domingo, 28 de dezembro de 2014

PALAVRAS

PALAVRAS DESPIDAS

    - na linguagem dos sentimentos a emoção é um verbo irretratável -

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retêm-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler."
José Saramago

                                              O último vento da tarde batia em retirada. Recolhia-se às fronteiras do intangível sem negar o desejo de permanecer rasteiro e presente àquele mágico final do dia. Um piano soluçava notas perdidas: delicadas memórias recortadas de antigos trechos musicais. À janela do tempo, braços debruçavam-se em lenta aceitação. Marcas de várias vidas engrossavam as veias expostas: desvalidos caminhos por onde a história corria em gotas vermelhas.
                                  Encolhiam-se as sombras das árvores aguardando o aconchego noturno. A noite, sempre anunciada, servia de remédio àquele indizível sentimento de porvir: saudade do desconhecido limiar entre a vida e o que se espera dela. Nada que  pudesse  estar onde se procurava encontrar. Movimento unânime e involuntário cuja consciência se entroniza no homem como as raízes das árvores mortas pela escassez de água. Época das secas? A seca não faculta à chuva o seu dizimar, antes, muito antes, perscruta o tempo das nuvens e o movimento do sol. Assim faziam os braços debruçados às janelas  a quem coubera juntá-los ou separá-los. Feito míticas aberturas para o desejo de estar só ou buscar-se, as janelas padeciam aos pares: malmequer...bem-me-quer...malmequer...bem-me-quer... despetalada cantilena de culpa e responsabilização: Dai ao outro o que é do outro e buscai nele o que é seu. Como se, a alguém pertencesse o poder de fazer rir e chorar, viver e amar, sonhar e acreditar.
                                  Olhos de todas as profundidades cravavam-se em arco sobre a ponte da esperança : a realidade cobra alto pedágio aos que olham sem ver e lava em lágrimas os que teimam sentir. Dualidade líquida entre as margens cotidianas não formam um rio, mas transbordam em emoções  palpáveis quando o homem aceita ser quem é. Tarefa insana, lúdica faina aos que não temem colher : Dai a si mesmo o que é seu por mérito de nascimento. Ah! Frases que se perdem entre as notas do velho piano. Sombras cansadas de árvores cabisbaixas, florestas devastadas, caminhos dobrados em curvas, notas perdidas entre a dor e a saudade. Quando  a desesperança cria asas, as janelas da alma fecham-se em alinhada cadência e só a mágica de mais um dia pode quebrar o nostálgico  ciclo da desvalia. Melancolia? A tristeza se prende onde a ela dão guarida, seja nas fraldas do vento, seja ao bater da Ave-Maria.
                                 Pelas janelas do tempo, o vento fazia sua última visita antes de retornar mais livre e forte, para onde quer se soprasse a poesia.  Vários braços pelas janelas deixavam o sangue correr à deriva, sem molhar o bico da história na própria corrente fria. E o desejo de sentir, eterno devir, criava o palco exato  para o lapso em ato, mergulho de fato, de outra noite em mais um dia... outra via!
                                  Ao longe, muito longe, os soluços de um piano despediam-se.

                                     "Fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com  
                                      o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que
                                     estávamos tratando de negar com a boca. "
                                      (José Saramago)
Texto: Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TOMBOS E TOMBOS

A AUTOMAÇÃO DOS SENTIDOS

- nada que nos seja oculto permanece inalterado -

 "Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for        desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas... Daqui para frente    levo apenas o que couber no bolso e no coração. "
                                                    Cora Coralina

