quarta-feira, 30 de julho de 2014

NUVENS DE SANGUE

NUVENS DE SANGUE

     - uma guerra sem fronteiras -

                                                 "O patriotismo é o ovo das guerras."
                                                                     (Guy de Maupassant)
                
                                   Quando o menino levanta os olhos, deixa de ver  o que nunca existiu: a paz é uma ilusão sem máscaras e se despede ainda no leito da criação. Fugaz sentimento do não existente, mas desejado, sentido, almejado. Brisa de cores brandas, bandeiras sem haste, sonhos de igualdade no dorso da manhã.
                                   Quando a mãe levanta o filho, enterra  a esperança de nutri-lo em solo cálido: colos roubados vazam a  rota dor do leite perdido. Mulheres amarguram a natureza despida de sua condição. Fecundar é alimento para o império das turbas. Deixar de fazê-lo é injúria à vida fértil. Morre a semente no calvário da longa espera: paz? Deveras! Deveras! Alguém assim quisera... outro plano de engano, expurgo leviano, antes fosse só mais um: homem insano, só mais um, no eixo de tantos outros homens profanos.
                                 Quando as explosões anunciam o medo e a morte, lágrimas de sangue escorrem livres pela história maculada. Tomba a vida e triunfa a destruição, insana sina que de longe marca funesta retaliação: quem não começou o fim, também não chega até ele para a coroa de pedras, falta-lhe o chão. Sepulcros ao ar livre não atrasam as bombas, não silenciam as sirenes de poder e facção. Invasão!
                                  Diante da guerra, afastam-se os polos inclementes: não se ausente! Não se ausente! É fria a dor do inocente... é vasta a noite escura que, intrusa, derruba a casa , aba sobre aba, telha sobre telha, deitando escombros no ventre túrgido  da indefesa parturiente. Não se ausente, nem rogue pelo milagre de ser mais um indiferente.
                                  Quando a guerra serve à mesa, alguém a instigou, construiu, nutriu,  arquitetou  degrau por degrau no malho de soberbo ódio, no encalço de infeliz poder, na ânsia de varrer  verdades outras espalhadas no território do terror .
                                   Quando a guerra bate à porta escancarada, há muito os homens já terão desistido de lutar pelo que é justo, comum, digno e meritório e sem mais tempo para remendos, abre-se a cuba das lamentações.



“Que ninguém faça ilusões de que a simples ausência de guerra, ainda que sendo tão desejada, seja sinônimo de uma paz verdadeira. Não há verdadeira paz senão vier acompanhada de equidade, verdade, justiça e solidariedade. (João Paulo II)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

ORFANDADE LITERÁRIA

 PALAVRAS TRÊS VEZES ÓRFÃS

         -  futuras histórias sem pai -

"Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher ( ... ). E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda." (Ariano Suassuna)

" A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela
  quer  voltar." (Rubem Alves)

"Nós aprendemos a ser apáticos, dominados e a ter pouco senso de comunidade, ou seja, pouco senso de interesse coletivo. Nós temos uma formação que eu não sei de que buraco saiu..."  (João Ubaldo)


                                    Nas sombras das nuvens ralas um cílio bate continência. Pálpebras vertem letras molhadas sobre páginas em branco espalhadas a esmo pelo terreno celestial. Frases não escritas espremem-se no espaço da criação.Livres, continham-se diante do vazio triangular. Ali e lá a linha da existência curvava um anel temporal de pungente sentido. Mesa redonda no paraíso: olimpianos enciumados espreitam o poder do verbo individualizado. Três grandes construtores das palavras entabulam um colóquio provisório: a arena do céu arma-se em contentamento. A chegada festiva promete a suspensão de toda carestia semântica: criar é verbo processual,de valência interminável, inextinguível.
                                Não fosse a orfandade terrena que subia pelas barbas dos anjos, o paraíso contentar-se-ia em apenas comemorar o grande feito: Suassuna, João Ubaldo, Rubem Alves trocavam figuras pictóricas com prazer redobrado. A Arcádia Sideral reposicionava suas cadeiras para receber os grandes meninos que revigoraram a vida comum nas linhas simples de sintaxes coloridas, entortadas, simplificadas, espichadas até a ponta do verossímil. Ficção? Ora, ora, ora! Contar é a arte de mentir com bravura e destreza sob bases tão verdadeiras quanto impraticáveis. Prodigiosos pintores, fizeram da poesia um manto de possibilidades irrepetíveis em saudosas telas de palavras nuas. Destros da imaginação, usaram a alma para tingir folhas e vidas, ambas catalogadas nos anexos da história maior.
                             Flocos de saudade arremetiam-se da terra ao céu feito flechas almofadadas pelo carinho e pelas lembranças latentes. Um soluço! Outros mais! Que alegoria armaram eles para deixarem-nos tão opacos e perdidos de uma só vez? Pedaços de histórias aqui e ali tremiam em ordem de marcha: um e dois, o que será depois? Um amava escrever, o outro escrevia por amar: diziam não saber e então, faziam acontecer com a graça de quem vê o sol desvestir-se todas as manhãs, mas guarda o segredo da nudez calorosa olhando para o outro lado da bacia mágica. Ah! Faroleiros de terra seca, ilhas desertas, sertões castigados, pedreiros da alma absorta; galhofeiros abençoados pela tarimba da sabedoria vivida a punho e letra. Escrevinhadores das ideias folgadas e saborosas,  saltavam de um paraíso a outro. Este último, o prêmio da agremiação etérea, dos passos sidérios, era um novo capítulo no livro da vida. Ubaldo, Ariano, Alves, nos deixaram sem partir. Um upa! ou opa!, um urra! talvez, olé!... qualquer palavra que possa exprimir nosso sempre e sempre e sempre amor pelos arquitetos dos sentidos ativos, vagos e atribuídos.
                       

