domingo, 30 de dezembro de 2012

CONTOS AUMENTADOS II


  CONTOS AUMENTADOS II
                              HISTÓRIAS DE TROPEIROS        

 DOBRANDO CAMINHOS                                

            Dizem que a metade do século XVIII transcorria cheia de esperança lá pelo Brasil Colônia. A Coroa Portuguesa instalara na Vila de Taubaté, a Casa de Fundição de Taubaté, que alguns preferiam chamar de Oficina Real dos Quintos.
             _ Que Quintos, meu filho? Que Quintos?
             _ Os QUINTOS não me interessam, compadre. Só me interessa o "oro". Esse sim! O "oro" que vem prá cá!
             _ E você não sabe que nadica de nada desse "oro", "oro" fica por aqui?
             _ E não?
             _ E sim! Vai tudo, tudinho pro Porto de Parati.
             _ E é!?
             _ E eu não tô dizendo!? Não tô?
             _ Pois continue... continue...
             _ Depois vai lá pro Rio de Janeiro...
             _ Cidade das boa, compadre! Cidade...
             _ Mas também não fica lá!
             _ E não?
             _ E é!
             _ Ô!
             _ Segui tudito para o Reino... tudito, tudito de tudo! Não fica nadica de nada por lá!
             _ E de onde vem esse "oro" todo, compadre?
             _ E tu não sabi, homi? Tu não sabi?
             _ Só notíças daqui e dali, mas nada munto seguro, compadre!
             _ Ah! Tu tá é com o bocó seco!
             _ Quero enchê o bocó, compadre, quero enchê! Me conta de um tudo que eu tô pronto prá ajuntá as mula.
             Eram sempre as mulas a começar a corrida pelo ouro em Minas Gerais. Sem elas a moeda de troca poderia pesar demais nas costas dos tropeiros que negociavam entre uma cidade e outra. Mas o período prometia pelas bandas das terras mineiras. As histórias sobre o ouro fácil de encontrar corria de boca em boca e elevava o preço das cascudas que carregavam no lombo o sonho dos negociantes mais valentes.
               Acostumados a vender qualquer tipo de produto, os primeiros tropeiros a abrir caminho dobraram maus pedaços. Não era apenas a mata fechada ou os rios caudalosos que venciam a força de muita persistência. Alguns caminhos eram absolutamente desconhecidos e para chegarem precisavam reunir toda a força e o senso de direção. Sem contar com a capacidade das mulas de se manterem sobre as quatro patas quando barrancos desmoronavam, quando pedras entravam casco adentro e terrenos escorregadios se mostravam para lá de perigosos. As mercadorias sobre seus lombos aumentavam de peso à medida que as picadas eram abertas e o destino final ficava mais à frente.
               Caminhos conhecidos amenizavam o desconforto da distância, mas não diminuíam as dificuldades naturais daqueles lugares sem estradas adequadas ou outros meios de transporte.
               Assim corriam os dias no Brasil Colônia para aqueles que sentiam prazer em negociar, em levar mercadorias de todas as espécies para os lugares de difícil acesso. Mercadorias e notícias eram produtos de alto preço.
                _ Droba ali, cumpadre!
                _ Não dobra, não, meu filho! Segue reto. Mais adiante fica o rio.
               _ Tamo no caminho errado! Tô dizeno, tô dizeno!
               _ Esse é o caminho para a terra do ouro. Tenho certeza!
               _ Ô, cumpadre! Ter certeza aqui é coisa prá gente grande!
               _ E quer dizer o que com isso, meu filho? Está me ofendendo?
               _ Não! Não mesmo!
               _ Olha que eu dobro o braço na sua fuça!
               _ Carma, cumpadre! Carma! Já tamo chegano! Tamo chegano!

             











CONTOS AUMENTADOS


CONTOS AUMENTADOS
                HISTÓRIAS DE TROPEIROS
                                                                                       


       OURO PARA VENDER

              - pedras para plantar -

               A mata fechada impedia o avanço das mulas. Esfomeadas elas obedeciam à ordem de seguir em frente sem dar muita atenção para os galhos que lhes feriam o couro marcado por outras bravatas. Era seguir e seguir abrindo caminhos onde nunca antes o homem entrara. Formavam um conjunto de sete mulas instigadas por um tropeiro que sabia assobiar e gritar como ninguém. Um assobio, um comando. Um grito, um susto e lá estavam elas tomando nova direção. Empacar no meio do caminho não era exatamente uma possibilidade que lhes cabia, precisavam continuar carregando o fardo que não era leve.
                A noite chegava e nenhum pouso existia por aquelas paragens. Possivelmente nenhum pasto as esperava de pronto. Certamente seriam alimentadas com o que era carregado ao lombo de uma delas. Aproximava-se a hora de pararem para comer e descansar. Tropeiro que se prezava sabia quando recolher seu rebanho e dar a ordem para descarregar. Mulas famintas e cansadas não chegariam ao destino sem antes provocar um prejuízo. Em tantas andanças, a ciência daqueles homens só não os superava em coragem e valentia.
                  O caminho fechava-se em si mesmo. Além do terreno irregular e de todas as pedras que já pisaram, as mata densa dificultava os movimentos.
                  A ordem fora dada. Paravam para receber a noite que descia como véu de noiva faceira.
                   _ Tá muito longe ainda?
                   _ Não tenho certeza, meu irmão. Ninguém antes passou por aqui.
                   _ Êta dificuldade!
                   _ Não reclame, Bonifácio. Tem muito ouro lá esperando por você.
                   _ Arre! Não tô arrecramando, só não vejo a hora de botá a mão naquela "orada" toda!
                   _ Também não é assim!
                   _ Como não? Eu soube que por lá, nas minas, tem oro saindo prá fora da terra e caminhando até as mão da gente.
                   _ Ô!
                   _ É pura vredadi! Me contaram isso ainda outro dia. Lá pras banda do litoral aonde chegam as mulas carregadinhas de "oro".
                   _ Ê!
                   _ Pois não credita ne mim? Não? Vô conta que nessas tal de mina até preda preciosa tem a se derramá pelas rua.
                  _ Ê!
                  _ Vredade de tropero, verdade pura! E tem mais...
                  _ Tem?
                  _ Tem! Eu vô trocá minhas mercadoria por predas prá prantá!
                  _ O quê?
                  _ Vô enchê o lombo das mula com preda preciosa prá prantá!
                  _ Mas... isso já é demais! Onde já se viu plantar pedra?
                  _ Pranta, sim! Essas lá das mina pranta! Pranta!
                  _ Impossível!
                  _ Pois eu lhe agaranto! Vô prantá preda preciosa prá tê uma prantação de predinhas! Vai vê! Vai vê!

                  O fogo aceso para aquecer e espantar os bichos escutou durante a noite as mais estranhas histórias. As mulas, acostumadas com o desejo de enriquecer daqueles homens matutos, fecharam os olhos esperando o novo dia.
                  Enquanto todos dormiam, o tropeiro que desejava plantar as pedras preciosas sonhava com uma plantação brilhante, colorida pelos matizes que enriqueceriam a sua vida. E não havia ali ninguém que pudesse contestá-lo! Vai que fosse verdade!
                   _ Vredade?
                   Quem druvida? Ops! Duvida?
                
