terça-feira, 27 de janeiro de 2015

À SOMBRA DO ABACATEIRO

- benevolência, piedade e compreensão dependem de uma política interna de
                                         educação do peso bruto -



 "O desespero é uma doença. E um povo desesperado,lesado por dificuldades enormes, pode enlouquecer, como qualquer indivíduo. Ele pode perder o seu próprio discernimento. Isso é lamentável, mas pode-se dizer que tudo decorre da ausência de educação (...)" Chico Xavier



                                            A primeira curva da noite  desce silenciosamente.
                                                  À margem da estrada ressequida uma pequena multidão pisa a terra com passos em desalento. Olhos minguados sacodem a esperança no movimento sem graça dos ombros caídos. Abundam entre eles  o cansaço e as fomes. Muitas fomes acotovelam-se na bagagem vazia daqueles caminhantes: dezenas de orações interrompidas, dúzias de ignorâncias controladas de fora para dentro, de dentro para fora e mais dentro do que fora; centenas de injustiças e indignidades, vigorosas perdas e infortúnios. Arrastam-se  confusos, desprovidos, vilipendiados, sujeitados ao destino que se decide em outras mãos. Apenas a vida não lhes cobra passagem, se é que de passagem entende-se essa vida.
                                              Vagam  homens e bichos, seres e almas encrespando mais e mais a já tortuosa pauta seca de poesia. Se música há, não acode aos ouvidos desapercebidos a tempo de ilustrar as notas tardias.
                                            Engolem verbos, inaudíveis formas, duras  inflexões de acidentes futuros, palavras de fogo debatendo-se entre as  paredes da boca. Muitas bocas,  nuas bocas  ardem  a frio pelo caminho da noite curva. Homens e verbos espiam ideias, nuvens de sonhos corroídos, bilhetes marcados pela desigualdade social. Dançam os passos da indiferença, valsa desacompanhada, violência celebrada por antecipação.
                                                Mas a escuridão que mastiga sem castigo, fustiga o berço da bondade latente, um presente da condição humana, soberana e digna faculdade de ser gente.
                                            Por ordem de nascimento, as curvas guardam ângulos, isentam quinas por quadras de verde alento: unguento. E aos viajantes da silenciosa noite oferecem ramos, copados ramos de entendimento: letramento.
                                             Educere...educere...diz a voz do vento: conduz para fora o que lhe está dentro! Permite  ao homem o pão da alma, fatias do próprio sustento.
                                           Educere... Educere... enquanto há tempo!
                                           Alimenta o prelo da construção, soergue o molhe da compaixão! Benévolo cume, possível lume, vasto pasto, imberbe clarão.
                                           Diante dos joelhos cansados, perdidos e acuados, uma página, um livro, o conjunto das letras... esteta!  com jeito e calma, não se nega a palma, justa tarefa, faculta o pensar. "Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”(Paulo Freire)
                                            No amparo de um abacateiro, calejadas  mãos  parceiras fundem berços e abraços,  compassos de longos espaços dedicados a  acolher um irmão: basta de multidões perdidas, vexadas, combalidas! chega de abafar o grito, outro mito da despótica civilização.
                                      A noite desce em curvas sobre arautos e incautos, varre no mesmo solo as estrelas do amanhecer: educar para a igualdade não é um direito, já nasceu feito , de direto, um  legítimo dever!
                                                    
“Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.” Paulo Freire                                                            
Texto: Ivane Laurete Perotti

