quarta-feira, 28 de agosto de 2013

ENTRE A PAIXÃO E A LOUCURA... um conto:



ÁRVORE DO DESTINO
                       
                                  Feito aquele amor que nasce quando as folhas do outono estão caindo e um misto de coisa nova e história antiga se misturam embriagando os olhos dos que varrem o chão com a alma descabida de rumo e de sumo, Lineu avistou um colorido diferente na estradinha que levava à escola. Na primeira olhada, pensou ser uma "visage" de início de tarde, quando o sol ainda atravessa a terra com a parte mais alta de sua coroa. Apertou os olhos pequenos para ver melhor, mas o colorido teimava em se aproximar do caminho que ele também tomara. Lineu conhecia aquela cor, mas não os movimentos ondulantes que se aproximavam em cadência musical. Sentiu um aperto bom esmagar o seu estômago enquanto um calafrio fazia os seus testículos enrugarem-se intimidados.
                             _ Êta! Ferro! Que... que...
                             O que seria aquela "ondulância" esvoaçante que ainda tinha dois olhos, uma boca carnuda feito coração de pomba e um... um nariz de... um nariz de..
                             _ Boas tardes!
                             E falava!
                             _ Bas... bas... tarde!
                             Certamente ela não ouvira o cumprimento cuspido com esforço de gago cego, de perneta medroso, de filho de uma égua embasbacado. Mugira! Mugira algumas sílabas para aquela deusa dos além.
                              _ Bas... bas... bas... o que ela vai pensar de mim!? Ai! Pelamordedeuso!
                              Lineu, acostumado na convivência com as poucas moças do vilarejo, moças essas que eram  primas dele em algum grau, encontrava-se despreparado para aquela formosidade andante. E, que andar o quê! A moça flutuava sobre as pedras do caminho, nem encostava no chão os seus pés de... de...
                            _ Êêê! Só podia sê "visage"... tô prego! Tô prego na alma do coisa ruim que mandou me atentá! Ê!
                            Entre assegurar-se que aquelas "curvulências" todas ainda se mostravam pelo caminho aberto e benzer-se em cruz três vezes para cada lado, Lineu titubeou indo e voltando a cabeça para ver mais um pouquinho!
                            _ Assanhado! Te arrecolhe, primo!
                           _ Pri... prim...prima!? Qué me enterrá vivo?
                          _ Vivo você tá inté demais! Vira esses... esses buraco que parecem duas brasa prá cá! Tu tá pegando fogo, meu primo! Acarme a carne! Ela não é para o teu bico!
                          _ Voc... voc... você também viu?
                         _ Tá gago além de timbé, primo. Tu tá variano ou tirano uma cas minhas fuça?
                         _ Fuça? Que fuça, Donizete? E eu não tô timbé não, minha cabeça tá muito da boa.
                          _ Dá prá vê!
                          _ Vê o quê?
                          _ Tua cabeça, Lineu! Tua cabeça!
                          _ Mas é claro! Carrego  ela aqui nos ombro faiz tempo. Mas... você tamém viu?
                         _ Depende!
                         _ Você viu aquela formosidade de curvulâncias arredondadas prá mais de... viu?
                         _ Eu vi uma moça muito jeitosa passando por aqui!
                         _ Êêê!!!
                         _ Baxa o teu isquero que ela não tá oferecendo palha prá dobrá.
                          _ Eu... eu...

