quinta-feira, 27 de março de 2014

UM LUGAR

 Toda a rua tem segredos,
 segredos para contar...
 basta o olhar de uma criança
 e eis a vida  a segredar.

   Fotos assinadas pela Laura ( 09 anos), Lucas (11 anos), e Ísis (11 anos):


ALIÁS...



       QUANDO A RUA SE  MOSTRA ABERTA, SEM PORTAS A DESTRANCAR, AS CRIANÇAS SALVAM O DIA E FAZEM A VIDA BRILHAR. FOTOS FEITAS PELAS CRIANÇAS: LUCAS PATARO, LAURA FAYER E ÍSIS DE ALMEIDA. 


CORIMBOS


MONSTROS E ESPELHOS...

QUANDO OS MONSTROS SE MANIFESTAM NO ORBE DA CIVILIDADE

                                               “Que monstruosidades poderiam andar nas ruas, se as faces de
       algumas pessoas são tão inacabadas como suas mentes?”
                                                    Eric Hoffer

                                     Dizer do que se vê sem medir o que se acredita sentir é dedilhar uma corda transversal armada sobre o peito ou esticada por debaixo do lugar onde o Cupido escondeu o arco. Se o escondeu, claro! Não! Não é tão claro quanto parece enxergar-se o que fica sob os holofotes da civilidade. A engenharia dos relacionamentos internos e externos obedece a parâmetros subjetivos e inconscientes no mesmo grau de tecnicidade com que recita as leis da obviedade científica. Bom, obviedade é um termo politicamente marcado e não sei se serve ao quadro científico, mas, considerando as elucubrações de um texto que se arrima inocente e apresenta inacabado (sempre!), a terceira margem da semântica confere algum sentido à imprecisão da lógica insustentável. Lograr êxito no campo das considerações pode ser maçante e inglório. Quanto mais se escreve acerca de um assunto, mais se encurta a possibilidade de torná-lo compreensível e mais se expõe a parca inteligência. Reveses metodológicos (aqui, assumidamente grafado com /s/, apesar das diletantes discussões morfológicas ainda vivas pelos corredores acadêmicos.) Mas, a cutucada lexical do tema em destaque advém de uma cutucada real: até onde as fantasias de minhas sinestésicas impressões permitem a experiência. Encontrei um monstro. Não! Mais de um e todos eles carregavam um espelho voltado para a aminha própria face. Desgostei dos traços incertos dos lados nada antagônicos: onde começava a face alheia e a partir de que momento eu a reconhecia? Reconhecia e desejava furtar-me ao momento doloroso. Quantas faces carrego entre meus botões caseados? Quantos monstros aguardam-me atrás do próximo espelho?
                               Parece pertinente, senão romântico (pelo menos para todas nós que nos deixamos apaixonar por ele), lembrar Quasímodo, em O Corcunda de Notre Dame (inspirado na obra de Victor Hugo) arrastando, deformado, sua bondade de tocador de sinos pelos quadros sombrios da Catedral. Parece! A deformidade de Quasímodo não lhe confere monstruosidade, muito pelo contrário: sãos os civilizados olhos externos que lhe desconhecem a perfeição e a bondade. Típicas antevisões estéticas de gosto e presunção acerca do singular, tortuosos caminhos das categorizações sociais. Quasímodo é a personificação da monstruosidade espelhada, pré-concebida, dirigida, do outro sobre o outro, no interminável jogo de poder e controle absolutamente humano e agora, ainda mais aperfeiçoado. Mas ele é um afago aos amores leais, e a Cigana Esmeralda foi uma mulher de grande sorte e força, pois lutou contra os seus próprios monstros no colo da fé e da dança.
                               No orbe de nossos encontros, vale carregar no bolso um espelho de dupla face. Ou...
        
Quando todo o mundo é corcunda, o belo porte torna-se a monstruosidade.”

Honoré de Balzac

quarta-feira, 26 de março de 2014

O BEIJO DO SOL

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida






ANÉIS DA NATUREZA

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


VALSA DAS EMOÇÕES

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


CÉU FECUNDO

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


DANÇA SOB A RUA

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


ONDAS NA RUA

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


AS CRIANÇAS VEEM A RUA...

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida


A RUA DE TODOS OS DIAS

Assim as crianças leem a rua: fazem fotos da realidade que muitos de nós não veem. Fotos tiradas pelas crianças: Lucas PataroLaura Fayer e Ísis Freitas de Isis Almeida.


ESPERANÇA? ... o outro lado na bandeira da agonia!