                    










sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pulando estrelas


                                                    
                                                  PULANDO ESTRELAS

     Miquelito era demais. De seu primeiro pulo ninguém sabe nada, mas conta-se e reconta-se que ele já viera assim: PPP _ pronto para pular.
     Não que tivesse algo de fenomenal, pelo contrário, tomava a todos de surpresa quando inventava seus pulos. Digo inventava porque muitas vezes parecia que ele tirava um elástico de algum lugar, ou que desvendara o segredo dos cangurus ­ já que seus pulos eram tantos, a Austrália ficava logo ali!
     Quem poderia dizer alguma coisa de sua capacidade tão assombrosa? Não! Nem mesmo a mãe tinha o que dizer. Tão lerda, tão rota, não entendia porque o filho era diferente dos outros onze irmãos. Sempre pulando, sempre indo para onde ela nem imaginava existir.
      Bem, ela garantia que o parto havia sido normal. Mas já o médico que amparara Miquelito ao nascer, tinha lá suas angústias. Não era bem o que ele pensava _ coitado! Não tinha muita coragem de afirmar com precisão o que vira, pois isso o deixaria em uma posição pouco confortável. Porém, vez ou outra desabafava:
     _ Ara! Esse menino nasceu com os pés virados para a lua.
     E para os que insistiam muito, muito, ele contava o que vira. Vira, mas duvidada ainda e se preciso fosse, negava!
     Miquelito nascera em uma quinta – feira de muito sol, sem dar aviso prévio. Foi simplesmente colocando seus pés para fora E que pés!
      Poderia ser a luz da sala de parto, mas também poderia não ser. Afinal, todos os presentes viram e não entenderam. Examina daqui, examina dali, colhe sangue, urina, ranho, belisca para ver se sai e nada! Nenhuma conclusão. Nenhum diagnóstico.
     Mas estava ali, aos olhos de todos. De quase todos, pois Miquelino Miquelito pôs muita gente a correr. Para onde? Nunca se descobriu. Depois que a notícia tomou a rua, as carolas, as fofoqueiras, as parteiras aposentadas, as rezadeiras de prontidão e até os parentes desapareceram.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­

     E não era para menos!
     Onde já se viu um menino nascer com a planta dos pés colorida?Era isso mesmo. Miquelito tinha as cores do arco-íris estampada embaixo dos pés. O azul pegava todo o dedão, o amarelo ia até o calcanhar. E o rosa! Este parecia que estava em todo o restante da pelo. Mas ainda havia espaço para o verde, o lilás e as outras cores que confundiam os observadores.
     Lavaram muito os pés de Miquelito. Até ervas foram maceradas pelas avós.
     Os médicos haviam desistido. Possivelmente tudo não passava de um processo de pigmentação temporária. (Era o processo temporário ou a pigmentação que tinha data para desaparecer?) Sabia-se lá? O único entendimento que todos tinham é que aquela estranheza deveria passar logo, para a cidadezinha voltar ao normal.
     A bem da verdade, nada mais poderia ser normal. Miquelito carregava as cores do arco-íris por onde quer que andasse, ou melhor, pulasse. E ele pulava.

     Houve uma vez, entre tantas vezes, que o menino foi procurado pela cidade inteira e nada! Vira tronco sobe em árvore, procura na torre da igreja ­ até o padre fez novena _ e, nada!
     No finalzinho da tarde, quando as carpideiras preparavam o choro, eis que o dito aparece. Como quem de nada sabe,  apareceu caminhando miudinho na única rua calçada da cidadezinha.
      Olhava para cima como que se tivesse perdido alguma coisa lá no alto.
       E perdera!Mas quem iria acreditar?
        Para os que quiseram ouvir, Miquelino Miquelito contou que pulara até as nuvens. Pulara e tão entusiasmado ficara que  não resistiu em conhecer todas as nuvens do dia.Sim, pois as nuvens mudam muito rapidamente e, lá se foi a que parecia um cavalinho, desmanchou-se a que parecia  um sorvete de morango, e assim  é. Elas são viandantes, viageiras por profissão.
      Foi pulando de uma para a outra, entregue ao prazer de sentir aquela “coisa” sem explicação em baixo dos pés; roçando os braços, fazendo cócegas no nariz, pegando o cabelo... era um afunda e pula , afunda e pula sem tamanho de bom _ palavras do próprio _ que deu no que deu deixara cair do bolso a sua tampinha.

     Não era uma tampinha qualquer, havia fechado uma garrafa de refrigerante com bolinhas no seu único aniversário lembrado.
      O presente viera da avó Rosina única parente a dar conta das estórias do menino de pés coloridos.
      Ela ouvia e ouvia e ouvia. Não dizia nada. Apertava o avental em volta da cintura gorda como que procurando uma pergunta que nunca vinha. E como as perguntas não vinham, as estórias de Miquelito continuavam e a tampinha de refrigerante com bolinhas virava uma chapinha fina e lisa. Cada vez mais lisa, nem de longe lembrava sua antiga forma.Mas era isso mesmo que ele queria. Dedo a dedo e dente a dente, apertava e... dentava a pequena peça. Faltava pouco para ela virar ouro, como fora perdê-la?
     Cadê dar conta de revirar nuvens tão fofinha, fininhas e levinha?E se chovesse logo? Choveria a chapinha na cabeça de alguém?
    Com essa preocupação a roer seus pensamentos, Miquelito deixou para trás os que ouviram e não acreditaram. Precisava encontrar uma forma de localizar sua tampinha lisinha, lisinha.Pular toadas as nuvens outra vez seria arriscado àquela altura da tarde.Esperar até o outro dia? As nuvens não estariam mais ali, nem seriam as mesmas nuvens. \mas a chapinha era sua obra-prima, seu tesouro, seu futuro. Ficar sem ela seria triste, muito triste.Aliás, ela já era um pouquinho ele  e ele  já era um pouquinho ela.
     Que destino!
     Mas como Miquelito não conhecia limites encontraria sua tampinha a qualquer custo.
      Esta experiência o deixava mais decidido, mais maduro. Uma enxurrada de reflexões o levou a questionar os bolsos. Isso mesmo!Para que servem os bolsos? Para carregar coisas.  E porque se carregam coisas?
     Verdade verdadeira: nunca mais usaria bolsos. Mas... e como seria? Suas roupas eram um bolso só!?
      Qual nada! Sem bolsos, sem roupas, sem roupas, sem bolsos. Seus próximos pulos seriam lisinhos em pelo. Nada de cometer outros erros, nada de carregar coisas desnecessárias.