                                          Justificado o primeiro tombo, a ribanceira convocou a pedra:
                                         _ O que faz em lugar tão inapropriado?
                                         _ Não faço! Aguardo!
                                    _ Aguarda? Mas esta é a minha função. Desdobre-se em outro caminho que por aqui não há lugar para tantos desfalques.
                                      _ Assoma-te em curva, infeliz ribanceira. Quanto mais pedras encontrarem em tuas costas, maior a chance de continuar onde está.
                                         _ Não compreendo...
                                         _ Já ouviu dizer que os homens preferem os caminhos mais árduos e perigosos?
                                         _ Peta! lorota! Tal pensamento não procede.
                                         _ Não? Pois observe:
                                         Ao longo da ribanceira caminhava um homem. Vinha só, até onde se pudesse provar a solitude dos passos visivelmente distraídos. Ausente, arrastava o olhar como quem faz do jugo a canga da vida. Desprovido de ânimo, aprumava nos ombros roupa de festa: casaco de longas mangas, camisa de gola limpa. A  calça frisada em vinco  destacava o corpo saudável e bem-cuidado. Os sapatos de verniz curado lembravam uma pegada com cheiro de novidade. Era belo, mesmo que aparentemente só, pois a beleza, na vida prática, necessariamente não se queda à trança de parcerias. Mas, assim como observava a ribanceira, aquele era um homem de méritos e condições. Passaria por ela sem esparramar o passo imberbe. E, à pedra que filosofava sobre as agruras humanas, falharia o argumento na generalização do exemplo. Quanto mais plano, mais fácil o caminho dos homens, quanto menor o número de pedras, menor a chance de estrumbicarem-se .
                                         Às pedras reserva-se o tempo da sabedoria inata: presente, sempre presente. Ao homem que içava os pés calçados pela ribanceira íngreme parecia faltar o momento. Se era uma descida o caminho de sua rota, quais trilhas ele embocara antes de chegar  ali? Roteiros da vida têm ladeiras e pedras, montanhas e abismos, pontes e margens movediças. Assim era! Contudo, a diferença na subida começa na base de qualquer descida. Subir e descer, descer e subir, alinham-se em paralelos contíguos. Basta um movimento para estar em um dos extremos, um passo, uma pedra...um homem!
                                         Quando a lágrima guardada deitou-se por sobre a pedra na ribanceira, o chão abraçou o sentido daqueles passos arrastados: um homem chorava a dor da existência consciente.
                                                                                         

                                             "É que tem mais chão nos meus olhos
                                              do que cansaço nas minhas pernas,
                                              mais esperança nos meus passos
                                              do que tristeza nos meus ombros,
                                               mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça."

                                              Cora Coralina
Texto: Ivane Laurete Perotti

domingo, 14 de dezembro de 2014

MALFEITO


RUMORES


DISTÂNCIA


PARÊNTESES


MISÉRIA ATÁVICA

FRONTEIRAS DA INDIFERENÇA

                                                 " A distância não gera afastamento; apenas a indiferença
                                                    abre espaço para as fronteiras do esquecimento."
                                                         Ivane Perotti