                          _ Eu, eu, eu! Desempaca, primo! Tu é homi da roça, mas não é bocó!
                         _ Eu... eu...
                          _ Ai! Agonia! Vô me indo. Depois tu me alcança, se quisé, né!
                          Demorou  até Lineu dar conta de voltar para o lugar onde estava e retomar o caminho. E ia para onde? Ai, a vida cheia de astúcia surpreendia homem despreparado! Ai! Que descuido! Passara a moça e perdera a companhia da prima. E ia para onde?
                          Aquele instante superior em sua pacata vida de roceiro promissor fez estragos profundos. Arremessou-o contra as plantações em preparo, fazendo-o rodopiar feito pião de louco. De  lá Lineu não sabe quando saiu, se saiu. Deu-se o direito de imaginar e imaginando deu-se todo a tudo. Viveu o momento luxuriante do aroma de noz moscada que grudara em seu pescoço, ouvia e ouvia outra vez a voz que aumentara as palavras para além do cumprimento. A mulher de sua vida viera até ele e se entregara feito flor de maracujá. Abrira-se para que ele pudesse vê-la todinha e pelo tempo que desejasse o desejo de tê-la ali, grudada em cada pelo de seu dorso desnudo. A plantação foi regada pelo mais doce perfume fundido pelas duas almas em fogo de carne, em fogo de espírito, em fogo de sangue quente de homem saudável e mulher preparada.
                    Lineu saboreava aquela mulher de cima a baixo com a língua inchada pelo sabor doce que molhava a alma faminta.
                    O sol veio e gostou daquela festa de gente grande e convidou a lua para espiar. Tímida e amarela, a noiva da noite argumentou estar em quarto minguante e recolheu-se para não desejar olhar. Estrelas fizeram chuvas ao redor da plantação. Quem registrou o fenômeno vindo do céu certificou-se das profecias finais. Deveriam ser boas, porque estrelas não caem sem pedidos de fortuna e muita saúde. A mesma saúde que Lineu esbanjava nas partes da mulher, sua mulher agora, mulher dele, só dele e para ele.
                     A mulher que Lineu esperara por tanto tempo corria leve e livre  fazendo com que a pegasse antes de encontrá-la. Escondia-se e o chamava a encontrá-la pronta, aberta para receber o seu peso e o seu amor. Queria mais, e mais e mais! O milharal deitava deliberadamente diante da força daquele fogo preparado só para ele em tantas noites de solidão casta. O chão cobria-se com os dois corpos entrelaçados, subindo e descendo junto com os movimentos que saíam encadeados, estrepitosos, coloridos pelas vozes embebidas em prazer puro.
                     Outra estrela caiu em chuvas abundantes sobre o milharal.
                     As pequenas gotas quentes e brilhantes rolavam livres pela terra amassada pelos pés de Lineu e...
                    Uma delas foi se esgueirando para muito, muito perto do pé chato de Lineu. A ânsia da pequena gota de luz acendeu algum lugar na semiconsciência daquele corpo de homem insaciável. Dor? Calor? Foi o suficiente para clarear o caminho interrompido e ainda não sabido. A quantas ia a hora? Onde fora a mulher... onde estava aquela que... porque ela o deixara ali, tremendo, molhado de suor ?! Que voltasse! Nunca mais a deixaria partir. Nunca mais!
