sábado, 31 de maio de 2014

SOBRE O AMOR

 O AMOR NÃO CAUSA TRISTEZA
                   - a saudável amplidão de um sentimento sem dependências –

“E quando há a experiência da verdade no eu, o amor se torna um fogo que destrói a negatividade.”
 Brahma Kumaris


                    Suave como a alma que dança na linha baixa do céu, o vento carrega sozinho a nota da eterna canção. Em cadência de tarde fresca, o sol desliza um raio de luz sobre os enamorados: soltos, voam na direção do plano de cada qual.
                   Um e um somam um na vida e na música: não se contam os intervalos entre o antes e o depois.  Na genealogia do amor saudável, a pauta completa o verso dos ângulos abertos em um continnum topológico enriquecido pelos espaços preenchidos. Sem quebras, sem rasuras, flui e envolve o doce hálito das histórias feitas para viver. Sorrisos começam na alma e se expressam no rosto limpo de máscaras e medos, nem Otelo, nem Desdêmona encenam o verbo. Pois o verbo é a ação livre de dependências e amarras, liberta dos jogos de negação e poder. Ei-las: flexões indolores que ligam pontes e caminhos, suavemente, isentas de pressa, desnudas de rótulos, desembaraçadas das etiquetas tão comuns à alça do destino cruzado. Ei-las! Matrizes da arte e do crescimento, raízes da alma e do grande passo, remanso das ondas internas. Um avanço em ponte, um elo: convite à valsa da evolução.
                  Cai uma estrela aos pés do amor robusto, tinge a terra de cálidos matizes e amplia a visão da beleza profunda. É ali, no viés do cadente astro que a individualidade encontra a sua face. Desdobra-se e identifica-se. Um e um somam-se entre um mais um e um é um cada um. Mistura ébria do colossal amor que não ocupa fronteiras nem demarca limites. Doa-se, entrega-se e nada pede em troca. Faz e refaz a vinda em seu propósito de amar e criar, cada vez mais novo na tarefa madura de cuidar sem ferir. É nobre o espírito que abriga sem conflito a marcha do puro amor.
                   O amor não causa tristeza, não cobra a proeza de se fazer amar.
                   O amor não é a bravura de dois corpos capazes de se encontrar.
                  Ah! Onde mora o amor, não há lutas, nem perdas, nem faltas. Onde mora o amor não se abriga a desdita, nem se corrompe a vida em falsas parcerias aflitas, contritos fantasmas de minguado pendor. Em índoles frias e vazias, não se conjuga o amor.

O amor verdadeiro, por estar preenchido, transborda bons sentimentos. (...) Ele não toma, simplesmente doa. Na sua pureza não espera o retorno para si...

Brahma Kumaris

domingo, 25 de maio de 2014

LER OU LER

LIVROS OU PELÍCULAS: JORGE AMADO SOB ENCOMENDA
                  _ entre ler e ler: o livro ou a televisão? –
          
