terça-feira, 27 de dezembro de 2016

PISANDO EM OVOS



A DITADURA DOS CONTRASTES

- o politicamente correto e o silêncio dos fatos –

Você não sabe a energia que reside no silêncio.”
 Franz Kafka

Em confissão, preciso invocar as forças da serenidade para livrar-me do im/possível conflito entre o que sinto e o que desejo dizer. Na minha verdade, nem sei se desejo dizer: pesa-me o desejo de mastigar o silêncio consciente, aquele que tem olhos para todos os lados e uma patética bocarra de arrependimento. Não consigo!

Por que se espera de todos nós o mínimo de coerência na defesa de uma ideia e por que as palavras carregam pianos de cauda longa? O contraste começa na origem do argumento e tenho sido infeliz nas conjecturas que traço no entremeio dos fatos. Se nada é o que parece, o chapéu considerado por Freud ao dizer que, “... às vezes, um cachimbo é apenas um cachimbo...”, poderia ser um panamá. Na incerteza de meus ouvidos mentais, acredito que talvez Freud tenha apenas desejado dizer outra coisa. Assim é! 

Passei uma semana mastigando leituras, pesquisas e pensamentos para discutir aqui uma visão (excedo na precaução em evidenciar que existem outras visões sobre o mesmo tema. Tão óbvio e tão perigosamente necessário!) do politicamente correto e da nova/velha ditadura das palavras.  Dizer nunca foi uma expressão democrática, mas os conflitos da contemporaneidade parecem aumentar a fragilidade da cesta de ovos: fala-se andando sobre eles! E posso estar correndo riscos ao invocar esta metáfora. Ovos? Por que não outra figura? E daí o peso do silêncio.
Engulo pregos. O provável – factual - excesso de discursos dentro dos discursos e a inação frente aos fatos é uma incoerência. Não? Posso escrever sobre a devoção às ideias de igualdade, mas não posso tomar atitudes diante do que considero injusto? Na ordem dos discursos, se a legitimidade não me coloca no grupo dos reclamantes, estou fora do lugar do reclame? Perco-me! 

Os fatos, naturalmente, encerram vários olhares, recortes, razões, e amarram-se à formação ideológica de cada sujeito social.  Óbvio! Enfatizo a repetição da palavra “óbvio” pela possível emboscada semântica que a palavra “claro” carrega. Contudo, na antonímia da vida sou obrigada a conviver com o fato não ficcional de um menino negro sendo revistado dentro de um supermercado pelo claro e truculento segurança treinado no colorismo da selvageria. E tenho de lidar com o espancamento do senhor idoso, esfomeado e destituído de voz que roubou uma maçã. Tudo pelo mesmo segurança, no mesmo mercado e na ordem cronológica citada aqui. Ainda, devo saber que a intolerância mata! Basta ler as últimas notícias e sofrer de indigesta consternação.

Não passei no teste da raiva, particular raiva diante de minha espécie humana e ainda defendo os discursos sem ódio: in/coerência! Estou em franco desequilíbrio!
A complacente incapacidade humana de sentir compaixão sublinha conceitos de falsas lutas. Pregos retóricos calafetam o caixão do silêncio e o recobrem com ovos... quebrados!

Ivane Laurete Perotti

ALEGRIAS



O AMOR CELEBRA ANIVERSÁRIOS... E NÓS COMEMORAMOS A VIDA!
 


domingo, 18 de dezembro de 2016

INFIDELIDADE



FADIGA MORAL

- morre-se um pouco a cada dia enquanto o sol não se põe para todos -

“Eu passei a acreditar que o mundo inteiro é um enigma. Um enigma inofensivo que é feito por nossa própria tentativa de interpretá-lo, como se houvesse nele uma verdade subjacente”. Humberto Eco

                                      Se as verdades são subjetivas, e creio que o sejam, como defender a primordial frugalidade da vida humana?
                                     Em algum lugar das paisagens cotidianas venho perdendo o olhar de surpresa. Sobra-me o espanto dolorido de pensar que estou ultrapassada pelo susto que teima em deixar-me colapsada. Não quero aceitar os números da violência sangrenta nas cidades brasileiras. Não quero ver as reportagens sobre as guerras: policiais versus manifestantes, manifestantes contra manifestantes, operações nas favelas contra o segundo maior estado em governabilidade de fato – traficantes estruturados em governos paralelos, governos paralelos validados como traficantes políticos de gananciosa competência -, corrupção pandêmica, crianças de Allepo, crianças do mundo perdidas em valas sociais de longo alcance, homens e mulheres descredenciados de sua intangível condição humana.
                                 As fomes plurais derrubam-me na sarjeta da esperança. Uma ideia plantada pelo empirismo baila diante de meu espírito: fim dos tempos! Não me atenho a conhecimentos práticos nem discuto as bases do senso comum, mas desejo não permanecer na sarjeta. Uma alavanca, por favor!
                                 Houve um tempo, não faz muito, acreditei que bastava ser coerente. E não sabia o poder de ilha que a coerência implica. Por isso, defendi que as correntezas da vida poderiam ser validadas pelo conhecimento partilhado: “Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.” (Foucault). Sinto saudade do homem Foucault que jamais chegarei a conhecer. O ser pensante por trás das ideias projeta-me um sujeito solitário, ou pelo menos, fatalmente incoerente com o mundo em seu entorno. Quantos solitários perambulam ao meu redor? Quantos Foucaults caminham ao meu lado e não os conhecerei a tempo?
                              Desejo os sonhos de Ícaro... mas, sob que outro sol eu voaria em asas movidas a cola e papel?
                         Não voo! Aterrisso diante do inevitável choque da realidade em evolução. O abismo entre a velocidade do tempo e o tempo da velocidade não são recursos metafóricos: somos todos prisioneiros da subjetividade humana.
                        Validada pela infidelidade filosófica, desejo beijar os pensamentos de todos os seres que, além do desejo, acreditam na educação como uma ponte para fora da sarjeta social, cultural, econômica...
                        Estou fatigada e envergonho-me disso. A fadiga moral carrega um peso atemporal, o que não justifica o meu cansaço. Queria começar de novo...
                         P. S. A quem interessar possa: paga-se em beijos pelo resgate da surpresa!