        
PARA OS SERES ILUMINADOS QUE VEEM ALÉM DAS APARÊNCIAS:
Cláudia San Miguel, Laura Fael, Guilherme, Lucas Pataro, Ísis...


VOZ DE SININHO

PARA OS SERES ILUMINADOS QUE VEEM ALÉM DAS APARÊNCIAS:
Cláudia San Miguel, Laura Fael, Guilherme, Lucas Pataro, Ísis...


Agora...

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

TOMBAM OS DEGRAUS DA VIDA

TOMBAM EM LINHA RETA OS DEGRAUS DA VIDA


                                            "Até que a filosofia que mantém uma raça superior e outra inferior                                                  esteja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada em                                                todo lugar haverá guerra."
                                               Bob Marley


                                      Toma para si a fantasmagórica dor que perambula pela  história alheia e então verá que nada está tão longe do que lhe é próprio e conhecido. A dor é uma corrente viva que desloca o eixo da individualidade e personifica a natureza de sua origem: quem sofre e onde sofre aquele que a enfrenta?
                                      As fronteiras humanas entre aqui e , onde quer que se instale um e outro, não se materializam na geografia natural, mas aferram-se em torno da complexidade interativa dos elementos físicos, biológicos e humanos. Comunidades, grupos, nações agregam-se em trincheiras de interesses, posse, vingança, combate, dominações, desfigurando o conceito de  habitabilidade com  razões  traçadas fora do espectro físico: os fenômenos climáticos devastam bem menos do que os cíclicos e mortais jogos de poder.
                                   Quando as guerras açoitam as portas terrenas, sepultam a inocência em valas rasas e malcheirosas; mãos secas de esperança cobrem olhos aterrorizados, as almas se despedem em prantos e não há colo suficiente para minimizar o medo e a dor. Quando as guerras descem dos punhos fechados em torno de objetivos sempre mesquinhos, as garras da morte abrem-se em leques multifacetados: fome, abandono, terror, agonia, tortura. A abóboda celeste desaba em lágrimas vertiginosas sobre a Terra  regada com o sangue dos povos violados. Cicatrizes profundas e irremediáveis desenham o mapa de repetidos holocaustos, linhas de indiferença nos degraus da vida solapada.  Assim foi, assim é, assim será? Não há guerra que se justifique, nem morte que folgue impune, mas as condições claudicantes de nossa consciência humana abafam os gritos de clemência, justiça e paz. Até quando? Até quando o homem perecerá sob a mão de outro homem, sob o império da conquista, sob o signo da conflagração ...
                                  Tipos de guerra não mudam sua natureza dantesca, nem sopram  ventos de vitória sobre tumbas reviradas. O tamanho de qualquer guerra é sempre único: inaceitável! O custo de todo o conflito bélico é a morte implacável da humanidade, da beleza, da justa simplicidade: direitos insupríveis sobre a face habitável de um planeta devastado pelas mãos que deveriam guardá-lo.
                                   Até quando?
                                  Aqui, ali, lá...o fantasma do medo motivado corre solto nas veias da dor. Ruas e trincheiras endereçam a violência ao mesmo destino, selam a mortal correspondência e tingem a mensagem com sangue insonte.
                                   Até quando?
                            Aqui, ali, lá, matamos o anúncio de um futuro sem esboço: mísseis, balas perdidas, bombardeios, armas de poder e destruição.
                                     Aqui e lá....
                          
                           
                                   "Pensamos demasiadamente.Sentimos muito pouco.Necessitamos mais de                                           humildade que de máquinas.Mais de bondade e ternura que de inteligência.                                     Sem isso,a vida se tornará violenta e tudo se perderá."