       Dormiu melhor naquela noite, pois confiava encontrar seu tesouro perdido. Mas o sonho que fizera, segundo alguns, alterou toda a sua vida.
     Miquelino Miquelito sonhou com uma tribo indígena de costumes muito parecidos aos seus. Lá, todos mordiam tudo: madeira, tabaco, perda, barro, ossos, orelhas _ orelhas? Essa não fora a melhor parte. De mordida em mordida, iam construindo seus objetos mais importantes.
     Havia um detalhe para além do incrível _ esta palavrinha existe? __, os índios dentadores sabiam identificar seus objetos como se neles tivessem colocado identificação. Não havia confusão, não havia objeto perdido que não encontrasse seu dono ( foi exatamente isso o  que eu disse: que não encontrasse seu dono ).
     Tão rico foi o sonho que Miquelito especializou-se na arte de morder coisas e reconhecer-se nelas. Bem, decorre daí um probleminha : não era exatamente “morder “ coisas, mas sim “dentar” coisas.Nada melhor do que  algumas dentadas para deixar uma assinatura em algum lugar. (Ver: Cunha, Geraldo Antônio. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Ed. Nova Fronteira, 2º edição, SP, l982, para confirmar a grande diferença entre /morder/ e /dentar/. Vale o esforço procurar as páginas 247 e 532 desta obra colossalmente marcada pelo seu autor –pesquisador-dentador-mordedor.)
     O problema não estava mais só na valência do verbo “morder” ou “dentar”, pois o menino tão impressionado ficara com o sonho que sem tréguas exercitava-se na arte indígena do" imprint” (que tal pesquisar esta?).
Enquanto procurava a chapinha “um dia tampinha de refrigerante com bolinhas”, tornava-se um “dentador” de primeira grandeza.
     Dentou todas as árvores da pracinha, os bancos da igreja, os quadros da escola, o andor dos santos, a capa dos cadernos _ dos lápis e canetas nem se fala.
     Tanto dentou, tanto marcou, que o povoado esqueceu as esquisitices anteriores.
     Pés com as cores do arco-íris?Teriam sido apagados pelo crescimento natural do menino? Teriam passado para outras partes do corpo?
       Demais essa criança; se não uma coisa, outra coisa.
        Alguns ainda sabiam de seus pulos, mas o assunto passara a ser outro: o que Miquelito iria morder agora?E para que?
        Faltava-lhe um corretivo, era a voz do povo. Menino que inventa o que fazer termina criando problemas: rezava a boa educação (hummmmm!???) Menino bonzinho não imagina além do que vê e nem quer o que não tem.. Esta é uma sábisábia lei. (eeeeeekkkksssss!)
     Miquelito precisava ser chamado à atenção antes que os outros meninos gostassem da ideia de inventar coisas. Já se falava a boca pequena  que algumas crianças ­ mal educadas, claro! _ estavam discutindo seus sonhos. Longe dos pais _ coitados! Sempre são os últimos a saber sobre as artes de seus rebentos. As crianças estavam formando um grupo de apoio às estórias de cada um.
     E se isso se espalhasse?Quem seguraria a imaginação destes meninos?Um Miquelino Miquelito já era demais. Outros criadores de estórias? Outros inventores de não sei o quê?
       Ah!Não!?Alguém deveria fazer alguma coisa e já!
          Chama-se o padre, recorre-se ao vigário, pede-se ao prefeito, fala-se com a primeira-dama e... a todos Miquelito ouve sem pestanejar.
        Nu em pelo _ ou melhor, em pele __, ouve a esta última com dedicada atenção. Acabara de voltar de uma de suas excursões , ou incursões pelas nuvens do dia e os cabelos fofos no rosto fofo de tão fofa senhora deliciaram-no.Sequer lembrou de  cruzar as pernas ou  de esconder seu reluzente traseiro.
    

