domingo, 27 de setembro de 2015

VALSA


IN-DIGNAÇÃO


OSTRAS


JANELAS


AJUSTES


A FORMAÇÃO NÃO É O LIMITE

 MOVEDIÇAS AREIAS  DA EDUCAÇÃO

- no espelho do mundo uma ilusão: estou onde não me vejo estar -

"O que ocorre, de fato, é que, quando me olho no espelho, em meus olhos olham olhos alheios; quando me olho no espelho não vejo o mundo com meus próprios olhos desde o meu interior; vejo a mim mesmo com os olhos do mundo - estou possuído pelo outro". Mikhail Bakhtin

                                 Janelas oculares abrem-se para o espaço comum a duas arenas  instáveis: família e escola! Necessárias? Pro Aris et Focis! Pelos nossos altares e lares... Qual delas cederá primeiro ao round das viscerais transformações propostas pela natureza do tempo e das relações?
                              Obsoletas armas carregam ambas no treino para uma batalha ainda por colocar-se a termo. No quadro das estatísticas subjetivas, gladiadores revestem-se nas falácias de seus  papéis ativos,  encenados  em turnos inegociáveis de sujeitos diligentes - ou não! - e acreditam cumprir com o oráculo dos destinos instalado acima do bem e do mal.
                             A idade e a crisálida do conhecimento formam armaduras,  divisórias sustentadas na crença da responsabilidade consciente (ironia do despreparo): manda quem pensa que sabe e obedece quem acredita-se   tabula rasa. Tábuas raspadas aceitam, em tese, o imprinting da sabedoria que vem do topo. Impressão da abissal inaptidão das  instituições dispostas na arena da vida sistematizada em regras há muito, há muito tempo, manquitolas, vacilantes, e em voraz ebulição : mudanças geram medo e o medo desmascara-se em variadas formas de tirania - desculpas arguidas no amargo sabor da adaptação atropelada em poder e metodologias.
                              Janelas oculares valem-se de pesado blackout - cortinas tecidas em panos impenetráveis -  para impedir  o reflexo de ações improdutivas. De um lado digladia-se pela manutenção das tradições seculares, de outro, briga-se pela aceitação do novo: no meio da batalha, perde-se o homem e o momento otimizado em contínuo  crescimento.
                          Palavras duras estilhaçam-se no horizonte das desleais expectativas e não retornam em bumerangues construtivos: morrem sem alvo, esvaziadas de poder,  mas calam fundo na alma que as interpela. E então, o duelo muda de lugar: da arena precariamente  externa para o universo intangível do ser interior. Vozes atingidas e comportamentos comprometidos são o reflexo camuflado da guerra provável, visível, insustentável: família e escola jogam areia sobre  olhares de oposição. Comum aos dois núcleos instituídos: o caos, os traumas, o desrespeito, o desamor e o abandono à sorte que não acompanha os destinos pré-estabelecidos.
                        Na medicina chinesa, os olhos estão ligados ao fígado e em mim, ambos apresentam-se com excesso de vento: os pruridos que tenho adquirido pela dieta do silêncio trazem-me comichão aos dois órgãos. Saturo os olhos e o fígado! Cansei dos gritos que chegam  com olhares encarcerados em poder de fogo e raiva. Se a família e a escola não sabe por onde anda, que refaçam a trilha metodológica de seus fundamentos e objetivos. Afinal, estudar a si mesmas cabe às duas, antes que as pedras da educação tornem-se irremovíveis.

                        " Ser significa para o outro, e,  através dele, para si."
                          Mikhail Bakhtin



Ivane Laurete Perotti

domingo, 20 de setembro de 2015

ESCOLHE


VAZA O MUNDO

VAZA O FUNDO

- permanecem em casulos envelhecidos os que se negam à singularidade da comunhão –