                                            Charles Chaplin

segunda-feira, 14 de julho de 2014

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domingo, 13 de julho de 2014

NA HORA CERTA

AMOR À VIDA
                        - a simplicidade esquecida -

                                        " A poesia abre os olhos,cala a boca e estremece a alma..."
Charles Bukowski

                                    Na hora certa, manhã descoberta, as flores voltam a  face em direção ao sol, como espirais ausentes, almas carentes, formas candentes em lícito favor.
                                    Na hora certa, a trama urdida alcança a guarida,
                                    entretecida de luz e calor:
                                    homens e fatos devolvem à calma o falso retrato da súplice dor.
                                    Junto às estradas, calçadas rompidas,
                                    pedras puídas,
                                    armas postadas  em nu corredor:
                                    feito cancela,
                                    o caminho aparta,
                                    em longa jornada
                                    o vértice amargo, sem o resguardo do  plácido amor.
                                    Arestas abertas maquinam o fardo,
                                    longo petardo,
                                    cardam a lã,
                                    amarram o linho,
                                    taça sem vinho,
                                    mãos em espinhos
                                    odorante pendor.
                                    Na hora certa, a face desperta,
                                    grita contrita,
                                    para todas as flores,
                                    tenras cores:
                                  ... beijem o sol!
                                   Na hora certa
                                   ... agora incerta!
                                  
                                
                                           "... e que as palavras difíceis que sempre temi dizer
                                             podem agora ser ditas: eu te amo."

                                                Charles Bukowski

sábado, 5 de julho de 2014

COMPLEXO DE VIRA-LATAS?

NÃO CULPEMOS AS PALAVRAS, ELAS ESTÃO A SERVIÇO

             - quem se responsabiliza pelos dizeres ausentes?-

 "  (...)mas quem fala a respeito do homem? Há os que simplesmente tagarelam  Sartre

                            Pobre de mim, tupiniquim. Pobre de mim, papa-capim!
                            Robustas palavras pairam nobres,
                             e ignóbeis,
                            sobre  diáfana afasia
                            ... quem dizia?
                            Se quem escreve assume a pena, nem sempre bastante à régua  pequena, não há inocência diante do  verbo dito,  não dito, escrito, apagado, contrito; há antes, bem antes, a sombra de um veredictum!
                           Em julgado desalento, o uso nem um pouco flutuante da palavra pelo palavreador , tagarela versador, sujeito provido de loas, deítico, político, mítico instigador. Não! Impossível  negar o contexto, ou mascarar em sujeito o delito provedor, a querela é de longe um ponto emaranhado no fio da vida e implica a não se tomar um pelo  outro: engano, engano, engano. Farpas de palavras perdidas espetam-me aqui e, logo, devolvo-as ali. A língua que corrompe é também  corrompida; instala, cala, atravessa o véu , ludibria, cria, funda o jugo, abre a cancela, furta e revela, coisa de monta em história de pescador. Assim é! Ou se faz ser, neste mundo de linguagens múltiplas, onde a palavra parece que reina,  objeto de intriga, veiga viga, fértil várzea, entre aquele que  teima e ainda treina o papagaio falador.
                            Faço fita, neste jogo que imbrica a palavra na escrita, para falar do ausente agravo, estranho conchavo aparecido  nos jornais: quem disse da viralatice - isse, quem começou a bobice -essa, que até parece valer?  "Complexo de vira-latas"  é ofensa ou desfeita, coisa que se espreita antes de conceber, mácula à propaganda ditosa, há tempos vigorosa, sobre  o "brasileiro vencedor"? Ou faz parte do pleito sem  jeito,  descuidado modo de dizer sem querer, qualquer coisa que virgula entre saber e poder? Ou é um ou outro: no sem querer  misturado ao posso dizer vale um conceito sem precedentes  ao tupiniquim dinamarquês. Triste ironia, fina melancolia, ingênua covardia de quem não se calou diante da vez: falar por falar é típico da linguagem denominada abobrês,  mescla somática da necessidade pessoal e intransferível que assola algumas personalidades vitalícias em estado de politiquês com a intenção de convencer o ingênuo freguês. Ingênuo?
                         No perrengue obscuro o discurso resbala, resvala, rescalda a íntima borralha. Fornalha? Na recrudescência de um incêndio, a operação corta o fogo, sabota a lorota, vira anedota, peta, e ainda garante o horário eleitoral. Quem dera fosse a era da palavra colossal: gigante complexual, Brasil,  etc., e coisa e tal. Vira, vira, vira-latas é hipônimo de mote processual.  Mangação! Ai! A fita da escrita não larga o nó. Que dó!

Por ter descoberto o mundo através da linguagem, tomei durante muito tempo a linguagem pelo mundo. ” Sartre