quarta-feira, 29 de julho de 2015

E...


VENTO


LÁBIOS


ATRAÇÃO


PEREGRINO


PASSOS


PENDÊNCIAS


VIAGEM


CORTEJO


TRAÇOS


COLO DE PAI

ESTILINGUE VERBAL

-  o ato de argumentar decorre da sensibilidade intelectual: maturidade 

  " Não são apenas as mães que 
    sabem carregar um bebê no  colo.
    Os pais também têm braços... e colo!"
   (argumento usado por P., 11 anos,
   diante do pai que o questionava)

                                  As palavras bailaram pela sala como se procurassem a tese a ser corroborada. O que não se apresentava em estrutura de defesa era o argumento implicado na sabedoria do menino: cheirava a gente grande!
                                P. ( não solicitei autorização para citar o nome completo, apenas pedi "emprestada" a história real de um menino real. E se alguém acrescentar algo, será pura ficção e necessidade de inventar o que já veio pronto. Ponto!) caminhava na ponta dos pés da retórica canhestra. De um lado, e quase de lado, carregava a boneca da irmã menor que, compungida, implorava com os olhos pela manutenção da brincadeira séria. Brincar de "casinha" exige uma parceria que só irmão sábio, adulto, macho e inteligentemente seguro consegue dispor. P. tem de sobra o que falta nas dobras do mundo imaturo e  iracundo; ao pai coube admirar o próprio trabalho no espelho do filho crescido. Um homem forte não teme o flexível lastro do amor familiar, nem do amor que faz estripulias para manifestar-se nas frestas da vida adulta.
                                P. é um menino  que carrega a esperança nos olhos por trás das lentes grossas e soube entregar-me um pote cheio dela. Bem precisava eu do pote cheio, derramando-se como a água das chuvas em tempo de abastança - esse tempo que faz a memória enriquecer de saudade no maior luxo da natureza humana: leveza! Assim é o menino-homem que carrega nos braços o filho imaginário, cumprindo com intensa responsabilidade o papel que a irmã lhe atribuíra. Assim deveríamos nós, adultos domesticados, levantar nossas "patinhas" para o céu e pedir um par de asas, uma clave de sonhos, uma montanha de marshmallow tostado - o marshmallow, não a montanha, uma vez que montanhas tostadas já povoam  assustadoramente a nossa realidade - um camburão de sorvetes e um iceberg de baunilha salpicado com molho de chocolate quente. Óbvio! Pedidos demasiadamente óbvios para que nos tomem a dianteira das vontades. Além disso, levantar as "patinhas" é um processo que exige coragem e maturidade emocional, faculdades estas que nos são tomadas no primor do crescimento produtivo. Negue-se a ironia infiltrada por entre as consoantes bilabiais, oclusivas, surdas... ou sonoras! A fonética ainda é uma menina e a retórica aprende a barbear-se, então, cabe-me aprender a brincar em estado de claro nonsense. Contrassensos não geram colos, antes, erigem grades, muros, estilingues verbais: não quero brincar de dizer o que não disse e os muros cansam-me a "vista".
                            Não sei se P. tem consciência da dimensão de sua força, mas acredito que o seu modo de estar no mundo é uma proposta para o menu do crescimento, uma vez que aprende na própria casa, no amor de seus pais,  as heroicas formas de construir a sua.

                          " Os homens crescem e descobrem 
                             caudas de dragões onde
                            antes  pisavam descalços." Ivane Perotti
                         


Ivane Laurete Perotti

domingo, 19 de julho de 2015

DE-LAÇÃO

DIRETAMENTE DO INFERNO BRASILEIRO:  DELATUS

-   a bigorna e o martelo de forjar esperam à sombra da vergonha nacional -

" No cansaço de um povo que perde sem batalha o  legítimo e imprescindível espírito de nacionalidade  apaga-se a labareda da misericórdia: até quando o picadeiro servirá à encenação burlesca dos larápios, gatunos, ratoneiros?" Ivane Perotti

                                      Não ri o palhaço sentado na arquibancada vazia. A tinta escorre em seu rosto carcomido pelos açoites do vento. Há muito a lona esburacada  descera diante do ocaso inevitável. Punha-se o sol frente ao inferno contratado a bico de canetas cruzadas em mesas da autarquia. A administração pública ardia nas mãos lentas de um ser que transitava de um lado para o outro carregando mensagens inequívocas: DEFERRE. Para os íntimos, /deferre/ vinha galgando espaço pelo universo sintático de uma língua morta e enterrada nas patas da presunção sociológica. DELATUS, seu particípio passado, intimava o palhaço a corrigir a máscara no rosto casmurro e redesenhar o sorriso caricato.  Sem lona e sem plateia, o palhaço, dono do picadeiro , apenas via  as famigeradas labaredas internas e externas  tomarem conta da alma desencorajada. Sem ânimo, nenhuma gargalhada fazia troça com o infortúnio do circo moribundo.
                                  DEFERRE lambuzava-se nos sentimentos de surpresa e indignação que seus movimentos arrastavam aos pés da triste lona descerrada. A bilheteria para o espetáculo ímprobo abrira fazia muito, mas o esforço de DELATUS em tardar anúncios e confissões era uma estratégia inversa ao poder do picadeiro. Aludiam a ele os que temiam perder o que não lhes pertencia, uma vez que a subjetividade do inferno não se prova por antecipação do medo nem do poderio das leis  que chamuscam a carne nua. E há sobra de vestimentas em personagens que sabem tramar.  
                              Nas andanças sintáticas que DEFERRE E DELATUS promoviam, não cabia o realismo visceral dos fatos recolhidos. Era o público ausente que sofria os reveses da corrupção orquestrada. Plateia e palhaço eram um só, mas negavam-se à cúmplice identidade que permeia o espetáculo da vida. Nem um, nem outro: ambos em si fariam a troca da troça, isso se, a carência e o cansaço não fossem um investimento de longa data e agora cumpriam-se em escala colossal.
                                No meio das autarquias premiadas, um ferreiro anônimo e imaterial  esperava o ferro tomar forma no calor do fogo baixo. Quase extinto, constituía em tríade o espírito de preservação que palhaço e plateia deixaram de alimentar. Bastaria uma conexão, um dedo de vontade, um pouco de humanidade para que o espírito brasileiro se envergonhasse do indolente desaprumo. Bastaria um pé de vento calçado no ideário da justiça. Bastaria um sopro de senso comum formado pela vergonha identitária. Bastaria...
                                 Enquanto a flácida consciência de nacionalidade tomava a forma de lona fustigada, e o fogo não produzia o romper das máscaras,  a vida interrompia seu fluxo nas labaredas do inferno anunciado: diretamente do Brasil para os brasileiros ausentes.

                                 "Se estiver passando pelo inferno, continue caminhando."
                                        Winston Churchill

Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 14 de julho de 2015

JATOS VERBORRÁGICOS

DIZER "NÃO" É UM ATO A FAVOR DA SAÚDE PÚBLICA

-  sim: mordem-se os lábios trincados pela negada negação  -


  "O homem é a criatura que, 
   para afirmar o seu ser e a sua diferença, 
   nega."
 Albert Camus
                                      
                                       Negar e dizer "não" são atos linguísticos - sociopsicolinguísticos - que orbitam em esferas performativas radical e complexamente distintas. Para colaborar com a subjetiva declaração, basta pensar nos movimentos internos que nos levam a dizer que somos quem não somos, ou o contrário: a dizer quem não somos, sendo! Na sina do ser e não ser  e do negar o sendo, cola-se a atitude social e psicológica de verbalizar um comportamento de contrariedade ou discordância com falas ausentes, silêncios eloquentes, assertivas capengas, atitudes de muro alto  - aquelas que mais decoram ( indecorosamente) a sociedade contemporânea com sujeitos (assujeitados)  empoleirados à moda de aves em confinamento. Bípedes, com ou sem bicos (rostros), também piam, ou chilram, ou gorjeiam, ou trilam, ou "cantam", apenas o homo sapiens e PELAMORDEDEUS, sem trocadilhos com a sapiência feminina - nego-me a repetir uma tal declaração ventilada nos urinóis dos discursos políticos deste país mas, expresso a minha NÃO concordância com a forma ou com o conteúdo dos tais ditos em jatos verborrágicos - é capaz de dialogar. Dizer "não" é uma forma de dialogar com o mundo, tanto quanto dizer "sim", ou de permanecer na berlinda dos muros sem Pilatos para lavar as mãos . Quanto a se estar certo ou errado depende da altura do muro, da alça do caixão, do peso do corpo, da porta de saída e de onde você pensa que quer chegar, como consequência direta da cegueira induzida de não saber que já chegou. Estar no mundo é um ato de incompletude instantânea, solúvel no quadrante das relações que se refazem até mesmo quando não as desejamos. Essa é a condição humana de existir em sociedade: manifestar-se em estado de condição sujeitável, ajustável, negociável dialeticamente, ideologicamente... ou não! Não? Nego-me a pensar que existo e eis-me diante de mim mesma nas entrelinhas ( pensei nas estrelinhas que ainda assolam as crianças que não têm medo de dragões e aprendem desde cedo que são diferentes das outras crianças por não decorarem o céu do bom comportamento com os adesivos de coloração duvidosa) deste texto - pretexto para explorar os muros que construí no decorrer de minhas abduções reacionárias. Não sou reacionária, não sou situacionista, não sou... quem sou? Ah! Se eu tivesse essa resposta  não desenvolveria este escrito, contexto no qual ainda nego dizer  como  penso o que penso, pois o muro da democracia tem altura e massa cimentária - algo como a mistura de cimento e doutrinação partidária. Desculpa de uma grande cara de pau ( seria mais elegante escrever  face de madeira?): diz-se sempre, de uma forma ou outra o que se nega deixar dito. Assim é, ou não! Depende do seguro saúde ao qual se está dependurado.