 “Vê mais longe a gaivota que voa mais alto”
   Richard Bach

                                       No fundo do mundo mantém-se um baú. Forma indefinida e não palpável, derrama-se pelas frestas da cerrada tampa.
                                       Durante um tempo imensurável, arqueólogos de pensamento livre buscaram-no com afinco entre as geleiras polares, nos espaços abissais, no oceano das pirâmides pontiagudas, nos desertos siderais. Vãs tentativas favoreceram ao homem biológico o voo baixo e rasteiro, o isolamento defensivo, as guerras internas, a violência desenfreada, o aprisionamento da alma, a miséria do medo mascarado, a morte da fé – seja ela “o quê” quer que seja e para onde se dirija.
                                        Estruturaram-se justificativas para o comportamento limítrofe, para a negação da vida, para a mutilação do corpo, para a exploração do poder sistêmico e centralizado. Estruturaram-se leis e medidas angulares para as hipóteses do inesperado humano, da insustentável irreverência frente à vida puída e maltratada.  Em tempo paralelo, abarrotava-se mais o baú no fundo do mundo pensado “um”, literal e dimensível.
                                 Improváveis dejetos psíquicos criavam limo e pesavam na balança da/S/ natureza/S/ desamparada/S: rodava o globo da “coisificação” em velocidade ímpar. A ARTE perdia a “cola” nas rachaduras da interpretabilidade vazia. Sofria o homem, enchia-se o baú já cerrado indiferente ao guarda-chuva homonímico do cerrado sem água, ao sofrimento do serrado banco da esperança sem pés. Fadava-se a ARTE presa aos costumes inexpressivos e de validade vencida: inconsistências típicas da sociabilização do homem sujeito às consequências irreversíveis das escolhas inconscientes, incongruentes e falsamente dissociadas.
                                     Sopejado, o baú sinaliza-se instável.
                       Sensível, a essência da ARTE manifestou-se crua inspirando transpirados esforços em continuuns variados: da música à pintura, das letras à arquitetura, à dança, ao improviso; de Heidegger a Guardini, de Voltaire a Rousseau as tentativas de consolidar a leveza séria das obras investiam em novas fórmulas para a “cola” entre o pensamento moderno e suas raízes de valor canônico. Difuso, o eufemismo não ligava os estrados das diferenças, por si só singulares e em frêmitos transitórios. Residia onde e aonde o lugar-comum do entendimento endêmico? Pandemia da inconformidade. Baú cheio. Comunhão desconexa: insustentáveis redes tramadas no inconformismo. Abraços emudecidos, braços caídos, sepultamento do afeto simples.
                                  No fundo do mundo o baú vaza tempestades. A/S/ natureza/S/ encolhem-se diante do inevitável padrão de repetição: não se vê o horizonte enterrando a cabeça na areia do isolamento. E a /IN/comunhão sela os casulos blindados: “réquiem aeternam” à interação. Mozart desiste da liturgia aos mortos. Sem com/C/erto... sem com/S/erto?
                                   A gaivota suspende o voo... o baú permanece ao fundo, no fundo arquetípico do ego inacessível.

                                 Vaza o mundo!

Ivane Laurete Perotti

domingo, 13 de setembro de 2015

DIA DE SOL


LEALDADE


ECO NA SINTAXE DO SILÊNCIO

* AO AMOR QUE FLUI FEITO A LUZ DO ESPAÇO SIDERAL E DESCONHECE AS ARMADILHAS DOS "BURACOS NEGROS". AO  AMOR QUE  PERMANECE SÓLIDO E SILENCIOSO DESDE TEMPOS IMEMORIAIS... AOS ELEITOS QUE O CONHECEM E VIVENCIAM "NOVO" A CADA DIA.

INAUDÍVEL

- a natureza do amor ecoa na sintaxe do silêncio –

“Há uma doce luz no silêncio (...). Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.”
Cecília Meireles


                                 Simplesmente armaram-se com asas poderosas os anjos dos sentimentos. Deviam ser anjos e deviam-no à projeção que partia da alma humana: furtivo ícone de um lugar sem dono. Armados estavam armados permaneceram tal quais os espinhos da caliandra amanhecida. Kafka, em sua mesa poética ouvia o desmascaramento do mundo a deitar-se nu aos pés do silêncio ininterrupto. Bramia o texto em branco pela morfologia ágrafa do dito premente e inaudito; palavras interromperiam o ruflar das sublimes armas: asas plumadas na blindagem do exercício humano. Pensamentos argumentaram barreiras contra o exército em formação. Argumentos possuem argamassa na base das implicaturas e podem ser solidamente instalados, fundados, estruturados.
                                 Doía pensar. Evadir-se era estratégia perdida no tabuleiro aberto de frente para o dia comum. Em pauta, o amor sem nome, sem endereço ou senha de acesso: triângulo perfeito a somar-se entre os ângulos internos foragidos da geometria plana.  A soma de 180 graus despedia-se dos vértices deslocados – adjacentes, os ângulos rasos partiam em retas não paralelas. Partir parecia adequado: partir e partir não sublinhavam parentesco semântico, sequer uma possível alofonia – nem de longe lembravam qualquer alusão fônica ao nome da fuga compartilhada. Homonímias não gostam de asas, deslocam-se por linhas outras e tantas que mesmo caducos, os dicionários encurtam a expansão dos sentidos agenciados. Doía pensar. Antigas letras alinhavam-se atrás dos anjos colaborando para a ineficácia dos fonemas atropelados: silêncio!
                                “Há uma doce luz no silêncio... há uma doce luz no silêncio equalizado: Cecília Meireles alcançou as estrelas e largou o rumo para aqueles que sonham com o céu povoado por guardiões. Doía pensar que deviam ser anjos os que se armaram para carregar os sentimentos em baldes de água fria: asas são perfeitas enquanto secas! O amor não voa, flui!
                                Moveram-se em cadência as icônicas sentinelas dos sentimentos guardados. O céu negociava o aparelhamento do dia e da noite: anoitecia o amanhecer no horizonte humano. Jogos de amarelinha amarelaram a aprendizagem lúdica e no campo do faz de conta até mesmo à diplomacia cabulava-se espaço. A performance do comportamento encaixava-se em Pandoras multiplicadas, servidas em hora última aos que preferem o fast food da gastronomia à queima-roupa.
                                 Doía pensar. E na dor aceita e revisitada um turbilhão de sons empurrava o amor para qualquer lugar previamente desconhecido. Tentaram os anjos formados carregá-lo sobre as plumas suaves. Tentaram como se lhes fosse única a inglória missão. Tentaram em sequências interligadas; mas, insistir pode tornar-se pecado cabal quando o objeto em foco tem direito às escolhas próprias. Todos têm. Posto terem-nas e não as usarem continuam tendo e escolhendo.
                                 Armados estavam  armados permaneceram. Abertas em par flertavam prontas e flexionadas as flechas de voo: olhos em pétalas suspendiam o êxtase no silêncio atingido. Espera dolorida e fugaz. Contemplavam o homem desprovido de poética harmonia sem que pudessem dizer-lhe o quanto também sentiam: anjos sentem dor. Não a sentem por si, mas por aqueles que acreditam guardar e era dupla a carga em risco. O homem e o amor incompatibilizavam-se na sintaxe do silêncio e nenhuma gramática proporia repetir a razoada de Port Royal – imprópria e ineficaz gramática da razão.
                               Doía pensar que a luz do silêncio apagava-se sem ter tocado as faces crispadas pelos sonhos indóceis.