                                                Entre as  gotas da cortina de chuva sobressaíam aqueles olhos: secos. Olhos de olhar para lugar nenhum. Olhos que desconheciam o calor da esperança e o motivo da redenção. A pele ao redor deles cobria-se com a capa da realidade crua como se muros fossem construídos na argamassa de almas esquecidas. Densos muros, altos muros, confrontavam existências tão distantes quanto o olhar que via e deixava de ver. Vários mundos debatiam-se no curto  espaço obliterado pela indiferença. Vários mundos chocavam-se violentamente no vácuo criado pela ausência de um significado comum: ver é uma questão de escolha. Escolher é um processo que exige consciência. Consciência é um caminho fisiologicamente demarcado pelas possibilidades de acesso ao que funda o conhecimento. Conhecer é uma questão de vontade política e aqueles olhos, dobrados pela crueza da chuva ininterrupta, desconheciam o caminho de casa.
                                                 Pelas calçadas molhadas assentavam-se ao trono da tristeza outros olhos, pares de olhos, tão secos quanto o primeiro, tão nus quanto qualquer imagem desfocada, tão duros e distantes quanto qualquer ilusão de humanidade. Mãos desfalecidas quedavam-se ao lado dos corpos destituídos de lugar: uma social individualidade premeditada nos padrões da desigualdade. Torpe era a  dança da época regida pela consciência fria e calculada a ponta de falsos valores, roubados penhores. Vil era o destino inexistente que jogava com vidas colocadas à margem de qualquer limite.
                                                  Assenhorados pelas mazelas ditadas, sujeitados ao dissabor das anestesias sociais, olhos sem brilho cruzam a ponte entre o homem e o homem. Sombras de um nascimento julgado a termo, reduzida sentença para os olhos vazios, secos, destituídos de sentidos outros. Sem sentidos, o homem desconstrói a rotina da criação, mata os embriões de sementes jogadas em terreno fértil e mitifica o ávido espectro da dominação. Querelas previstas e antecipadas na agenda das vaidades: ao homem destina-se o poder de ser ... ser... ser...
                                                 A vida solidifica a morte em vida  na vida  daqueles impedidos de escolher. E escolher pode ser a única salvação no cadafalso maldito das ruas tombadas pelo  mérito das desigualdades. Misericórdia para aqueles que enxergam  e não veem,  sentem e não reagem, testemunham e não falam, sabem e não escolhem, podem fazer e nada fazem. A história cobra o preço da consciência vilipendiada. Labirintos morais proliferam minotauros e não se fazem mais Teseus como no antigo mito.
                                                Olhos esvaziados furam o mundo do homem indiferente e desbancam conceitos de civilidade; assédio da modernosa ambiguidade: ter e ser dominam o mesmo campo semântico. Quando as desigualdades sociais deixarão de cambiar-se em moedas de poder e significação? Quando a humanidade alçar-se-á ao lugar de faculdade imanente?
                                                 Essencial à vida é o respeito à vida, e ao homem, singular por natureza, as diferenças são o prelúdio para o império da igualdade: de direitos, de educação, de acesso às escolhas, de informação, de representação. E este seria apenas  um começo para que os olhos locados às ruas da indiferença não se perdessem entre os muros da miséria atávica.

                                                 " Pelas ruas descalças perambulam almas destituídas do
                                                   homem social: miséria conduzida pela vontade política."
                                                           Ivane Perotti

                    Texto: Ivane Laurete Perotti                      

sábado, 29 de novembro de 2014

PALAVRAS MOLHADAS

FORA DOS TRILHOS

-  para além das pautas retóricas sobrevivem melodias silenciosas -


"Falhamos ao traduzir exatamente o que se sente na nossa alma: o pensamento continua a não poder medir-se com a linguagem."
Henri Bergson

                                        Grossas raízes atravessam o umbral da porta. O que resta da esquadria de madeira pouco ou nada marca a soleira carcomida. De longe, e com esforço, lembra uma ligeira divisão entre o dentro e o fora. Na dialética dos conceitos arquitetônicos, uma porta é mais do que uma porta: abertura para dois lados com tampa na vertical - o básico! Abrir um espaço também exige fechá-lo. Passar por nem sempre indica sair de, ou entrar em... detalhes trilham a órbita dos espetáculos abertos ao público e das palavras transitivas: transitórias, temporárias. Palavras e portas têm raízes fantasmas e tempo marcado pelo uso, no uso: abuso?
                                      À sombra da velha abertura, alguns discursos trafegam descalços. Os sujeitos deles, envergam neles,  trajes especiais. Envergam-se. Andam e permanecem, empertigados e afoitos, feito loucos diante do ostracismo inglório da vida pré-datada.
                                     Uma porta jaz no caminho da incompletude deixando a poesia obesa de possibilidades, quente de falsidades: caminho duplo têm mão estrangeira, beirada de ferro e placa em sentido único. Um jerico não é penico, afogado em grito, povo convicto sobrevive da agricultura sazonal. Palavras soltas fazem chuva, regam a luva:  temporal! Sorte de quem logra ao longo do campo plantar a semente e colher frases. Sempre frases no final.
                                    À sombra das laranjeiras nascem portas, nascem tortas sobre os trilhos do trem. Há quem vem, há quem vai : faz-se doce o apito da sílaba - contrai! contrai! E de sílaba em sílaba, o ritmo da música diz mais, muito mais.
                                    Grossas raízes vagam dispersas pelos umbrais. Bêbados pelos discursos audíveis, homens e mulheres tomam canja em botica de pardal. Perdem as pernas na correria do verbo, secam a língua nas conversas afiadas, batem em retirada quando a beleza do dia não pede mais nada! Nada! Beleza não exibe complemento. A contento, diz-se que não prescinde da razão de quem tenta, indelével descrição. Descrever é falar ao meio, sem meneio da verdade, ou com medo da vaidade, refuta conclusão. Quem vê com olhos de sentimento sempre aumenta o desvio da ilusão, pontifica a fraude do tempo e inventa uma versão. Inventar é criar raízes, plantar palavras no chão, podar a crosta árida na vertigem da emoção. Emoção é cabo de guerra, salve-se a Terra, lenta esfera, da isenção.
                                     Pelas rasgadas portas do verbo, gramaticam-se ordens, flexionam-se lordes, lavras do dito, contrito,  alugam-se dons. Dom ou senhor à cata em breve ata se mantém; prole fina, aproxima e rege, na gramática do pejo, o amor de alguém. Amar é sublinhar o texto, sem pretexto, muito além...

"Ainda existem almas para as quais o amor é o contato de duas poesias, a fusão de dois devaneios."
Gaston Bachelard
Texto: Ivane Laurete Perotti
                                   

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

LÁGRIMAS DE SAL

CONSELHO DE INCLUSÃO - PARTE I

          - a diversidade no lucro: estratégia ou evolução? -

"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade." (o grifo é meu)
 Paulo Freire

                                        Já não se derramam lágrimas inocentes embaixo do sol. O inocente não chora: clama!
                                      Aos pés das montanhas que nos separam em cativeiros tipológicos, existem abismos intransponíveis: apenas as ideias deitadas fora dos interesses individuais poderiam saltá-los. Não saltam: fenecem dentro do ninho onde jamais brotarão. Elas, as ideias, exigem ser ventiladas pelo sopro de sentimentos que perderam a sua natureza natural: condição? Consequência da morte prematura da esperança, da justiça, da singularidade aceita e recomendada. Inexistem engenharias para a construção de pontes sobre os abismos humanos. Vinga aqui e agora, a repetição das histórias passadas: alimenta-se o poder de concentração onde mais se concentram os interessados. Natural! Não! apenas estratégico e previsível o processo que nos iguala em pelo menos uma categoria: a vontade do próprio umbigo! O nosso umbigo, desde sempre e para sempre! Ai de quem levantar a cabeça da própria pança para enxergar o outro, que não é outro, ao longo do caminho. Ai de quem emitir simpatia - não é o mesmo que simpatia, homônima da primeira, e que junta um arrazoado de conhecimentos mágicos para ser efetivada. Ou não! - em terra estranha. Ai...
                                    Na manhã que sobe a montanha da indiferença, nenhum olhar acorda cedo. Nenhuma boca chora o amargo da boca alheia. Bocas se abrem e fecham sozinhas, esturricadas, sedentas de pouco, muito pouco, tão pouco que migalhas pareceriam cordilheiras na comparação por quantidade. Mas, as bocas não choram e morrem apenas pela falta. Elas morrem pela qualidade inexistente. Elas morrem pela indiferença. Morrem sem o plasma da alma que, esturricada e desvalida, agoniza sem nome nas páginas da vida. O alimento ideal está fora do alcance das mãos que pedem  respeito, igualdade, expressão  e, quem sabe, se sobrar interesse e dedicação, um pouco de humanidade.
                                   Há comida na corrente ideológica - independente da sua concepção de verdade -  de um povo e há mesas postas para alguns: o discurso é servido em prato quente, a sobremesa vem em banho-maria e o antepasto... ah! O antepasto é feito de véspera, preparado por mãos hábeis e talentosas, marinado em muito traquejo, eloquência e persuasão. A dever o chef, ficam as lagartas das folhas verdes que também locupletam-se e mantêm a cadeia alimentar em franca ascensão.
                              O alimento da desigualdade está  na indiferença que é plantada a baixo custo. O adubo da indiferença é a aridez criada na motivação pessoal e intransigente: eu, de mim para mim, entre eu mesmo e mais eu próprio. A logística social da desumanização já carregou vários nomes, mas o bojo da receita política é sempre a mesma: GRAÇAS A DEUS ISSO NÃO ACONTECEU COMIGO! O outro - motivo das indiferenças , das carências, das injustiças, dos preconceitos - está suficientemente longe para não despertar o naco  de consciência social que caberia a cada um. Caberia, pois sem as ideias que despertam gigantes em anões, o circo da sociedade democrática não desce a lona: o espetáculo modifica o discurso, cria palavras e mantém tudo, exatamente tudo no lugar de interesse. Assim se faz a fábula virar folhetim: repete-se, repete-se, repete-se até se tornar a verdade de alguém, de alguns, de muitos.
                            Amar as gentes, o mundo tal qual dizia Paulo Freire, é o resultado de uma operação matemática que acontece de dentro para fora: só se dá o que se recebe, só se tem o que se dá, e a prova do resultado está na qualidade de vida de uma nação.   Prove-se!