                       _ Primo? Ô primo! Tá todo mundo procurando você! Cadê suas roupa, primo?! Primo?
                      Despido de todo o juízo, Lineu não se deixou encaminhar de boa vontade. Eis que para mais da metade da família acorreu para tirá-lo do meio da plantação de milho que implorava socorro. Não! Era a voz de sua mulher amada pedindo que a deixasse ficar! Era ela dizendo que não o deixaria sair sem que fosse junto com ele, para onde quer que fosse, iria junto para sempre. Era o destino dos dois agora feito um só! Cadê ela?
                       _ O primo tá variano das ideia. Temo que levá ele para casa antes que faça mais estrago na plantação.
                       _ Com quem ele tá falando?
                       _ Não sei, ele tava aqui sozinho quando eu cheguei.
                       _ Será que alguém fez malvadeza com ele?
                       _ ...
                       _ E inda tá cos documento tudo de fora!
                       _ Se fosse só de fora... tá em pé!
                       _ O primo é bem abençoado...
                       _ Chega! Abençoado ou não a gente precisa tirá ele daqui!
                       Lineu foi levado à força para a sua casa. Com a ajuda dos que se apresentaram, deram-lhe um banho de alecrim com mastruz e o colocaram para dormir. Quem sabe se uma noite de sono não o deixasse novinho em folha? Ou em roupas, pelo menos, porque o estrago entre as primas alvissareiras estava feito. Não se falava de outra coisa! O tamanho dos documentos de Lineu caiu nas graças das mulheres que já cogitavam os graus de parentesco que os distanciava.
                        Na manhã que recebeu Lineu um pouco mais calmo, o café foi tomado rapidamente, sem qualquer comentário sobre a noite que se sucedera.
                        _ Fio? Tu vai trabaiá com teu pai lá na casa da tia?
                        _ Com o pai? Não mãe! Eu tenho um encontro e não posso falta. Inté! Bênça!
                         _ Be... bênça.... fio!? Lineu?
                        Lineu não ouviu a confirmação da bênção. Tocava o espaço que o levaria a encontrar a sua amada outra vez! Ela voltaria para encontrá-lo ali, onde os dois amarraram as suas vidas para todo o sempre.
                        Encostado na frondosa figueira que ladeava o caminho que levava à escola Lineu a viu chegando. Outra cor, ainda mais luminosa do que antes. Os mesmos passos, o mesmo cheiro de noz moscada ralada na hora, a mesma boca...
                        _ Boas tardes!
                        _ B... bas... bas...
                        Pela segunda vez Lineu foi tirado do meio do milharal já em estado de rendição. Por culpa e obra suada das boas línguas, muitas primas acorreram para saber do primo.
                        _ Viemo ajudá!
                        _ Ele tá tendo alucinação no milharal outra vez?
                        _ É? Peladinho como a tia o recebeu?
                        _ Que primo abençoado!
                        _ Aff! Inté parece que Deus exagerô!
                        _ Que desperdiço... esse milharar não é um bom lugar para...
                        _ Tomem tento, meninas! Quando um homem perde o juízo, quarqué lugar é lugar.

                         Uma semana inteira se passou com o corre e acode o Lineu no milharal. Uma semana de muita notícia no vilarejo que nada tinha para contar. Mas notícia mora em pé de vento brabo e das redondezas apareceram outras primas de Lineu, muitas esquecidas do digno parentesco. Todas se colocavam para ajudar e olhar.
                         _ Êita! Que coisa das mais maraviosa...
                         _ Nunca vi inguar!
                         _ Deve de sê encantamento da lua...
                         _ Deu vontade!
                         _ Sabia que o pobrezinho ainda não... não...
                         _ Quem disse?
                         _ Os  primo, ara!
                         _ Tão enciumado! Da mesma famia e com tanta diferença.
                         _ E não é?
                         _ Me contaram que o irmão menor é ainda mais abençoado.
                         _ Impossível! Impossível! Esse é um retrato de artista!
                         Lineu foi levado para a cidade e por lá ficou uma semana com um  tal médico do sono.
                         _ Fez dormir, fez?
                         _ Foi o que a prima contou!
                         _ Tadinho! Com tanta saúde...
                         _ Vai entendê!
                         Ninguém entendeu o silêncio com que trouxeram o moço de volta. Quieto e pálido, mostrava ter emagrecido, olhar de quem estava em outro lugar.
                          O médico receitara muito descanso e bons passeios pelos arredores da cidade, a fim de que Lineu recuperasse a sanidade. Coisa de moço novo. Nada que merecesse muito cuidado.
                         Com os dias vingando entre o quarto e o quintal, Lineu aceitou estender um pouco mais os passos para além da casa.
                           Nas primeiras vezes, foi acompanhado por primas e primas que se enfileiravam para ajudá-lo. Bem que o pobrezinho precisava de cuidados assim, uma conversa sempre é melhor do que uma consulta na cidade. Custava caro, ninguém entendia o que o médico queria saber. Era tudo coisa muito simples aquela vidinha de trabalhar a terra e viver com o que as mãos levantavam.
                           Ninguém por ali carecia de nada, só Lineu que por força do desconhecido mudara a rotina do lugar.
                          Que esperassem! As primas mais antigas conheciam rezas de desencantamento. Lineu seria curado daquela desmazela de se enfiar peladão para dentro do milharal. Mas se havia uma pergunta que ninguém conseguia responder era quando e o que começara essa desavença na cabeça do moço tão bom e saudável.
                           Com o tempo, Lineu parecia ter esquecido o acometido e mesmo ainda muito calado, trabalhava com o pai na lavoura. E no final do dia, lá estava ele encostado no tronco da figueira, como a esperar por alguém que nunca viria.
                           Às vezes, era preciso que a mãe mandasse o irmão menor chamar para a janta posta.
                           Lineu obedecia. Quieto e sem muita fome, comia o que lhe colocassem no prato.
                          _ Você falou com o novo vizinho, Bastião?
                          _ Falei, mulé!
                          _ Por cortesia, precisamo chamá eles aqui prá uma boia.
                          _ É... vô chama!
                          _ Me contaram que a Dona Moça tem jeito da cidade.
                          _ É... inté parece! É uma belezura e munto inducada! Você ainda não a viu, Lineu?
                           Lineu não ouviu a pergunta e nem o rumo da conversa na cozinha depois do jantar.
                          _ Bastião... mas e se ela for luxurenta? Nóis somo tudo munto simpres! Será que...
                           _ Eu vô convidá os dois, muié. São recém-casado e tamém tão ganhando a vida na terra. Há de se entendê...
                           _ Tá bão! Então convida eles prá manhã di noiti, qui vô fazê um pato assado na canela.
                            _ Bão... bão...
                            O pato foi preparado de véspera, como manda o manual das cozinheiras que nunca leram uma receita, mas conhecem todos os segredos para agradar uma boa boca.
                           Casa limpa. Roupa trocada! Lineu foi avisado da novidade, mas cumpriu com o ritual de sentar ao pé da figueira.
                           Na chegada da visita, casal novo e bem apessoado, a mãe de Lineu, encantada pela graça da nova vizinha e preocupada em agradar, só lembrou-se de mandar chamar o filho na hora em que servia a mesa.
                            Estavam todos à mesa quando o rapaz entrou.
                            A primeira voz que ele ouviu foi:
                            _ Boas noite!
                            E mergulhou para dentro do milharal levando a frente todos os pés carregados de espigas gordas.
                            Do susto para o incômodo do feito diante de visitas tão educadas, o pai de Lineu torceu o assunto para que deixassem o menino para lá. Logo, logo estaria de volta pedindo desculpas pela falta de educação.
                            _ O médico falô num tar de "istréisse". A gente da roça nunca ouviu falá dessas coisa de hoje, mas é só uma questã de tempo.
                             O pato estava dos deuses, o molho era um milagre e pelo resto da janta rasgaram-se tantos elogios à comida de Dona Tina que a hora passou sem avisar.
                             Os vizinhos foram embora para mais do que satisfeitos. E o seu Sebastião, homem simples e de sorriso fácil, era só gratidão pelo esforço da mulher em tratar tão bem os novos vizinhos. Aliás, era essa a lei da roça. Um precisava do outro e haveria de se saber disso desde cedo, fazendo amizades para uma vida inteira.
                             Com o sono merecido daqueles que alcançam seus objetivos, os pais de Lineu só souberam que ele não dormira em casa pela manhã.
                             Foi a prima da prima de Lineu que encontrou o moço.
                             _ O quê?
                             _ Mas... como... ele...
                             _ Isso mesmo que a prima ouviu. Lineu subiu na figuera e peladinho peladinho, deu um nó de forca para ninguém desamarrá.
                             _ Jesus, Maria e José!
                             _ O que será do Bastião e da Tina?
                             _ Tão lá os dois, chorano a alma que tá ardida de dor .
                              _ Dá um dó...
                              _ E o médico?
                              _ Não chamaram o médico. Ele já tava durinho, durinho...
                              _ Mas...
                              _ É o "instréisse" prima, é o "instréisse".
                              _ Deus acuda! Deus acuda! Rapaiz tão... tão...
                              _ É... tão!...tão...
                              _ … tão abençoado!



terça-feira, 27 de agosto de 2013

PENSANDO...

PENSANDO...


PENSANDO...

PENSANDO...


PARA OS TERAPEUTAS DA ALMA

PARA OS TERAPEUTAS DA ALMA... PSICÓLOGOS DA VIDA SENSÍVEL!


PROSA POÉTICA
                             UM PONTO POR DIA...

                              Fechei os olhos e a vista alongou-se para muito longe! Não discuti sobre ser ou não ilusão do fogo que crepitava a minha frente.
                              Era longe o muito longe. Tão absurdamente longe que só uma alma desprovida de bagagem poderia compreender a distância sem medidas. Errei ao abrir os olhos para confirmar o que via.
                              Via, apenas isso!
                              Olhar para além dos limites da alma implicava uma jornada tão silenciosa quanto solitária.
                              Não!
                              “Solitária” era uma palavra povoada por excesso de significações e não cumpria com o desejo de explorar a  imagem única que refletia.
                               Eu queria dizer da solidão quieta do coração apaziguado pelo fogo.
                               Da ardidura  branda mas não menos presente.
                               Da  solidão capaz de provocar terremotos ininterruptos no terreno dos sentidos.
                               O fogo tem essa potencialidade: impor a submersão.
                               Um mergulho seco !
                              Tuft! Ou boloft! Ou capolot!
                               Dependia do mergulhante.
                               Dependia do fogo da alma seca.
                               Dependia da capacidade de tornar a solidão companheira silenciosa...nem verbo, nem bagagem .
                               Bagagem de alma é diferente!
                               Bagagem sem alça, etiqueta ou ficha de informação. Sem entrada ou saída, sem endereço para entrega em casos de devolução.
                               Fechei os olhos; o longe espichava-se para ainda mais longe.
                               Eu corria atrás da distância sentida convidando as lambidas vesgas do fogo que teimavam em aparecer entre as  fronteiras que dividiam o dentro e  o fora.
                               Dentro: olhos abertos.
                               Fora:olhos fechados.
                               Apertei os olhos fechados para abrirem-se mais longe, mais longe, mais longe...

                               Então, a bagagem sem alma escorregou com elegância para o pé da primeira nuvem que atravessávamos e embalou o fogo em nesgas de vento frio.
                               O fogo arrepiava-se enquanto eu sorria, olhos fechados, prazer dobrado.

                               Para além da linha dos cílios palavras dançavam pedindo espaço, manipulando as minhas sensações.
                              O fogo lhes animava tanto quanto induzia ao silêncio que tomava forma.
                              Eu via!
                              Olhos fechados para ver melhor, via.
                              Uma janela abriu-se embaixo de meus pés. Redonda e gorda engolia a luz que vinha de dentro.
                               Fantasmas emergiam  das dobradiças pregadas de pouco.
                              Tudo era novo e velho na imprecisão do tempo que eu parara de contar.

                               O fogo, indeciso, subia e descia pelas esquadrias encarquilhadas.
                               Cotovelos fincados à madeira...
                               O cume das nuvens atrás das imagens fáceis desenhavam o que bem se desejasse ver.
                               O horizonte  desalinhado fazia uma trajetória perpendicular que talvez começasse em algum lugar daquela janela.
                               Sempre uma janela a desenhar o céu.

                            Janelas e céu fazem o casamento perfeito: um para muitas.                    Sem cobranças, sem divisões, sem acordos sobre espaço, sem contrato de ocupação.
                            O fogo espiava para dentro, mas eu estava ocupando esse lugar.
                            Instalara-me!
                            Aliviado pela solidão adocicada feito ambrosia fresca.
                            Ambrosia!
                            Fantasmas não gostam de doces, azedam qualquer ponto.
                            E todo o doce tem o ponto certo.
                            Errado!
                            Certo!
                            Qualquer coisa assim...interessava decidir se seguiria aquelas quase imagens ou, quase alguma coisa ainda por conceber.
                            Fantasmas ocupam espaço!

                            Alastram-se por qualquer meia lembrança que alcance as janelas e depois viram sombras de  verdades pegajosas.
                            Janelas abrigam fantasmas.
                            Janelas não são portas, fantasmas ignoram as portas mas perseguem as janelas.
                             Quanto menor a janela maior o número de fastasmas a ocupar o espaço aberto.
                             Janelas abrigam formas não definidas que rasgam o mundo da realidade em eterno estado de formação.
                             Janelas são úteros fecundos para a alma da poesia, da música, da utopia.

