sábado, 29 de novembro de 2014

PALAVRAS MOLHADAS

FORA DOS TRILHOS

-  para além das pautas retóricas sobrevivem melodias silenciosas -


"Falhamos ao traduzir exatamente o que se sente na nossa alma: o pensamento continua a não poder medir-se com a linguagem."
Henri Bergson

                                        Grossas raízes atravessam o umbral da porta. O que resta da esquadria de madeira pouco ou nada marca a soleira carcomida. De longe, e com esforço, lembra uma ligeira divisão entre o dentro e o fora. Na dialética dos conceitos arquitetônicos, uma porta é mais do que uma porta: abertura para dois lados com tampa na vertical - o básico! Abrir um espaço também exige fechá-lo. Passar por nem sempre indica sair de, ou entrar em... detalhes trilham a órbita dos espetáculos abertos ao público e das palavras transitivas: transitórias, temporárias. Palavras e portas têm raízes fantasmas e tempo marcado pelo uso, no uso: abuso?
                                      À sombra da velha abertura, alguns discursos trafegam descalços. Os sujeitos deles, envergam neles,  trajes especiais. Envergam-se. Andam e permanecem, empertigados e afoitos, feito loucos diante do ostracismo inglório da vida pré-datada.
                                     Uma porta jaz no caminho da incompletude deixando a poesia obesa de possibilidades, quente de falsidades: caminho duplo têm mão estrangeira, beirada de ferro e placa em sentido único. Um jerico não é penico, afogado em grito, povo convicto sobrevive da agricultura sazonal. Palavras soltas fazem chuva, regam a luva:  temporal! Sorte de quem logra ao longo do campo plantar a semente e colher frases. Sempre frases no final.
                                    À sombra das laranjeiras nascem portas, nascem tortas sobre os trilhos do trem. Há quem vem, há quem vai : faz-se doce o apito da sílaba - contrai! contrai! E de sílaba em sílaba, o ritmo da música diz mais, muito mais.
                                    Grossas raízes vagam dispersas pelos umbrais. Bêbados pelos discursos audíveis, homens e mulheres tomam canja em botica de pardal. Perdem as pernas na correria do verbo, secam a língua nas conversas afiadas, batem em retirada quando a beleza do dia não pede mais nada! Nada! Beleza não exibe complemento. A contento, diz-se que não prescinde da razão de quem tenta, indelével descrição. Descrever é falar ao meio, sem meneio da verdade, ou com medo da vaidade, refuta conclusão. Quem vê com olhos de sentimento sempre aumenta o desvio da ilusão, pontifica a fraude do tempo e inventa uma versão. Inventar é criar raízes, plantar palavras no chão, podar a crosta árida na vertigem da emoção. Emoção é cabo de guerra, salve-se a Terra, lenta esfera, da isenção.
                                     Pelas rasgadas portas do verbo, gramaticam-se ordens, flexionam-se lordes, lavras do dito, contrito,  alugam-se dons. Dom ou senhor à cata em breve ata se mantém; prole fina, aproxima e rege, na gramática do pejo, o amor de alguém. Amar é sublinhar o texto, sem pretexto, muito além...

"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios."
Gaston Bachelard
Texto: Ivane Laurete Perotti
                                   

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

LÁGRIMAS DE SAL

CONSELHO DE INCLUSÃO - PARTE I

          - a diversidade no lucro: estratégia ou evolução? -

"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade." (o grifo é meu)
 Paulo Freire

