domingo, 28 de agosto de 2016

CONEXÕES INTERROMPIDAS




CEGUEIRA EXISTENCIAL
- o silêncio dos sentidos desbastados -


“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.” José Saramago

                                       A carícia do tempo passa ao largo das memórias. Trancafiadas no sótão do alheamento desdobram-se em sombras de esquecimento. Desbotados resquícios de fatos e sentimentos empilham-se empoeirados no chão de tábuas. Gastas madeiras a servirem de base para o escuro berço das emoções. No enterro dos fatos migram vozes de arrependimento e felicidade: ambas medidas em algoritmos de sintéticas comparações.
                                      Quando, em relação a quem se pode comparar o rol de emoções, ganhos, perdas e sentimentos? Nunca! Deveria ser a única resposta possível. Nunca deveríamos aceitar o efeito dos modelos impostos na roda dos espelhos alheios: em havendo uma face diante do espelho, espelha-se ela mesma... quando livre das vozes que rodeiam espectros de padrões assimilados.
                                      Quando muito se torna pouco? Quando o mito da conquista desenha-se no vão aberto em terras estrangeiras. Forasteiros de si mesmos, caminhamos por trilhas abertas em terrenos que pertencem ao enredo de histórias massificadas: mais e mais e mais escravizam sentimentos próprios, calam perguntas que jamais virão à luz das reflexões. Refletir é dar conta dos sentimentos que morrem esquecidos dentro das gavetas soterradas de metas e mitos: a felicidade só alcança quem vence a luta; a luta é um dever de quem busca a vitória; as conquistas chegam àqueles que não param no meio do caminho – mesmo que o meio seja o caminho daqueles que param.
                                      As carícias do tempo enroscam-se em memórias diluídas e presentes não percebidos. O agora é o resultado de estratégias regidas por compulsiva inconsciência. Melhor não sentir, não perceber, não refletir, não quebrar os modelos de exigente comparação impostos pela sujeição dos sonhos próprios. Sonhos próprios... por onde andam? Sonhar virou mercadoria de consumo programado: eu sonho, você sonha, nós sonhamos sonhos de fora para dentro. Não são sonhos: são desbastes da vontade desvitalizada de si mesma. “O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.” (José Saramago)
                         Não sonhamos mais, repetimos jargões externos comandados pela voluptuosa morte da alteridade: eu sou autor de minha história e nela, o protagonista inscreve-se por pautas de escolhas singulares. Singulares? Que tipo de singularidade carregamos nessa mala de conceitos padronizados? Travestimo-nos com uniformes costurados no cárcere da individualidade.
                       Bandeiras pesam. E pesam mais quanto mais a deflagramos em causas pelas quais não optamos. Decidir é permitir ao tempo acariciar o presente e deixar que do sótão se espane as memórias, justos pertences de quem vive a caminhada dos sonhos construídos sobre terra firme. “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória” (José Saramago)
                         Apenas mais um dia não marca o calendário da existência. Um dia a mais faz a existência brilhar, põe fogo na caverna escura da inconsciência, abre as janelas das emoções e desentulha o sótão das memórias: boas ou não, são memórias de vida cujas escolhas podem ser refeitas. Os fatos moram no passado. As memórias fazem cócegas no presente: as carícias do tempo também sofrem de saudade!