                              O fogo desenhava fantasmas.
                              Fantasmas do fogo não fazem doce, fazem mais fantasmas...
                              Pululam as frestas rasgadas no céu pelas janelas abertas... ou fechadas.
                              Fantasmas espanam o tempo para cima de si mesmos.
                              Janelas fechadas são um convite às entradas silenciosas, sorrateiras, decapitadoras dos olhares obíquos.
                              Quando o vento fica do lado de fora, os fantasmas instalam-se pelo lado de dentro.
                               Eu estava dentro e fora.
                               Persuadido pela força da solidão adocicada eu entrara na imensidão do que pensava sentir e saía vez ou outra.
                               Saía e voltava.
                               Voltava sem sair.
                               Buscava fantasmas, fastasmas sem formas e fantasmas bem contornados. Fantasmas em moda, esquecidos, destituídos.
                               Qualquer fantasma é sempre fantasma.
                               Um fantasma é um fantasma!
                               E no fogo que minha alma acendia todos eles tomavam lugar.
                               Não serviam ambrosia, eu servia-me dela.
                               Doce azedo na concha dos pensamentos marinados.
                               Provava a mim mesmo.
                               Uma servida...
                               Satisfeito?
                               Outra porção...
                               Saciado?
                               Fome de conceitos agregados às imagens serviam a
 mesa posta.
                               Fantasmas sentem fome.
                               Misturas conhecidas estimulavam o gosto que eu não provara, ou deixara para provar depois. Coisas que o fogo a minha frente não permitia.
                               O fogo exige presença: estou aqui!
                               Não adia a sinalização do sentir agora.
                               Desço os olhos para os meus pés.
                               Imagens de meus desejos solidificavam-se em grandes blocos de lava seca.
                               Por fora: lava fria.
                               Por dentro: fogo líquido.
                               Pisava em mim mesmo calçado por pensamentos que via em formas servidas a frio.
                               No vácuo da incursão inicida, entre labaredas de nuvens e fogo, encontrei o que não buscava.
                               Procurava?
                               Mergulhara, apenas mergulhara para a montanha abaixo das nuvens de fantasmas acompanhados.
                               A cortina de fogo alongando o olhar que entrara umbigo adentro.
                               Via...
                               Apenas via o que desejava ver.

                               Fantasmas e janelas comungavam da calma euforia que o fogo, outra vez o fogo, lançava a partir de meus pés.
                               Estou aqui!
                               O longe cavalgou em silêncio por trás de minhas pálpebras cerradas, desceu languidamente pelos braços descansados, encontrou meus pés fincados sobre a pedra dos pensamentos e não foi embora. Fez meia volta e recomeçou a viagem por dentro do que eu via.
                                Estou aqui!

                                Cumprimentei as formas sem  contornos e disse:

                                _ Bom dia!

                                A noite começava com a extensão do que eu queria.

                                _ Bom dia!

                                Ouvi o coro de vozes sem dono repetirem-me em retorno:

                               _ Bom dia!

                               _ Estou aqui!, pensei responder devagar.

                               _ Aqui, onde?, apressaram-se a perguntar.

                               _ Aqui!!!

                               _ Aqui não é lugar.

                               _ Eu estou!

                               O fogo lambeu a resposta que subiu em forma de mariposa perdida.
                               O aroma de todas as perguntas desfeitas lançou-se sobre os pensamentos aos meus pés.
                                Toquei o fogo frio.
                                Fantasmas espiam pelas janelas.
                                Estou aqui!
                                E isso basta! Por ora...

PENSANDO...

PENSANDO...


PENSANDO...

PENSANDO...


PENSANDO...

PENSANDO...


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

PENSANDO...

PENSANDO...


PENSANDO...

PENSANDO...



PRÊMIO NA EUROPA

PARTILHAR, PARA MIM, É A CHAVE PARA FAZER O MILAGRE ACONTECER MAIS UMA VEZ E MANTER A GRATIDÃO EM ALTA ESCALA: com carinho, aos meus amigos visíveis, invisíveis e, especialmente, aos meus amigos VIRTUAIS ( pertencem a uma categoria ACIMA DAS DEMAIS), o prêmio recebido: