domingo, 31 de julho de 2016

AOS DOUTORES DA SIMPLICIDADE



GRADUADOS PELA VIDA

- especialistas em sábia simplicidade –

“Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.” Clarice Lispector

                                    A ignorância linguística e a estúpida boçalidade de um especialista clínico atravessaram as redes sociais nessa última semana. Verdade ou não, o tema é fidedigno ao cotidiano da soberba e não representa a classe médica – há de se lembrar que os especialistas da saúde cuidam do corpo e da mente, da alma e do que quer que esteja vinculado ao universo da subjetividade humana – será? Só para lembrar, outra vez, a cura é um trabalho em conjunto e não exime o paciente de seu lugar de sujeito ativo, apesar das fóbicas distâncias que, infelizmente, instalam-se em muitos ambulatórios de atendimento clínico, assépticos de honrosa humanidade. O rodeio desta contextualização serve para terapizar a indignação diante do ocorrido, tenha se dado ele na ficção ou na realidade. Confesso que não sei é possível baixar o nível do desprezo gerado pela cena: dois homens em um lugar de legitimidade do socorro, do cuidado, sendo que apenas UM DELES TINHA CIÊNCIA SOBRE A MECÂNICA DA VIDA. Pena! Apenas um deles...
                                  Riram os profissionais envolvidos no que foi considerado erro de linguagem? Pois, riamos nós, da profunda ignorância linguística desses nativos de Língua Portuguesa Brasileira formados em saúde - sic!sic!sic! - e aplaudamos a genial capacidade do senhor letrado, mecânico de profissão, em gerar comunicabilidade. “A simplicidade é o último grau de sofisticação.” (Leonardo Da Vinci) Pois, aí vai: primeiro, a língua escrita e a língua oral são duas. Fala-se diferentemente do que se escreve. Segundo, /pneumonia/, vem do grego /pneumon/ “pulmão”, acrescida  do sufixo -IA, usado para caracterizar doença. Terceiro, /peleumonia/ vem do regionalismo sadio acrescido da lei de menor esforço, típica do momento da fala, agregada por justaposição ao constrangimento pela exposição diante de um DOUTOR DA VIDA, somada ao comum radical da timidez do povo na legitimação de um interlocutor SUPERIOR EM LETRAS – sic! sic! sic! – e, pela fonética que explica o ambiente  articulado de uma plosiva oclusiva bilabial /p/ (conforme o  International Phonetic Alphabet) em environment de CCV, de acordo com Joaquim Matoso Câmara Júnior. Quarto, pelo dever de cuidado, eu gostaria que se “tirasse a pressão” semântica dos demais envolvidos, a fim de explicar-lhes que, mais uma vez, o riso é nosso diante da estulta e covarde gafe lexical. /Tirar a pressão/ , por convenção social, equipara-se a /tomar um ônibus/, ao invés de /bebê-lo com canudinho/; a /tomar um banho/, ao invés de abocanhar a água do chuveiro. Se bem que, talvez seja essa a semântica de enunciação que decorre da ignorância acadêmica - sic!sic!sic! - dos profissionais que protagonizaram a delonga da cena enunciativa em comentários agregados ao exposto pelo primeiro delatante do erro . Então: Sô dotô, imagini si ocê pricisá operá o mutô du carru e faiá as ferramenta?Prá mais di bão qui le socorro...cum certeza!Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” (Cora Coralina)
 Infeliz o que carrega um diploma nas ventas e espaia opróbio. A ignorância começa na alma e se espalha pelo coração : o sangue da arrogância obstrui as cavidades por onde deveria fluir o natural respeito pela diversidade. E ainda, em se tratando de diversidade, é o que mais se retrata em falando de línguas naturais.
 Quem sabe, devêssemos prescrever uma receita de tratamento contínuo para os profissionais sem ética nem poética: aplicação intravenosa de respeito humano ad eternum.O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes. (Cora Coralina)

ESTE TEXTO É UMA HOMENAGEM AO DOUTOR EM COMUNICAÇÃO QUE NÃO SE CALOU DIANTE DA DOR E DE UM IMPOSTOR DAS CIÊNCIAS HUMANAS.

Ivane Laurete Perotti

domingo, 24 de julho de 2016

MATILHAS



A PATOLOGIA DO LIMITE

- doenças do comportamento são geradas por mitos de impunidade -

“Onde acaba o amor têm início o poder, a violência e o terror.” Carl Gustav Jung

                                      Como podemos ter vontade de algo que não conhecemos? 
                                    Diane e Actéon deslizam por bordas opostas na mesmíssima linha do limite: a deusa caçadora e o filho do rei Cádmo tramam hoje as sobras da cólera e da punição. A qual guerra servem os dois personagens da mitologia grega? Se nos pudessem dizer da utópica vergonha, nua desonra para os conceitos de castigo e poder: fórmula do terror sobre a vida do homem despreparado – o diriam? Se pudesse a deusa desfazer-se diante das vestes molhadas, salvaria o caçador das garras dos cães sedentos? O medo tomou-se por ousadia e o herói fugiu: diante da imagem animalesca refletida nas águas do lago, desgraçadamente, o caçador sucumbiu. Por trás da máscara criada, a consciência mantinha-se em lágrimas de medo. Medo e vergonha dispunham-se à morte. Morte do corpo escondido em falsas bravuras. Morte da compaixão. Morte da indignação, refluxo único de um caminho quase sem volta.
                                 Como podemos desejar tão fortemente a paz que não alcançamos?
                              Na hesitação, o fôlego do mal cria corpo. Por despenhadeiros e rochedos Actéon, que corria mais do que o vento, sentiu as garras da ferocidade: vergonha e medo, punição e covardia. Por onde Melampus, Pangafu, Dorceu, Lelaps, Teron, Nape, Tigre e todo o resto da matilha cravar-lhe-iam as garras? Não lhe reconheceram o mando e o bosque verdejante ouviu-lhe as súplicas inumanas. “Para que se deveria, em meio à grande ausência de limites, colocar a todo custo um limite qualquer?” (Jostein Gaarder)
                                   Como podemos ocupar o lugar da falta?
                                   Na cadeira do tempo, uma sombra deixa-se ficar sem pressa: é espessa e úmida, lembra um grande borrão acinzentado. Ninguém lhe pede o lugar. Ninguém lhe proclama a existência indelével. Ninguém se aproxima para negociar espaço. Ela permanece incólume e constante até o dia em que lhe chamam à razão. Uma guerra toma assento e a cadeira já não é mais o limite. “A violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota.” (Jean Paul Sartre)
                                 Como podemos preencher a lacuna da vontade, se... aprendemos a ser matilha? Se aprendemos a tosquiar a hombridade e invadir a nudez das águas da consciência? “Não existe caçada como a caçada a um homem. Aqueles que caçaram homens (...) por algum tempo e gostaram, nunca mais conseguiram se importar com mais nada na vida.” (Ernest Hemingway)
                                Como podemos nascer outra vez?
                                Outra vez faz parte do mito... a linha do limite foi ultrapassada há muito tempo! 

Ivane Laurete Perotti
                               
                    

domingo, 17 de julho de 2016

SOB O FÔLEGO DA VIOLÊNCIA

TRILHAS DA /DES/UMANIDADE

- o fôlego da violência desonra o tempo da vida e da morte -

"É desta massa que nós somos feitos: metade de indiferença, outra metade de maldade." José Saramago"

                                    Na caverna uterina um lampejo de conceito toma a forma de bondade. Antes que o tempo se lhe sirva para o amadurecimento, uma pontiaguda  massa de intenções maléficas atravessa a bolsa líquida: morre a bondade antes de vir à luz das possibilidades. No lugar da bolsa, o destino de uma esperança rompida, esvaziada de vontades jamais expostas. Eis a triste metáfora da humanidade: desumana por escolha e consequência. Eis o caminho de uma raça que bebe do cálice da intransigência, do egoísmo fanático, da usurpação... taça de cegueira colocada à mesa da história. Mesa posta sobre as dores sem fronteiras, sobre as almas perdidas, as mãos dilaceradas em lágrimas de fecundo terror. O planeta afoga-se no sangue da única espécie viva capaz de extermínio global. Afoga-se no choro de quem espera.
                                    Ouvem-se passos atropelados. Gritos de medo ferem os ouvidos das estrelas. Feridos tombam sobre o asfalto enlutado. Nos jardins das cidades, o mundo enterra a consciência de sua natureza: por onde caminha a humanidade?  "Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo." (Saramago)
                                  Nem sonho nem sonhador encontram a porta de saída para o pesadelo da repetição: mortos empilham-se nas páginas frias das estatísticas mundiais. Corpos desnudos esperam nas gavetas de um necrotério qualquer. Nomes perdem o poder de identidade  no foco das evidências do mesmo e sempre o mesmo fato. Aqui, atentados silenciosos tragam a vida rotineira das catacumbas urbanas em rotos e repetidos assaltos - ignomínia das desigualdades manipuladas no descaso e na injustiça ; lá, atentados silenciam vozes que deixam a vida sem tê-la visto triunfar. Aqui e lá, a mesma guerra, a mesma indiferença à vida e ao clamor dos ciclos naturais. "Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia."(José Saramago)
                                  Distribuem-se vendas políticas, anestesias sociais, justiças de boteco e grandes listas de argumentos vãos. A ineficácia é a primogênita da má vontade na família da improbidade. Perversas são as raízes da maldade, tristemente arraigadas à incompletude dos homens neste universo das barbáries."O difícil não é viver com as pessoas, o difícil é compreendê-las." José Saramago
                                   Nas trilhas deixadas pelas lágrimas de perda e pânico, alguns discursos servem de apanágio: pensões de indiferença no colo dos enlutados." Por favor, alguém que me faça estas contas, deem-me um número que sirva para medir, só aproximadamente, bem o sei, a estupidez e a maldade humana." (Saramago)
                             Nas praças do mundo, as cidades choram e as flores não aquecem mais o coração dos que ficaram em pé. Em pé? Não há luz nas velas de cera, nem há cera suficiente para todas as velas sem luz.
                            Quando a cabeça não pesa mais do que o próprio umbigo, algumas almas olham para a frente e veem o avanço do abismo: rogai por vós, aves de rapina, pois de onde as vemos, veem-nos também vós!

Ivane Laurete Perotti





sábado, 9 de julho de 2016

LITTERA

QUANDO AS LETRAS DESENHAM IDEIAS PELAS MÃOS DE ALGUÉM, OUTRO ALGUÉM DESENHA SENTIDOS QUE AS PRIMEIRAS MÃOS SEQUER PENSARAM EXISTIR. AQUELE QUE ESCREVE É TÃO SOMENTE UM CARPINTEIRO DAS SIGNIFICAÇÕES... A ARTE, ENQUANTO ESTÉTICA DO INATINGÍVEL É A INTERPRETAÇÃO DA BELEZA PRÓPRIA ÀQUELE QUE A DESNUDA. O LEITOR É O VERDADEIRO FAZEDOR DO TEXTO; AS LETRAS, UM TIPO DE CINZEL QUE UNE OS MUNDOS E LIBERTA OS SUJEITOS ENVOLVIDOS. Ivane

PREMIAÇÃO COMPARTILHADA


PREMIAÇÃO COMPARTILHADA:
PRÊMIO EM CONTO, PELA ADB ( Associação Brasileira de Desenhos e Artes Visuais) QUE REALIZOU UM CONCURSO NACIONAL EM LITERATURA. A ABD é uma das casas dedicadas às artes mais antigas do Brasil. PRÊMIO DEDICADO AOS ALUNOS DO CURSO DE PEDAGOGIA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

IN-DIGNOS: TORNOZELEIRAS DE PRATA



DE VOLTA ÀS ORIGENS

- do povoamento à formação atual: um Brasil de generalizações -

"Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade" Sócrates

                                      Diante da nau que partia buscando mais compatriotas, o condenado  sentiu pela  a liberdade quase profana tomar-lhe os ossos. A nova terra prometia céu, sol e água pura para saciar a sede de vencer a preço de conveniência. Um entre muitos, ficou e fez história na  linhagem  de uma nação que sequer sabia, naquele momento, temperar com o seu caráter réprobo. E antes que o politicamente correto tomasse lugar em suas conjecturas, o sentenciado disse alto e em boa voz lusitana: venho para o bem dessa terra de ninguém, pois que antes tome-a eu, pela retidão de minha vontade, do que a deixe para um forasteiro nefasto. E assim se deu.
                                    Embrulhados em precárias flâmulas políticas, dançam diante de nós a temperança fraudulenta - a saber que tal "temperança" é a figura da ironia brasileira, do tipo que carnavaliza as falhas de caráter  ao sabor da Idade Média . Contrários ao comedimento, os vassalos da ganância disseminam-se maciçamente: da corte ao plebeus, dos plebeus aos filhos de algo/fidalgos/, dos fidalgos aos bastardos, dos bastardos aos comissionados pela posição. Aos sem eira nem beira, o crédito pela selvageria da precária seguridade.
                                    À beira de uma política da desonestidade, nosso legado é funesto. Estaria no sangue, nas veias e na genética tamanho impulso para as falcatruas de grande monta? Formar quadrilhas tornou-se ciência: venha a nós o vosso dinheiro, a vossa merenda, as vossas calças... Fatiotas impecáveis transitam pelos corredores da vergonha nacional. Farpelas nutridas a bom prato - ratos da nação - ainda alcançam discursos de arguta defesa e pagam com o dinheiro afanado as custas da liberação. Custa acreditar que tenhamos voltado ao início de nossa história e a refaçamos com tamanha galhardia. Discurso politicamente correto? Ora! Quem for capaz que anuncie a primeira definição. Cadê as pedras?
                                    Tornozeleiras eletrônicas - algemas de tornozelo - não limitam as mentes criminosas; no máximo, esses "adereços" em execução de justiça, parafraseiam o cárcere indiano imposto a algumas mulheres: dos saris às joias de peso/preso, as eletrônicas não pesam - pelo menos no corpo, pois que a moralidade de um imoral não tem espaço para melindres de decência , pruridos de vergonha ou consternação. A desonestidade começa em outro lugar: qual? "Ao contrário do que se diz, não é a ocasião que faz o ladrão. A ocasião faz o roubo, o ladrão já nasce pronto." (Olavo Bilac)
                               Apostas abertas:   "Nunca ninguém perdeu dinheiro apostando na desonestidade." (Millôr Fernandes) - quantos mais precisam ser despidos de suas farpelas ( típicas bolas feitas de trapos e usadas pelas crianças lusitanas para imbricar um jogo ) para reiniciarmos do menos zero? Se é impossível refazer a caminhada genética, no mínimo, a depuração moral pede por uma oportunidade para a educação e uma educação para a oportunidade. Uma vez que, "O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos." (Jean-Paul Sartre)
                             Sem apostas!

Ivane Laurete Perotti