VERDUGOS DA FILOSOFIA

VERDUGOS DA FILOSOFIA-CORRUPTA IDEOLOGIA
                        - vãs repetições em vãos de pretensa sabedoria –
                        “ Brasil: esse estranho país de corruptos sem corruptores!”
                                Luís Fernando Veríssimo

                       Quando um sábio abre a boca, o inferno se enche de fantasia. A primeira delas reflete o sábio exaltando a si mesmo em pleno gozo de comensais dizeres deglutidos em pratos rasos de baixo porcelanato: bocas pouco profundas. A segunda, mais centrada na repetição daquilo que parece real aos olhos que procuram por heresias, refrata as propriedades básicas de um grande sábio: aquele a que se pertencem todas as bocas. E, talvez, uma terceira tentativa de recriar a alegria fetichosa seja a promissora faculdade de fecundar a repetição. Ah! Ato de singular prodígio e ironia elegante que em momento algum singulariza a medida na qual a pluralização toma para si a verve da sabedoria acachapada. Palavras recém-saídas de bocas abertas embolam-se nas teias dos discursos que alimentarão ad aeternum a sede dos que caminham arrastando atrás de si, ao lado de si, acima de si e dos outros uma carga nefasta e improdutiva de “por quês”.
                          Por que, meu Deus, testo em VÓS a responsabilidade que é deles? Quem são eles? Criastes as bocas, mas não a provisão infindável das pestilências infames. Ou, elas, as pestilências verbais fazem parte de um jogo que não se aprende a jogar aqui, por este fugaz plano telúrico?
                          Nem ouso tentar melindrar o campo semântico da ignóbil palavra MENTIRA. Pois, mentiras não são mentiras, são verdades usadas a contento de cada boca que se abre para impor ao verbo a ação nefasta de sua inexpressividade. Donos da verdade inaudita imputam-lhe a pena e a força do criativo arbítrio. Livre arbítrio? A divina criação não se teria inspirado na democracia? Ai! Foi a democracia que instalou a ... chega! São tantos anzóis pelas bocas abertas que fecho a minha antes que algum peixe veja a isca que ainda não joguei. Tímida tentativa de fazer silêncio no vão triste que sobra aos que abrem a boca antes de fechá-la. Destes, o mundo está cheiamente transbordante: pobres bocas vazias. Cabe-lhes negar os outros sentidos que lhe sobem em bagas pesadas pelo caminho da sobrevivência.  Seriam distintas as bocas que ocupam os cargos legitimados pelas outras tantas bocas abertas de par em par? Amo filosofia. Odeio filosofar. A boca arde diante do que ouve como irrefutável fantasia no picadeiro lúgubre e corrupto do infernal circo da impunidade.
                         Não gosto mais das palavras. Que todas as vãs se vão e fiquemos apenas com o silêncio constituidor dos discursos talhados em pedra quente.
                         Estou sentindo chegar o cansaço pela abertura da boca seca de lisura, de moral, de gentileza, de justiça. Cansei e não me avisaram a tempo de despolitizar os espaços do ócio que já vem tarde.
                         Embrulham-me o estômago da alma as visões e as palavras. Não batem, não fecham, mas repetem-se como o martelo do ferreiro que ainda teima em usar o malho diante do ferro sem orelhas. Não! Errei: é o malho que não possui unhas e nem orelhas, é um marrão dolente que sobe e desce na fantasia bem comandada lá das profundezas onde a verdade foi enterrada para não ver a vitória da injustiça e da corrupção.
                                                         “ Do bem e do mal
                                                           Todos têm seu encanto: os santos e os corruptos.
                                                           Não há coisa na vida inteiramente má.
                                                          Tu dizes que a verdade produz frutos...
                                                          Já vistes as flores que a mentira dá?”

                                                                              Mário Quintana

PARA AS PROSAS E POESIAS QUE NASCEM E MORREM EM MÃOS VAZIAS


sexta-feira, 7 de março de 2014

SOB O SOL DA ESPERANÇA



SOB O SOL DA ESPERANÇA
                                           
A ideia do futuro, prenhe de uma infinidade de possíveis, é, pois mais fecunda do que o próprio futuro, e é por isso que há mais encanto na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade.
                                         Henri Bergson


                                             Nos movimentos da vontade, mais de um cravo atravessa os dormentes que suplantam a base do caminho recém-aberto ou há tempos mantido refém pela horda atávica dos sonhos inalcançados. São caminhos por onde as lagartas reinam em pé de igualdade na cadência delicada das patas cerdosas. Sempre prontas para o devir deslumbrante de quem sabe a quem se apresenta, elas vão e vão sem titubeio na direção do espaço em branco desenhado no vácuo do que ainda não é. Lagartas carregam o segredo da esperança silenciosa.
                                              Além delas, esferas de força e poder gravitam em torno de si mesmas deixando um rastro continuum de graciosas pistas aos homens de farta vontade: sequências e comportamentos são repassados inconscientemente. O homem aprende com as lagartas e com os círculos. E enquanto o modelo fala mais alto, a lamparina escondida em algum lugar da mente lúcida aponta para o exemplo individual: eu posso, eu posso, eu posso. Posso?
                                            Novidade é o tempero oloroso marinando no cadinho das crenças emocionais. Borbulham novas misturas entre os excertos manipulados da perseverança, contemporâneos e viscerais, pintam cores onde a natureza dos fatos ainda não fecundou o acontecimento. Espelhos da realidade causam ilusão e ilusões são como pérolas amealhadas de ostras grávidas em ciclo não gestado. Assim vamos nós, da fecundação ao puerpério de ideias e vontades, projetos e sonhos, fazendo nascer o inascido. Extirpe-se a esperança natural e própria das veias abertas que carregam mel e sangue e então se verá que pouco sobra. Em sobrando!
                                         Grande abismo se interpõe entre o sentimento da esperança e a natureza de sua concepção: existem aqueles que preferem o abismo. E é tão somente uma preferência cujas razões devem manter-se longe do palco das justificativas e dos julgamentos. Enquanto existem aqueles que vivem entre o pré-abismo e sofrem as escoriações próprias da queda antecipada. Marcas descem pelo corpo ainda no ar, feridas purgam o líquido vazio de suas catacumbas metafísicas: perder a esperança é sofrer duas vezes antes de o acontecido acontecer. Ainda, há os que usam a esperança como um manto de intransponibilidade: eu espero, eu espero, eu espero. Salvaguardados os limites do óbvio, quem sabe quando manter a esperança ou quando trancafiá-la no porão das crenças inócuas?
                                           Porões também surgem de um tipo de esperança: a esperança cansada de si mesma. Tautológico e desnecessário informar-nos acerca dos inquilinos que alimentamos? Nem sempre! Às vezes, os inquilinos famintos nos chegam antes do tempo e desarrumam o porão escuro. Às vezes, apenas fazem barulhos para afugentar o medo do próprio medo.
                                         
                                              “A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se
                                           mistura sempre o veneno do medo.”

                                                   Voltaire

quarta-feira, 5 de março de 2014

À EXCELÊNCIA DA AMIZADE


NO EIXO DO UNIVERSO FEMININO

A PLURALIDADE DE UM MOVIMENTO
                            - No eixo do universo feminino –
                          
                                                “A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata.”
                                                     Virginia Woolf


                                  _ Passa-me o sabão!
                               Instada acerca da natureza interlocutiva e crendo que, com gestos respondesse, forçou a toalha a desfiar-se sobre a louça branca. Pouco mais de uma pia adornavam o cenário burlesco. O centro fora de foco permanecia na linha da construção dúbia. Ela não sabia, mas responder à ignorância era o mesmo que acertar o alvo com a própria pele esticada na ponta da lança tardia.
                                 Não sabia!
                                 Em pé diante da montanha nodosa que se eriçava dentro dela, calçou os olhos no único caminho aberto pelos círculos da conversa sem extensão, à sombra de uma tingida e doce cumplicidade: ela com ela mesma.
                                 Não era novo o reflexo no espelho: desdenhava-se singularmente o tempo do reconhecimento e quem chefiava a incursão mergulhava no que sobrara do lago de Monet. Cores? Sim! Sempre! Como aquarelas em pó sopradas contra o vento morno  dançando nas cerdas de um pincel  indômito e invisível. Ela! Ela de novo! Aquela mulher que espreitava por entre os cílios da alma nua: almas femininas dormem com os olhos esgazeados em regaços cobertos de rendas.
                               Ah! Decanas prosas desnutridas borbulhavam possibilidades na conversa interrompida. Esfaceladas em colóquios, as frases emocionais emendavam-se fora da cadência sintática: o desencanto pela interrupção forçava as janelas dos ouvidos a  trancarem-se por dentro e por fora. Martelos morfológicos batiam em retirada: olhar sem eco. Ele não percebia? Baixa conversa de porta de banheiro em noite sem lua. Outra mulher nua!
                              _ Passa-me o sabão!
                              Não era o que dizia... falava o que não entendia. Ele não ouvia! E na falta do verbo fecundo, a mulher das pernas de fora, do peito marcado, do rosto comprido enjaulava a  hóspede tresloucada em gavetas de pomposa educação: sai da casca! Sai da casca! Se se fizesse ouvir, a outra, insana e criativa, daria conta de baixar um exército. Sim, infértil ideia de usar saias! Sem baionetas a postos, a guerra dos sexos marcava vitórias sem comemoração.
                             Pudica e bela, escondeu-se nos fiapos da toalha e  cedeu a voz para  mais uma corte de apelação:
                             _ Passa-me o sabão!
                             E com a fatalidade das crenças impúberes, ela explicou ao companheiro que tão somente alcançasse a barra de saponáceo posta do outro lado do balcão. Ele acreditou e assim o fez.
                             Sobre a louça branca ficaram os restos de uma conversa jamais introduzida.