceituais resultantes do esmeril moral , se... as substâncias abrasivas estão perdendo a capacidade de provocar atrito. " A pena é a língua da alma..." ( Cervantes). Que raio!
   
                                  

Ivane Laurete Perotti