                                        Já não se derramam lágrimas inocentes embaixo do sol. O inocente não chora: clama!
                                      Aos pés das montanhas que nos separam em cativeiros tipológicos, existem abismos intransponíveis: apenas as ideias deitadas fora dos interesses individuais poderiam saltá-los. Não saltam: fenecem dentro do ninho onde jamais brotarão. Elas, as ideias, exigem ser ventiladas pelo sopro de sentimentos que perderam a sua natureza natural: condição? Consequência da morte prematura da esperança, da justiça, da singularidade aceita e recomendada. Inexistem engenharias para a construção de pontes sobre os abismos humanos. Vinga aqui e agora, a repetição das histórias passadas: alimenta-se o poder de concentração onde mais se concentram os interessados. Natural! Não! apenas estratégico e previsível o processo que nos iguala em pelo menos uma categoria: a vontade do próprio umbigo! O nosso umbigo, desde sempre e para sempre! Ai de quem levantar a cabeça da própria pança para enxergar o outro, que não é outro, ao longo do caminho. Ai de quem emitir simpatia - não é o mesmo que simpatia, homônima da primeira, e que junta um arrazoado de conhecimentos mágicos para ser efetivada. Ou não! - em terra estranha. Ai...
                                    Na manhã que sobe a montanha da indiferença, nenhum olhar acorda cedo. Nenhuma boca chora o amargo da boca alheia. Bocas se abrem e fecham sozinhas, esturricadas, sedentas de pouco, muito pouco, tão pouco que migalhas pareceriam cordilheiras na comparação por quantidade. Mas, as bocas não choram e morrem apenas pela falta. Elas morrem pela qualidade inexistente. Elas morrem pela indiferença. Morrem sem o plasma da alma que, esturricada e desvalida, agoniza sem nome nas páginas da vida. O alimento ideal está fora do alcance das mãos que pedem  respeito, igualdade, expressão  e, quem sabe, se sobrar interesse e dedicação, um pouco de humanidade.
                                   Há comida na corrente ideológica - independente da sua concepção de verdade -  de um povo e há mesas postas para alguns: o discurso é servido em prato quente, a sobremesa vem em banho-maria e o antepasto... ah! O antepasto é feito de véspera, preparado por mãos hábeis e talentosas, marinado em muito traquejo, eloquência e persuasão. A dever o chef, ficam as lagartas das folhas verdes que também locupletam-se e mantêm a cadeia alimentar em franca ascensão.
                              O alimento da desigualdade está  na indiferença que é plantada a baixo custo. O adubo da indiferença é a aridez criada na motivação pessoal e intransigente: eu, de mim para mim, entre eu mesmo e mais eu próprio. A logística social da desumanização já carregou vários nomes, mas o bojo da receita política é sempre a mesma: GRAÇAS A DEUS ISSO NÃO ACONTECEU COMIGO! O outro - motivo das indiferenças , das carências, das injustiças, dos preconceitos - está suficientemente longe para não despertar o naco  de consciência social que caberia a cada um. Caberia, pois sem as ideias que despertam gigantes em anões, o circo da sociedade democrática não desce a lona: o espetáculo modifica o discurso, cria palavras e mantém tudo, exatamente tudo no lugar de interesse. Assim se faz a fábula virar folhetim: repete-se, repete-se, repete-se até se tornar a verdade de alguém, de alguns, de muitos.
                            Amar as gentes, o mundo tal qual dizia Paulo Freire, é o resultado de uma operação matemática que acontece de dentro para fora: só se dá o que se recebe, só se tem o que se dá, e a prova do resultado está na qualidade de vida de uma nação.   Prove-se!

                             Enquanto a inclusão não for uma realidade, há quem lucre em torná-la uma opção. 
Texto: Ivane Laurete Perotti

sábado, 15 de novembro de 2014

FITA


BEREKHAH


PARA NÃO SER ENTENDIDO... APENAS SENTIDO!!!

           SUBINDO LADEIRA ABAIXO

         - fácil é um conceito que se instala na orla das árduas empreitadas -

            " Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica
               o resto."  Manoel de Barros