domingo, 18 de janeiro de 2015

VIDA CRUA

OS AÇOITES  DA VIDA CRUA

           -  na calçada da existência as estrelas são invisíveis -

"A vida não se resolve com palavras."
João Cabral de Melo Neto

                                   No aberto recorte da janela a lua pede passagem. Mancha de luz  circular  ao pé da escura noite recém-nascida. Muitos não a veem. A maior parte já esqueceu. Outros, não poucos, jamais a conhecerão.
                                   Janelas são pálpebras do mundo construído e a lua, astro reticente, faz par com as estrelas cadentes: rasga o céu pedindo ajuda. Clemência! Aos homens em estado de obediência, sirva-se a cautela ausente, clemência! Argumento debruçado à janela da subserviência. Nem escravo, nem rei: sábio é aquele que conhece o que tem! não tem, falta alguém!
                                   Quem vem e quem vai pelas calçadas ardidas, carcomidas?
                                   Chora a lua, impedida, à meia janela.
                                        Chora o neto da avó: ela  não sabia que, mais dia, menos dia, outro menino viria, direto da cria, deixou-se levar. Assim corre o roteiro da vida crua, entre gruas de euforia, ensejo de alegria, farto modo de aguentar.
                                        Para alguns, o cabo da esperança entorta ao contato da aliança, para outros, antes que anoiteça, a escuridão cobra a sentença. Diga-se na poesia o que ao discurso é desvalia: fere o verbo, destroça a palavra, esconde o grito, esse maldito que toma o lugar de anunciar. Medo e drama fazem a trama no mundo da fama que ninguém quer negar. Conhece o tempo, fixo alento, no pleito de amar. O mundo em chamas, um dia proclama: deixe a faina, venha cantar! Canta o hino, doce rabino, parece falar: do reino ao treino, afina a rima, desce a rapina, vulgo clamar! Ao homem o trono, o único dono a reclamar. Ave meninas, o dia ensina mandar e calar.  Modo sebento, arde o unguento, não se sabe rezar!
                                      Palavras enganam: profanam o modo de interpretar. Diz o que disse, à página fria, em ordens do dia, deixou-se matar. Quem cala exala o cheiro da sorte, em franco aporte, faz-se salvar. Respeito ao peito é outro direito de quem pode  contar. Fala e embala o efeito sem dote, vulgo consorte, cabe aceitar. Plano de vida, calçada erguida no muro de alguém: trocam-se tiros, pontos e bilros, talvez o sorriso apague a tez. Rosto comprido, chiste rompido: lucidez?
                                   Sem holofotes, estrelas, archotes  choram a morte, dentro do forte, quiçá viuvez. Quem disse que o dito, salvo conduto, mede o luto de mais uma vez?  
                                    Apagam-se homens, crianças e drones no mundo de clones, persiste a fome, denso ciclone, ventos do mal. Almas sem dono,  migram na guerra, vendaval! Clemência, demência fazem igual! De quem é a culpa de outro viral? Mais um e mais outro galgam o status, fino contractu de quem com o além. Nem bicho, nem pano, fecha-se o ano: de novo o novo convence ninguém! Guarda a alma, salva a calma, mantém-se, amém! O mundo açoita, moça afoita, você não o tem: leva o ancho, deixa o gancho, a lua soletra, entreaberta, arrasta a coberta, vaivém. O acordo não prima, densa a rima , escolha a mina: vai e vem! Correto também! A língua, tanso enigma, abole a cisma, absolve e lima, vence a chacina: réquiem!
                             
"Mesmo sem querer fala em verso
Quem fala a partir da emoção"
                                      João Cabral de Melo Neto
Texto: Ivane Laurete Perotti

CALAR


FUNERAL



terça-feira, 13 de janeiro de 2015

IMAGINAÇÃO


SERAFINS


CETIM


MANSIDÃO


PROFANA


CORES


MENINO


MAGIA


PERDA


ESTRADA


NEGAÇÃO


domingo, 11 de janeiro de 2015

GOSTO


O TEMPO


MUDANÇA


MENINO SABIDO

Para um dia aprender com as crianças o que elas sabem fazer: 


CORTINAS NO CÉU

Ao pequeno Davi e seu olhar de gigante...


POETAGEM


AINDA...


COM SORTE...


DAS LUTAS NA TEMPESTADE

                                ASAS QUEBRADAS

  - diga-se ao povo que, império, é novela global: soberania dos fatos -
                      
                                                 " Liberdade! Liberdade!
                                                  Abre as asas sobre nós,
                                                  Das lutas na tempestade
                                                  Dá que ouçamos tua voz..."
                                 Excerto Hino da Proclamação da República do
                                                                  Brasil

                       Nesta via/ nesta via / tem um mote,/que se chama/ que se chama violação,/dentro dele/ dentro dele mora um monstro/ que instigou/instigou segregação.
                           Cantigas de roda, hinos, citrinos: entre pedras e laranjas, limões e joias raras, as impurezas férricas inspiram bordões, alusões eufêmicas às figuras que despontam  no moderno panteão mitológico. Longe de Creta, os labirintos das novelas mundiais têm roteiros de escancarada imprevisibilidade, ampla escala de impunidade e set de filmagem reais, em tempo de tornar a história humana uma narrativa inaudível. Crível?
                          Choram  medos as crianças e os velhos, inesperado assombro, entre os escombros das guerras de alguém. Mata-se a arte, conflitos à parte, vence ninguém. Obras feridas: descarte, tangidas, interrompidas, sobejam reféns.
                         Choram penas, íntimas cenas de grande terror. Escorre o lodo,  engodo, miserável lobo tange a dor. Desfaz-se o elo, livre labelo, pequeno botão. Morre a orquídea, frágil, despida, implora guarida, régio torpor. Do lado de fora, a alma ignora o peso do medo, o viço da flor.
                        " Liberdade... liberdade..."
                            Enterram em luto a fatal paridade, o bem  que se nega, a verdade de alguém. Enterram em chamas, longe da fama, o verbo, a letra, somente a peta, lorota canhestra, mentira aguda, sobrevém... direito de quem?
                         Foram-se os jovens, instados, chamados em ordens de virgo  mentor; rosto encurvado, leito macabro, menino acuado, um tempo roubado na tépida espera,  robusta quimera, supremo fervor.
                         As mulheres? Levaram-nas  sem abraçar, pisaram-nas sem proteger: colheram os ramos da adolescência inscrita, ainda bendita, passaram a vez.
                          Em que Terra habita o homem sem nome, refúgio da fome, austero senhor? Em que plano orbita, mata e agita, a espada do crime, execrável horror?
                           Coda aflita, corta a vida, vontade infinita,  vingança do além; lápide lenta, hoje sangrenta, suspende a tormenta até o ano que vem. Vem aberto, o tranco do franco, caminha descalço, faz-se notar: a consciência aumenta, aqui jaz  resistência, foi poesia, um dia alegria, só medo, só o medo parece reinar.

                             Quebram-se asas, apagam-se  sonhos, quando sonhar é um lenitivo obrigatório na preservação da sanidade massiva e voar deixou de ser metáfora aleatória.
                                "... Das lutas, na tempestade..."
                                Em  grito, longo e aflito, um dito político litiga sem cor : quem vive de expressar-se recolhe a barba e quem gosta de voar calça sapatos de cimento.  
                                  Silêncio?
                                "..dá que ouçamos tua voz..."

                    Texto: Ivane Laurete Perotti      

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

REDES TRAMADAS EM DOR

 DO CAOS AO CAOS

  - nem a esperança inibe o naufrágio da ética brasileira -

  " O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser    um   realista  esperançoso."
  Ariano Suassuna

                                            Lançou-se ampla  rede na vertente da esperança. Tramada em fios de humana moralidade, retornou vazia às mãos do pescador de ilusões. Nem o Rappa, nem a raspa: peixes graúdos "nadam" e  "final feliz" é locução adormecida aos pés da impunidade promulgada no silêncio da dermo-caca brasiliense.
                                    Mariolas correntes ideológicas deslocam-se abundantes  na líquida  inércia da rotação  nacional. Meio , dois nós, vários nós tingem as malhas da tarrafa constituída em artefato de ideação. As correntes de maré-para-si,  com velocidade e temperaturas irregulares, seguem o fluxo dos ventos, o gosto da lua, a esperteza das lombrigas. De caráter alternativo tornam  nulo o efeito da lei e da justiça: ah!gananciosos animais vertebrados, subestimam a isca? Antes chafurdassem nos "pequenos rios dentro dos oceanos" e retornassem, biltres, ao ventre das safadezas.
                                    À rede, prende-se uma "viscosidade turbulenta"...
                                        Ao pescador, agarra-se a "morte anunciada" pelos ditames da burlesca politicagem: dai ao povo o que é do povo e aos que o representam, dá-se  o todo e o resto, amém!
                                       Na vertente estagnada, o manancial da esperança não acode nem se locomove: nutre-se! Bem ao modo da fermentação biológica, cresce ou definha em ambiente adequado: the natural enviroment, business enviroment - sem tradução satisfatória. Vão-se mãos e anéis, dedos e carretéis enroscados nas falcatruas que fazem desta nação, um oásis da miséria especulada.
                                    De maré em maré, as correntes puxam para si o gosto pela lesão ao próximo, tão próximo que o próximo pode ser você, eu... se é que já não tarda a flexão do verbo irregular - mania de perseguição!
                                    Na tábua das metáforas, a rede voltou vazia, o circo pegou fogo, a fonte transbordou: que fonte? O rio secou, a várzea encolheu, os peixes morreram pela boca: que peixes? A tamanca serviu ao rei, o trono ficou sem dono: qual dono? São tantos os propri-&-tários desta terra banhada em descaso e corrupção, que mais um, menos um, somos todos parceiros! Saudade do João Ubaldo Ribeiro, VIVA! VIVA O POVO BRASILEIRO!
                                Na rede da moralidade, carecem nós: tus e eles vingam na velocidade em deriva.
                                Vingam?
                                    Vingam-SE! pois a fome é um abutre sem penas, e nem o incauto é perdoado!
                                A rede vazia de homens segue rente à superfície...
                         
                                             "Um líder é um vendedor de esperança."
                                             ( Napoleão )
Texto: Ivane Laurete Perotti