                     Os contornos do mundo indizível povoam o imaginário humano e revestem-se de sentimentos. As emoções penetram para além das palavras aceitas e instauram formas, cores, intensidade e contexto nos recônditos da alma pulsante. "Bilros" tramam "rendas" entremeando palavras cruas e expõem o bojo dos pontos amarrados em si mesmos. A palavra transporta-se em linha pelo fuso da criação.
                      Nos movimentos das letras tecidas desenha-se o não dito, o desejado dizer, o não expresso, o impregnado de sentidos encarcerados sob as pedras da censura e da intolerância. Desejar é próprio da natureza humana, criar imagens do desejo inconfesso é obra dos rendeiros das palavras. Daí alçar Jorge Amado para o terreno dos "sentidos", das imagens, das análises freudianas, das novelas escritas, encenadas e coloridas pelas nuanças do cotidiano dramático e comum ao homem, confere apenas "uma" leitura entre tantas outras leituras possíveis sobre a obra do romancista baiano.
                     As discussões sobre os gêneros textuais ainda transcorrem em terrenos férteis: limites e fronteiras acerca da estrutura e da formação discursiva incluem performances que transitam entre o signo e a forma, entre o ficcional e o real. Para além das considerações e tipologias textuais há de se aventar acerca do "gosto", da "fruição", do "prazer" que personificam o universo particular e impreciso da experiência do "leitor", do "espectador", com um conhecimento enciclopédico capaz de movê-lo, ou não, pelas dimensões da obra manifesta signicamente.
                     Dos livros para as telas: é possível "pensar" o sucesso da literatura de Jorge Amado também na televisão? Mesmo que se negue a imprecisão do prazer implícito que emerge das "impressões de verdade" e verossimilhanças que o escritor constrói enquanto narra, valendo-se de recursos de intertextualidade, do registro de variações linguísticas, da construção de uma identidade baiana não restrita nem fixa, quem "lê" Jorge Amado acompanha o desnudamento de histórias muito próximas. Tanto no tempo histórico quanto nas dimensões psicológicas e sociais, o ato de narrar do Grande Rendeiro personifica um universo subjetivo de transferências. Não é a identidade baiana que vai crescendo com um instrumento de análise, ao contrário, cresce na obra amadiana uma identidade nacional, peculiar, reconhecível, palpável, possível. A potência da literatura de Jorge Amado está na atemporalidade transponível marcada pelas disjunções temporais: o tempo, mesmo que indicado, não remete ao recorte histórico de fatos rememoráveis, mas sim, indicializa as possibilidades do devir, do possível, do verossímil, do posto e adequado modo de refratar o comum e o conhecido.
                    Jorge Amado é um exímio contador de histórias. Não só! Contar de modo a abafar a voz de quem conta exponenciando a história é arte em sua própria essência. Então, independente do gênero em que se transpõe o universo criado por Jorge amado, a história em si mesma transborda para fora da moldura estrutural em que se apresenta. Televisão? Um útero plasmático fecundo e promissor para a arte de fazer arte. Livro? Um lugar de “fazimento” onde a arte assume o núcleo da vida criativa.

                    O olhar enviesado para a "roteirização" da literatura escrita, muito comum entre críticos da contemporaneidade, mostra-se inócuo diante do sucesso de Jorge Amado. A televisão empobrece? Quando a história é suficientemente rica para manter-se produtiva no universo criador que implica: não! Pode ser? 

terça-feira, 20 de maio de 2014

VOTOS...VOTOS...VOTOS...

Minha banda a JazzMim, foi aprovada na primeira etapa do Savassi Festival - Novos Talentos do Jazz! Gostaria de pedir a colaboração de vocês! Nosso trabalho é autoral e explora o Jazz com um jeitinho brasileiro! Precisamos de alguns segundinhos e do seu voto para enfrentarmos a próxima etapa.

O site é o savassifestival.com.br e você só precisa preencher alguns dados e escolher a JazzMim para receber o seu voto! Se puder nos ajudar ainda mais, divulgue para os seus amigos esse e-mail pedindo que também votem em nossa banda!

Confira também a página da banda facebook:  https://www.facebook.com/JazzMimOficial?fref=ts.
Muito obrigada pelo seu apoio! 

Beijinhos
Deni

Ouvir...


NATURAL


CICLOS POÉTICOS


segunda-feira, 19 de maio de 2014

DUBIEDADE

PASSAGEIROS EM  MÃO DUPLA
           - entre o céu e a terra: a terra e o céu -
                                         “(...) Ele, porém, se retirava para lugares desertos, onde se
                                             entregava à oração.” Lc 5, 12-16