                                             As aparências tomam corpo e descem o monte das amoreiras. Cruel solicitude: dá e pede de volta. Entrega e cobra transporte. Finge, mais que tinge, a algibeira do consorte.
                                             Falam coisas banais, coisas da vida comum: o comum da vida. Cingem o topo dos tropeços, invadem a boca do mato, castigam o dono  no ato, afinam o pé no estribo: alarido! Um gemido, dois faróis. Três fantasmas em lençóis.
                                             Galopa forte, vento norte! Volte a sorte corredia! Negue a morte, cante o silvo de um novo dia. Ludibria. Torce a ponta da mania. Justa e curta alforria, garganta aberta : quem diria? Diria!
                                             À luz de engenhocas  salvam-se melros, fecham-se vias, reedita-se antiga agonia em laudas de geometria. Aulas de sonhar sobem a escola de barros, muitos barros para amassar a inteligência tardia.
                                             A quem amaria?
                                             Dona Noca, farinhenta, acorda cedo, frauda a calda da polenta. Mulher sofre, agourenta, na palma da paciência; em cheias do rio azul, águas  levam a calma, os filhos não  sustenta: aguenta! aguenta!  morna paciência!  
                                             Quem  deixaria?
                                             Mãe robusta, Dona Augusta, mãe de todos os punhais. Cala a carne em boca seca, aquece a lenha , despeja a senha, dobra o rosto, fino torso, visceral. Cai a chuva no telhado, molha a lona do curral: rola e cola, além da gola, atravessa vendaval. Dona Augusta, mãe robusta!
                                             Falta juta ao cajado, palha e alho, coisas raras, falhas caras, cetro reto, artesanal. Berimbau: coroa de peito, longo e feito, meio sem jeito, arco  musical.
                                             Alegria: benfeitoria depenada em noite clara de luau. Ai! Medo mau. Lobisomem , outro homem, animal, sentimental.
                                      Depois do enterro, a festa do batizado. Depois da festa, a forca ao condenado. De palavras sem tino, fica o ditado: "...come depressa, tartaruga de conversa... antes que a porca torça o (...). "
                                              /b/ e /d/ em arado de gancho,
                                              volta ao rancho, debrua o tanso, no remanso de água fria.
                                              Desvalia. Não se mede a inteligência pela tripa da sangria. Verde homem sem mestria,  homem velho já dizia: preço bom não se mistura aos trocados da guria. Aprume o bico, Alarico! Primo rico, sem penico.
                                              A carga leva o manco, de tamanco, ao pátio das regalias. Figuram motes, dão folias, todos juntos: Ave-Maria. Repetia o Seu Joaquim: ai de mim! sai assim! Coisas santas não são tantas, valha-me longe, muito longe,  coisa ruim.
                                              Serafim foi um Nonno: pernas à volta do rádio, escutava as notiça ,  em preguiça de sentado. A Nonna chamava a Nenna, com voz de acolchoado, enquanto fervia, lado a  lado, uma vez, mais uma, o súbito chiado. Aloprado.
                                             Tira a noite no folgado. Escala o chão, sela a placa em cada   mão, deita a alma remendada na travessa do colchão; fala a fala, rala, em língua de sabão, caramujo, ou marujo sabichão: obrigado! Obrigado, ao homem das frases lindas, novas, velhas, infindas, coisas de Barros, Manoel!
                                             

                                              " Descobri que todos os caminhos levam à ignorância."
                                                 Manoel de Barros
                                             

    Texto: Ivane Laurete Perotti                                           

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

CORNITUDE, ESTADO MÓRFICO

SOFRÊNCIA ATEMPORAL
      - na contramão dos versos musicais, o sofrimento é uma pérola -

                              " E é nisto que se resume o sofrimento:
                               cai a flor, — e deixa o perfume
                               no vento."
                                    Cecília Meireles

                                              Existia, em algum lugar, um monge peregrino. Itinerante, longevo e solitário, cantava odes à vida e ao amor.
                                              Em uma de suas conversas perdidas, respondeu ao interlocutor curioso:
                                              _ O sofrimento não me visita. Eu o recebo antes.
                                              Irrefutável: o  monge nunca existiu. Pelo menos, não existia até instalá-lo nesta  página, lugar de  lânguido passeio pelas dores terrenas  ao feitio daqueles que pisam as uvas na vindima. Ui!-alusão consciente aos discursos enfáticos, aforísticos e tomados de empréstimo de uma figura folclórica no contexto atual... que se negue o nome, uma vez que o homem passa à frente de suas palavras sentenciosas . MMAI! Palavras de peso pena! Nocaute ao arranjo das frases soltas no ringue da articulação. Box de ideias sem parentes, caixa de imaginação.
                                             Mas, o monge cantava frases musicais, versos sonados, notas de inspiração,  entre outras coisas do gênero  que deixariam qualquer otimista em estado de abundante garantia: ah! viver é um deleite sem fim. Cornitude é um estado morfológico entre aspas - / " "/... e sofrência é a fusão entre duas palavras xenofóbicas mais frases com poética marcação (lugar-comum é um espaço partilhado por todos): longe dos olhos, longe do coração; sem fronteiras não há solidão que se preze;  amor que não passa, não trai nem esmaga não é amor, é falta de... ops! não se permite a rima. Perdão!
                                           Pois, longe de Douro, em Portugal, o monge e suas canções não fortificaram nem o vinho, nem as alegorias moralistas. Paremias à parte, a parte que me toca é um aparte interlocutivo, pretexto para deslindar o texto e dizer do sofrimento: pérolas da inspiração humana, profilaxia da alma, método alçapão ( pega-se o rato que come no prato e deixa o pão/queijo que é queijo fura os olhos do ladrão...). Tudo porque ouvi a letra de uma música e compreendi que ouvia as letras das músicas em consonante antecipação. Necessidade pessoal de reler A intuição do instante, de Bachelard, ao som de... de... Bach! Johann Sebastian Bach, cravista e professor, com régio honor! Vem e vai e o sofrimento permanece como a fonte que desce do Monte Olimpo e rega a Terra. Sem guerra não se faz ... ai! eu juro que a rima fugiu e quase, quase a transcrevi em desordem de atenção!
                              Palavras são emoções em atrito com o papel, lembrando que Joaquim Mattoso Câmara Júnior esteve a ponto de escrever algo parecido: mas, eu o li antes. Li Mattoso e queria tê-lo conhecido na época em que fazer academia era um grande mote à elucubração. Pensar, pensar e pensar  corresponde a malhar e malhar e malhar ( em todas as acepções da palavra emparelhada a ferro...). Que seja estimulada a ciência da musculação, contudo, eu aludia ao ato da potoca, da peta e do fino trato dado à capacidade humana de fofocar: carapetão!