Ivane Laurete Perotti

domingo, 21 de agosto de 2016

SEM FINAL FELIZ



A REALIDADE SUPERA A FICÇÃO

- sobras de guerras não são contadas –

“A guerra é sempre uma derrota da humanidade.” Papa João Paulo II


                              Não é um conto de fadas... não é ficção, nem a fantástica inteligência por trás dos efeitos especiais da cinematografia. O olhar perdido das crianças do mundo não se compara a nenhuma produção ficcional. Tristemente, a perda da infância altera a ordem do universo em um silêncio tão criminoso quanto a desesperança sobre a espécie humana.
                              Morre o menino Ali, criança síria que teve o estômago atingido durante um bombardeio aéreo em Aleppo. Morrem milhares de crianças no côncavo indiferente do mundo inteiro: morrem crianças aqui, ali, acolá. Assustadas, ingênuas, desamparadas, esquecidas, crianças que sobram amargas das guerras travadas pela soberana ganância política/religiosa/econômica, pela ganância de causa indefinida.
                            Morrem os espíritos da esperança antes mesmo de alçarem voos de crescimento. Túmulos frios guardam a voz dos que não brincaram de pega-pega: foram pegos em armadilhas da adultice funesta. Pipas esmaecidas perdem-se no céu tomado por bombas, por balas perdidas, por assaltos articulados em frias mãos sem destino: guerras territoriais, guerras sociais, guerras pelo domínio ensandecido de poder e riqueza. A desigualdade ceifa vidas na terra, no mar, no ar da indiferença.
                             A inconsciência mundial acontece no volteio da página do jornal, na manchete esquecida diante do apelo manipulado da próxima notícia estrategicamente colocada pela mídia tendenciosa. Quem chora pelos corpos diminutos cujos sonhos foram tragados pelo furacão do ódio? O descaso mata muito antes da morte por artilharia pesada. E mata a alma dos que assistem sem mobilizar-se. Mata à míngua... mata lentamente  todos aqueles que choram pela dor alheia. “O mundo será julgado pelas crianças. O espírito da infância julgará o mundo...” (Georges Bernanos).
                         Que espécie de homem habitará a Terra? “Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos...” (Manoel de Barros).
                          A humanidade hipócrita tem espaço para discutir em qual categoria encaixa-se a formação da família atual: pai-mãe, mãe-mãe, pai-pai, sem pai... sem mãe... sem ninguém!, mas não tem coragem de brigar pela base de uma geração que cresce sem amor. Obviamente falar de amor é por demais piegas, insustentável, irrelevante, não gera dividendos, não promove o capital, nem resolve as diferenças para minorias desempoderadas. Contudo, as minorias estão crescendo e não se percebe que o humilde herdará a Terra, se antes não lhe tirarem a vida por florir em meio à pobreza e o esquecimento.
                        Nenhum muro protegerá o homem do terror da violência. Ela começa no âmago da alma desprovida de compaixão. E enterra as nossas crianças em berços de terra embebida em sangue.

Ivane Laurete Perotti

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

SOBRE A ORIGEM DOS FATOS

EFEITOS DO VENTO
 
- no epicentro da realidade, inverte-se a pressão sobre ombros alheios –
 
                                                            “Não precisas de um homem do tempo 
                                                              para saber
                                                              para que lado 
                                                              sopra o vento.” Bob Dylan
 
                    O final do dia apressa-se. As nuvens empurradas pela noite próxima cochicham acerca dos efeitos que o vento deixa ao passar sobre aquelas vidas. Uma delas demonstra não perceber as mudanças; outra nega o efeito da varredura; mais outra apaga os vestígios deixados após a ventania; ainda outra reclama da força desigual: nenhuma delas sente da mesma forma o que deveria ser fato consumado. O vento viera e fora embora no tempo e no modo que lhe aprouvera. O zéfiro, mandante do próprio destino, fazia das massas um pretexto para locomover-se e, a quem duvidasse, lambia de solapo a nuca eriçada. Assim era e assim parecia continuar, até que o argumento, evento da retórica, tomou o freio da realidade e transformou a tempestade em um fenômeno lexical. Melhor dizendo, em um fenômeno discursivo, quando da metáfora se fez bigorna para amansa/amassar palavras tardias. Já não é acerca do vento que as nuvens cochicham. Nem sobre a chegada da noite as vidas se atêm. De algum lugar parte uma agitação que ao clima não se pode culpar. Lugar abstrato, mesmo que potencialmente eficaz. Lugar de fato, mesmo que à subjetividade humana seja impossível nominar. Sopra algo, e não é o vento, acontecem “coisas”, e não é o tempo. No limite do horizonte cruzam-se linhas, feito novelo embaraçado, todas submissas às variáveis de causa.
               Já não se fala mais do vento, nem das metáforas: sobre todas paira o “desvio”. Desvio de foco, desvio no apuro do olhar. Na representação dos “acidentes”, o tiro no escuro persegue o alvo; a noite não cai... desce; o vento não sopra...rufla; o tempo não passa...adormece; o olho do furacão é vesgo; a justiça usa binóculos; o mar morre na praia. A “substância”, essa estranha no ar dos fatos, muda forma e não informa o que poderia contar. Aristóteles não molha a pena: pena! A retórica arremessa o verbo na direção que lhe convém. Arregaça os dentes, bem à frente: alguém? Quem? Sujeitos e categorias gramaticalizam em causa própria. O vento? “O sol e o vento falam apenas de solidão” (Albert Camus). “... Parece que o vento maneia o tempo...” (Érico Veríssimo).
             E lá vão as nuvens, cochichar do homem - enquanto descobrem os meninos, descobrem o lado do vento: nenhum! E cobram o rumo dos fatos: alguns! Levam a sério o peso que dobra ombros e tombos, folguedo de um! Assim sopra o vento, efeito do tempo: “... vou para a rua e bebo a tempestade...” (Chico Buarque).
            O final do dia deixou passar a pressa. 
Ivane Laurete Perotti

domingo, 7 de agosto de 2016

UMA FLOR NO ESPELHO

NA PALMA DA MÃO 
 
- não se ausculta o coração da alma humana, mas se reconhece a sua natureza -
 
                                                        “Doer, dói sempre. Só não dói depois de morto.
                                                         Porque a vida toda é uma dor.” Rachel de Queiroz
 
Adormecido, o tempo não cobra razão. No banco estreito, o ancião espera entender a passagem que se abre: lenta, preguiçosa. Quase tardio, o olhar sobre a rua encontra um espelho. Sem moldura, craquelado, lembra a pele que recobre a vida fugidia: vem e vai sobre trilhos de acontecimentos. O reflexo não se dá a conhecer. Vaga na dormência do tempo e na profusão das expectativas enterradas a esmo: aqui, ali, acolá... velas apagam a si mesmas enquanto o homem espera entender a quantidade do que é, por si só, imaterial.
Por que dorme o tempo? Em que balanço encontra colo e melodia? Adormecido, parece deixar a passagem abrir-se legitimamente vagarosa. Na lentidão, o poder de projetar no espelho os olhares para longe de si. Quem via o que fora não via o que era: olha para frente ou para trás, ilusão de longo alcance. Quem deseja faz-se estar entre os bulbos das dálias em promessa de flor. Flor escamosa, perfeita imagem para os olhos grudados no espelho difuso. “Falam que o tempo apaga tudo. Tempo não apaga, tempo adormece...” (Rachel de Queiroz).
E então, o ancião ri de sua estulta vontade: mergulhar no espelho e colher a dália final. Aquela que se transformara no conjunto de pétalas em penca colorida como se estufada pela natureza caprichosa. Essa mesma! Divina e terrena flor que nascera sem dar trabalho. Colheria a dama robusta e a envolveria no papel da existência. Um convite para o baile na pista do tempo indolente. Quebrantado tempo que se deixa acreditar em fresca siesta: cochilo programado no calor da vida a pino. Um parêntese indispensável às dobradiças que comandam os sonhos por sobre as pernas de pau. Siesta do temporis... cochilo lírico! “Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado.” (Rachel de Queiroz).
Do espelho craquelado, uma pétala espia curiosa. Deseja estender-se até os olhos que a admiram. A rua permanece vazia e o tempo não dá sinal de intromissão: espaço perfeito para o devir mesclado em natural fantasia. Primeiro, o leve perfume: contato de delicada comunicação. Segundo, o roçar da brisa que balança a saudade e a pétala mais nova, pequeno tecido colorido entre o miolo esbranquiçado e a massa distinta das outras peças da corola. Dália crescida. Dália madura para a travessia sem volta. “... quem pode manter, num espelho, uma imagem que fugiu?” (Rachel de Queiroz). Terceiro, o toque do insustentável cortejo: definitiva parceria!
Assim, mais do que a tempo, o tempo sanou a vontade de restabelecer a ordem da dor, desordem da flor. O homem se deixara ficar no banco para um próximo descanso. Descanso? Quem disse que saudade não dói?
Uma pétala entre o vão do espelho e o vão da vida deixou-se ficar para manter o tempo em seu devido lugar: intocável e submisso tempo de nascer e adormecer. 
Ivane Laurete Perotti