domingo, 29 de dezembro de 2013

PARALOGISMOS INCUBADOS

IDEAÇÕES DE PERTENCIMENTO: JUSTAPOSIÇÃO CONCEITUAL?
               - as falácias da identidade temporária –

                                    “Nós temos sempre necessidade de pertencer à alguma coisa; e
                                    a liberdade plena seria a de não pertencer à coisa nenhuma.”
                                      José Saramago

                                  Vagas robustas estouram na praia.
                                  Sobre a areia úmida, um homem acalenta a alteridade borbulhante. Sem brindes, ceifa as dúvidas do mergulho inacabado nas águas nebulosas da própria identidade. Alheio ao particular sofrimento, o mar vai e volta carregando o sal que alimenta a Terra. Em ciclos, completa a homérica dança de ser quem é: quem é?
                                   O mar e o homem pertencem ao anel concêntrico da criação, mas em apenas um deles a raiz da dúvida planta garras de imprópria necessidade.  Condenado à liberdade de escolha, o indivíduo não apura: deixa-se colher na fonte da incompletude. As ondas desabrochadas atordoam os sentidos falseados em discernimento.  Verga-lhe o peso da ilusão ideológica, da consciência despida, dos sentimentos agrupados em quimeras farfalhantes. Ilusão do óbvio: abissal angústia irrompe pelas trilhas marcadas na passividade em movimento. Redundante, acredita assumir-se responsável em não fazer. Soma aos desejos incontidos as posses desvalidas e multiplica o que se coloca à frente de seu querer. Abre a pena das palavras vazias para comungar com o oceano a abrupta escassez de cumplicidade viril. Está só! Não! Não está só! Pertence a uma maioria de solitários acompanhados: todos órfãos na rede de relações que o mar devolve à praia. A decência da alma não lhe permite dizer, mas as ideias mastigadas no seio comum formigam-lhe as veias do entendimento. Não é entendimento: rumina discursos atravessados que lhe chegam à lente ofuscada. Não interpela de onde eles vêm, nem como fazem para atravessar a roda líquida dos fatos subjetivos. Não é entendimento: imprecisa identificação o torna quem é.
                                   Na algibeira puída, a mão fria procura os traços que lhe impingem a natureza humana. A água salgada lambe os pés trêmulos do homem indiviso. Não lhe ensinaram pertencer a si mesmo, e eis que agora, no final do dia, dá-se conta da caminhada tartamudeante. Esquadrinha a parceria com os arrabaldes, mas o quinhão que lhe cabe jaz sobre a areia: imotivado e sem autonomia. Lágrimas improdutivas misturam-se às ondas que morrem devagar, temerosas pela invasão à torre de pensamentos do homem desprovido de unidade temporária.  
                                     O mundo perdeu a graça? Não! O homem vitimou-se na construção de uma suposta história solta: vir a ser perdeu o caráter exponencial.  A consciência participatória, voluntária ou involuntariamente, estipula círculos, conjuntos, grupos e sociedades que se fecham entre fronteiras deslizantes. A lógica equação dos sentidos desfralda visões de analogia: efêmera autenticidade!
                                     As vagas estouram na praia...
                                                              “ Tu és metade vítima, metade cúmplice, como todos
                                                                 os outros."
                                                                 Jean-Paul Sartre

                                     

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

VERSOS PARA A DENI N. P.



VERSO PARA A LAURA C. W.


AÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA


PARECE...


E...


E...


E...


E...


E...


E...


E...


sábado, 21 de dezembro de 2013

LOUCURA?


                    DEZEMBRO NO NATAL DO CALENDÁRIO…

FECHAVA-SE UMA NUVEM ESCURA SOBRE OS MEUS OMBROS. ELA DESCIA DA CABEÇA OU PARA A CABEÇA SUBIA. ERA TÃO ESCURA E ESPESSA QUE, COM A PONTA DE MEUS CÍLIOS EU SENTIA OS SEUS LIMITES.
NUVENS GERALMENTE VÃO E VÊM, MAS ESTA CAMINHAVA COMIGO DESDE A INFÂNCIA. PESADA E SECA SURGIA NO BERÇO DOS HOMENS QUE GUARDAM DEZEMBRO.
EU ANDAVA PELAS RUAS. RUAS ERAM VEIAS QUE EU MESMO ABRIA.
DAS PORTAS COLORIDAS, AS ORELHAS DOS PRESENTES FECHADOS APONTAVAM MEUS OLHOS, MINHAS MÃOS E MINHA ALMA. GRITAVA PARA RETIRAREM TUDO AQUILO DALI, MAS NENHUM GRITO SAÍA DA NUVEM. MINHA BOCA NÃO ALCANÇAVA AS PONTES SEM REDE QUE A NUVEM LEVANTAVA DO CHÃO.
UM PASSO DEPOIS DO OUTRO. A SOMBRA PESAVA EM MEUS PÉS DOLORIDOS, MARCADOS PELAS FERIDAS QUE EU APLICARA NA HORA DE PEDIR SOCORRO.  DIMINUÍAM DE TAMANHO... NÃO SABIA SE IAM PARA A ESQUERDA OU PARA A DIREITA. MEUS PÉS PARECIAM DUAS BOLAS DE BOLICHE SOLTAS EM TERRENO BALDIO.
EU CAMINHAVA PELAS RUAS DO NATAL QUE CHEGAVA DO CÉU, DEPOIS DA LINHA DO HORIZONTE.
O NATAL VINHA DO CÉU E DEZEMBRO SAÍA DO CALENDÁRIO COLADO NAS PAREDES DAS OFICINAS. ERA UM MILAGRE! TRAZIA UMA ESTRELA QUE NÃO ERA ESTRELA.  PARECIA UMA ESTRELA E ATÉ SE DESDOBRAVA EM MILHÕES DE OUTRAS. MAS NÃO ERA ESTRELA... NEM USAVA MANTOS.  NÃO BEIJAVA OS PÉS SUJOS DOS CAMINHANTES PERDIDOS.
EU QUERIA O NATAL E QUERIA DEZEMBRO, MAS TROCARA O CALENDÁRIO DE LUGAR NA VIDA E ENTÃO, EU SÓ SABIA QUE ERA QUASE NATAL. QUASE...
MUITOS PÉS SOLTOS NAS CALÇADAS ABERTAS ESPERAM AS ESTRELAS. EU CONHEÇO MUITOS PÉS TÃO PESADOS QUANTO OS MEUS. NÃO É PERMITIDO DIVIDIR OS PESOS DOS PÉS, NÃO MESMO! JESUS CARREGOU A CRUZ, NÓS CARREGAMOS OS PÉS.  MUITOS ACREDITAM QUE A CRUZ CAI DOS BRAÇOS DO CRISTO NA NOITE DE NATAL, MAS EU SEI QUE ELA ESTÁ BEM FIRME. SÓ OS PÉS ESTÃO SOLTOS E NÃO CONHECEM O CAMINHO DE VOLTA.
A NUVEM GROSSA ATRAPALHA A MINHA VISÃO.
TIREI O CALENDÁRIO DA PAREDE E DEIXEI O NATAL NO LUGAR DE DEZEMBRO.
O CALENDÁRIO ERA AMARELO.
O NATAL É BRANCO, OU AZUL. MAS NO CALENDÁRIO AMARELO APARECE O NATAL EM VERMELHO. VERMELHO É COR DE SANGUE, IGUAL AO SANGUE DE MEU PÉ BOLA DE BOLICHE.
NÃO GOSTO DO VERMELHO, NÃO É A COR DO NATAL. EU ESTOU DENTRO DA NUVEM ESCURA, MAS POSSO SABER A DIFERENÇA DO BRANCO DO NATAL.
ONTEM À NOITE DORMI PERTO DO RIO E VI NOSSA SENHORA PESCANDO UM PEIXE PARA O MENINO JESUS. TAMBÉM VI SÃO JOSÉ ACENDENDO UMA FOGUEIRA DE PEDRA PARA ASSAR O PEIXE, MAS DEPOIS, POR CAUSA DA NUVEM PESADA, EU NÃO PUDE SENTAR COM ELES. PERDI A BITELINHA DO PEIXE COROADO. TUDO CULPA DA NUVEM QUE ME FAZ SANGRAR E CHORAR QUANDO NÃO TENHO SOLUÇOS.
ENCONTREI O MEU AMIGO ESPANTANDO O MEDO DA NOITE: ELE NÃO GOSTA DA COR DA NOITE. ENTÃO, FALEI PARA ELE CAMINHAR PELAS CALÇADAS DO NATAL E ELE DISSE QUE EU ESTAVA FICANDO LOUCO. NÃO! LOUCO É O HOMEM DE BARBA QUE USA BOTAS COMPRIDAS E UM CHAPÉU DE PONTA!
NÃO USO CHAPÉU! A NUVEM NÃO DÁ ESPAÇO PARA A MINHA CABEÇA.
A MINHA CABEÇA, ÀS VEZES, SAI POR AÍ SOZINHA, FAZENDO DE CONTA QUE PROCURA O MEU CORPO.
O MEU AMIGO QUE TEM MEDO DA NOITE FICA CORDADO NA ESCURIDÃO PARA O CÉU NÃO CHEGAR PERTO DELE. EM DEZEMBRO, ELE DORME NA CALÇADA DO NATAL DURANTE O DIA. GOSTO MUITO DELE, POR QUE ELE SABE COMER BANANA COM OS LÁBIOS, SEM MASTIGAR O CAROÇO E CONSEGUE ENGOLIR A CASCA INTEIRINHA. EU NÃO POSSO FAZER O MESMO... A NUVEM ESCURA MANDA DESCASCAR A BANANA E COMER SÓ O CAROÇO E, ENTÃO, EU COMO!NÃO! NÃO É SEMPRE QUE EU COMO UMA BANANA. MEU AMIGO TEM UM AMIGO QUE GANHA BANANAS. EU NÃO TENHO AMIGOS QUE GANHAM BANANAS PELAS CALÇADAS DO NATAL. MAS EU TENHO UM AMIGO QUE MORA NAS QUADRAS DOS CALENDÁRIOS E SEMPRE AVISA QUANDO VAI CHOVER. ELE FALOU QUE, EM UMA DESSAS HORAS QUE PASSAM LONGE DO RELÓGIO, O TEMPO IRÁ MUDAR E A MINHA NUVENZINHA TERÁ DE FAZER XIXI. XIXI DE NUVEM FAZ BEM PARA A GRAMA... SÓ... SÓ MATA AS FLORES. XIXI DE GENTE FEDE E NÃO SERVE PARA ADUBO. EU GOSTO DE FAZER XIXI QUANDO NÃO PRECISO ME ESCONDER DA NUVENZINHA, PORQUE AGORA ENCONTREI DEZEMBRO E NO DEZEMBRO ESTÁ UM CAMINHO PARA O NATAL DE BRANCO.
VOU DORMIR PERTO DA PRAÇA PARA ESPIAR A CHEGADA DAS ESTRELAS E DAS LUZES. VOU ESPERAR COM O CALENDÁRIO NA MÃO E FAZER UM PEDIDO PARA AS ESTRELAS DESCARREGAREM A NUVEM NA ESQUINA ENTRE SETEMBRO E OUTUBRO. LÁ, ELA PODE TOMAR O CAMINHO DE VOLTA, JÁ QUE ELA TEM PARA ONDE VOLTAR, TÃO DIFERENTE DE MIM QUE COMECEI A CAMINHAR E NÃO POSSO VIRAR AS COSTAS. AS MINHAS COSTAS FICAM PARA O SUL, PORQUE SE O VENTO FICAR FORTE DEMAIS, A NUVEM ESCURA PODE AGRADECER A CARONA. ELA É MAIS INTELIGENTE DO QUE EU.  ELA NÃO FALA. ELA FAZ. EU FALO E NÃO FAÇO.
PROMETI PARA O SENHOR GUARDA QUE NÃO IRIA ANDAR POR AQUI OUTRA VEZ, MAS OS MEUS PÉS DE BOLA DE BOLICHE ME TROUXERAM ATÉ ONDE A NUVENZINHA DEIXOU E AGORA EU SEI QUE O SENHOR GUARDA NÃO VAI GOSTAR DE ME VER SUJO E SEM BOTAS.
MAS É DEZEMBRO E EU QUERO O NATAL QUE VÃO TRAZER DO CÉU. EU NÃO ENCOMENDEI NENHUM ANJINHO PORQUE A NUVEM DISSE QUE ELES SÃO FRÁGEIS. EU QUERO UM ANJO VERDE COM CABELOS AMARELOS CARREGANDO UMA ESPIGA DE MILHO COZIDO COM BASTANTE MANTEIGA E SAL. PARA SOBREMESA EU QUERO PASSEAR LÁ DO OUTRO LADO DO RIO, ONDE MEUS AMIGOS FAZEM UMA FESTA CHEIA DE COISAS QUE EU NÃO SEI DIZER O NOME.
A FESTA DE MEUS AMIGOS É PARA DEPOIS DO NATAL. EU QUERO DEZEMBRO AGORA, PARA DAR UM JEITO NO NATAL ANTES DELE CHEGAR. SEU SENHOR GUARDA, ISSO É CULPA DA NUVEM, NÃO PISE NO MEU PÉ QUE ELE ESTÁ PESADO FEITO BOLA DE BOLICHE E EU VOU SAIR ROLANDO RUA ABAIXO. NÃO, NÃO ESTOU RECLAMANDO! SÓ ESTOU LHE CONTANDO QUE EU GUARDEI O CALENDÁRIO NO LUGAR ERRADO E AGORA ESTOU AQUI, NAS CALÇADAS, ESPERANDO ALGUÉM BUSCAR O NATAL. EU SEI QUE É DEZEMBRO, MAS O NATAL É BRANCO E EU NÃO ENCOMENDEI UM PARA MIM, PORQUE ESSA NUVEM PESADA FECHOU OS MEUS OLHOS PARA O CARROCEIRO DAS ENCOMENDAS. NÃO! NÃO SEI COMO ELA FOI PARAR AÍ. NÃO! É MENTIRA NÃO, SEU GUARDA, ESSA É UMA NUVEM MUITO PESADA. EU A VI CRESCER, CRESCER E CRESCER E PESAR CADA VEZ MAIS. PARECE REDONDA, SEMPRE AO REDOR DE MINHA CABEÇA, PROCURANDO UM JEITO DE SE PENDURAR EM MEUS OMBROS. NÃO TENHO DESCANSO, SEU GUARDA. NÃO! EU NÃO COMI O PEIXE QUE SÃO JOSÉ ASSOU! PERDI A HORA DA BALSA E A LUA JÁ ESTAVA MUITO CHEIA. OS MEUS AMIGOS FORAM CONVIDADOS POR NOSSA SENHORA PARA UMA GRANDE FESTA. EU TAMBÉM FUI CONVIDADO, MAS GUARDEI O CALENDÁRIO. QUASE PERDI O NATAL! O SENHOR SABE QUE NENHUM HOMEM PODE PERDER O NATAL, SENÃO, AS VEIAS FICAM SEM SANGUE E O HOMEM CAI EM QUALQUER ESQUINA DA VIDA, COM OS PÉS VIRADOS PARA CIMA E CHEIOS DE BICHOS.  O MEU AMIGO QUE TEM MEDO DA NOITE CONHECE UM JEITO DE TIRAR OS BICHOS, MAS NÃO SABE DESVIRAR OS PÉS. ELE SÓ FAZ ISSO DEPOIS DO NATAL, EM NOITE DE LUA MINGUANTE, PARA NÃO ASSUSTAR OS MÉDICOS.  EU TAMBÉM JÁ FUI AO HOSPITAL DOS HOMENS, SIM. ELES LAVARAM OS MEUS PÉS. NÃO! SIM! EU SEI SENHOR GUARDA. EU SEI QUE NO NATAL EU POSSO ENTRAR ALI, MAS EU PERDI DEZEMBRO DENTRO DO CALENDÁRIO DA OFICINA. EU PERGUNTO PARA UM E PARA OUTRO QUANDO É QUE O NATAL VEM E, SE VEM, QUANTOS VÊM COM ELE, PORQUE EU SEI QUE ELE VEM DO CÉU. NA TERRA NÃO TEM NATAL. NA TERRA, QUE É ESSA AQUI, O NATAL NÃO PODE CHEGAR. SEI DE TODAS AS COISAS, SEU GUARDA, EU SEI E FICO QUIETO. NÃO SAIO CONTANDO PARA TODO O MUNDO O SEGREDO DO NATAL. EU SEI... O SENHOR É GENTE BOA! VAI ME LEVAR PARA ONDE?  MAS... EU QUERIA DEIXAR A NUVENZINHA AQUI PARA O SENHOR. NÃO PODE? PODE? EU POSSO TENTAR CORTAR EM FATIAS. O SENHOR AJUDA DAQUI ENQUANTO EU CORTO DALI. SE DEZEMBRO CHEGAR E EU NÃO ENCONTRAR DE NOVO ESSAS VEIAS ABERTAS VOU TER PROBLEMAS COM O MEU AMIGO DO CALENDÁRIO. O SENHOR EXPLICA PARA ELE QUE ME LEVOU PARA O CÉU? NAO É CEU? É NATAL? É NATAL NO CÉU? EU QUERIA SABER MAIS SOBRE ESSES ASSUNTOS DE POLÍTICA PARA CONTAR SÓ A PARTE BOA DAS COISAS QUE ESTÃO CHEGANDO. SE O SENHOR ME GARANTE QUE EU POSSO LEVAR OS MEUS PÉS DE BOLA DE BOLICHE, ENTÃO EU VOU! VOU E LHE AGRADEÇO, PORQUE ESSE PÉ AQUI TÁ BOTANDO MUITO BICHO PARA FORA.  SEI DISSO, SEU GUARDA. O SENHOR É GENTE BOA. EU VOU! EU VOU BEM QUIETINHO AQUI ATRÁS, E NÃO VOU FAZER NENHUMA BAGUNÇA NO SEU CARRO. LÁ É BOM PARA O NATAL? E EU POSSO DEIXAR A NUVEM NA ENTRADA? VÃO CUIDAR BEM DELA?ELANÃO SABE PASSEAR PELO CÉU. ELA PRECISA DA CABEÇA DOS HOMENS COM PÉS DE BOLA DE BOLICHE. EU VOU, SEU GUARDA. VOU QUIETINHO. O SENHOR ME AVISA QUANDO A GENTE CHEGAR AO NATAL? EU VOU FAZER CARA DE HOMEM FELIZ E ENTREGAR A NUVEM NA PORTARIA. NÃO RECLAMO, NÃO! DEIXA COMIGO. SEU SENHOR GUARDA? SERÁ QUE O SENHOR CONSEGUE UM CALENDÁRIO PARA MIM? É PARA EU SABER DE ONDE VEM AQUELA ESQUINA ENTRE NOVEMBRO E DEZEMBRO E AQUELA COLUNA DE NÚMEROS ESTRANHOS PINTADOS DE VERMELHO. O SENHOR ME DÁ UM CALENDÁRIO?  MUITO OBRIGADO, SENHOR GUARDA. MUITO OBRIGADO. O NATAL VAI CHEGAR PARA O SENHOR... BOM NATAL SEU GUARDA. BOM NATAL...



domingo, 15 de dezembro de 2013

A DOR E A ORDEM

PARA ALÉM DO DESAMPARO: DOR E HUMILHAÇÃO
                                                  O DESCASO CONSENTIDO
“O dever é uma coisa muito pessoal; decorre da necessidade de se entrar em ação, e não da necessidade de insistir com os outros para que façam qualquer coisa.”
                                               Madre Teresa de Calcutá

                                       "Chegamos à conclusão de uma coisa muito importante, que aprendemos com o presidente Lula, que dizia o seguinte: 'não fui eleito para construir muquifos para o povo brasileiro'. Eu também não fui. Nós fomos eleitos para buscar para o povo brasileiro aquilo que há de melhor", disse Dilma, durante a inauguração do Hospital de Clínicas de São Bernardo do Campo, Grande São Paulo, na última sexta feira 13 deste ano.  O grifo é meu! A indignação também é minha: mea culpa.
                                                  Na emperrada engrenagem dos percalços desencontrados,  rimas acrômicas esfolam a cadência da política brasileira: vão-se Rutes, Carmens e Josés. No plural das vidas simples, eles e tantos mais são ceifados deste plano sem desvelo. Nem Carontes, o barqueiro de Hades, aceita óbolo tão lutuoso.
                                           Solicitudes não são favores, zelo não é camaradagem, direitos não são barganhas: a saúde pública não é moeda de troca mansa. O preço das negociatas insalubres envolvendo as partituras das notas tristes cobra altos percentuais pelos corredores do abandono. Cobra? Enquanto escrevo, não preciso esforçar-me para evocar o ostracismo que envolve e enluta o brasileiro desprovido e adoentado. De um lado, o povo morre. De outro, é vilipendiado, amalgamado, contundido, embaído. Outros sinônimos? Ei-los: tapeado, baldrocado, engodado, embaçado, escarnecido, passado pra trás... a lista multiplica-se na mesma velocidade com a qual o descaso institui-se normalidade provável. O que parece discurso repetido repete-se verbal e materialmente na plástica dramaticidade da corrupção mantida com deliberado esforço. Literalmente: entra governo, sai governo, fica governo... a cantilena não debanda para outras classes e o rol de fatos e omissões dantescas avoluma-se nas páginas de uma história moribunda, alquebrada de direitos, devastada pela impune, profana e improba governabilidade brasileira.
                                           Nossa presidente não construirá muquifos! Certamente! Eles  sublevam-se à sua derradeira vontade: existem, existirão e continuarão a fazer parte da ordem do dia em uma realidade aprovada e meticulosamente mantida há séculos. Ainda assim, bem gostaria que a nossa representante olhasse o seu entorno antes de proferir palavras que significam sozinhas, em galopes semânticos reticentes, tanto quanto as estratégias que não acontecem para além dos interesses de poucos. A dor não pede carona, mas pode ser tratada com o mínimo de respeito e cuidados básicos, tão básicos que prescindem de discussão. Ou não? O que há de melhor para o povo brasileiro?
                                             Não deve ser fácil o manejo da política assentada, entronada em linhas de parca maleabilidade, mas instigo-me a imaginar como dormem aqueles que fazem dela, da política, uma escada para o inferno alheio.

                                          A sociedade carente de cuidados, de intervenção, alimenta a base para a esperança famigerada. Estrategicamente, promessas sazonais abundam e transformam-se em votos de ocasião. Simples tanto quanto somar as desventuras diárias de uma população privada do direito aos seus direitos. Simples! Os que sobrevivem ao descaso, ao desmando e à humilhação, voltam-se sobre o pião soprado de fora, e quando não choram, esperam. O que resta ao homem quando a sua dignidade é solapada? 

domingo, 8 de dezembro de 2013

EXOTOPIA REFLEXA...

O PESO E A PENA DA LIBERDADE : EXOTOPIA REFLEXA!

                                                             "Algum dia em qualquer parte, em qualquer lugar,
                                                             indefectivelmente te encontrarás a ti mesmo, e
                                                             essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais
                                                             amarga de tuas horas."
                                                                              Pablo Neruda      

                  Nos buracos de minhoca de nosso universo pessoal habitam vozes. Algumas, potentes. Outras, débeis. Muitas sem rosto, sem nome, nem lugar para a desova dos discursos apopléticos. Todas embargadas pelo poder do espelho enviesado, fruto do olhar oblíquo de quem acreditamos ser: sujeitos que veem, são vistos e constituem-se através da imagem formada. 
                   E agora, Mandela? Em quantas sílabas bradará o povo? A cor da liberdade ecoa vozes surdas em tablados de madeira grossa. Bate e volta. Faz a curva da esperança e funda sociedades perecíveis. Natureza própria da ambígua faculdade humana de instalar-se onde estaciona o bonde da vontade política. Ao feitio prosaico das imagens refletidas, somos personagens de logias conectadas por enredos que se extraviam nos buracos de minhoca.  A relatividade geral prova-se na tipológica hipótese de que somos factíveis. Exequíveis. E virtuais. Somos humanos! De fato, também somos intangíveis: seres dependentes do que está posto dentro e fora do círculo concêntrico do ego costurado sobre parcas. Cloto, Láquesis e Átropos tecem fios, articulam vozes, dobram as penas dos endividados com o contínuum tempo-espaço subjetivo. Figuras cativas que dançam ao sabor de suposta autonomia.
                 E agora, Mandela? Por quantos corpos míticos enveredaremos a constituição da liberdade?
                   Escavar as perguntas filosóficas enterradas no sítio dos sujeitos obliterados é uma das ações da antropologia individual que exige cumplicidade. Cumplicidade e parceria: somam-se “eus” na matemática moral e nos depósitos históricos. Júbilo do homem fóssil e do homem vivo: capricho obrigatório enfrentar o próprio espelho nas faces remotas que perambulam pela terceira margem da identidade una e múltipla. Olhar de fora é olhar através do outro e ainda sobreviver à incompletude do encontro consigo mesmo. É ler a autobiografia em trechos impressos por petições a expensas de múltiplos encargos. Pois, o peso da liberdade é responsabilidade partilhada na cerimônia da vida. Casamento perfeito entre o estar no mundo e o fazer parte dele. Base para a indigesta afirmação de que não se divorciam sujeitos, separam-se identidades amalgamadas em topos alheios: lugares reflexos.
                   
                            
                  A independência da alma aprisiona o homem em vestes estreitas e mal talhadas: roupas invisíveis ao olhar do rei admoestado. Enquanto os inocentes enxergam o que desejam ver, todos nós, nus e solitários do outro lado do espelho, procuramos pelo abrigo das certezas que não vêm. Não existe atalho para transportar a densa matéria moral que nos funda e torna sujeitos sociais, livres e conscientes.  O fenômeno é pessoal e intransferível, mesmo acontecendo na garganta do universo coletivo.
                                        Sua liberdade e a minha não podem ser separadas. (...)”
                                                        Nelson Mandela
                                

                   

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

SEM PAUTA...


ENTRE PARÊNTESES...


PALAVRAS...


POR UM VERSO...


POR UM VERSO...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA...


AINDA


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

VIRA...

VIRA IRA, ARA! IRA! VIRA IARA...
                        O sol não abrira os olhos por entre os montes, mas o pescador conhecia o ritual. Quanto antes chegasse à nascente, maiores as possibilidades na armação das redes e no levante do anzol. Gostava de acordar cedo. Era uma espécie de oração que fazia ao despertar antes dos outros. Enchia o peito de esperança e imaginava que aquilo ali era passageiro. Penúria rodeava a vida que levavam. A terra sumira das mãos calosas e sobrara o rio. Até quando o velho barrento rasgaria o próprio ventre para alimentar os homens sem chão? Virgi! Não queria arreclamá, mas... tava munto difícir.  Na maioria das vezes, pensava nos anos passados em melhor situação. Sonhava com a pequena roça verde de folhas e raízes, cheirando a brotos novos. Lugar que fora dos pais dos pais de muitos iguais a ele. Tomaram as terras, levaram a vida embora. Quem ficou, minguava às margens do velho rio. Enquanto os pés descalços amassavam a relva molhada, Tião sentia a cabeça girar pela escassez da comida e pelos tragos emborcados durante a noite anterior. Fora levado pela roda de pinga. Pinga braba... arrevortava o istômigo! E agora, que se avexasse di veiz! Ia pescá nem que fossi a tar de... a tarde de... dona Iara! Aff! Tava se muqunfandu di novu! A tar da dona, si existisse, tinha ido s’imbora tamém! Virgi!Quanta bobagi na cabeça dum homi maldormido!
                        Tião correu os olhos pela água ainda adormecida. Lavou o rosto e respirou o ar da manhã mergulhando nos pensamentos que assustavam feito correnteza em dia de enxurrada. Abaixado, abriu a rede cheia de buracos. Rede velha, tão velha que não sabia dizer. Haveria de pescar qualquer... ói! que sombração zombava du disisperu dele?Quem adeveria cantá música tão... tão...tão cheia de belezura? Os olhos do pescador tomaram-se de mágica alegria. À cabeceira do rio viu a mulher mais linda que um homem poderia ver com as vistas do corpo. Viu e ouviu. Das mãos dela brotava água limpa e perfumada, e os cabelos, ah!, os cabelos eram tão sedosos e iluminados que o sol se encabularia ao vê-los assim. Era uma... uma... mara... mara...maravia! Ô dona di tanta formosura! Não adeveria sê das redondeza... e ainda cantava inguar um anjo!
                     Deixou cair a rede. Por um tempo sem demora esqueceu quem era e o que fora fazer ali. Via aquela mirage sem perguntas no coração cansado. A voz cantante embriagava a alma e o corpo magro. Sorria com a boca inteira, aberta, feito taramela quebrada. Os olhos pregados na moça, na dona, na... maravia! Ô dia bão, sô! Bão sem conta... e chegava mais e mais perto do espetáculo que acontecia para ele, só para ele. Tão perto, mas tão perto, até poderia jurar que sentia cheiro de laranja madura. Gostava de flores. Gostava de música. Gostava de... vira! Vira, ara! Ira! Mas que... mara...via! Tonto pela visão e pela música, Tião entrou no velho rio. Entrou, entrou e entrou. A água barrenta lhe tomava o corpo como se lhe pertencesse. A correnteza não era forte, mas na fundura do rio, muitos homens antes do pescador haviam perdido a vida. Não era brincadeira! O rio levava quem o desafiava. Tião sequer lembrava que sabia nadar desde menino. E nadava bem. Mas não ali, naquele momento, com aquela voz entontecendo os sentidos e o corpo desnutrido. Foi e foi. Foi descendo para o fundo mais fundo do fundo. À frente, a dona da voz e dos cabelos iluminados o chamava para mais perto. Ele foi. Quando os outros pescadores chegaram, encontraram a rede de Tião armada e cheia de peixes. Menos Tião. Ninguém até hoje sabe explicar onde foi parar o velho pescador no amanhecer de uma longa e afortunada pescaria.


sábado, 30 de novembro de 2013

ALDRAVAS

ALDRAVAS

                                                      “Abre-te Sésamo!”
                                           (Ali Babá e os quarenta ladrões, in: Mil e uma noites)

                                    
          Gemiam os ferrolhos na opacidade da tarde que se anunciava finda e fria.
         À porta, mãos nodosas dirimiam a distância pretensa.
         Nenhum vislumbre denunciava o interior. O silêncio era quebrado de fora, na altura das mãos que arremetiam a aldrava.
         Em sendo proteção o que a casa buscava, deixava ao largo quem passasse por ela. Distinta e imponente impunha ares de intocável distanciamento, mensagem não traduzida palas mãos insistentes que mais uma vez dobravam força sobre a face da madeira envernizada.  Madeira de lei, tratada com a seriedade exigida pela condição de seu nobre nascimento. Seria nobre o gesto de se abrir a porta e perguntar a que vinha. Mais uma, mais duas, tantas portas fechadas pela obsessiva atenção de quem protegia aos seus e a si. Atenção: frêmito de longo alcance, turbulência ausente no rol das necessidades urgentes que perfilavam a insistente rotina de escassez traduzida em indigna pobreza.
         O silêncio instalava-se nas bordas do batedor localizado na altura das mãos.   A lamúria das pequenas travas que o mantinham pregado à porta chegava-lhe em ondas surdas, quase inaudíveis não fosse a longa experiência diante daquelas peças cegas. Travas fechadas sobre si mesmas, eloquentes e frias, pregavam seus olhos na espera pelos movimentos do outro lado da compacta taboa.
         Seria assim... sempre assim?
        Conhecia a natureza das portas fechadas e distinguia os seus protegidos por escalas de inatingibilidade. Quanto mais opíparos os adereços que as compunham, maior magnitude conferia aos seus proprietários. Maior a distância entre os pontos que lhes indicavam um lugar no mundo, muito maior.
        Solenemente, fez cantar o círculo desmanchado em gotas de ferro batido pela derradeira vez antes de retirar-se do beiral.
        Portas são olhos semicerrados no limite do mundo aberto: cílios espessamente invisíveis roçam o universo interno, pálpebras imóveis vergam para fora, comandando a dança do inviolável e arbitrável jogo de poder guardado a sete chaves. Conhecia a natureza das portas. Conhecia-lhes a morfologia imperiosa.
        Quando se preparava para recolher as mãos nos bolsos sem fundo das calças puídas, a porta abriu-se para emoldurar o par de braços mais branco já visto por ele.
         Valessem-lhe todos os santos! Seria um anjo?
         Os braços formaram um ângulo de força para manter a porta aberta enquanto um sorriso desenhava-se.  Era um anjo, certamente! Há tempos imemoriais não recebia a glória de um sorriso endereçado para a sua pessoa. Anjos sorriem diante de qualquer situação, especialmente diante daquelas às quais pedem desculpas, mesmo sem lhes ter qualquer responsabilidade. Talvez por essa razão sorrissem. Ingênuos e santos, afortunadamente, sabem sorrir!
         No final daquela tarde anunciada, uma criança abriu a porta para perguntar quem era e o que desejava. Sem resposta frente ao presente inesperado, ele sorriu de volta e foi-se: estômago vazio, cabeça latejante, a alma aquecida dentro das roupas andrajosas.
        Diante de seus olhos murchos, um sorriso tomava o lugar das aldravas chorosas. Aldravas...aldravas... aldravas... portas e aldravas são uma grande incógnita!
             
        
        


        

domingo, 24 de novembro de 2013

DISCURSO EM PROSA POÉTICA

 ABERTURA DO EVENTO OFICIAL SETE LAGOAS 24/11/13
  ( DISCURSO PROFERIDO NA ABERTURA DA CERIMÔNIA)
            
                                                       
              Sobre o mérito de cada um...

              Desvelam-se as folhas caídas na redolente noite de outono. Em tépido dourado, despedem-se das árvores decíduas e forram o caminho iluminado pela lua em quarto minguante.  Farfalham segredos aos pés daqueles que andam com a alma em dobra de canoeiro.
                Os homens sonham.
               Descalços de veleidades, vestem a vontade do coração indômito.  Sobre os ombros vergados pairam asas de poder e diligência. Eis, então, que se abrem as comportas do fazer por escolha e as mãos firmes mergulham na paixão ideológica empreitada.
 Tintos pelas cores da excelência, fazem bem, fazem-no superando as dificuldades.
                Os homens operam milagres.
         Foi-se o tempo no qual a delonga marcava os versos da poesia em desabrigo. O ser humano tem sede de significados. Instala valores e funda princípios longe do terreno da obrigatoriedade.
           Faciunt... Eles fazem!
           Os homens justos recolhem a história, maceram-na em suor e boa vontade.  Escolhas ímpares na tutela do destino contrafeito: aceitam as folhas, festejam a lua espraiada.
        Parcelas embebidas no esforço humano despregam-se vagarosamente, e uma vez livres, inundam sem medo o coração ao lado.
         Exemplum virtutis...
        À força do exemplo são impelidos os que esperam ou temem.    Os sentidos brotam das mãos calejadas pela faina e varzeiam outras mãos. Mãos atentas e férteis deleitam-se confiantes ante as sementes jogadas ao solo úmido.
         Mãos abertas semeiam o mundo!
         Assim sonham os homens justos!
       Desprovidos de loas, descortinam os passos da própria consciência: constroem sobre bases sólidas, engendram projetos, metrificam a esperança contida.  Não sobra vez à vaidade infecunda.
             
               Sem fímbrias para louros, no silêncio dos olhos, palmas perfuram o brilho que suspende as lágrimas dos homens benemerentes.
               Vitoriosos, eles choram!
               Pelos caminhos tantas vezes nus, as folhas douradas empertigam-se para festejá-los. E sobre as fraldas das razões do mérito, movem-se eles: recusam-se a permanecer escondidos nas cavernas da timidez ou nas ruelas das incertezas.
                Eclodem!
                Límpidos!
              Grandes e pequenos, homens e mulheres que sonham e fazem pelo poder que lhes confere a fé no bem comum. Fazem! Simplesmente fazem!
            Empunham brasões de fidalga maestria e rompem o cerco das tarefas coroadas pelo aguardo da lisonja passageira ou da obrigação camuflada em dever.
              Por entre as folhas secas, a axiologia pergunta sobre a natureza do mérito e...
                    Eis que o homem universal responde:
               _ O que está bem feito, bem está.  A glória que me cabe é o sabor da obra feita. Faço-a com os olhos altos e o coração inteiro. Cabe-me, tão somente, o contentamento em vê-la pronta!
                   À história que faz do homem o teto da consciência livre...
                                 o mérito da gratidão!



sábado, 23 de novembro de 2013

ABLEPSIA

                                           
AOS QUE OLHAM A VIDA DE DENTRO PARA FORA     
             
                                              “Há pensamentos que são orações. Há momentos nos
                                              quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de
                                              joelhos.”
                                                    Victor Hugo
                              As mãos em concha simulavam a noite diante dos olhos. Os dedos apertados um contra o outro criavam a ilusão da luz rarefeita. Ele sorria enquanto mostrava à criança curiosa a vantagem de aprender a olhar para dentro.
                               Dentro era um lugar que ficava distante do universo imediato de um ser em tão puerícia idade. Mas o neto insistia em aprender a ver como o avô via, ou deixava de ver.  E na tarde que se entregava aos abraços do sol, os dois partilhavam a mesma experiência, cada qual assentado ao banco de sua própria compreensão. Dois meninos em agudo crescimento: avô e neto dividiam a vida em parcelas degustáveis. O primeiro conhecia as dificuldades retratadas; o segundo desejava conhecê-las. Diferenças mínimas, mas suficientemente sugestivas para quem quer que tentasse entender aquela parceria.
                             Crescia o silêncio na sala grande. Atento às orientações do avô, o menino respirava em uníssono, sem retirar as mãozinhas de frente ao rosto. Juntos, perscrutavam o caminho ao alcance dos olhos fechados. A escuridão ilude os navegantes, especialmente se apenas dela se valerem. E não há risco maior do que acreditar piamente no quadro que as vistas recortam. Muitos sinais se perdem na extensa faixa que intermedeia os olhos físicos e sua capacidade de ler o mundo.
                              Ver é uma faculdade quase independente, um sentido interligado ao espírito bem mais do que ao corpo, mas a cultura do materialismo imediato nos afasta das potencialidades postas. Relegada ao plano do esquecimento, esta capacidade fenece com o tempo, o costume, a rotina, e passamos a acreditar que o ato de ver implica a presença de globos oculares.  Não implica! Tanto quanto enxergar e ver inscrevem-se na lexicologia com raízes semânticas diferentes, apesar do parentesco e do sentido comum ao ponto de referenciação. Qual dos dois verbos expõe nossa estultice diante do óbvio? Eu enxergo, já não vejo! Eu vejo, mas não enxergo! Questões que só podem vingar em mentes abertas para a vida enquanto equação sem perímetro, sem fronteiras axiológicas, sem as mesmices que se traduzem em comportamentos automatizados.
                               O menino com idade avançada sabia que a ablepsia alcançava o corpo, sabia! Tanto quanto entendia que ela poderia nascer na alma e jamais ser diagnosticada pela medicina clínica. Mas, sabia ele também que, ao aprender a olhar de dentro para fora, via sem deixar de ver e sentia mais do que via sem ver.
                            Era o que ensinava ao neto. No silêncio criado e na ilusão do escuro imposto pelas mãos em concha, os dois perscrutavam os sentidos menos sentidos. Viam as cores da vida assumirem sabores, cheiros e texturas inegavelmente belas e presentes. Tocavam a borda do céu sem sair do lugar; exploravam o universo interno prontos para vencer os monstros da intimidade aguçada. Os dois meninos dançavam a valsa do conhecimento travado no âmago de sua fonte primordial: o eu mesmo! O inviolável self!
                           Deslizar pelas fronteiras do inevitável é uma prática dos espíritos livres e maduros. Mergulhar na aceitação do imprevisível é tarefa hercúlea. Nem uma e nem outra impossíveis aos homens de boa vontade e ampla inteligência.

