domingo, 19 de abril de 2015

HAXIMU

HAXIMU - UM MASSACRE RECORRENTE

- podem calar os vivos, mas os mortos falam por si -

 " Envergonho-me da consciência clara diante das diferenças que sinto e vejo mas, envergonho-me  mais, muito mais, de todas aquelas abissais diferenças que alimento pela ignorância de minha consciência." Ivane Perotti

                                O sangue que encharcou as terras Yanomami  há 20 anos atrás é um  HAXIMU  recorrente: mudam-se as proporções do  derramamento, o local e as vítimas; mantém-se a razão ideológica  - a fome é a mesma, o controle do descontrole permanece voluntário, a violência dissemina-se em cornucópias de banalização, e a ignorância culpa o destino que jamais será julgado.
                               Careço de espaço mental para alinhavar uma decisão: embriago-me , aceito ser embriagada ou coloco Deus em julgamento? Se pudesse colocar o último em pauta, eu aceitaria a embriaguês permanente, mas também careço de espaço em minha alma para deitar fora a culpa que é minha: MEU DEUS! Onde estive enquanto Você passeava por aí?  Disseram-me desde sempre que aceitasse os desígnios divinos! Pois eu duvido que os desígnios que tornam a nossa raça em uma espécie  inumana sejam divinos! Duvido e duvido! isso é infantilizar uma visão do gerenciamento social da /h/UMANIDADE  e  passar a responsabilidade para uma dimensão inatingível em termos de juízo - a não ser que já tenhamos chegado a ele, o bíblico  juízo final. Talvez! Então, novamente a culpa vem de outro lugar que não daqui mesmo? Careço de espaço para adensar ainda mais a ignorância que me é própria.
                            Quero pensar o mundo/planeta como uma grande aldeia - conceito metafórico que surge lá pela década de 80 quando ainda se acreditava ( acreditava?)  que a globalização seria uma natural consequência tecnológica e, portanto, a sociedade histórica estaria mais conectada e informada - bem informada acerca de sua própria ou imprópria evolução. Perdi um parágrafo apenas para justificar o que segue: se o mundo é uma aldeia, posso colocar na mesma cabaça os movimentos que se registram: Boko Haram, ebola, administração da pobreza, investimento  em não educação, Yanomamis,  generalização da violência,  Brasil,  água potável, Etiópia,  armamento, terras indígenas,  Islã,  antissemitismo, Estados Unidos, corrupção, Rússia, ambição, Croácia, exploração criminosa, meio ambiente,  guerras orquestradas,  Serra Leoa, carvoeiros brasileiros,  ... a cabaça é pequena: não tem espaço para as crianças e a violência sexual,  o fundamentalismo religioso, o preconceito racial, a depressão em massa, os verdadeiros ladrões por trás dos pequenos ladrões  hospedados em celas temporárias na carceragem de nosso sistema prisional - a espera de que o sistema maior mais uma vez funcione na lavagem da lavagem - e por aí vai. Sinal - não decifrável, claro! - de que a sociedade mundial  jamais será uma tribo sobre a esfera planetária e nem os desígnios divinos podem ser levados à prova! Se ELE criou o mundo em sete dias, certamente não foi ESSE mundo que imaginou e, há tempos,  deve questionar-SE quanto a não ter descansado antes!
                       
                         Que haja MISERICÓRDIA para a ignorância nossa de cada dia...


 " Se apenas na correnteza proliferassem os peixes, as redes de pesca não seriam lançadas no raso." Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti

AINDA UM SOLUÇO...


SERIA UM SOLUÇO... AO MÉDICO DAS ALMAS

ESTA NÃO É UMA POESIA...
SERIA UM SOLUÇO SE O CHORO SE PERMITISSE ESCREVER.
NÃO HÁ LUGAR PARA AS PALAVRAS  NO AFETO E NA DOR!
AO AMIGO, MÉDICO DAS ALMAS, QUE DECIDIU PARTIR SEM RECEITA NEM DIREÇÃO...
PELA DOR  SENTIDA E NÃO REPARTIDA  ANTES  QUE SE  CALASSE O ABRAÇO, ANTES QUE O GRITO PERGUNTASSE O DIA DO SIM...FIM?
QUE NÃO SE JULGUE A DOR POR TRÁS DO MANTO E NEM SE DIGA SEM DOR A DOR QUE SEGURA O PRANTO!
LÁGRIMAS CORREM  À BEIRA DO RIO...
QUE A PAZ, NA FORMA QUE SE PUDER MOSTRAR, MOLHE A ALMA DOS QUE FICARAM PARA ENTENDER, OU APENAS, TÃO SOMENTE APENAS: ACEITAR!

AO SEMPRE MÉDICO DAS ALMAS... ONDE QUER QUE TENHA APORTADO A SUA! 


FLORES SÓBRIAS

Sem alívio
veio a noite
em todas as noites
na mesma soleira...
flores soberbas
marcam a ponte
deserta fonte
vaga canseira...
aos pés da morte
plana a sorte
tranca de bote
...quaresmeira!
A noite não bate
falange de escape
afugenta a morte
no abraço de um forte
geme o grito
pedido  de corte...
flores na estrada
sóbrias feridas
sobem a escada
...sem corrimão!
Cala-se a alma
rente ao salto
suspiro...
roto asfalto
cadafalso tardio!
Ausente alívio
pedaços soltos
lágrimas lentas
molham o chão!

Ivane Laurete Perotti

domingo, 12 de abril de 2015

OUVI DE UM CORAÇÃO

DIÁLOGO INTERNO

-  palavras e ondas vêm e vão mas, não retornam jamais ao mesmo lugar -

 " Ouvi de um coração que nenhuma forma de solidão assalta  aqueles que não se apoderam dos sentidos alheios  - só existe o 'alheio' entre os sentidos comuns a todos nós." Ivane Perotti

                                Nas linhas de um rosto correm segredos: sulcos deixados pelo arado das histórias vividas de dentro para fora. Rastros de sentimentos que  trilham caminhos singulares, ilham os olhos, margeiam a boca e comprimem a pupila da alma exposta.
                               O rol das partidas engendradas e das chegadas não  concluídas talham o rosto humano com  sinais e significados de humana contingência; e estulto é aquele que os lê na cartilha da mesmice óbvia. Na superfície de um rosto não  jorram simplificadas  sintaxes de imediata tradução. O trabalho de leitura exige mais do que a estética decodificação  oferecida à sorrelfa pelos alfabetizados em comportamento humano. Antes, há de se graduar em  sentimentos, cumplicidade, bondade, sensibilidade, cadeiras desfalcadas de método e práxis nas academias da vida e não recicláveis nas capacitações ordinárias, rotineiras, diárias. Pena! Pois a graduação de que falo não cobra ingresso, não instaura vestibulares, não examina a proficiência em línguas estrangeiras: apenas e tão somente oferece-se àquele que está presente na instância do mundo comum.
                            Estar presente ... barganha interna que edifica muros de indiferença e insensatez. Presentificar-se é uma escolha que exige consciência e esforço, que não comunga com a indiferença, que trava batalhas a favor da indignação, que não acomoda as emoções em espaços pré-moldados por medida de segurança pessoal. Estar presente  exige trabalho, esforço e  empenho espiritual - interno, ou seja lá o nome que se deseje dar ao que se passa no universo da subjetividade humana - é um caminho de vias interativas, contagiantes, perigosas para  quem deseja permanecer  empoleirado no meio do caminho: sulcam-se as faces sensíveis e capazes de encarar a leitura de outros faces. Há  riscos em sentir a história do outro: há riscos de se descobrir o amor e a compaixão simples e sem rótulos.
                        Ondas e palavras atravessam-nos em praias distintas: as primeiras podem carregar areia na ida e na volta - remanso indecifrável deixa à correnteza a capacidade de descansar enquanto trabalha -, as segundas, encarregam-se de empilhar sentidos e comoções nos rodamoinhos da memória emocional - trabalham em silêncio contínuo e inquestionável. Sentir ondas e palavras exige-nos um mergulho nu: sem equipamento de segurança e sujeitos à pressão que   altera o rosto, os olhos, a pele e o sistema circulatório - no centro do coração há uma ilha de nossos naufrágios e um mural para os olhos que não nos permitiram morrer afogados em sentidos alheios: os nossos sentidos alongados.
                       Nas guerras internas que travamos  é o diálogo com os sulcos externados na face da vida que nos permitem respeitar e valorizar a caminhada pessoal: ninguém, absolutamente ninguém pode dizer do outro o que não sentiu antes em si mesmo. E ainda assim, mesmo reconhecendo-se  na história alheia,  corre-se o risco de alterar a ordem do entendimento.  