Ivane Laurete Perotti

domingo, 6 de setembro de 2015

TERRA SEM CHÃO

MURO HUMANO
- valeria subir pelas paredes dos ombros se o sistema não se fechasse em conchas -

“A desvalorização do mundo humano aumenta 
 em proporção direta com a valorização
 do mundo das coisas.” 
Karl Marx

                                Da seca árvore restava a sombra tardia. Alma nenhuma disputava o espaço recortado no solo vazio. Sem engano, um tortuoso panteão formava-se acabrunhando Hades na escuridão dos subterrâneos abarrotados de mortos. Zeus abstinha-se de comentar o inexplicável.
                              Na superfície das almas sem pegadas, Hefesto incapacitava-se na proteção aos metais, ao fogo, ao trabalho: sobrepunham-se eles todos em camadas de ganância e poder, centro de um sistema construído sobre pirâmides desiguais. Enganavam-se os que esperavam prosperar pela ação dos ombros, das mãos e da valentia. Teimosa valentia, vislumbre de um passado não visitado para a compreensão da história humana – repetida história em lições insípidas aos olhares de pouco caso.
                             Entardecia e o sol disputava a esperança dos astros agnósticos.  Hermes despedira-se da diplomacia confessando-se impotente e esquecido. Ártemis perdera o selvagem poder de circular livremente pelas matas: abatida em uma caçada pelo prazer descabido, agonizava diante da lua e suas lágrimas prateadas debruçavam-se na janela do mundo real. Ao seu lado, as ninfas perdiam a sensualidade pura das antigas danças e as mulheres ainda pagariam o preço dos excessos não identificados. As florestas, violentadas e vazias de justiça, não mais protegiam a essência feminina, ícone da força silenciosa e constante. Postas a descoberto, as criaturas livres não reconheciam Crono e Perséfone limitara-se a guardar a primavera em um cadinho entregue às mãos de Éris, deusa da discórdia, talvez a única a manter-se viril e ativa, alimentada diariamente pela cumplicidade com Ares, o pai de todas as guerras.
                             À sombra da árvore seca, o espírito de Gaia decidiu lançar um desafio final: que se aproximasse um homem de boa vontade, que viesse, mesmo que só, mas que se apresentasse inteiro e disposto a olhar para além do próprio umbigo. Gaia ajoelhou-se em espera reverente.      
                             Crono conhecia a tenacidade telúrica daquela que clamava por todos e, em sucessivas tentativas, cedeu o próprio lugar para Deméter: mas as colheitas permaneceram abundante e repetidamente nas mãos de poucos; a Poseidon: os mares levantaram-se em vagas de aviso e nem os discursos catastróficos sublinharam o sentido do sinistro apelo; para Hera: os nascimentos na Terra há muito, haviam descontrolado a ordem natural da vida; a Eros: desconhecia-se; para Héstia: aguardava por um lar em um orfanato sem endereço; para Hebe: alheava-se em buscas insanas – juventude tornara-se consumo obrigatório; para Apolo: assumia-se poético tanto quanto comercial – dualidades aceitas na vivaz política de controle do investimento capital; ofereceu para Atena: ela sofria a devastação na própria alma, se é que um dia tivera uma; a Dionísio: multiplicava-se em sofisticadas faces... Crono chorou. Mas as lágrimas do tempo foram barradas antes de tocarem os joelhos de Gaia.
                           Mais tarde, muito tarde, quando a sombra da árvore seca se recolhera, Gaia descobriu que um menino tentara aceitar o desafio. Tentara, mas seu pequeno corpo fora encontrado em uma praia qualquer, com o rosto ainda voltado para o chão que não o recebera.


Ivane Laurete Perotti