                            Na tarde abraçada pelo sol, avô e neto avançavam pelo caminho da visão imaculada: os dois viam! 

DESTAQUE

DESTAQUE NA ÁREA DE LITERATURA
            SETE LAGOAS, 22/11/2013







domingo, 17 de novembro de 2013

AINDA SOBRE O AMOR... E AS BICICLETAS!

PARA NÃO DIZER QUE NÃO QUE NÃO FALEI DO AMOR (parte III):

                                                                   “Entre casar e comprar uma bicicleta...”
                                                                      (adágio popular)

                 Perdeu-se no tempo a pergunta indireta. Além das bicicletas ganharem novos modelos, o casamento também assumiu nupérrimos perfis e, quem casa, divorcia-se. Bem mais fácil do que comprar uma bicicleta, a depender da marca e dos acessórios que a acompanham. Por falar em acessórios, os veículos de duas rodas mantêm um vínculo estreito para com as metáforas da vida a dois: a tipologia é extensa e agrega-se aos contextos de acordo com as suas implicaturas. Implicância! É, parece implicância de minha parte fustigar um assunto tão delicado quanto vergastado. Impróprio para as páginas de um jornal. Talvez! Mas a maré do amadurecimento aponta o lume para direções nem tão simples quanto casar ou comprar uma bike.
                   Dubito, ergo cogito, ergo sum! Descartes teria uma bicicleta? Um celerífero? Possível, se relacionarmos as prováveis notações históricas para a invenção do veículo tracionado, mas antes dela, da bicicleta, o casamento já se enquadrava nas aspirações pessoais e no rol das imposições sociais. Tradição, cultura, preservação de patrimônios, manipulações políticas, interesses de estado, tratados de paz, concepções religiosas entre outros processos maquinados pelas relações humanas, selavam-se na presença do sim, do para sempre, e até que a morte nos separe. Quando os sentimentos suplantavam as circunstâncias, na vida e na literatura – a vida é uma via de mão dupla, a literatura apenas redescobre corredores paralelos à estrada principal - o amor alçava status dramáticos. Não muito diferente da contemporânea mobilidade amorosa com a qual convivemos agora. Mobilidade, eis a fonte das conjugações verbais para o termo casar-amar, amar-casar, amar-ficar... ficar-casar...
                  O casamento não é uma escolha com passe livre. Poucos nascem com a faculdade deliberativa que ensaia o amadurecimento do ato ou para o ato. Aprende-se uma vez a andar de bicicleta e a máxima estende-se a todos os modelos: duas rodas, pedais, quadro de estabilidade, correias... estabilidade! Ah! Estabilidade: a estrada dos casamentos parece correr longe do ensejo. Quanto mais vezes casam-se os indivíduos, menor a capacidade de manter-se sobre o cilindro da segurança? Que segurança?
                   A escola da vida poderia criar uma disciplina metodologicamente amparada pelos fundamentos de nossas histórias pessoais. Seria, certamente, um grande investimento cooperativo para a sustentabilidade das núpcias contraídas na fogueira das emoções – ou sentimentos, ou desejos, ou intenções. Paradigmas a parte, casar estaria, com efeito, para o exercício consciente da conquista do outro, do cuidado para com o outro, do respeito às inevitáveis (e saudáveis) diferenças do outro, do querer o outro. A ambiguidade das palavras envolvidas devolve-me o discurso que entrelaço a sovéu curto: quem é o outro? Aquele que está dentro ou aquele que está fora? Dentro e fora me desmentem peremptoriamente. Ousadia verbal ou necessidade de confrontação? Os dois! Por que não? Pensar e duvidar não foram prerrogativas do grande filósofo e matemático francês, nem a introdução “Era uma vez uma princesa...” conferem verossimilhança entre a vida e a literatura. Os finais felizes estão marcados pela trajetória da corrida no início de sua largada. O casamento não é uma instituição falida, nós – os envolvidos - esquecemo-nos de perguntar a que viemos: casar ou comprar uma bicicleta? Os dois, para quem tem fôlego e disciplina!

                 Saecula... amen !