        Deu no que deu: além de dentador esquisito, criador de histórias, livre demais, pulador demais, conhecedor de lugares que não se sabia existirem, agora o menino dera para mostrar-se despudorado.
        Lá tinha ele idade para apresentar-se sem roupa? Ei!!!Até que idade pode-se mostrar o traseiro?E o pi... pi... a torneirinha que os adultos chamam de pe...pe...pe...? E que idade tinha o Miquelito?
     Esgotaram-se as perguntas e perderam-se a respostas.
      Afinal, quando nascera o menino pulado?Sua mãe insistia basear-se na idade do penúltimo filho, mas não era boa em cálculos. O pai, ora, o pai tinha certeza de que ele já fizera hora e peso para pegar na enxada, mas desistira de procurá-lo em lugares inimagináveis. Cabeça nas nuvens, não teria herança qualquer da roça que plantavam.
     A única que mostrava saber, mas não dizia era a avó Rosina. Redonda e sábia avó continuava a ouvir Miquelino Miquelito sobre toadas as suas pulações. Ouvira dele e acreditara que a Terra, lá do alto, parecia uma moranga azul. Moranga? É, daquelas mais lisinhas, sem gomos, meio achatadas. E que a água era tanta que dividia as terras em lugares e línguas diferentes. Isso de línguas diferentes não era muito fácil entender, mas deveria ser verdade, pois outro dia Miquelito havia lhe presenteado com uma caixinha colorida, bonitinha, com uns riscos estranhos que ele afirmava ser uma escrita em chinês. Qual era mesmo a palavra?Ora! Não importava. Mas a caixinha permanecia protegida no bolso interno de seu avental, longe de olhos despreparados.
     E foi a avó _ como geralmente são elas... _ a primeira a preocupar-se: estavam “olhando" Miquelito. O que antes parecia apenas uma diferença transformava-se em perigo. Ela percebia os olhos do povo crescendo, agigantando-se sobre os feitos de seu neto. Grandes olhos, olhos grandes, enviesados, tortos, semicerrados, impacientes. Rezou com ervas catinguentas sobre a cabeça do menino. Benzeu seu umbigo com urtiga braba e amarrou fita vermelha nos dois pés coloridos.
     Miquelito achava graça: coisas de avó. Mas respeitava seus conhecimentos e para aproveitar as rezas, pediu que Rosina inventasse uma reza especial para trazer sua tampinha de volta.
     Ara! Isso lá não era coisa para se pedir, e de mais a mais, a este tempo a tampinha já deveria ter sido engolida pela terra. E como na época de seu desaparecimento o menino ainda não era versado dentador, a bichinha não saberia fazer o caminho de volta até seu bolso _ que também precisava lembrar, tinha deixado de existir. Sem bolso, sem roupa, sem roupa, sem bolso. Era isso! Que sossegasse um tiquinho só. Que fosse passar uns pulos em outro lugar para depois contar-lhe as belezuras das terras que jamais conheceria. Estava velha demais e não nascera abençoada pelas cores do arco-íris.
     Menino também chora. E chora grosso, molhado, faz escorrer ranho sem estar resfriado.
     Foi o avental de vó Rosina que acolheu esta tristeza: deixar de lado a procura de sua tampinha lisinha, lisinha?Miquelito P.P.P. jamais aceitaria tal destino. Destino?Que destino?Ele tinha uma estória inteira para dentar e pular _ ou pular e dentar _ até reencontrar a sua chapinha. Ela viraria ouro e ele não perderia este acontecimento por nada deste mundo nem do outro!
     Talvez estivesse na hora de tomar uma atitude diferente.
     Enquanto a avó colhia mais ervas catinguentas, comprava mais fita vermelha e tentava lembrar-se de outras rezas, Miquelito procurou outras crianças. Não qualquer criança, mas aquelas que estavam contando suas estórias e discutindo seus sonhos. Foi através delas que o menino pulador tomou conhecimento do C.O.C.O. _ Centro de Observação e Controle da Ordem __, órgão dirigido pela primeira-dama do município e demais membros de boa educação por ele escolhidos. Há alguns dias, o grupo de crianças estava preocupado com "um" tal documento que estava para ser divulgado. Sabiam que tinha a ver com crianças que sonhavam, pulavam, não usavam bolsos, ou melhor, não usavam roupas.
     Ora, era só mais um C.O.C.O., ao entender de Miquelito. Sua verdadeira preocupação era discutir uma maneira mais eficaz de encontrar sua chapinha-tampinha-lisinha.
     Ah!Bom! isso realmente importava Já não era sem tempo que se encontrasse tão precioso objeto, marca pessoal de dedos, dentes, saliva e histórias. Muito justo depois de tantos exercícios de "dentação". A cidade inteira era prova do esforço de Miquelito para tornar-se excelente dentador. Mas voltando ao assunto, ou melhor, parando nele: não seria de suma importância Miquelito sonhar outra vez com a tal tribo indígena?Sim, posto ter vindo deles a arte de reconhecer-se nas coisas e vice-versa _ por que não versa-vice?Versa-vice pode?Poder podia (poderia?), mas o grupo agora precisava versar sobre outro assunto: seria possível sonhar duas vezes com o mesmo sonho?  Hum!... parecia complicado. Mas nada que uma boa pesquisa não resolvesse.
     Organiza daqui, organiza dali, dividem-se em grupos e eis as tarefas cabalmente resolvidas. Sim, após muita leitura, pesquisa e até algumas ligações telefônicas, cada grupo de trabalho conseguiu arrolar (bonitinha esta palavra, não é!? O povo da UNICAMP parece gostar muito dela... parece!Ninguém está afirmando nada, tudo não passa de mera especulação de participantes dos COLE _ não sabe o que é? Bom motivo para pesquisar.) algum tipo de informação comprovadamente científica e outras nem tanto assim , acerca do universo onírico dos sonhos (onírico...em que sentido? Tudo bem, tudo bem! Com certeza o leitor irá à outra pesquisa.) Mas retornando, seria possível que Miquelito sonhasse outra vez o mesmo sonho? De acordo com alguns, o sonho recorrente era possível, porém involuntário; de acordo com outros, não existia qualquer possibilidade de inferir nos elementos psíquicos do sonho; ainda para alguém, o sonho era uma grande viagem através do inconsciente, enquanto para outro alguém era só o resultado de um dia estressante. Crianças! As informações estão se avolumando de modo nada prático. Pode-se ou não levar o Miquelito para o sonho anterior?
Acontece que o rol (lindinha também, né?) de informações é ainda maior, algumas discordantes, outras aproximadas, outras estapafúrdias. Estapafúrdias? Talvez essas possam ter algum elemento importante... Então? Então?
Bem, bem, bem.... de acordo com um autor que não se deve citar _ já que até hoje não se sabe que fim ele levou ou que fim deram nele ou mesmo se ele teve fim _, existe um exercício para conseguir sonhar tantas vezes quantas se fizerem necessário com o mesmo tema. Caramba! E vocês demoraram tudo isso para dizer algo importante?   É que... não parece tão fácil assim, e ele mesmo escreve que aprendeu esta prática com um índio muito antigo. Quem sabe, essa coisa de índio com índio, não faz você sonhar com aquela tribo inteira, hem?!
            Ensina daqui, treina dali, tenta e tenta e tenta... nada de Miquelito sonhar com a tribo de índios dentadores. A torcida crescia dia a dia. Outras crianças aderiam ao G.A.I.A. _ Grupo de Apoio à Inteligência Ativa _ na mesma medida em que crescia o número de simpatizantes ao C.O.C.O.
           A cidadezinha dividira-se. Mas não de todo, pois o grupo dos que temiam tomar uma posição, irmanados por aqueles que realmente não sentiam qualquer apelo para sequer pensar no que ocorria , formava um cinturão de ignorância. Afinal, isso era mais comum do que se poderia esperar e então estava dentro da normalidade.  Normalidade perigosa para a urgência que Miquelino Miquelito imputara ao seu intento.  Sonhar, sonhar, sonhar...
     Algumas vovós, tocadas pela angústia do neto de Rosina, esqueceram suas divergências e carolices e esmeravam-se na produção do melhor chá calmante, chá sonífero, chá espanta-olho-gordo, chá chama-coisa-perdida... Nessa de coisa perdida, o padre que não ocupara lugar algum na arena das discussões, lembrou-se de uma forte oração para Santo Antônio, inconteste achador de objetos extraviados. Dá-lhe oração para Santo Antônio   , já que orar não faz mal algum à alma do povo.Bem pelo contrário. Grande parte dos sem parte, tocaram-se pela novena das terças-feiras e além do terço inteiro, ainda rezavam o Responsório ao Santo achador de todas as coisas _ até mesmo das impossíveis, como dizia Dona Cacilda, lembrando-se de seu casamento após fervorosa novena ao Santo que carrega o Menino Jesus no colo.


     Ocorre que, no furor em colaborar ou prejudicar os intentos miquelínicos, foram todos perdendo a razão inicial do movimento. A cidadezinha tomara-se de um espírito novo, nada ainda muito definido, mas suficientemente     detectável no quadro social. Modorrentos agora, só os cachorros vadios. E estes já faziam um pequeno número.
     Miquelino passara a dormir mais, ou tentara fazê-lo. Diminuíra seus pulos; suas incursões pelas nuvens contavam de pequenas idas, pequenas voltas entre aquelas que antes tanto prazer lhe proporcionavam. Dentar? Não, nem pensar. A ordem era sonhar, sonhar, sonhar, para encontrar uma forma de reaver sua tampinha-lisinha.
     As cores do arco-íris na planta de seus pés esmaeciam E para não inventar estória, mais uma vez foi vó Rosina quem deu conta das mudanças. Ara! Que coisa essa que estava murchando a alegria de seu neto. Nem mais estórias ele sabia contar, não fora a nenhum novo lugar... isso não estava bom. Não estava bom mesmo.
     A cidade fervia contra ou a favor, contra ou a favor do que? Será que alguém lembrava o que era que seu neto estava procurando?Ara! Ara!Ara! Avós também podem tomar atitudes. E vó Rosina tomou.
     Trocou seu avental por um florido xale _ presente de seu único e sempre grande amor, Feliciano, avô de Miquelino _, prendeu os cabelos no coque redondo das vovós, passou água de alfazema, respirou fundo e pôs-se a caminho. Sabia onde deveria estar seu menino. Com tanta tristeza derrubando seu beiço, só tinha um lugar para ele ficar.
     Não é que ela estava certa? Deitado, encolhidinho, encolhidinho, Miquelino escondia os olhos do brilho do sol, na linha que faz a gente pensar que o céu encosta na Terra. Ele fora longe, movido pela saudade e decepção. Contrariando toda a  ajuda que seus amigos do G.A.I.A. lhe davam, ele  andava insone. Logo ele que precisava tanto dormir para sonhar.
      Deixa estar. Vó Rosina sabia de tudo isso e muito mais. Sem falar palavrinha, tomou o pequeno em seu colo, aninhou-o em seu farto peito, cobriu-o com o xale perfumado e cantou. Vó Rosina cantou com o coração, cantou com os pulmões, cantou com as mãos, com os olhos, com os lábios. Cantou como só as avós sabem cantar.
       Os pássaros silenciaram para ouvi-la, as árvores não ousavam farfalhar suas copas com medo de quebrar o encantamento. Até mesmo o sol amainou seus raios para confortar o pequeno Miquelino.
       Se se pudesse traduzir vó Rosina, talvez se chegasse a um canto mais ou menos assim:

                           "Voe, voe, voe meu pequeno garotinho,
                              voe alto e sempre alto veja o ninho
                              ele espera por você aqui, quentinho
                              voe alto, vá buscar seu presentinho.
                              Vá sem medo, vá sem dor,
                               Não há hora para voltar,
                               Esse tempo é só seu agora,
                               Nada tema, vá brincar.
                               Suba montes e montanhas
                                Não irá se cansar
                                Veja do alto o seu ninho
                                Quentinho, quentinho
                                Aqui ele está.
                                Beije flores e nuvens,
                                Dance com os pardais,
                                Visite a todos eles,
                                Tem seu tempo para brincar.

                                    Voe, voe, meu menino,
                                    Voe alegre e feliz
                                    Você é livre, é criança
                                    Deixe aqui o que não quer.
                                    Olhe as cores de seus sonhos
                                    São puras e são reais
                                    Faça todos os seus planos
                                     Com castelos de cristais.
                                     Sem gigantes, sem dragões,
                                     Nada tema meu amor
                                     Voe alto, muito alto,
                                     Vá buscar o que quiser.
                                      Voe, voe, voe...”

     É, eu disse “se” se pudesse traduzir... Vó Rosina assim ficou, por horas ou dias, ninguém deu falta deles. Braço de vó não cansa, colo de vó não murcha!
      O horizonte encolheu sua linha para proteger os dois. Os animais fizeram um círculo, cada um deu um pouco do que podia. Sombra, penas, calor, olhar de compreensão, até que... espreguiçando feito lagartixa feliz, ei-lo de volta! Mais desperto do que quando nascera, Miquelino beijou a avó, lambeu, beijou e lambeu tantas vezes quanto teve saliva para mostrar seu amor.Os dois viraram uma grande e fofa bola colorida com um restinho de odor de alfazema   
     A linha do horizonte voltou para seu lugar, que céu e Terra também não são de ferro, precisam namorar. Os pardais afinaram o canto e por todos os lados novas sinfonias cortavam o ar. A fofa vó carregava triunfante seu fofo peito. Áh! Colo de vó é uma coisa de outro mundo com sabor das melhores coisas deste.
       Miquelino não fechara a tramela desde o momento em que acordara. Tinha tanto para contar que precisaria de muitos dias inteiros da avó só para ele.
        Na medida em que se aproximavam da cidade, os fofoqueiros de plantão acionaram os ouvidores de prontidão. Conta daqui ouve dali, passa adiante acolá.
        Todos, todinhos ficaram sabendo do retorno de Miquelino e da presença de sua avó. Com certeza ela fizera reza braba, e haveria de contar. Ai dela se não desse a receita.
         Os amigos do G.A.I.A. chegaram primeiro, mas não menos atrás os participantes do C.O.C.O. Eita!, que a junção estava boa.
           A primeira-dama bem que tentou ocupar seu lugar _ isto é, o lugar que ela pensava que era dela, seja bem dito! _, mas com um dar de peitos, vó Rosina posicionou-se devidamente. Xale em punho beijou a testa do neto, fez três cruzes na testa e espalmou a mão sobre seu umbigo. Que tentassem entristecê-lo outra vez, haveriam de ver-se diretamente com ela.
     O pedido por explicações apressou a fala de Miquelino. Queria tranquilizar a todos, estava tudo bem. Sim ele conseguira sonhar, e até bem mais do que isso, mesmo que não soubesse explicar.
       Contou como criança sabe contar, desde o princípio, fazendo caras e bocas e mexendo muito as mãos, quando não levantando as solas dos pés, iluminadamente coloridas.
        Dormira e sonhara sem parar. Não, não encontrara a tribo de índios, nem pensara em procurar. Pois seu sonho tinha sido um voo alto, muito alto, que o ajudara a pensar.
        Até um anjo ele encontrara, em um castelo de cristal. Muito fofo e carinhoso, o anjo carregava um xale e coisa e tal. Cheirava alfazema e era lindo como ninguém. Cantava músicas do céu enquanto brincava sem parar. Esse anjo lhe mostrar que a tampinha-lisinha-lisinha já se tornara ouro e por isso não pudera ser encontrada.
        Ouro? Tinha certeza? Virara ouro assim, de tantas dentadas?
         Que dentadas qual o quê, não era essa a magia. A tampinha- lisinha-lisinha servira apenas de pretexto.
               Pré... pré... texto?
            É, mais ou menos isso. Miquelino contou o que sentira, deixando de lado o que talvez pudesse ter acontecido. Explicou como gente grande que sabia ter nascido diferente, mas que tudo isso era bom, pois todos nascem com alguma marca de distinção. Apenas, em alguns, a marca não fica tão visível assim. Outros, não gostam das diferenças e esforçam-se ao máximo para serem iguais _ iguais a quem? _ Iguais aos que eles acreditam sejam os melhores, ou piores, o que é muito ruim. Bem, daí que, por todos terem sempre acreditado que ele era muito diferente, ele se sentira reforçado para fazer tudo o que fez. E que continuaria fazendo, pois se sabia capaz de fazer muito mais. Nascera P.P.P., com a cor do arco-íris, com capacidade para dentar, mas, não sabia cantar, por exemplo, e queria aprender. Queria aprender o que não sabia e ensinar o que nascera sabendo. Para isso, seria membro ativo do G.A.I.A, e convocava todas as crianças para fazerem parte dele.
               Quanto ao C.O.C.O., bem, isso seria um detalhe para os adultos resolverem. A começar pela sigla, o nome e o resto parecia não cheirar bem.
                Mas e a tampinha? E a tampinha com as marcas de sua estória?
                 Eu sonhei e entendi que minha tampinha dentada está aqui, em todas as marcas que fiz e farei. Minha estória está apenas começando.
                  Mas ela transformou-se em ouro, você precisa saber como, para fazer outras.
                   Não fui eu que transformei minha tampinha em ouro, foram todos vocês que transformaram em ouro a minha estória.
                   Agora, se me derem licença, preciso carregar o xale de minha avó Rosina, ele pesa muito e ela é muito fraquinha. Vou com ela para casa... estou com saudade de seu colinho.
                    Não é que os dois, ao voltar para casa, encontraram um pote de... Ara! Isso fica para outra história, esta já tem ouro demais.