" Pobre, infeliz e solitário é o homem que acredita ter exatamente o que precisa ilhado na falsa segurança de seu egoísmo doente e pernicioso." Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti

quinta-feira, 9 de abril de 2015

UM PEDIDO DE URGÊNCIA

...  MAIS CURTO E REFOGADO
- sobre o estômago da indignação derrama-se a bílis em caldo grosso-
 " Um brasuca não recomendável refogou em fogo brando um fino discurso para dizer  /m...a/: bem que eu gostaria de  dar o troco na mesma /m...a/ moeda!" Ivane Perotti

                                      Quem tem classe vai à... não vai! Não vai e nem assina o show de horrores truiturados por um nativo genuíno desta terra aleitada a samba e outros matizes. Terra de cultura mestiça, castiça, de gente esfolada pela natureza da parca condição. É uma pegadinha de mau jeito, né Ed? Qual a tua, Motta?
                                     A dele, não sei, mas a minha é botar os bofes na semântica de mau olhado que o senhor musicista ( será o termo suficientemente erudito para designar tão nobre cavalheiro?) deveria ter guardado para consolar-se no purgatório dos perrengues da sofisticação.  Que se confirme o /mal-mau-bau-dito/: "... turma de brasileiros simplórios..." nas páginas telúricas das notícias embaladas em  berços de pouca monta, ou pouco Motta!, o que me isenta de repetir o irrepetível. Simplíssima simplicidade: simplória decisão!
                                      Pelo direito inoculável ( começa-se a pensar pelos ouvidos e depois, particularmente, pelo nariz, processo que assumo agora em pragmática desilusão) de introduzir-me tautologicamente nas referidas referências de nosso erudito Ed, rogo-me direitável ao direito de ruminar. Onde "ele"  escreveu : "... meu show é para quem tem classe, erudição, sofisticação...", leia-se com remendos os seguintes vocabulários:
1. classe:  palavra que sobrevive entre contextos taxonômicos, sem direito ao uso biológico de táxis  nem filos, nem às tarifas esperadas pelas escolas públicas para abrigar as... as...partes carnudas e globulares que formam o universo posterior da coxa, independente dos centímetros injetados na profusão das diferenças estéticas, econômicas ou de laico geneticismo.
2. erudição: forma oblonga e de curto diâmetro que se alastra pelas portas das academias de treinamento físico, agronômico e quiroprático. Vulgo verbete aceito pelo casual e repetido uso em convenção social de poucos pratos - aqueles de papelão colorido, não recicláveis e que molham o fundo facilmente em detrimento do recheio da pizza, ou da torta, ou da... entendeu-se, claro! Somos todos erufitos! e as nefrites nos provam as inflamações dos tecidos da conjuntura assintomática. Assim é!
3. sofisticação: palavra derivada do processo que explica o excesso de sol sobre as requentadas - ou /re/quintadas - marmitas de urgência utilizadas em caso grave de afinamento das despesas alheias. Palavra de longo alcance, especialmente em se tratando de terras nativas onde a originalidade causa primoroso rebus...rebus... rebuscamentos minimalistas. Oh! nada que se defina por opções machistas de primoroso aprimoramento de cães ou gatos. Todos os animais são bem-vindos! E que cheguem como estiverem!
                       Pois, enquanto o "...mundo inteiro fala inglês", eu provo da facilidade de se escrever /m...a/, perdendo a oportunidade de apenas fazê-la em outras circunstâncias e abençoar este espaço morfológico com o silêncio vazio!

                               Sem berros! Só a bílis... só a bílis...

Ivane Laurete Perotti

sábado, 4 de abril de 2015

PERFORMANCES


SÍLABAS


QUANDO AMAR NÃO É PECADO

-  nas bordas do abismo há mãos e lobos: sem amor, as mãos criam dentes -


"Não acabarão nunca com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento: Amo firme, fiel
e verdadeiramente."
Vladimir Maiakóvski


                                            Algoritmo da lógica fria, quem diria: amar não é pecado!
                                      No brilho hipócrita e ofuscante das tagarelices humanas reside a ambígua inconsistência das instruções que brotam do ego doente: a conquista do paraíso arde em chamas de intransigência e fealdade. Inflexíveis, marcham homens e dogmas no uníssono engano das verdades nominadas. Cai por terra o direito à liberdade ampliada pelo céu de todos nós. Todos: pronome indefinido alocado na sintaxe da generalização e dos conceitos pré-estabelecidos. Conceituar antes é julgar com ônus e danos irreparáveis: contraste da evolução modernosa... caverna das almas rotas, avanço do fundamentalismo, progresso das obsessões embrulhadas em literalidade concupiscente.  Como se, literal, fosse uma possibilidade real, e real, fosse uma verdade tangível! Obscenos sentidos lambidos pela ignorância dos empedernidos. As pedras falam, não vociferam e sequer se negam ao fustigo dos ventos: as pedras aceitam a intrigante mudança na permanência de um lugar. Lugar: espaço ocupado pelo corpo de uma ideia. Ideia: ação promovida pela inteligência invisível e provável,  tão palpável quanto o corpo de uma pedra.
                                       Na parelha dos assombros, alguns ombros... poucos, para o peso do calvário criado e imposto à massa sem direção. Da seguridade desfalcada à crise administrada ( elaborada em petas, lorotas, potocas, embromações, figuras hirsutas dos discursos cuti-cutis - sem alusões sonoras, ou com elas e todos os demais respingos fônicos  que a semântica da ironia tornam indigestas: festa das siglas e das enganações -  registram uma história elucidativa, puída por traças e braços de criminalidade instituída) vamos agregando tribos, armando grupos moldados em argumentos e convicções. Assombrosas páginas de subversão. Farrapos ideológicos manchados no silêncio e na denegação.
                                      Ignobilis modernidade portentosa: a quem enganam os que levantam a cana? Vara torta tem ponta curta e diz a matemática das pressões que a equação  se volta sobre a origem da força empregada: militância estrepitosa, perigosa operação.
                                     Mãos criam dentes e rasgam no berço nascituro o amor que há de nascer. Há? Antes de vir à luz, que se creia no movimento, mesmo lento, da singular necessidade de deixar vir e viver o sentimento da igualdade, premissa de bondade, combate à iniquidade, receita de paz: sensatez!
                                Que a banalidade não erija morada nas linhas dos nossos dias, tão curtos, tão poucos, tão soltos e sem razão. Normal é amar sem medo, sem peso no coração. Doente é o  amor apenado nas roldanas de grilhões,  cadeia de desculpas estropiadas à guisa de controle, ausência de vocação.
                                Amar não é pecado!
                                 
"O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração."

Vladimir Maiakóvski



Ivane Laurete Perotti

INIQUIDADE

CRIME CONTRA A ESPERANÇA

- tantas crianças morrem pela cegueira dos homens que  o sol desistiu de chorar: agora ele queima! -

Dança a criança
na orbe deserta.
Nenhum  alerta...
cala a conversa
vem espiar!
Levanta os braços
lenta agonia,
....não sabia,
pequena cria,
em quem confiar!
Do medo
surge um segredo:
corre, corre..
não espera
o colo da morte,
sempre esperta,
tem pressa em chegar.
Ergue um espelho em cada mão
aprende sozinha
exemplo que ensina
não vem da esquina
cobra a chacina
renega a regra 
...corrupção!
Sangra a Terra,
leito, esfera.
funda a tenda,
agrava a fenda
abismos do bem,
... ninguém vem!
Sonhos vertidos,
meninos quebrados,
verdugos fardados
despreparados
silêncio no além!
Partiu a espera,
longe da fera,
rasga-se o véu:
torpe fardo
deita raízes
nos braços cansados
devastados
povo assolado
iniquidade

...é o que se tem!

Ivane Laurete Perotti