quinta-feira, 25 de setembro de 2014

BASEADO EM FATOS REAIS...

VOAR É PRECISO...
                                                                    "Quero voar pra bem longe mas, hoje não dá."
                                                                           ( Renato Russo)
      
                        Quando o céu tornou-se a referência mais próxima, duas mãos geladas atravessaram o espaço inaudito da proximidade. Íntimos? Não, com certeza, não! Para além dos bancos da aeronave, outros  mundos os separavam: ela carregava um sinal de pertencimento redondamente convencional. Era casada. O que não impedia o medo de transformar-se em suor. Voar e morrer: era o único elo  a deixá-los tão próximos.
                         O desejo de  ser um daqueles heróis que aparecem sempre e sempre na hora certa não se manteve tempo suficiente na imaginação masculina. Ele acreditava ver as máscaras de oxigênio, rosáceas e emborrachadas, caindo como folhas outonais. Se bem que o outono aludia ao amarelo dourado do anel dela, mas a cor rosa era uma ironia velada à situação. Linda a moça! Linda e portadora do mesmo medo que o deixava sem palavras, sem ação, sem... ah! Outra turbulência a levou para mais perto dele. Brilhantes e rechonchudas lágrimas espocaram dos olhos verdes. Verdes como a dor que lhe subia da pélvis, do abdômen, das pernas ou onde quer que sua consciência corporal momentaneamente  se instalasse. Momentos de insana conjunção: ela era linda e chorava com emoção tão feminina, tão...tão...
                          Medo! medo! como um gatilho automático, acionava a escuridão pegajosa que fazia parte dos sentidos alertados: estava voando! Saíra de seu habitat natural para adonar-se de capacidade alheia aos limites telúricos do homo sapiens! Tantas vezes dissera a si mesmo jamais repetir tamanha ousadia, mesmo quando as nuvens se mostravam mansas, transparentes e nenhum ônibus poderia transportá-lo ao destino pretendido. Santa teimosia! Ebúrnea vontade de chegar dentro do prazo máximo para uma viagem de final de semana. Valera o calor da pescaria, a alegria da família e agora isso: o preço da saudade cobrava-lhe em pérolas trágicas.
                           Pedira rezas ao avô. O pai de seu pai rezava com singular sintonia: sabia das coisas aquele lá, e nada lhe dissera sobre um acidente aéreo. Teria esquecido de alertá-lo? Poderia ter-se deixado confundir entre uma oração e outra? Difícil controlar a vontade de chorar junto com ela. Afinal, quem era aquela mulher que sofria de congênere dor ? Linda, deixava rastros de lágrimas no rosto torturado enquanto as unhas bem-feitas se lhe aprofundavam a carne das mãos.  Das mãos dele, claro! grandes mãos jovens e geladas servindo de espeque humano. Ai! Que desventura! Do lado de fora, o sol teimava em contradizer os prognósticos surdamente emitidos pelos dois: sofriam em celeste agrura!
                         Levado por inusitada aceitação de seu destino, decidiu tomar conhecimento acerca daquela que o acompanhava. Quem era? Lusitana, pois sim? Ó nuvens nunca antes trafegáveis, que caminho traçara-se por entre os gases da atmosfera?Ninguém mais dentro daquele pássaro oco, mecânico e chocho parecia entrever a luta que se desdobrava desde a decolagem: ignorância abençoada pela insensatez. Jurava solenemente encontrar uma linha terrestre que o transportasse da próxima vez. Se esta fosse possível. Era uma vez... não! Que as longas pernas o mantivessem sentado enquanto aguardava o desfecho final. Sentado!
                   O avião taxiava deixando uma rota de calmaria atrás de si. Os demais passageiros ignoravam a rigidez que o medo, vivenciado em profunda comunhão, pode provocar nos membros de locomoção de um ser humano: inenarrável!
                  * Este texto é dedicado ao jovem herói ( Gui... para os íntimos) que desembarcou em Guarulhos carregando suadas lembranças: voar é decisão para quem não teme o medo de sentir medo.
  " Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?"
         ( Frida Khalo)

                    Texto: Ivane Laurete Perotti

MOLDE


domingo, 14 de setembro de 2014

VESTÍGIOS


UM TRIBUTO

AS ESTRELAS SÃO MINHAS

- um tributo ao olhar iluminado -

  "A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria   escuridão."
Mário Quintana

                                          Sob camadas de pó, a memória perde o brilho, o viço e a validade. Espanando-se os fatos da vida, algumas janelas abrem caminho para os sentimentos instintivos e primordiais que, latentes, morrem à míngua na ilusão do esquecimento. Quando não são antecipadamente massacrados pela ansiedade das resoluções mágicas, ou da desesperança não caridosa, autoflagelo imposto e aceito sem declinações.
                                          Não se aprende sem esquecer que esquecer é um jeito de aprender a lembrar. Selecionar lembranças pode disciplinar o olhar sobre as escuridões temporárias e os excessos de luminosidade tangenciados pelos milagrosos reveses da vida. Um passo aqui, outro lá. Apagam-se os passos e permanecem as marcas no terreno da alma consciente quando a alma está presente. E de presente em presente, até a alma se faz ausente! Purga as decisões e sofre no ocaso dos sentidos que atravessam o horizonte desalinhado.
                                         Há sempre  uma  medida balizando a nossa forma de ver e sentir: pesa a pena sobre a pele desnuda, queima a luz que se distancia da vela acesa. Tocam-se as estrelas cadentes em pedidos rasgados diante da lua cativa, ambígua e afônica. Salve Jorge! que sejam consumidos os dragões da ofensa e do malquerer. Sob espadas de magnólias, revista-se a armadura do chão celeste, emblema campestre para os atentos peões.
                                   Estrelas fecundam a espiralada via láctea. Os dias escondem o rosto, a noite desdobra a manta  e o firmamento parece estar  sempre onde tudo começou, mesmo ao término dos calendários com suas colheitas orquestradas. É assim: sentir, medir e guardar processam-se no mesmo ritmo sazonal das emoções perfiladas em míticos acontecimentos. De cá, de lá, somos andarilhos sob  estrelas pontiagudas,  fúlgidos astros de destino providenciado pelas leis da vida, sempre ela, a manter-se ativa até quando a entendemos perdida.
                                  Vacância entre os homens de bem. As estrelas são minhas, suas e de todos aqueles que suspendem o ritmo para atear-lhes o fogo da poesia. Nutridas pela esperança, não tardam em esmorecer, apagar, para voltar acender em outros sistemas, longe dos olhos descrentes, céticos e apressados.
                                         A noite não cai... ela desce as estrelas para presentear a escuridão.
                                 As estrelas não morrem, mudam de lugar! E nascem da gestação orbital de nossos anseios: uma forma de estar no mundo!

"Eu vos digo:
 Alguém precisa ter caos em si mesmo
 Para dar luz a uma estrela dançante."
               Nietzsche
Texto: Ivane Laurete Perotti


ESTAMOS EM GUERRA

GUERRA SURDA
- caricatura de uma modernidade funesta -
                                                 Ninguém ganhou a última guerra nem ninguém
                                                  ganhará a próxima.”
                                                               Eleanor Roosevelt     


                                                Houve um tempo não muito distante deste  em que o comportamento humano quase permitia uma compreensão motivada pelos conceitos pertinentes ao seu entorno, à sua gênese, às suas raízes. De leitura em leitura, as escolas de pensamento  científico fundamentavam-se em estudos de casos, observação direta, comparações, deduções entre outras metodologias próprias para construir um paradigma antropológico com objeto delimitado. A história oferecia um bom molde para ensinar-nos sobre o avanço da civilidade. No tempo que focalizo, agora, os contornos desse objeto desvanecem, perdem o tônus, ou, simplesmente preparam o esboço de uma caricatura nocente, infesta. Quem é o homem atual? Que natureza bélica é esta que conduz a humanidade por sendas de infinda destruição?
                                           Não se traduz uma guerra a partir da posição numérica das armas apontadas, nem dos corpos exangues amontoados  em calçadas sanguinolentas, nem do medo em brasa derretido nos olhos das crianças refugiadas. Guerras não são traduzíveis, simplesmente porque o seu escopo conceitual não pertence ao possível semântico ou ao aceitável lexical. Qualquer guerra é inenarrável. Os horrores criados pelo homem desumanizado não são passíveis de descrição suficiente. Nem são audíveis, mesmo diante de quadros que imprimem a escuridão na alma dos que sobrevivem de longe, felicitando-se por não retumbar em sua vida rotineira, a conflagração mortal. Não! Alcovitados, não planejamos participar da batalha, crentes de que nos basta cumprir o papel de intermediários da paz. Não basta! A paz exige participação, movimento, postura, ação, vontade política, educação para a vida, noções mínimas de direito às diferenças culturais, étnicas, religiosas. A humanidade se desfaz diante de nossos olhos em surda cadência de expansão.
                                    Estamos em guerra permanente sem demérito da retórica que ronda a frase. Só ronda! A guerra isola e destrói, afasta e degenera, quebra a corrente da vida que se deteriora sem fecundar os frutos guardados em seu bojo. Há uma guerra acontecendo agora, aqui, lá, em qualquer lugar onde um, ou mais de um ser humano se encontra. Despertamos para guerras gratuitas, localizadas, menosprezadas pela dimensão das perdas materiais e aviltantes pela perda indiscriminada do ser humano. A pólis, as poleis permanecem em pé, materialmente, é o cidadão que desaparece quedado diante da força massacrante da violência fria O oriente banha-se em sangue, mas o Brasil,  sem mísseis em riste,  mergulha em surda guerra caricaturada em quadros de rotineira alarvaria: é a guerra sem fronteiras vestida de bestialidades inconfessas.
                                     Apaga-se o cidadão brasileiro nas trincheiras sociais. Nenhum grito? Todas as dores se fecham em concha e ainda suspiramos  comiserados  diante da luta armada que acontece em outros territórios.
                                  A guerra surda que assola a raça humana tem preço cobrado de geração em geração. Não estamos a salvo  nem aqui, nem lá. Não existem ilhas de segurança nesse compasso, apenas o retumbar ensurdecido dos corpos que tombam sob um tipo de maldade, crueldade, atrocidade que  ganha ares de comportamento bestial: D-E-S-U-M-A-N-O!

                                Estamos em guerra!
Texto: Ivane Laurete Perotti

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

FITO LUAR - texto

FITO  LUAR

Deitou nua
a sombra da lua
sobre o peito do mar...
soprou seu hálito prata,
a ingrata,
para fazê-lo sonhar...
o sonho revirou a alma,
agitou a calma,
fez o pélago implorar
pela face da amante,
pedido extenuante,
... a lua negou saciar!
Perdido em denso desejo,
o mar cantou para o astro,
inflou a onda mais alta:
Diana!
Diana!
Em frêmitos,
e mornos espasmos,
cobiçava tocar
o rosto da lua
nua,
sombra da lua
crua,
oculta parte
distante e fria
tão longe queria
beijar...
beijar...
beijar...
Em prata,
a ingrata,
fingia mergulhar
no abismo do amor líquido
que o mar,
insatisfeito,
só fazia aumentar!
Abismo de amor é segredo de troca,
fundo de roca,
silêncio viscoso,
perfil perigoso,
mancha que cansa
sem medo da lança
... pode atacara!
No hálito prata,
a luminosa ingrata,
odorata,
bebia o sumo
insano rumo
do mar infeliz!
Diana!
Diana!
Diana!
Deitou a sombra
sobre o peito do mar...
amou de longe
deixou-se beijar
mágica lua
tão longe,
tão nua,
... fito luar!
                                     Ivane



                          
                                                                           
                

FITO LUAR - foto


terça-feira, 9 de setembro de 2014

FLOCOS DE LUZ...


NUA


À DORÊ

                                   ESTIGMATAS  EM  DECLÍNIO

                                 - manifestações à dorê: herança mítica -

                       Os preconceitos são a razão dos imbecis.”
                                          Voltaire



                                 Saúde!
                                O preconceito, finamente enterrado sob camadas de maquiagem líquida,  engasta-se às raízes de imbricadas heranças: " O sol nasceu para todos, mas apenas alguns podem usar chapéu". E renova-se na gama semântica das possibilidades interativas. Ciclos sociais não apaziguados? Folclore: apenas sabemos mais hoje sobre o que acontece do que deixou de acontecer realmente o que não sabemos.
                                  Na rede entretecida que conecta o mundo em dimensões tribais, os
alocados transeuntes do planeta Terra brindam à evolução folgada que a ciência alcançou. Pináculos de otimismo acadêmico invadiram o mundo anfêmero, cotidiano, rotineiro, tornando a vida mais vivível. Inegável, mas contraditório e até nefasto em alguns casos: o princípio que norteia a mesma evolução não se alastra para o mundo da subjetiva  - e questionável - natureza humana.
                               Arremedos de educação não chegam a balizar os valores que deveriam sustentar o movimento antropológico do ser humano. O que é novo nesta história? A vontade expressa de alguns poucos que se destacam pela vontade de comungar o conceito de sociedade moderna. Contemporânea. Atual. Talvez! Quem sabe, mais atual do que moderna. Varia a cultura, a época, o tipo, o lugar, e parece caminhar junto a evolução de estigmas encruados na vivência social, como se tivessem vida própria, autônoma e apenas esperassem o modus operandi de cada tempo se personificar. Raízes expostas, limites e diferenças sangram diante do espectro indiviso: a força de um preconceito tem o poder de alvejar a alma, quando não mata de imediato o objeto de estigmatização. Até que um choque cultural consiga abalar tais raízes, elas permanecerão inalteráveis, materializando-se diariamente para fora da caixa de nossos sentimentos de falsa normalidade.
                                Singular é a tarefa do homem que prescinde das diferenças para esconder o medo e a fragilidade. Incompletos e diferentes, somos atravessados por interesses de manutenção da vida: ou não?  Cabem apenas as distinções, as dissemelhanças no cadinho das vivências para tornar o homem um ser imprevisível. O que esperamos do outro? Que lugar ocupa o semelhante tão diferente ao ponto de mover e envolver emoções massificadas em conceitos de extração? Não aceitar as diferenças é negar-se diante do espelho. Tão simples quanto impraticável, na maior parte dos roteiros pré-estabelecidos por ideias de elitização. Simples e triste, tão triste quanto a perda das noções mais primárias de nossa condição transitória, efêmera e provisória.
                                Saúde! Que brilhem as diferenças no corrimão da história e independente de crenças, raças, sexo, costumes, comportamentos, opiniões e normas, a noção de pertencimento nos aproxime com urgência para derrubar o muro quase, quase em declínio dos estigmatas de ocasião!

   “Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e
    compreenderão que foram feitos para viver como irmãos.” 

                     Mandela
Texto: Ivane Laurete Perotti

NÃO VIA


URGIA