                            FIM... ou não?    

Sem cores a DAS DORES


             
SEM CORES A DAS DORES

                                                    
                      Não era dia, nem noite, nem chovia, nem fazia sol.
                      Era um tempo sem tempo, feito aquele que faz os bichos perderem o medo dos homens e os homens encontrarem alguma razão.
                      Ele chegou assim: firme em sua carroça puxada por um casal de avestruzes.
                     Tantos potinhos carregava que mal se podia pensar onde o tal sentava. Se é que sentava, pois parecia flutuar entre as incontáveis “coisinhas” que carregava.
                      Coisinhas?
                      Bem, sabe-se lá como explicar o que era aquilo: redondos, redondinhos, compridos, achatadinhos, maiores, menores. Todos transparentes e bem fechados, isso dava para ver.
                     Coisas de outros mundos?
                     Era o que o povo começava a dizer.
                     Ele permanecia imperturbável diante da multidão que acorria e corria.
                     Crianças arregaladas, vovós sem avental, homens com sabão na barba... todos, todos estes e todos os outros que não contei olhavam sem entender.

­­­­­­­­­­­

                   A curiosidade era tanta, tanta!, tanta! Que até o padre saiu para ver.
                   Êta!!! Coisas sem cabimento!
                   Benze que te benzo, sai logo daqui. Vá de retro carrocinha, nada sei de ti.
                   Nem benzedura nem cara feia.
                  “Ele” não interromperia seu ofício de jeito nenhum!
                   Queria era encontrar logo a praça.
                   Mas qual o quê?

                  A cidade era uma tripa esticada para dedéu.
                  Nada de ver uns canteirinhos redondinhos, bem floridos, banquinhos para namorados...
                  Cadê o miolo da cidade?
                  Toca para frente, olha para os lados e nada!
                  Dobra `a direita, entra `a esquerda e só vai mesmo aumentando o povo falador.
                  O padre não voltara à igreja, seguia com a multidão para onde ninguém sabia.

                   Caminhavam como que embriagados pela estranha visão.
                   Mas não era só isso.
                   Daquelas “coisinhas” todas exalava um odor... hum!, como dizer!?...
                   Diferente?
                   Ora, diferente não é palavra que se apresente para descrever o que acontecia, ou melhor, se sentia!!!
                   E como sentia!
                   Era um odor que parecia ser conhecido, mas não se identificava: seco e úmido ao mesmo tempo, nem forte nem fraco. Penetrante, curioso!
                  Seria adocicado?
                  Picante?
                  Cativante, talvez?
                  Era um odor conhecido, não sabido e muito diferente.
                  Não dava para deixar de sentir.
                  Entrava narinas adentro, descia pelos pulmões, chegava ao estômago _ fazia uma cutucadinha de não sei o quê _ e voltava mais forte, mais inebriante.
                 Enroscava no pescoço, roçava a pele, brincava com os cabelos, soltava os rabos-de cavalo e, sei não!, parecia fazer alguma coisa a mais.


                  Todos cheiravam, cheiravam, sorriam e cheiravam.
                  Até o padre inflava seu já descomunal narigão.
                  A multidão caminhava com o nariz à frente, desequilibrada pelo odor que entrava e entrava. Ligada por um fio invisível, seguia atrás da carrocinha.

                 Fio invisível?
                 Não é que talvez fosse esse o mistério?
                 Pois, havia ainda o som.
                 Sons, sons, sons é o que eu devo dizer. Diversos e indistintos sons. Finos, fininhos, suaves, fortes, longos, altos, baixos, de um chacoalhar contínuo e compassado.
                 Ao rodar da pequena carroça, liberavam-se os sons.
                 As coisinhas de outros mundos pareciam ter vida própria. Encostavam-se, saltavam e voltavam para o lugar como em um balé muitissimamente ensaiado.
                 Inebriante visão!
                 Ops! Visão??? lembrei-me do quadro que tudo isso criava. Digno de um Renoir em dia de inspiração (posso pensar em um Portinari, ou uma Tarsila do Amaral, ou um ...) Talvez os mestres das cores compreendessem melhor a magia da visão que se formava.
                  Ninguém desistia da procissão. Nem mesmo os gatos e os cachorros ficaram em casa. Saíram todos.
                 Ele já estava desistindo de encontrar a pracinha da cidade.
                Cidade sem pracinha?
                Cidade sem coração...
                Namorados sem banquinhos?
                Crianças sem gangorra?
                Hum!!! Isso não estava em seus planos.
                E agora?  A quem perguntar?
               Alguém poderia informar. Alguém?
             Alguém “quem” daquela multidão embasbacada?
             Grandes e arregalados olhos sobre inflados narizes aguardavam um movimento.
              Ele sorriu para si mesmo. Era sempre assim. Quanto menos alegre a cidade, menos o reconheciam. Mas isso não se constituía em um problema. Se é que problemas se constituíam.