                                           Eis que se refugia em cada um de nós o silêncio dos desertos. Eis que em cada um de nós instala-se a menina dos olhos das tempestades. Dentro e fora do universo humano, traçamos a caminhada que nenhuma estrela tem o poder de repetir: tornamo-nos! Em vórtices de ação ou na contramão dos enredos, tecemos os tênues fios que nos entrelaçam na teia macro da vida. Criamos constelações!
                                            Na areia de nossas vontades, alguns sonhos projetam castelos enquanto a imprópria necessidade sabota sem piedade a base da construção. Sem alicerces, nem as fossas mais profundas impedem as invasões sorrateiras advindas de fora, ou que emergem de dentro, como se o fora estivesse mais longe do que o longe do lado de dentro. Visíveis ou invisíveis, visivelmente invisíveis, lá vamos, humanos passageiros, sem um único bilhete na mão, tentados a voltar atrás a cada deslize ou solavanco na direção. Voltar, voltar, voltar... lembra uma toada solitária que se perde ao pé do tempo, mas não sem antes causar vertigens, choros, lamentações.
                                           De iniquidade em iniquidade, descobrimo-nos frágeis, poderosos, frustrados, vencedores, otimistas, pesarosos, rejeitados, amados, reprovados, ao mesmo tempo e à margem dele: naqueles parênteses que abrigam as almas como se o tudo e o nada se encontrassem ali, na primeira esquina, para fiar a conversa do dia em finas tiras de oração. Epifania. Síntese. Nirvana. Água com sabão! A dúvida gera trema: trema! Um obelisco no movimento das ondas que não vemos, mas nos envolvem independentemente do nosso desejo de mergulhar fora ou dentro do mar da vida. Mergulhar é preciso. Voltar... não!
                                           Eis que a todos se deu o sucesso! Vantagem da raça humana. Prestidigitadores do destino, alçamo-nos à coroa da fama, jogamo-nos pelos trilhos das vantagens, despedaçamo-nos no espelho das vaidades e para não ferir a fonética das últimas sílabas, sentamos sozinhos à calçada que atravessa a rua. Na calçada exige talento: à calçada deixa um pouco a desejar, mas não localiza o perigo mais perigoso: valeu? Na pedagogia do vencer ou vencer vale a motivação do dia. Festa e agonia! Alma vazia. Nem Veríssimo, o pai, daria conta de olhar os lírios do campo em sua ociosa capacidade de brilhar sem tecer. Nós tecemos fios e lampejos de esperança, também descrença, um pouco de amargura, outras vezes fartura, na grande festa do crescimento consciente. Eis o ponto: entre o céu e a terra não se instala vã filosofia.  Vã é a tarefa de buscar uma filo-sofia: amor à sabedoria é o alicerce do primeiro castelo fustigado no sonho silencioso do deserto em harmonia. Não se cava o fosso das lamentações, nem o muro das proteções: habita-se um lugar qualquer, no vazio do tempo, para deixar a vida seguir seu curso no formato de oração. Valei-me toda a caridade derramada sobre os passos da fé. Fé? Valei-me toda ela, pois o deserto se afasta daqueles que se aglomeram no centro do próprio círculo.
                            A mão é dupla: não dúbia! Na dúvida, cerque o canteiro da paz com meditações diárias e jejum de ostentação. No final da parábola não contada, a montanha seguiu o Mestre e submergiu com Ele entre nuvens de pão. O caminho fez-se claro, abundante e carregado de emoção: genuíno sentimento que antecede as teias férteis na trilha da evolução.

                          Passageiros em mão dupla: carimbem o bilhete da oração. No silêncio do deserto, no deserto do silêncio, limita-se a plateia, se ganha introspecção.

domingo, 11 de maio de 2014

CHEGA...

SOBRE O GÊNERO HUMANO:
                                          CADÊ O HUMANO DO GÊNERO?


                                                             “Toda ação humana, quer se torne positiva ou negativa,  
                                                                depende de motivação.”
                                                                     Dalai Lama