Ivane Laurete Perotti

domingo, 11 de dezembro de 2016

PREMIAÇÃO


ENVERGADURAS DO VERBO



POR UM FIO

- a vida escorre no vermelho: falências anunciadas  -

É um império
essa luz que se apaga
ou um vaga-lume
?”
 Jorge Luís Borges

                     Acostuma-te, dizem. Resigna-te à ditadura das circunstâncias. Curva-te diante do inalterável.
                    Anda em prévio luto pela volubilidade da vida: instável dádiva. Milita o avesso da esperança e não cries expectativas infundadas: nem sobre a existência, nem sobre a qualidade dela. As escolhas são impraticáveis no plano da realidade crua. Dizem...
                   Aprende desde cedo sobre o teu ínfimo lugar: és a roda que movimenta o consumo das inverdades e sequer saberás o preço devido pelo conformismo. Jamais sentirás que “... Tu és o dono de um espaço cerrado como um sonho.” (Borges) e a vida te deu o direito ao pertencimento.
                   Tu poderias falar, mas acreditas que te calam a voz. Tu poderias criar, mas não vês outra senão a forma acabada. Tu poderias pensar, mas esgotas as possibilidades de sincera vontade. Dormes o sono profundo da dessensibilização.
                    Pronto! Eis a escrava condição do sujeito situado fora do círculo mágico da vida, um dos conceitos para as múltiplas faces da morte. Se “A morte é uma vida vivida...” e a vida é “... uma morte que vem.” (Borges), o poeta ainda vive. Imorredoura é a vontade. E para ela, a vontade, bastaria um pronome: “E mudo até o tratamento: por que vós,/tão gravata-e-colarinho, tão /vossa excelência?/O você comunica muito mais/e se agora o trato de você,/ficamos perto...” (Carlos Drummond de Andrade).
                    Antes que o tu se recolha por completo e a Vossa Excelência retorne para o lugar de onde veio, vaga-lumes a esmo desvestem a casaca do império. O tempo do bom senso pisca ao longe e a Prece do Brasileiro do sempre Drummond reveste-se de atualidade. Uma crônica frente à crise anunciada: Viva o Povo Brasileiro! Aí, com o perdão literário, foi a vez de João Ubaldo voltear com estilo as nossas raízes.
                 Borges, Drummond, Ubaldo... homens de peito! Histórias de vida e morte. Morte em vida. Vida na morte, sem banalização
                 Envergaduras do verbo viver e morrer são figuras de linguagem na corda das palavras. Onde vive o brasileiro, vivia também a sua vontade! E por vivia, vai uma metonímia de sobremesa para o antepasto das massificações: ...tu poderias falar, mas acreditas que te calam a voz!
Ivane Laurete Perotti
                
                   
                    
                                                                   


domingo, 4 de dezembro de 2016

MORADA DOS VENTOS



FLORES DE PANO

- também entre as pétalas guardam-se espinhos -

“Não se pode estudar botânica com flores artificiais.
 John Sinclair

                                     No caminho dos gigantes, apressadamente, as pedras rolam na antevisão do esmagamento. No caminho dos miúdos, as pedras agigantam-se prenunciando a pisada. Na trilha dos medianos, as pedras são montanhas escarpadas: foco de justificativas para o não avançar. E nas entrelinhas deste quadro, outras escalas da vontade pisam a terra da realidade. Massiva utopia. A vontade é um país de quase ninguém e os pés que a pisam, pisam-na em desforra à ilusão. Assim é. Assim permanecerá até o dia que uma flor tornar para si a consciência de sua insustentável beleza: frugal estética da criação perfeita.
                                  Falar do quê? Das perdas que se coroam de flores e lágrimas? Das vitórias que migram as flores para o vaso da perecível felicidade? Da rotina sem brilho que acomoda as flores de plástico no bolso do amanhã? Falar sem dizer que “A felicidade não é um ideal da razão, mas sim da imaginação.” (Immanuel Kant)? Improvável!
                                   Ventos de origem incerta fustigam flores. Nem todas elas encobrem os espinhos que, afiados, perfuram a capa da rajada de ar. Não se pode impedir o nascimento de espinhos, não se pode remendar o vento: ambos convivem em perfeita relação de poder no canteiro da natureza esperta. Às flores, a incompletude do indelével curativo para as almas apedrejadas. Ao vento, a força da anônima volição.
                                     Pedras e flores não enterram a história sob camadas de adereços, nem tropeços, mas aconselham a vencer os ditames da artificialidade. “Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores...” (Cora Coralina).  
                                     Gigantes da vontade, miúdos do entendimento, medianos por sincronia, somos todos pedras e flores, vento(s) e espinhos, rastros anônimos de maior ou menor ímpeto da ilusão. A relação estética fica por conta do espelho da alma, enquadrado longe, bem longe do jardim da realidade.  A realidade é simples e isto apenas.” (Mário Quintana)
“Quero é ficar com alguns poemas tortos/Que andei tentando endireitar em vão.../Que lindo a Eternidade, amigos mortos,/Para as torturas lentas da Expressão!... (Mário Quintana)
                               À alma das flores que se esforçam para subir acima das pedras, além da morada dos ventos, longe do bem e do mal.

Ivane Laurete Perotti