                            O monge instalado não gosta de azaração
Texto: Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 11 de novembro de 2014

NUDEZ CALCULADA

SOMA DEMOCRÁTICA: FANTASMAS CAMARADAS, NUDEZ  E
DESABAFOS DELIRANTES
                        
   - a nudez resulta de um "cálculo" localizado na matemática dos efeitos: a democracia também! -

"Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu."     Nelson Rodrigues



                              Pergunta democrática:   Quando um "fio dental "  é insuficiente?
                              Resposta indecente: Quando os tubarões já foram alimentados, quando a praia  se encontra vazia e  quando chove os milímetros hídricos necessários para saciar a sede do povo.
                             Resumo argumentativo: argumentos dispensados.

                            Arrazoado: verborragia tautológica.

                            Que se comece o texto sob a alegação primária - e necessária - de que o discurso não dispensa a roupagem dos sentidos politicamente atravessados. Dispensa?
                           O estar no mundo dependura-se na formação de movimentos somados, opiniões deflagradas, interações mediadas pelo senso comum ( conhecimento vulgar?) e pela vontade de respirar. Respirar faz bem à saúde! Fantasmas também! Desde que provados e alimentados pela crença ou ... pela autoconsciência de cada um - de acordo com Giulio Rognini ( vale pesquisar o assunto da pesquisa dele, ou ler a pesquisa do assunto dele, ou simplesmente ler sobre ele: o assunto).
                          2014 é o ano dos fantasmas,  das selfies, da nudez calculada, das GoPro  com  cabo de aço e dos discursos vazios - sem palavras dignas de repetição: lembranças amargas para qualquer biografia que se preze, ou se ressinta de conteúdo! Imagino a desdita: 2014 terminou com festa! Trocadilho famigerado. Mas, pelo tempo que a ironia e a imaginação não se tornem vacináveis, nem exijam  tratamento excludente, tartamudeio e imagino em  continnum visceral.
                           Imagino Sartre escrevendo As Palavras em pelo, quero dizer: nu, desnudo, pelado,  despido... ah! deveras seria o quadro um  incentivo ao singelo  verbo desadornado; fausto libelo: articulação em primeira instância, pequeno martírio à sintaxe da razão, às figuras de evocação, às linhas intraduzíveis.  Valha-se Port Royal no escaninho gramatical de todos os favores sintáticos: nenhuma roupa custa a pena quando o  verbo não traduz o acidente . 
                          Nos volteios das expressões manifestas a censura é palha pequena e não cobre o rosto, nem dobra a língua, nem mitiga o tráfego de outras influências, especialmente, as que advêm de causas perdidas. Exemplos?  A taxonomia da vida pública,os delírios políticos, as corruptelas consentidas,  os desvios financeiros com aprovação do consenso nacional,  a fome de educação subsidiada por "bolsas miséria", a transferência de ônus, bônus e coisas tal. Ai! Aristóteles teria aprovado a nudez intelectual? Grave distúrbio pensar que se pode brincar com as palavras e acreditar que se permaneça ileso. O que é plausível nem sempre é comestível!
                           Plausibilidade não  faz bandeira na conjuntura atual: paradoxos da vida privada em cáustico declínio. Eu Descartes, Tu Descartes,  Ele Descartes... nós sem René de La Haye,  possível pai do pensamento moderno e do método que ele próprio desconstrói.
                     As ideias não nascem, vêm a furo na matriz do entendimento. Será? Dúvidas são necessárias para alimentar as verdades improváveis...
      
                      "Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos..."

                                       Nelson Rodrigues
Texto: Ivane Laurete Perotti

domingo, 2 de novembro de 2014

A BOBIFICAÇÃO DO CONSUMIDOR

BÔNUS VIDA
  - ganha quem perde sem esperar -
                
" Um poema como um gole d'água bebido no escuro..."
       Mário Quintana

                                     E dizem que se aferra ao medo aquele que o desconhece temporal e passageiro. Todo o medo é passageiro? Tremores líquidos não configuram inundação, se bem que poderiam, em nome das chuvas perdidas, não vindas, escassas, birrentas chuvas que não deságuam esperança sobre o leito do Chico.
                                     Espreme-se o Chico, aspira-se o fundo da Cantareira, espalha-se uma preocupação tardia pelos quartos hídricos da população ansiosa. Em quanto tempo  a chuva vem? Não vem! Vai? Talvez passe depressa demais, deixando às torneiras secas o trabalho de balançar as brilhantes teias das aranhas criativas. Gangorras de necessidade e apreensão instalam precárias caixas de armazenamento: a economia dita o verbo, impõe a flexão, indica o ponto final. Gritar, agora, só para conscientizar acerca dos imperiosos fatos: a água é um recurso natural esgotável!
                                     Aumentam as interjeições sem papas homográficas: todo o som vale a pena quando a água é um problema. É! Não exatamente a água, mas a proporção de nossa deseducação frente ao meio que bonifica a vida. A hidrosfera abunda na manutenção de sistemas inteiros: /abunda/, /abundou/, /abundará/, caso nossos gulosos  olhos batam as pestanas em continência consciente. O Planeta Água resseca os lábios em concha aberta: quem se habilita a contestar a histeria?
                                     Sim, de toda a  água, em várias formas e lugares do planeta, menos de 0,02% está disponível em rios, lagos e lagoas perfazendo um contingente de água fresca, consumível. Alarmismo ou estratégias de venda? Com certeza, um pouco do que se vê, muito do que não se sabe e excessivamente o que se desvaloriza enquanto atitude ecológica: a água é resultante do Ciclo Hidrológico, e parece inesgotável, parece... por que contaminá-la, poluí-la? Esgotadas as possibilidades de reutilização, esgotam-se os bônus creditados pela ação da científica criatividade humana. O mau gerenciamento da água é aposta política em um pé só. Mancando, mancando, mancando, faz-se a dança da chuva para enganar a torcida contrária, para agradar aos investidores e calar a boca dos consumidores. Consumidores bonificados, bobificados,  responsabilizados em/pela cadeia natural: de quem é a culpa pela escassez  d'água em várias regiões do país? São Pedro não mandou resposta, Santo Antônio recolheu-se ao frescor do último banho ( dizem algumas culturas brasileiras que molhar o santo casamenteiro é chuva na certa. Cadê as moças casadoiras? ) e São Cristóvão resolveu atravessar outros rios, dando preferência àqueles que ainda têm água.
                              Enquanto isso, vale lembrar que nem só de economia salvar-se-á o banho nosso de todos os dias. Na outra ponta do  perrengue, alguém lucra, engarrafa e multiplica para além dos invólucros e dos caminhões-pipa: robustos tanques da esperança líquida.
                              Dúvidas?
                              Disque água! Educação e gerenciamento demoram...demoram...

" Quem quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender   a banhar-se em água suja..."

      Nietzsche

Texto: Ivane Laurete Perotti

VERSO DE ANIL


BORBOLETA AZUL


Ao meu amiguinho Davi, grande mestre, menino de muitos olhares... por encontrar o casulo e dar tempo à borboleta azul!