                                Nas preces dos que choram a barbárie, ou nas lágrimas dos que pedem por justiça, ou na injustiça dos que sucumbem ao peso dos fatos, não há trégua para a dor: ao homem é dado sentir e sentir é uma experiência solitária. Tão solitária quanto o olhar de quem carrega o fardo da consciência destituída.
                            Seres debatem-se na queda da virtuosa dúvida: humanos? Humanos seres? Estes? Aqueles?  Aqui e ali, traços de um gênero em despedida. Profunda queda esta que tramamos para a alma abalada: calada, parte sem guarida! E a despedida? Longa ferida...
                              O corpo cai. Soluços não chamam os anjos. Partiu-se a esperança em cacos descoloridos. Fere-se a voz. Um grito de socorro não alcança a tepidez do martelo solto: martela-se o cunho da justiça civilizada. Pelo chão sujo, mãos voluptuosas perseguem a lágrima ensanguentada! Mais um sorriso morreu na calçada. Quantos ainda rondam a escura pena da justiça destravada? Que pena? Aquela que escreve com o punho macabro do egoísmo insano? Ou a que atravessa as ruas da cidade para afundar em terreno estranho? Pena! O soluço não cala o grito. Nem um pedido suspende o atrito: a cabeça rola em desvio do chão.  Era um não! Não! Pião das palavras lançadas, o preço da hora errada. Morre a mãe por destino não seu. Matam o menino, pequeno Romeu.  
                           Estranho o terreno que pisamos sem desgrudar a cabeça das enganosas pegadas vermelhas. Manchas. Manchas atravessam-se feito flechas de aço quente e o dia volta a desenterrar mais um, mais outro. Desconforto. Mundo torto. Homem morto. Um. Dois. Três. Não conte, passe a vez. Choram anjos e não anjos a descida do além. Disseram amém! Para quem? Ninguém! O cortejo abandona o átrio, era o pátio de alguém.  
                           Doem os joelhos dos penitentes. Há quem aguente? Somos gente! Gente do tipo que sente! Senta? Não tenta! Inventa, inventa um jeito de fazer que faz e segue: a vida? Faz tempo, muito tempo ficou atrás.  Não se compraz!  Audaz, cede o lugar para o homem que olha o céu: azul, azul... dai-me a paz! Dai-me a paz de todos os motivos e sacrifícios. A guerra começou abaixo da nuvem cor-de-rosa, subiu a escada da polifonia, falsa analogia. Não era ela! Não era ela! Várias vozes, nenhum sujeito. Todos sem peito, ou direito de dizer: CHEGA! CHEGA! CHEGA!
                       Chega!  
                       Do amor voltou o eco. Vai ao teto, desce ao chão, procura o lugar quente, que seja gente, uma semente...
                                    “A responsabilidade  de todos é o único caminho para a
                                      sobrevivência humana.”

                                     Dalai Lama

domingo, 4 de maio de 2014

LOAS

CAÇANDO O AMOR A UNHA... (primeiras considerações)

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” (Machado de Assis)

_ Casamento dói?
_ Que pergunta sem noção, filha!
_ Dói, ou não dói!
_ Filha! Sem graça falar assim de algo tão sério!
_ Então, dói!
_ Você não sabe do que está falando!
_ Mas, você sabe!
_ ...

                                    Quando a prosa atravessa as incorpóreas alamedas da poesia, os versos encolhem-se diante da aguda força do acontecimento linguístico. Afinal, fatos são fatos e a poesia, bem... a poesia pouco ultrapassa a compreensão estética de alguns abençoados sensíveis - talvez mais sensíveis do que a própria pena que carregam por sê-lo - e se mostra sem mostrar-se, possivelmente contrafeita de sua natureza frágil e intangível. Obviamente, estas são justificativas grosseiras que intentam estabelecer uma fronteira factível entre o sentido e o expressado. Tolices de uma tarde de domingo. Exercícios sem fundos na guarida do livre pensar. Livre? Nem livre e nem puro: grande, denso e profundo é o caldo onde se misturam as ideias que acreditamos alimentar acerca das manifestações vividas e absorvidas. Nem um nem outro: jogo de palavras amalgamado com a ironia da provocação diante de quadros esquadrinhados pela realidade retórica.  Pinturas sem fundo quando o assunto não se delimita em área sustentável. Casamento e religião não se discutem. São atos politicamente marcados pelo sistema que os consome, ou sustenta, ou institui, ou... funda e afunda!
                                     Atire a primeira frase aquele que já se tenha deleitado frente à sonoridade ofuscante de uma poesia sobre o casamento. De-lei-ta-do! Nada a ver com dei-ta-do! O particípio é uma cruzada de pernas que protege quem diz, uma vez que todas as possibilidades são aceitas, desde que provadas em contrário na elegância das escarpas estatísticas.  E por tratar-se de escarpas, fazem-se presentes em todos os átrios do comportamento humano. Seria a poesia um elemento tão diáfano quanto o fugaz sentimento que a ultrapassa na métrica dos versos calculados? Ou somos nós, humanos, facultados de ínfima capacidade para dedicar loas ao lado concreto e repetitivo da vida comum? Seria o comum da vida material não substituível pelos lânguidos movimentos das estrofes enviesadas?  O que seria de nossa alma efêmera sem a mão da subjetividade metafórica, dos desvios figurados, das sílabas cantantes, das interpretações ricas? O que seria do casamento sem as suas regras para serem deliciosamente subvertidas a favor do ostracismo de um e de outro? O que seria da religião enquanto instituição se os fiéis seguidores descobrissem a inusitada instância da fé?
                                  Nego-me a concluir este texto... por enquanto!


O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade)