sábado, 30 de novembro de 2013

ALDRAVAS

ALDRAVAS

                                                      “Abre-te Sésamo!”
                                           (Ali Babá e os quarenta ladrões, in: Mil e uma noites)

                                    
          Gemiam os ferrolhos na opacidade da tarde que se anunciava finda e fria.
         À porta, mãos nodosas dirimiam a distância pretensa.
         Nenhum vislumbre denunciava o interior. O silêncio era quebrado de fora, na altura das mãos que arremetiam a aldrava.
         Em sendo proteção o que a casa buscava, deixava ao largo quem passasse por ela. Distinta e imponente impunha ares de intocável distanciamento, mensagem não traduzida palas mãos insistentes que mais uma vez dobravam força sobre a face da madeira envernizada.  Madeira de lei, tratada com a seriedade exigida pela condição de seu nobre nascimento. Seria nobre o gesto de se abrir a porta e perguntar a que vinha. Mais uma, mais duas, tantas portas fechadas pela obsessiva atenção de quem protegia aos seus e a si. Atenção: frêmito de longo alcance, turbulência ausente no rol das necessidades urgentes que perfilavam a insistente rotina de escassez traduzida em indigna pobreza.
         O silêncio instalava-se nas bordas do batedor localizado na altura das mãos.   A lamúria das pequenas travas que o mantinham pregado à porta chegava-lhe em ondas surdas, quase inaudíveis não fosse a longa experiência diante daquelas peças cegas. Travas fechadas sobre si mesmas, eloquentes e frias, pregavam seus olhos na espera pelos movimentos do outro lado da compacta taboa.
         Seria assim... sempre assim?
        Conhecia a natureza das portas fechadas e distinguia os seus protegidos por escalas de inatingibilidade. Quanto mais opíparos os adereços que as compunham, maior magnitude conferia aos seus proprietários. Maior a distância entre os pontos que lhes indicavam um lugar no mundo, muito maior.
        Solenemente, fez cantar o círculo desmanchado em gotas de ferro batido pela derradeira vez antes de retirar-se do beiral.
        Portas são olhos semicerrados no limite do mundo aberto: cílios espessamente invisíveis roçam o universo interno, pálpebras imóveis vergam para fora, comandando a dança do inviolável e arbitrável jogo de poder guardado a sete chaves. Conhecia a natureza das portas. Conhecia-lhes a morfologia imperiosa.
        Quando se preparava para recolher as mãos nos bolsos sem fundo das calças puídas, a porta abriu-se para emoldurar o par de braços mais branco já visto por ele.
         Valessem-lhe todos os santos! Seria um anjo?
         Os braços formaram um ângulo de força para manter a porta aberta enquanto um sorriso desenhava-se.  Era um anjo, certamente! Há tempos imemoriais não recebia a glória de um sorriso endereçado para a sua pessoa. Anjos sorriem diante de qualquer situação, especialmente diante daquelas às quais pedem desculpas, mesmo sem lhes ter qualquer responsabilidade. Talvez por essa razão sorrissem. Ingênuos e santos, afortunadamente, sabem sorrir!
         No final daquela tarde anunciada, uma criança abriu a porta para perguntar quem era e o que desejava. Sem resposta frente ao presente inesperado, ele sorriu de volta e foi-se: estômago vazio, cabeça latejante, a alma aquecida dentro das roupas andrajosas.
        Diante de seus olhos murchos, um sorriso tomava o lugar das aldravas chorosas. Aldravas...aldravas... aldravas... portas e aldravas são uma grande incógnita!
             
        
        


        

domingo, 24 de novembro de 2013

DISCURSO EM PROSA POÉTICA

 ABERTURA DO EVENTO OFICIAL SETE LAGOAS 24/11/13
  ( DISCURSO PROFERIDO NA ABERTURA DA CERIMÔNIA)
            
                                                       
              Sobre o mérito de cada um...

              Desvelam-se as folhas caídas na redolente noite de outono. Em tépido dourado, despedem-se das árvores decíduas e forram o caminho iluminado pela lua em quarto minguante.  Farfalham segredos aos pés daqueles que andam com a alma em dobra de canoeiro.
                Os homens sonham.
               Descalços de veleidades, vestem a vontade do coração indômito.  Sobre os ombros vergados pairam asas de poder e diligência. Eis, então, que se abrem as comportas do fazer por escolha e as mãos firmes mergulham na paixão ideológica empreitada.
 Tintos pelas cores da excelência, fazem bem, fazem-no superando as dificuldades.
                Os homens operam milagres.
         Foi-se o tempo no qual a delonga marcava os versos da poesia em desabrigo. O ser humano tem sede de significados. Instala valores e funda princípios longe do terreno da obrigatoriedade.
           Faciunt... Eles fazem!
           Os homens justos recolhem a história, maceram-na em suor e boa vontade.  Escolhas ímpares na tutela do destino contrafeito: aceitam as folhas, festejam a lua espraiada.
        Parcelas embebidas no esforço humano despregam-se vagarosamente, e uma vez livres, inundam sem medo o coração ao lado.
         Exemplum virtutis...
        À força do exemplo são impelidos os que esperam ou temem.    Os sentidos brotam das mãos calejadas pela faina e varzeiam outras mãos. Mãos atentas e férteis deleitam-se confiantes ante as sementes jogadas ao solo úmido.
         Mãos abertas semeiam o mundo!
         Assim sonham os homens justos!
       Desprovidos de loas, descortinam os passos da própria consciência: constroem sobre bases sólidas, engendram projetos, metrificam a esperança contida.  Não sobra vez à vaidade infecunda.
             
               Sem fímbrias para louros, no silêncio dos olhos, palmas perfuram o brilho que suspende as lágrimas dos homens benemerentes.
               Vitoriosos, eles choram!
               Pelos caminhos tantas vezes nus, as folhas douradas empertigam-se para festejá-los. E sobre as fraldas das razões do mérito, movem-se eles: recusam-se a permanecer escondidos nas cavernas da timidez ou nas ruelas das incertezas.
                Eclodem!
                Límpidos!
              Grandes e pequenos, homens e mulheres que sonham e fazem pelo poder que lhes confere a fé no bem comum. Fazem! Simplesmente fazem!
            Empunham brasões de fidalga maestria e rompem o cerco das tarefas coroadas pelo aguardo da lisonja passageira ou da obrigação camuflada em dever.
              Por entre as folhas secas, a axiologia pergunta sobre a natureza do mérito e...
                    Eis que o homem universal responde:
               _ O que está bem feito, bem está.  A glória que me cabe é o sabor da obra feita. Faço-a com os olhos altos e o coração inteiro. Cabe-me, tão somente, o contentamento em vê-la pronta!
                   À história que faz do homem o teto da consciência livre...
                                 o mérito da gratidão!



sábado, 23 de novembro de 2013

ABLEPSIA

                                           
AOS QUE OLHAM A VIDA DE DENTRO PARA FORA     
             
                                              “Há pensamentos que são orações. Há momentos nos
                                              quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de
                                              joelhos.”
                                                    Victor Hugo
                              As mãos em concha simulavam a noite diante dos olhos. Os dedos apertados um contra o outro criavam a ilusão da luz rarefeita. Ele sorria enquanto mostrava à criança curiosa a vantagem de aprender a olhar para dentro.
                               Dentro era um lugar que ficava distante do universo imediato de um ser em tão puerícia idade. Mas o neto insistia em aprender a ver como o avô via, ou deixava de ver.  E na tarde que se entregava aos abraços do sol, os dois partilhavam a mesma experiência, cada qual assentado ao banco de sua própria compreensão. Dois meninos em agudo crescimento: avô e neto dividiam a vida em parcelas degustáveis. O primeiro conhecia as dificuldades retratadas; o segundo desejava conhecê-las. Diferenças mínimas, mas suficientemente sugestivas para quem quer que tentasse entender aquela parceria.
                             Crescia o silêncio na sala grande. Atento às orientações do avô, o menino respirava em uníssono, sem retirar as mãozinhas de frente ao rosto. Juntos, perscrutavam o caminho ao alcance dos olhos fechados. A escuridão ilude os navegantes, especialmente se apenas dela se valerem. E não há risco maior do que acreditar piamente no quadro que as vistas recortam. Muitos sinais se perdem na extensa faixa que intermedeia os olhos físicos e sua capacidade de ler o mundo.
                              Ver é uma faculdade quase independente, um sentido interligado ao espírito bem mais do que ao corpo, mas a cultura do materialismo imediato nos afasta das potencialidades postas. Relegada ao plano do esquecimento, esta capacidade fenece com o tempo, o costume, a rotina, e passamos a acreditar que o ato de ver implica a presença de globos oculares.  Não implica! Tanto quanto enxergar e ver inscrevem-se na lexicologia com raízes semânticas diferentes, apesar do parentesco e do sentido comum ao ponto de referenciação. Qual dos dois verbos expõe nossa estultice diante do óbvio? Eu enxergo, já não vejo! Eu vejo, mas não enxergo! Questões que só podem vingar em mentes abertas para a vida enquanto equação sem perímetro, sem fronteiras axiológicas, sem as mesmices que se traduzem em comportamentos automatizados.
                               O menino com idade avançada sabia que a ablepsia alcançava o corpo, sabia! Tanto quanto entendia que ela poderia nascer na alma e jamais ser diagnosticada pela medicina clínica. Mas, sabia ele também que, ao aprender a olhar de dentro para fora, via sem deixar de ver e sentia mais do que via sem ver.
                            Era o que ensinava ao neto. No silêncio criado e na ilusão do escuro imposto pelas mãos em concha, os dois perscrutavam os sentidos menos sentidos. Viam as cores da vida assumirem sabores, cheiros e texturas inegavelmente belas e presentes. Tocavam a borda do céu sem sair do lugar; exploravam o universo interno prontos para vencer os monstros da intimidade aguçada. Os dois meninos dançavam a valsa do conhecimento travado no âmago de sua fonte primordial: o eu mesmo! O inviolável self!
                           Deslizar pelas fronteiras do inevitável é uma prática dos espíritos livres e maduros. Mergulhar na aceitação do imprevisível é tarefa hercúlea. Nem uma e nem outra impossíveis aos homens de boa vontade e ampla inteligência.

                            Na tarde abraçada pelo sol, avô e neto avançavam pelo caminho da visão imaculada: os dois viam! 

DESTAQUE

DESTAQUE NA ÁREA DE LITERATURA
            SETE LAGOAS, 22/11/2013







domingo, 17 de novembro de 2013

AINDA SOBRE O AMOR... E AS BICICLETAS!

PARA NÃO DIZER QUE NÃO QUE NÃO FALEI DO AMOR (parte III):

                                                                   “Entre casar e comprar uma bicicleta...”
                                                                      (adágio popular)

                 Perdeu-se no tempo a pergunta indireta. Além das bicicletas ganharem novos modelos, o casamento também assumiu nupérrimos perfis e, quem casa, divorcia-se. Bem mais fácil do que comprar uma bicicleta, a depender da marca e dos acessórios que a acompanham. Por falar em acessórios, os veículos de duas rodas mantêm um vínculo estreito para com as metáforas da vida a dois: a tipologia é extensa e agrega-se aos contextos de acordo com as suas implicaturas. Implicância! É, parece implicância de minha parte fustigar um assunto tão delicado quanto vergastado. Impróprio para as páginas de um jornal. Talvez! Mas a maré do amadurecimento aponta o lume para direções nem tão simples quanto casar ou comprar uma bike.
                   Dubito, ergo cogito, ergo sum! Descartes teria uma bicicleta? Um celerífero? Possível, se relacionarmos as prováveis notações históricas para a invenção do veículo tracionado, mas antes dela, da bicicleta, o casamento já se enquadrava nas aspirações pessoais e no rol das imposições sociais. Tradição, cultura, preservação de patrimônios, manipulações políticas, interesses de estado, tratados de paz, concepções religiosas entre outros processos maquinados pelas relações humanas, selavam-se na presença do sim, do para sempre, e até que a morte nos separe. Quando os sentimentos suplantavam as circunstâncias, na vida e na literatura – a vida é uma via de mão dupla, a literatura apenas redescobre corredores paralelos à estrada principal - o amor alçava status dramáticos. Não muito diferente da contemporânea mobilidade amorosa com a qual convivemos agora. Mobilidade, eis a fonte das conjugações verbais para o termo casar-amar, amar-casar, amar-ficar... ficar-casar...
                  O casamento não é uma escolha com passe livre. Poucos nascem com a faculdade deliberativa que ensaia o amadurecimento do ato ou para o ato. Aprende-se uma vez a andar de bicicleta e a máxima estende-se a todos os modelos: duas rodas, pedais, quadro de estabilidade, correias... estabilidade! Ah! Estabilidade: a estrada dos casamentos parece correr longe do ensejo. Quanto mais vezes casam-se os indivíduos, menor a capacidade de manter-se sobre o cilindro da segurança? Que segurança?
                   A escola da vida poderia criar uma disciplina metodologicamente amparada pelos fundamentos de nossas histórias pessoais. Seria, certamente, um grande investimento cooperativo para a sustentabilidade das núpcias contraídas na fogueira das emoções – ou sentimentos, ou desejos, ou intenções. Paradigmas a parte, casar estaria, com efeito, para o exercício consciente da conquista do outro, do cuidado para com o outro, do respeito às inevitáveis (e saudáveis) diferenças do outro, do querer o outro. A ambiguidade das palavras envolvidas devolve-me o discurso que entrelaço a sovéu curto: quem é o outro? Aquele que está dentro ou aquele que está fora? Dentro e fora me desmentem peremptoriamente. Ousadia verbal ou necessidade de confrontação? Os dois! Por que não? Pensar e duvidar não foram prerrogativas do grande filósofo e matemático francês, nem a introdução “Era uma vez uma princesa...” conferem verossimilhança entre a vida e a literatura. Os finais felizes estão marcados pela trajetória da corrida no início de sua largada. O casamento não é uma instituição falida, nós – os envolvidos - esquecemo-nos de perguntar a que viemos: casar ou comprar uma bicicleta? Os dois, para quem tem fôlego e disciplina!

                 Saecula... amen !             

domingo, 10 de novembro de 2013

AINDA SOBRE O AMOR...

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR – PARTE II
                                                          “Minha cabeça está debaixo de água (...)
                                                           Você está louca e eu estou perdido”    
                                                                       (Letra de All Of Me - John Legend)
                                                                                                                     
                                   Em um semáforo da vida, o sinal vermelho ilumina a moça chorosa que desce do carro. Pneus deixam marcas no asfalto. Velocidade descontrolada, o motorista não olha para trás. Segue-se o roteiro conhecido das brigas motivadas por amor. Novelas pré-escritas, encadeiam capítulos com evolução marcada pelo lugar comum. Nenhuma novidade. Nenhuma, se a barriga protuberante da moça chorosa não mostrasse avançado estado de gravidez. Um detalhe na história repetida: um detalhe triste no quadro da imatura realidade.
                                   Para as testemunhas da primeira cena pública, ficaria ali o incidente entre dois amantes mais um: um ser em vias de nascimento. Ficaria, se as manchetes dos jornais não invadissem a memória dos espectadores involuntariamente envolvidos.  Três mortes anunciadas sem o enredo brilhante de Gabriel García Márquez. Razões? O grande escritor colombiano, responsável por criar o realismo mágico na literatura latino-americana era um jornalista de mão cheia e um idealista ainda maior. A primeira cena poderia ter sido arquivada por ele na categoria dos fatos inevitáveis, talvez, pouco produtiva para o contingente literário. Talvez! Difícil é administrar os sentimentos de frustrante estupor frente aos recorrentes fatos reais.
                                   Por onde anda o amor?
                           Palavra marcada pelos vieses das experiências multiplicadas e pelo descuido dos empregos malfadados cumpre-lhe dar sentido ao nonsense generalizado – simplificado -, ou ao desejo de abrandar o desconforto diante de conceitos atravessados por regras morais, culturais, religiosas... Fazer amor? Bom se assim se pudesse determinar o processo subjetivo de um sentimento cujo termo referente é um perfeito (e furado) guarda-chuva (embaixo dele cabe o que se colocar) usado para descrever desde o ato sexual até o mais intrincado e indescritível vínculo emocional: afeição, misericórdia, compaixão, inclinação, atração, apetite, paixão, querer bem, satisfação, conquista, desejo, libido... Ah! Sim! Com direito a todas as conotações românticas e românicas que implicam um e outro. Ciúme? Deveras! O medo real ou irreal de perda do objeto amado é uma força instintiva, natural, visceral, de acordo com alguns estudiosos do comportamento animal: mais humano, menos humano. Nem mesmo a fauna foge ao poder da teoria que, em muitos casos, beira a patologia ou transforma-se em obsessão. Édipo leva a culpa e Freud há muito aceitou a avalanche das complexas críticas acerca de sua teoria psicanalista. Com ou sem mecanismos psicológicos infantis, o amor e o ciúme tendem a dar as mãos ao atravessarem as ruas, ao pararem nos semáforos apagados, ao transformarem-se em desvalidas histórias de violência mortal. Tendem? Como se tratam as tendências? Depois de virarem estatística, bom seria se servissem para abrir novos capítulos nas histórias hamletianas cujos finais culminassem na inovação madura de relações saudáveis. Bom seria!
                                 
                                                   "Se o ciúme é sinal de amor, como querem alguns, é
                                                    o mesmo que a febre no enfermo. Ela é sinal de que
                                                    ele vive, porém uma vida enfermiça, maldisposta. "
                                                     (Miguel de Cervantes)
                       
                                 

                                   

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


CONJECTURAS...


terça-feira, 5 de novembro de 2013

INOVAR...

EDUCAÇÃO E INOVAÇÃO: A RIMA DA PERFÍDIA NACIONAL
                                                   “... mais educação para melhorar a
                                                   produtividade (...)”
                                                    Ángel Gurría

                     A linearidade escalar de um discurso que dá voltas sobre a própria cauda põe à mostra as gengivas de um dragão amortecido: educar para salvar a pátria! Que pátria? A que aparece nas estatísticas deflagrando a real motivação de dois vetores nulos: escola e educação? Produto de seus comprimentos e do cosseno de seu ângulo... isso é matemática! Sim! A mesma matemática que se ensina para repetir e não saber aplicar em contexto de vida. Afinal, provas provam o quanto desaprendemos ao adentrar o território escolar, e não dá para esconder o resultado que está aí.
                     Certo! Sem exageros e desesperos à parte, o secretário-geral da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Ángel Gurría, em recente entrevista à Miriam Leitão, na GLOBONEWS, enfatizou que o Brasil já melhorou! Já! De nós para nós sabemos o quanto. À revelia da boa vontade do secretário em amenizar a leitura sobre as estatísticas dos últimos PISAs (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), as medidas da qualidade de ensino deixam o Brasil em contínua rabeira – sem conotações sexuais. Pena! Uma vez que somos tão criativos no tocante ao uso da carne e do silicone.
                     Pois... a culpa eterna desaba sobre os professores. Com as costas largas, feito almas penadas cheias de aulas, reivindicações e nenhum incentivo _ ai!!!_ cobra-se desses profissionais a capacidade de influir e efetivar um trabalho que o sistema direciona e controla. A ingenuidade dói e corrói. A Finlândia que o diga! Há quatro anos seguidos ocupando o primeiro lugar no mundo em qualidade educacional, não gasta nem se desgasta com exames megalomaníacos iguais aos que reinam no Brasil; não investe em pedagogismos nem clientelismos, menos ainda em métodos alvissareiros ou tecnologias de ponta. O investimento do governo finlandês é simples: valoriza o professor e permite que o mesmo CRIE e INOVE no trabalho que faz.
                  Ai!Ai!Ai! Que perigo perigoso! Professores bem formados, estimulados, livres e ganhando bem? É o apocalipse desenhando-se nas barbas dos dominadores.  
             Fábula da vida moderna, a Finlândia tem provado para o mundo onde pesa e quanto pesa o papel que segura o pulo. Mas, não apenas este país do norte da Europa descobriu como salvar a pátria. Outros vêm fazendo o mesmo, e a fórmula reverbera fermentando novos projetos, novas pesquisas, novos investimentos: E-C-O-N-O-M-I-A! A tão famigerada ciência do controle sobre a troca: alguém oferece o que você precisa e você compra se pode pagar, ou pegar! MIA! MIA! MIA! Este texto também rima com... deixamos para lá! Afinal, rimas e versos não podem ser ensinados a não ser em análises sem sentido! E o sentido resguarda-se na vida que parece correr para longe do medo que se tem de perder o controle. Quem tem medo?

                  Educação e inovação: duas retas que podem chegar a um ponto maior. Melhor? Sem dúvida! E sem ENEM, ENADE... é uma questão de VONTADE política! Não há provas que deem conta! 

VIVER É POESIA CRUA...

ENTRE O AMOR E A ESPERANÇA HÁ SEGREDOS E PECADOS GUARDADOS EM BANHO-MARIA

                                                                  VIVER É POESIA CRUA


                                                          "Para conquistarmos algo na vida não basta ter
                                                            talento, não basta ter força, é preciso também
                                                            viver um grande amor!"
                                                            Wolfgang Amadeus Mozart  

                                   Ao abrirmos os olhos pela manhã o dia impõe seu ritmo e a vida embala-se em maior ou menor grau de poesia. Poesia? Colocaram pão com manteiga na mão do poeta e ordenaram-lhe que tomasse o ônibus lotado até o serviço que lhe espera na porta de cara amarrada. Tá! Pão de sal rima com palavras amenas e o poeta deixou em casa a amada recém-conquistada para sempre e sempre a eterna apaixonada.
                                   A poesia voeja entre um e outro e senta aos pés dos que ainda não acordaram e, principalmente, dos que não mais acordarão. Os que não mais abrirão os olhos procuram a rima dos sentidos sem sentidos. Verdades improváveis sacolejam na mala da alma. Depende do quanto cada um viveu o quê viveu. Só isso? E o amor? E a esperança? O tipo da bagagem descreve o conteúdo intocável: cada qual com o seu próprio fardo.
                                   Então, a crua realidade se faz poesia concreta. Arde nos olhos que se abriram na esperança de reescrever o dia.
                                   Ai! Dia de sonhar, dia de esperar, dia de sentir o vento lá fora. Dia de tocar a mão próxima e beijar os lábios de quem passa.
                                   A vadiagem do destino deixa órfãos pelas estações despidas de segurança. Alguns acreditam no amor e o buscam sem freios. Outros usam freios a vácuo para proteger-se dele. Amor? Lucra quem não o conhece e ganha quem o despede. Foi-se o tempo sem tempo do romantismo piegas. Foi-se? Onde se instalaram as diferenças? Que diferenças? Entre amor e amor há tão somente a escala dos tipos não catalogados pela força da obviedade. Amar é deixar-se enfraquecer pelo desejo de estar onde não produzimos nem inventamos novidade. Lei da poesia. Lei crua da vida dos fortes e amorosos homens universais, vivos e sobreviventes, todos órfãos de si mesmos.
                                   Somos "crias" do medo, único timoneiro de cara lavada a transitar sem rodeios pelas vias sinceras escondidas na parte de trás de nossos olhos esbugalhados. Medo de amar é medo de esperar o espelho nos dar as costas. Tememos perder a imagem gloriosa de nós mesmos. Amar é quebrar o espelho que nos reflete ao contrário, é andar descalços por caminhos desconhecidos, é abrir espaço para o incomum. Aí começam os segredos e os pecados, revelados ou não, a depender de quem profana a poesia e de quem esconde a alma vazia.
                                    A força e o talento vêm em forma de herança para alguns. Mas o amor... ah! O amor é um direito transcrito nas entrelinhas dos contratos de nascimento. Quem nasce tem passagem livre, mas o mapa das vias abertas virou-se de cabeça para baixo e rodou várias vezes por mãos secas de vontade. Mãos áridas de luz, mãos vazias de bondade, mãos disfarçadas em garras afiadas, mãos esculpidas a ferro em brasa.
                                   A poesia está nua. Os segredos tornaram-se claros e não há pecado sem pecador.
                                   São muitos os olhos que não voltarão a abrir-se para especular o dia. De mochila nas costas, lindas almas esperam pelo trem da esperança que irá levá-los para o outro lado do sol. Segredos? Não escondem o pecado de acreditar uma vez mais, outra vez, mais uma vez.
                                   Aos que fazem versos pelas calçadas da vida, aos que não temem a força de um grande amor, que a sorte lhes seja irmã: casta e pura, pois os castos, dizem os iniciados, não sucumbem ao ciúme mortal.
  
                                    "Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão".
                                     Confúcio       




domingo, 3 de novembro de 2013

PARTE I

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO AMOR... PARTE I

                                                                      “Conseguimos encontrar tantas dores quando a
                                                                       chuva cai...”
                                                                             John Steinbeck

                                   Levanta-se ainda cedo o desejo de pertencimento. Junto com ele, o desejo, agregam-se os primeiros impulsos para o encontro do amor. Como se alijado da vida, instaura-se unívoco em natureza de entidade independente e movida por sortilégios. Diante das janelas que protegem da chuva e das noites frias, o coração alquebrado pelas crenças herdadas busca fora de si o mote da melancolia. É a metáfora do amor, verbo transitório, nascido da concepção numérica de um para um: às metades da laranja equalizam a insólita equação das diferenças sincronizadas.
                                 Quem ama sofre? Sofre quem não aprende a amar a si mesmo e responsabiliza um ente externo pelas agruras da potente solidão interna. Ou seja: sofremos! Somos educados para formas de amorES possessivos, inflexíveis, materializados na presença do outro  eternamente disponível. Parece óbvio. Não! Parece aceitável porque nos acostumamos a desejar, ter e prender. Quem ama exige o reconhecimento do sentimento dispensado e cobra a permanência do objeto amado em estado de prontidão. Em contrário, fragmenta-se a estrutura do ego imaturo, incapaz de combinar amor e libertação, amor e aceitação, amor e desprendimento. Afinal, amar e não possuir indicam experiências platônicas e desprovidas de mérito, não desejáveis na orla das necessidades viscerais.
                                A filáucia é inerente à natureza humana e têm servido historicamente para amalgamar as correntes dos amores passionais, violentos, patológicos...  indefensáveis sentimentos que deslizam para outra natureza que não a do amor e menos ainda a dos afetos humanos. Então, amar é um processo de vias múltiplas, lugar comum para as justificativas injustificadas. Não creio! Ou, não aceito! Mas o que penso move tão somente as rodas de meu próprio moinho e, dele, a farinha deve servir à mesa de minhas receitas pessoais. Ou... não?
                               Observo e participo, consciente e inconscientemente, do intrincado jogo da rede entretecida a qual pertencemos: imbricados, interligados, conectados; a moenda não faz a roda movimentar-se. Nós o fazemos! E os lotes de farinha, produto de movimentos diversos, misturam-se na imprecisão de nosso crescimento mais ou menos tangível, mais ou menos responsável, tornando quase impossível dizer quem é quem no mundo de tantos sujeitos cruzados. Talvez aí se inscreva a natureza insustentável do amor. Tentar defini-lo em padrões compreensíveis seria o mesmo que descobrir o primeiro discurso puro e fundador da linguagem, ou o vice do verso, vice e versa. Brincadeiras sérias que enfastiam alguns e estimulam a outros. Amar não é um verbo intransitivo na gramática da vida real. Penso que Mário de Andrade bem o sabia, por isso escreveu a obra homônima, dizendo o que não disse, mas deixou escrito na linguagem mestiça que tanto escandalizou sua época.
                          Amar é um verbo em estado de fazimento, de potência aberta. Faculta-se a possibilidade de estarmos providos de hereditária vontade para amar, simplesmente amar. Estamos?

                                                                      “Os homens ofendem mais aos que amam do
                                                                         que aos que temem.”

                                                                                       Maquiavel