              Voltando a “alguém", acabara de deparar-se com um par de olhos genuinamente inteligentes. Uma alma divertida vislumbrava-se por entre as pálpebras semicerradas.
              Lindo sorriso.
              Mais alguém se divertia com a situação. 
              Palavras bem ditas não se precisa dizer. Os olhos falam muito mais do que os ouvidos podem ouvir. A não ser que não se conheçam os sinais.
              As crianças sempre conhecem, e esta, ah!, esta era especialista. Não contava mais de cinco anos de idade _ idade cronológica, claro! ­__, e aprimorara-se para além da conta na linguagem do... !(Ora, falamos sobre isso depois.).
             Acariciando o casal de avestruzes, deu as informações necessárias: nem praças nem gangorras, nem banquinhos para namorar. As amendoeiras haviam secado por falta de poesia, as crianças desaprenderam brincar, não havia canteiros redondos, nem flores a perfumar. Só ruas retas e casas brancas. Muito brancas, como bem se podia ver.
              A escola ficava atrás da igreja e as duas eram brancas também. A rua até elas era reta, retinha, não era possível se perder. Ida e volta fazia-se de olhos fechados. A professora chamava-se Das Dores. Quem dera o nome? Ora, ela nascera Das Cores, mas tanto tempo se passara... ninguém sabia exatamente quando tudo iniciara, se é que tivera um começo. A troca de letras foi se dando aos poucos, sem reclamações por parte da professora. Ela não dissera "não" e então, trocaram seu nome. Houve uma época em que tentaram chamá-la de tia e daí, esqueceram que era professora. Confusão das confusões! Sabe como é! Tia é tia, profe é profe, é fessora, é psora, é sora, é pró, mas não é tia, né? Bem, o Renatinho da casa da esquina é sobrinho da Das Dores, mas ele ainda não vai para a escola. Então... você sabe! Áh! O nome do padre é Pedro, mas ele não deixa trocarem seu nome, não! Ele é tão gordo assim por causa do sino. Isso mesmo. Além de ser padre, ele bate o sino de seis em seis horas. Precisa comer bastante para aguentar. Aos sábados, ele ensina música. Mas nem sempre tem quem queira aprender. Daí, ele toca sozinho, sozinho. É quando eu mais gosto de ouvir. Parece que o padre Pedro fica todo colorido. De olhos fechados nem me vê entrar. Fico quietinho escutando e até esqueço-me de voltar. Você sabe como é!
               Minha casa também é branca, fica mais atrás. Vou  contar um segredo: eu  não gosto, não! Quando crescer, resolvo isso. Eu e outras crianças. Vamos colorir todas as casas, alargar as ruas...
               Circo? Não, nunca tivemos um na cidade. Minha avó conheceu um circo enorme.  Ela não mora mais aqui.  Belos avestruzes...
               E agora, José? Como fazer o que se tem de fazer em uma cidade sem praça?
               A multidão não se mobilizara para lado algum. Esperavam, esperavam impávidos. Talvez nem tão impávidos assim, mas a figura fica bem ao contexto se eu remexo no texto. Retornando ao texto, haveria de se pensar em algo. Posto que, a bagagem da pequena carroça contava com prazo de validade. Seguramente, necessitaria da colaboração da pequena grande criança. A boa linguagem do... (fica para mais tarde discutirmos esta questão) agora seria essencial, ou melhor, primordial _ (Do lat. Primordiale) Ver "Aurélio, O Dicionário da Língua Portuguesa, 8º Edição, Editora Positivo, Curitiba, 2010). Ao trabalho, então.
                Primeiro movimento de pernas, primeiro murmúrio da multidão, já não mais silenciosa.
                ÓH! Ele havia esquecido alguns detalhes.
                Realmente, descer de uma carroça requer sempre o cumprimento de certas regras de elegância e bom tom.  Bom tom? E desde quando pernas têm a ver com tom?– não se fazendo qualquer referência ao Jobim, é claro! Claríssimo, pois esse teceria uma ode a respeito do tema. Que tema? Pernas ou tom?, ou era sobre “bom” que se falava? Essa mania de comentar o texto pode distanciar o tópico. Pode? Bem, bem, bem, voltando à primordialidade da questão, e já com os dois pés no chão, diga-se muito rapidamente que a multidão dispersara-se em incontido alarido. Menos o especialista na linguagem ainda não comentada.
                   Êta!, criança porreta!
                  Aqueles olhos sabiam ouvir, entender, e conversar como ninguém. E era disso que ele precisava agora para tecer um plano ecologicamente rápido. Sem ciclos? Ora, em se aludindo ao que é ecológico, obviamente infere-se a ciclos. Mas entendendo-os encurtados, desta vez, pela urgência das circunstâncias. Bem dito? Bendito, também. Esperava ele.
                    Era um tempo sem tempo, mas os potinhos não poderiam esperar. Ou melhor, o que eles “guardavam” não era propriamente para permanecer “guardado”.
                  Um olhar mais detido mostrava uma cidade limpa. Seria limpa demais?
                  As ruas em paralelo formavam ângulos perfeitos. Retas irretocáveis.
                  Os paralelepípedos pareciam polidos a mão. Não o foram, dava a entender a sorridente criança, essa simetria toda era obra dos mesmos passos, nos mesmos lugares, indo e vindo, sem qualquer mudança de direção ao longo de vários e vários anos.
                   Conseguia imaginar? Se conseguia! A prova estava ali, lisa e fria, quase impedindo seus pés de permanecerem equilibradamente no mesmo lugar.
                   Como é que as pessoas conseguiam andar com segurança sobre algo tão deslizante? Ora, o costume, é claro! Acostumamo-nos por repetição, especialmente nos casos em que a ação não é discutida.
                    Hum!!!Grandes reflexões para cinco anos de experiência. Cinco? E desde quando se diz a idade de uma criança a partir de sua data de nascimento?
                   Concordância total. Não era à toa que aquele par de olhos deparara-se com os seus.
                   Bem, e o plano?
                   No mais eloquente silêncio, no meio da rua deslizante, ao pé da pequena carrocinha e tendo por testemunhas o casal de avestruzes, um plano foi elaborado para reviver o coração da branca e retilínea cidade. E entenda-se que reviver é o verbo correto para este contexto, posto ser impossível uma cidade nascer sem coração. Em algum lugar do passado ele pulsara, pulsara até irrigar a formação daquelas famílias todas. Quem sabe alguma vovozinha escondida em sua cadeira de balanço pudesse colaborar. Vovozinhas sempre escondem uma história a mais em suas belas mangas de renda, entre agulhas de tricô, no fundo das cestas de costura, dentro dos balaios de retalhos. Isso sem falar nas fotografias de canto amarelado, nas cartas amarradas com fitas de cetim...
            Urgente! Procura-se uma vovó sentada!
            Um biscoito?
            Não! Uma vovó!
            Ah! Se fosse um biscoito...
           Pela primeira vez desde o primeiro olhar, a criança emudeceu.
             Nos belos e profundos olhos instalou-se uma nuvem escura e aguacenta. O casal de avestruzes  aconchegou-se mais um ao outro, procurando proteção  diante de  tamanha tristeza.
            Tristeza nos olhos de uma criança?
            Em que parte eu fugi da história? Eu perdi o tema? Fiz comentários indevidos? Articulei mal alguma palavra? Errei os sinais? O texto, o texto não é este, voltarei para a primeira página e...  
             Não é o texto, é o contexto!
            Você quer uma vovó sentada em sua cadeira de balanço para abrir seus baús de boas recordações, não é? Pois veja. Você não encontrará nenhuma vovó, nenhum vovô em toda a extensão de nossa branca e limpa cidade. Eles não moram aqui. Eu lhe disse, você não leu a implicatura em minhas palavras? Vovôs e vovós não sabem andar em linha reta, nem conseguem firmar-se mais em nossas ruas frias e lisas. Eles são como nós, crianças, mas com uma desvantagem muito grande: não gostam de obedecer. Querem conversar, contar suas lembranças, querem abraçar todo o mundo, fazer doces e comê-los na hora errada, querem colocar-nos no colo quando fazemos traquinagem, gostam de cores , música e dança. Isso tudo seria um grande perigo para a cidade. Além disso, todos eles sabem onde era a antiga pracinha. Contam romances que nasceram ao pé do coreto, recitam poesias perdidas no tempo, ressuscitam flores secas roubadas de algum jardim. Eles ainda querem dançar valsas, eles querem sentar na pracinha para ver a banda tocar (a banda também não está mais aqui). Eles conhecem circos enormes, lembram o nome dos palhaços. Vovôs e vovós pintam o sete. E esta cidade só tem uma cor. Fizeram um plebiscito há muito tempo atrás. Ficou decidido que todos eles morariam para além das montanhas. Só podemos visitá-los uma vez ao ano, para não nos acostumarmos a tudo o que nos dão e contam.
      Posso furar a nuvenzinha de meus olhos agora?
      A nuvenzinha cresceu e encobriu a carrocinha. A água era salgada, parecia temperada a mão.
       Minutos eternizaram-se.
       O tempo que era sem tempo tornou-se frio. Foi quando ele resolveu acionar o plano  inicial.

