segunda-feira, 31 de outubro de 2016

IMPERTINÊNCIA



REDE DE INTRIGAS 

                                  perguntas impertinentes

                                 _ Se o mundo tivesse fundo, onde depositaríamos os votos da nulidade? 
                               A questão surgiu sob um banco qualquer. Aquele tipo de banco que serve aos pássaros e aos homens enquanto aguardam a passagem do destino: “Olá!... esperam por mim?” 
                             Pássaros e homens não respondem à obviedade: sucumbem diante dela. De quatro, mesmo sendo bípedes de nascença e evolução, sucumbem. Pés ladeados, asas cortadas rente à carne, deixam morrer as vozes de apelo: Nem todas as verdades são para todos os ouvidos.” (Humberto Eco)
                             _ Se o mundo tivesse tempo, por onde escorregaria o bojo da decência?
                            Decadência! Feito a madeira de um banco qualquer, sob as intempéries antecipadas, jaz uma sepultura: “... aqui morreu a sombra de um sonho. Do sonho fizeram um pássaro. Desejava ser um homem.”
                            _ Se as guerras são fraudes contra a ingenuidade da paz, acionar o Criador seria um postulado legítimo?
                            Como se o banco encerrasse em si mesmo a praça vazia, pássaros procuram trilhas e descobrem horizontes; o homem descerra asas e perde o caminho. “Justificar tragédias como vontade divina tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas.” (Humberto Eco) E lá se vão décadas de perdas irreparáveis.
                             Em bandos, olhos pregados no céu escarlate, peregrinos da humanidade erguem fronteiras de falaciosa necessidade. Árvores esparsas aproximam ramas do banco desocupado. Flores esperam a vez. A natureza suspira: ondas de apaziguamento tomam forma de ovelhas sem pastor. Onde mora a razão das causas perdidas? O Criador tirou férias!
                             Se a paz é outra forma de guerra, o que sobra ao homem e aos pássaros? A volúpia da esperança! Ou a força de uma pergunta!
 Quando os homens deixam de crer em Deus, não significa que não creem em nada: creem em tudo.” (Humberto Eco)

Ivane Laurete Perotti

                           

domingo, 23 de outubro de 2016

FRESTAS


TÃO CEDO


PELO BEM QUE NADA TEM



A POESIA QUE NOS SUSTENTA

- sem propósitos deliberados, a poesia esconde sentimentos –

“Fossem meus os tecidos bordados dos céus,/Ornamentados com luz dourada e prateada,/Os azuis e negros e pálidos tecidos/Da noite, da luz e da meia-luz,/Os estenderia sob os teus pés...”
William Butler Yeats

                                Descansar da vida é um desejo. Querer um amor, uma necessidade.  Viver o tempo da tristeza, uma obrigação. Garimpar a felicidade, um propósito. Deixar morrer as certezas, uma consequência do estar no mundo. Assim se desdobra a consciência do homem vivo: uma linha de sentimentos viajantes no tempo e na esfera das emoções.
                                 No descanso da vida, a vida bate à porta da inconstância. O aríete da incompletude chama de volta tantas vezes quanto os olhos fecham as taramelas da visão.
                                 No desejo do amor, a necessidade cria ilusões de poder e submissão: nenhuma compreensão da natureza livre do pertencimento.
                                O tempo da tristeza não paga aluguel. Inquilinos sombrios apossam-se de espaços entulhados pela culpa, perda, afastamento, e solidão. Insistentes, os moradores indesejados criam apegos e desativam os sentidos do deixar ir. Constroem a eternidade da morte em vida.
                                Garimpeiros da felicidade trocam moedas, títulos e heranças do saber, ter, sentir e alcançar. Acionistas da diversidade creditam ao destino o estado de júbilo. Investidores das causas pessoais assinam declarações de gozo em parcelas de emoções dúbias. Descrentes jogam à sorte o arbítrio da satisfação. Solitários plantam rosas. Poetas servem no prato das linguagens as frações do contentamento. Os céticos descartam a euforia que lhes chega sem avisar.
                                 As certezas morrem aos pés da sabedoria, mas ao seu funeral não comparecem os interessados.
                               Vivem e morrem os homens nas frentes de batalha pelo “agora”: inalcançável momento de eternidade.
                                Sobrevive a poesia no descanso da vida, útero fecundo para os embriões das emoções.
                                 Estou grávida de versos imaturos...

Ivane Laurete Perotti
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domingo, 16 de outubro de 2016

BIRRA


ABRIGO


SORTE


POESIA SEM NOME... AO AMOR QUE NÃO ACABA



VISLUMBRES INSPIRADORES

- fragmentos da natureza entre a vida o homem –

“Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa com janelas de aurora e árvores no quintal. Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.” Manoel de Barros