* A estrutura sem paragrafação deste escrito é uma representação morfofonêmica da  ausência de intervalos respiratórios entre os pensamentos negados.

Ivane Laurete Perotti

segunda-feira, 13 de julho de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

VENTO AZULADO


UM PRESENTE

ONTEM RECEBI UM PRESENTE: A VISITA DE HELENAMAR CAMARGOS A personificação do AMOR INCONDICIONAL veio em forma de abraços, sorrisos, alegria e UM CARINHO EM FORMA DE UVAS, UVAS CULTIVADAS EM SEU PRÓPRIO QUINTAL. O cheiro de  uvas frescas e o carinho de uma MULHER SEM IGUAL mostraram-me que a TERRA DÁ O QUE ELA RECEBE... uvas típicas do Rio Grande do Sul em pleno centro de Belo Horizonte! GRATIDÃO E AMOR... à HELENAMAR.




terça-feira, 7 de julho de 2015

MÃES NÃO MORDEM

OUVI DE UMA MÃE

- mães não mordem -

" Boa aula, minha filha e ESTEJA FELIZ, MUITO FELIZ."

                HELEN, mãe de uma estudante de 6 anos de idade

                                           A frase mote deste texto é uma sonata para as cordas esticadas da vida presumida quando ir à escola passa a ser um grande dilema tanto para os estudantes quanto para os pais dos estudantes  - deixo para outra coluna o quanto pode ser ainda mais dilemoso ( termo inaugurado aqui pela necessidade de juntar etimologicamente o que a filologia já aponta em sua cátedra inegável: /dilema/  raciocínio que parte de premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que paradoxalmente terminam por fundamentar uma mesma conclusão [Em um dilema, ocorre a necessidade de uma escolha entre alternativas opostas A e B, que resultará em uma conclusão ou consequência C, que deriva necessariamente tanto de A quanto de B.]...com o sufixo derivado do latim - osus /oso/ que indica "força", "extensão" ) para os professores que, também, curiosamente, continuam indo à escola , ou não!
                                          Pois, ir à escola em um país que se esforça para anular os investimentos práticos e filosóficos na formação e qualificação de alunos e profissionais da educação é por si só, um grande e humano movimento de superação. Superação das pressões externas, das angústias individuais, das necessidades pessoais e expectativas sociais, das "garras oblíquas" das cobranças familiares, das intempestivas e cíclicas motivações internas, hormonais, neurológicas, emocionas, químicas, hereditárias e lá se vai  o vendaval de associações formando um tornado na atmosfera das possibilidades abstraídas. Ou abduzidas, arrebatadas de um contexto amargo e infrutífero, mesmo diante das pseudo-campanhas politicamente orquestradas e bem aquinhoadas de rubricas que recebem qualificativos não mensuráveis ( estou pensando grosseiramente em : roubo, rapina, furto,ladroagem e o mais que todos sabem, mesmo sabendo tão somente o que nos permitem saber - em quantias nada saudáveis ao bolso do povo desbancado dos tortos direitos aos quais paga com o peso da pena em tinteiro vazio. Excesso de uma nota só? Não! Realismo cáustico, cansaço epistemológico, estafa histórica e enjoo ideológico, fenômeno este  que avança pelo tubo estomacal e atinge o citoplasma neuronal  do sistema cardíaco da alma pensante - existe essa possibilidade? Não sei e nem desejo certificação. Uma vez que imagino, basta-me, pois de figuras rotundas a avançar sobre o leito moribundo do sistema escolar e o medo de fantasmas ébrios estou cheia até os tampos da racionalidade tardia. O que nega o ostracismo do medo em câmera lenta é a frase que abre essa coluna: " Boa aula, minha filha... e ESTEJA FELIZ! MUITO FELIZ!". A mãe sabe o que diz e o que deseja. Sabe, intui, almeja e expressa e determina uma possibilidade real. Aos imediatistas de plantão e aos fundamentalistas de capital interesse no progresso pedagógico, ser/estar feliz - especialmente na escola enquanto meio e contexto para a produção do saber desvinculado de emoções, interações e fascinações ( outra vez penso e sofro por fazê-lo, pois pesa-me a atitude e a decisão, quando em minha leitura o espaço escolar esvazia-se perigosamente do incentivo para a pergunta, para a pesquisa, para a descoberta, para a experiência científica e não apenas bibliográfica na contramão do ensino para a repetição de verdades mensuráveis , cobradas e recobradas em taxas de aproveitamento duvidoso: mea culpa, mea culpa, mea culpa...-  pode indicar pouco apreço pelos avanços da maestria futura, da qualificação para o trabalho, para o foco na manutenção de metas de longo e duradouro lucro. Mas, se UMA MÃE SABE, outras mães hão de sabê-lo e, então, haverá lucros no decorrer do túnel: estar feliz/ser feliz pode ser um objetivo de grande lucratividade, de fácil negociação e de muitas ações no mercado das pretensões humanas. À FELICIDADE PRODUTIVA, um espaço para o método natural e simplificado da sabedoria materna.


"Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos." Eduardo Galeano

Ivane Laurete Perotti