        Subiu na pequena carroça e com a ajuda da criança, descarregou todos os potinhos.
        Era pote que não acabava mais: formas indescritíveis, espessuras variadas, tamanhos para todos os gostos, diâmetros impossíveis de calcular.
       À medida que desciam alteravam o contorno da rua.
       Desrespeitavam a calçada, invadiam jardins, subiam nos parapeitos das janelas, no compasso de uma frenética e inaudível sinfonia. Multiplicavam-se, multiplicavam-se como que detentores de vida própria.
       Não havia mais espaço em branco.
       Nem mesmo os telhados foram poupados.
       A igreja, o sino, os bancos vazios, a sala de música, a escola, a mesa da professora, a biblioteca sem livros, a quadra de esportes que não conhecia bola. Tudo tornara-se lugar para alojar  os  tais potinhos.
        Diferente da primeira cena, ninguém apareceu para perguntar.

        Fez-se silêncio na pequena cidade.
        Nenhuma janela abriu em par, nenhuma cortina correu. Se é que espiaram, ah! , isso ninguém viu.
        Se cochicharam com seus botões, disso também não se soube. Mas o fato estava ali. Alguma coisa estava acontecendo e estava mesmo!
         O tempo passara a contar e eis que a noite caiu.
         Os potinhos foram destampados um a um.
         Por quem?
         Ninguém viu.
         Ninguém percebeu.
         Também ninguém deu conta do paradeiro da carrocinha e seu novo ocupante.
          Mesmo porque passaram a noite às voltas com sonhos antigos, lembranças esquecidas, conversas pé-de-ouvido, sons, cores, vozes e odores entremeados com imagens vibrantes, figuras geométricas, flores fustigantes, afagos vibrantes.  

           Ninguém viu em que momento as cadeiras de balanço voltaram a ranger.
                  A noite teceu inúmeras colchas de retalhos.
             Uma colcha mais colorida do que a outra emolduravam camas e sofás. Fotografias amareladas saíram de suas caixinhas de rapé e tomaram espaço junto a outras fotografias. Os bancos da igreja encheram-se  na primeira hora da manhã. Ah! Que bela visão... o padre Pedro reforçou o café por três derradeiras vezes e tanto badalou o sino que moradores de outras cidades acorreram para saber das novidades.

            Curiosamente as ruas amanheceram com novos ângulos. Uma textura menos lisa cobria os paralelepípedos. As casas coloriram-se com os raios do sol. E no clímax das mudanças, ei-la surgindo bem no centro da cidade: a antiga pracinha. Com seu coreto, banquinhos e gangorras, flores, balanços e amendoeiras parecia recortada de uma tela de Monet.
Bela e vigorosa atraiu velhos e jovens, adolescentes e crianças, casados e descasados, apaixonados e desapaixonados. Até a professora Das Dores, em um momento de pura lucidez, subiu ao coreto, pediu a palavra e retomou seu nome. Das Cores, Das Flores, Dos Amores, nada mais ficou na saudade. Agora tinham alguma coisa para dizer, para contar, para recitar, para perguntar, para retorquir.
       A cidade colorira-se na mescla dos ciclos da vida, interativos entre si, entrelaçados por finos fios de amor e compreensão: trocas comuns entre os que respiram a mesma emoção.
       As cores aquecem os corações, assim como as pracinhas acalentam os sonhos e até as ilusões. Estas últimas são necessárias, tão necessárias ao mundo real que as faltando, as verdades emudecem. Quando não, uma verdade apenas torna-se ilusão, ditadura e negação.
     Se alguém escreveu que o ser humano acostuma-se com o sofrimento, esqueceu-se de registrar que mais facilmente ele aprende a ser feliz. E em  qualquer tempo fora de tempo, pode corrigir o que errou.
     Dos potinhos nada se fala, deles também não. Ficou uma certeza: raios de alegria multiplicam-se em saúde e bom-humor. Se foi mágica ou esperança, se foi sonho ou não, tanto faz para quem não teme mudar o que está.
        Quanto à discussão sobre a linguagem do... bem!,em sendo a linguagem do..., não se faz necessário qualquer discussão.
         Os sinais remontam à criação e se os primeiros homens sabiam usá-la, certamente cada um dos outros homens traz impresso no DNA o maior, o mais rico e mais expandido léxico da humanidade. Claro! Você está usando os sinais agora, caso contrário já teria largado este texto.
           Retomando a história do texto (ou o texto da história _ é interessante tentar descobrir quem dá origem a quem, quem está contando o quê de quem onde... o texto conta a história ou a história conta o texto? Deixa pra lá! O que interessa é continuar para chegar ao fim, mas não propriamente ao "THE END", pois esta história... ainda vai dar o que contar.), e em se tratando das mudanças que ocorreram na cidade, há de se observar que esta é uma história real. Então, a magia deverá prevalecer. Mas, nem todos sabem disso. Assim, em um final de tarde qualquer, depois de algumas crianças já terem recolhido suas travessuras, o branco bateu em algumas portas.  Bateu, entrou e...


             Bateu, entrou e...
             Como que vindo do nada, invadiu retinas e corações.
     Um frio compungido, entremeado de pequenos espaços soluçantes, abria janelas, levantava colchas, atravessava tapetes e quando não, estraçalhava as margaridas em flor.
              Os mais sensíveis juravam ouvi-lo. Diziam que fazia um som glotal, parecido com o som que algumas tribos indígenas do Alto Içana, AM, fazem. Esse som não tem descrição. Tanto se instalou o branco frio, que não mais se sabia quem viera primeiro: o branco ou o frio? Juntos, falavam os mais sábios, juntos, juntinhos, grudados, grudadinhos. Não é que na casa do Seu Nadinho já fazia mais tempo que dava para ouvi-los?
             Claro! Até já virara fofoca entre as Carolas de Padre Pedro. Nenhuma delas passava pela calçada do tal vizinho. Tinham certeza de que eram almas penadas pesadas e empanadas. Não se poderia diminuir a qualificação? Assim fica parecendo texto de almanaque italiano.... Ara! Onde já se ouviu falar em alma empanada? Empanada sim, empanada, daí o branco farináceo (ai, Jesus! Cata o dicionário para dar conta desta!) que se espalhava sorrateiramente pela cidade. Essa história de branco se espalhando de novo?...