                              Quando as vozes suavizaram-se, finas cordas desceram do teto abobadado. Não eram muitas. Suficientes para prender o grito e amarrar a vontade. Bastantes para dar lugar ao teatro de lugares marcados pela força da inspiração.
                             Invisíveis ao plano externo, as cordas ocupavam o centro da grande cena. No átrio, um cometa ameaçava romper os lábios da proteção sonora. De onde surgira? Duplas caixas infláveis localizadas no interior da cavidade torácica chamavam para si a responsabilidade do feito. Ambas trocavam movimentos: surdo e sonoro era o resultado do empuxo e da explosão. Mas a voz que se desprendia iniciava outro caminho: uma jornada de liberta aspiração. E do encantamento pessoal brotava um sopro de sabores brilhantes. Pois, ... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós...” (Manoel de Barros). O momento requeria olhar de mágico, mãos de criança, olhos de pássaros e coração de semente madura. Todos somados à frente das cortinas abertas.
                          Do auditório quase vazio, um homem levanta o desejo de compreender a razão da beleza e da ausência dela. Faltaria motivo, em sua leitura sábia e delongada, para uma composição de vozes desvozeadas. Faltaria modelos de feitura, performance ordenada e foco nas possíveis alterações das cordas, dos lábios, dos pulmões e demais componentes da peça.  Conceitos amalgamados em cursos invertidos estariam prejudicando a tradução dos sentidos. O papel das metáforas estaria relegado ao teto e não ao solo, às cordas e não à voz. Enfim, para o desejo do homem, outra cena deveria compor o palco das inspirações. Tal como uma ordem de primeira necessidade, de pronta aceitação, de fácil interpretação diante da massa de ar que empurrava o cometa da sorte para depois dos lábios apertados.
                       Eis que a magia não morrera de véspera e colocou-se de prontidão; mãos de criança levaram à boca velhos dedos de unhas gastas e as cordas tensas travestiram-se de pregas vocais. E então se ouviu o coro das almas vivas. Uma vez que, um pouco de voz não faria mal à audiência, pois a poesia descera do céu e fizera-se homem, natureza, e beijava as flores da consciência livre.
                      Dizer da beleza e da vida não é dizer do que acontece entre a estética e a percepção. Dizer da beleza da vida é perscrutar a voz que ecoa em sentimentos e emoções, nem sempre prontos, nem sempre do lado que se lhes deseja.
                      Versos habitam a borda dos abismos da vontade.

Ivane Laurete Perotti

domingo, 9 de outubro de 2016

ATO


VAGO OLHAR


IMORREDOUROS


AO FAZIMENTO DAS LETRAS



SERU MANO

- lições de humana sabedoria colhem histórias nas páginas da realidade –

 “Nas palmas de tuas mãos leio as linhas da minha vida.”
  Cora Coralina

                                         Um menino procurava borboletas entre as folhas amarrotadas do pequeno caderno. Despretensioso, espiava por detrás das letras e das manchas bruxuleantes deixadas pela borracha de apagar. Os sulcos do lápis preto serviam de farol aos olhos curiosos: caminhos paralelos às linhas desenhadas de antemão. Era franzino; a sorte lhe cobrava débitos e a tenra vida antecipava-se em dificuldades severas. Procurava borboletas. Defendia-lhes o direito à presença na sala congestionada. Sinalizava o possível encontro com suspiros de tocante exultação. Borboletas... borboletas... borb...
                                         Fervorosamente, um franzino menino procurava borboletas. Em ângulo de total entrega, movia uma a uma as folhas carimbadas. Movia e espreitava. Espreitava e movia. O excesso de cautela ricocheteava nas paredes lisas da sala de aula. Na concentração de um, a distração de muitos. Caberia ao momento tal empreitada?  
                                        _ Fulano, o que tanto procura? – indagou a professora, em voz de poderoso alento.
                                        _ Shhhhhiiiiii.... não fale alto, pró! As borboletas têm ouvido largo.
                                        _ Hummm! E é? Onde estão elas?
                                        _ Aqui... ali... não sei bem! Mas, algumas delas se esconderam em meu caderno. São amarelas e azuis, e também são bem magrinhas. Tem borboletas em seu caderno, pró?
                                        ____... não tenho certeza, eu ainda não as procurei. Podemos fazer isso, todos juntos. O que acham?
                                       Antes que os colegas acenassem com um sonoro sim, o menino, que deixara de ser “um”, sinalizou com os dedos finos o silêncio pretendido e justificou:
                                       __... elas têm ouvidos largos. Shhhhiiiii...
                                       O que poderia ter gerado um evento pedagógico de catástrofe individual deu início à sinestésica poesia: folhas dançavam diante dos olhos atentos. Borboletas coloridas voavam de uma página à outra e procuravam pelo caderno da inspirada professora. Muitas se esconderam entre o diário de classe, cobriram o plano de aula e até pousaram no gasto quadro de giz. Crianças procuravam borboletas na sala de aula encantada pela competência lúdica da sábia mestra.  Logo a escola inteira folheava cadernos e livros em busca das pequenas lepidópteras. A variedade dos insetos não atrapalhava a poética investigação. Nem a profusão de cores confundia o novo achado: muitas borboletas folgavam mostrar-se diante da respeitosa curiosidade das crianças.
                                    Para registrar a tarefa que se tomara de produtiva evolução, a professora solicitou às crianças que escrevessem no caderno uma palavra que pudesse guardar, mesmo que só um pouquinho, a mágica investigação. Mais do que depressa as crianças escreveram. No caderno do menino procurador, lia-se:
                                  “Seru mano...”
                                  Não cabia à professora, naquele momento, qualquer contradição. Pois, entendia ela que: “Poeta não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso...” (Cora Coralina).
Este texto é uma homenagem à Stephani Milagre Dal Zuffo, e através dela, aos profissionais da educação e aos profissionais do aprendizado: aos alunos e aos professores, às eternas crianças escondidas em cada um. 

Ivane Laurete Perotti