                             Enquanto a inclusão não for uma realidade, há quem lucre em torná-la uma opção. 
Texto: Ivane Laurete Perotti

sábado, 15 de novembro de 2014

FITA


BEREKHAH


PARA NÃO SER ENTENDIDO... APENAS SENTIDO!!!

           SUBINDO LADEIRA ABAIXO

         - fácil é um conceito que se instala na orla das árduas empreitadas -

            " Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica
               o resto."  Manoel de Barros

                                             As aparências tomam corpo e descem o monte das amoreiras. Cruel solicitude: dá e pede de volta. Entrega e cobra transporte. Finge, mais que tinge, a algibeira do consorte.
                                             Falam coisas banais, coisas da vida comum: o comum da vida. Cingem o topo dos tropeços, invadem a boca do mato, castigam o dono  no ato, afinam o pé no estribo: alarido! Um gemido, dois faróis. Três fantasmas em lençóis.
                                             Galopa forte, vento norte! Volte a sorte corredia! Negue a morte, cante o silvo de um novo dia. Ludibria. Torce a ponta da mania. Justa e curta alforria, garganta aberta : quem diria? Diria!
                                             À luz de engenhocas  salvam-se melros, fecham-se vias, reedita-se antiga agonia em laudas de geometria. Aulas de sonhar sobem a escola de barros, muitos barros para amassar a inteligência tardia.
                                             A quem amaria?
                                             Dona Noca, farinhenta, acorda cedo, frauda a calda da polenta. Mulher sofre, agourenta, na palma da paciência; em cheias do rio azul, águas  levam a calma, os filhos não  sustenta: aguenta! aguenta!  morna paciência!  
                                             Quem  deixaria?
                                             Mãe robusta, Dona Augusta, mãe de todos os punhais. Cala a carne em boca seca, aquece a lenha , despeja a senha, dobra o rosto, fino torso, visceral. Cai a chuva no telhado, molha a lona do curral: rola e cola, além da gola, atravessa vendaval. Dona Augusta, mãe robusta!
                                             Falta juta ao cajado, palha e alho, coisas raras, falhas caras, cetro reto, artesanal. Berimbau: coroa de peito, longo e feito, meio sem jeito, arco  musical.
                                             Alegria: benfeitoria depenada em noite clara de luau. Ai! Medo mau. Lobisomem , outro homem, animal, sentimental.
                                      Depois do enterro, a festa do batizado. Depois da festa, a forca ao condenado. De palavras sem tino, fica o ditado: "...come depressa, tartaruga de conversa... antes que a porca torça o (...). "
                                              /b/ e /d/ em arado de gancho,
                                              volta ao rancho, debrua o tanso, no remanso de água fria.
                                              Desvalia. Não se mede a inteligência pela tripa da sangria. Verde homem sem mestria,  homem velho já dizia: preço bom não se mistura aos trocados da guria. Aprume o bico, Alarico! Primo rico, sem penico.
                                              A carga leva o manco, de tamanco, ao pátio das regalias. Figuram motes, dão folias, todos juntos: Ave-Maria. Repetia o Seu Joaquim: ai de mim! sai assim! Coisas santas não são tantas, valha-me longe, muito longe,  coisa ruim.
                                              Serafim foi um Nonno: pernas à volta do rádio, escutava as notiça ,  em preguiça de sentado. A Nonna chamava a Nenna, com voz de acolchoado, enquanto fervia, lado a  lado, uma vez, mais uma, o súbito chiado. Aloprado.
                                             Tira a noite no folgado. Escala o chão, sela a placa em cada   mão, deita a alma remendada na travessa do colchão; fala a fala, rala, em língua de sabão, caramujo, ou marujo sabichão: obrigado! Obrigado, ao homem das frases lindas, novas, velhas, infindas, coisas de Barros, Manoel!
                                             

                                              " Descobri que todos os caminhos levam à ignorância."
                                                 Manoel de Barros
                                             

    Texto: Ivane Laurete Perotti                                           

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

CORNITUDE, ESTADO MÓRFICO

SOFRÊNCIA ATEMPORAL
      - na contramão dos versos musicais, o sofrimento é uma pérola -

                              " E é nisto que se resume o sofrimento:
                               cai a flor, — e deixa o perfume
                               no vento."
                                    Cecília Meireles

                                              Existia, em algum lugar, um monge peregrino. Itinerante, longevo e solitário, cantava odes à vida e ao amor.
                                              Em uma de suas conversas perdidas, respondeu ao interlocutor curioso:
                                              _ O sofrimento não me visita. Eu o recebo antes.
                                              Irrefutável: o  monge nunca existiu. Pelo menos, não existia até instalá-lo nesta  página, lugar de  lânguido passeio pelas dores terrenas  ao feitio daqueles que pisam as uvas na vindima. Ui!-alusão consciente aos discursos enfáticos, aforísticos e tomados de empréstimo de uma figura folclórica no contexto atual... que se negue o nome, uma vez que o homem passa à frente de suas palavras sentenciosas . MMAI! Palavras de peso pena! Nocaute ao arranjo das frases soltas no ringue da articulação. Box de ideias sem parentes, caixa de imaginação.
                                             Mas, o monge cantava frases musicais, versos sonados, notas de inspiração,  entre outras coisas do gênero  que deixariam qualquer otimista em estado de abundante garantia: ah! viver é um deleite sem fim. Cornitude é um estado morfológico entre aspas - / " "/... e sofrência é a fusão entre duas palavras xenofóbicas mais frases com poética marcação (lugar-comum é um espaço partilhado por todos): longe dos olhos, longe do coração; sem fronteiras não há solidão que se preze;  amor que não passa, não trai nem esmaga não é amor, é falta de... ops! não se permite a rima. Perdão!
                                           Pois, longe de Douro, em Portugal, o monge e suas canções não fortificaram nem o vinho, nem as alegorias moralistas. Paremias à parte, a parte que me toca é um aparte interlocutivo, pretexto para deslindar o texto e dizer do sofrimento: pérolas da inspiração humana, profilaxia da alma, método alçapão ( pega-se o rato que come no prato e deixa o pão/queijo que é queijo fura os olhos do ladrão...). Tudo porque ouvi a letra de uma música e compreendi que ouvia as letras das músicas em consonante antecipação. Necessidade pessoal de reler A intuição do instante, de Bachelard, ao som de... de... Bach! Johann Sebastian Bach, cravista e professor, com régio honor! Vem e vai e o sofrimento permanece como a fonte que desce do Monte Olimpo e rega a Terra. Sem guerra não se faz ... ai! eu juro que a rima fugiu e quase, quase a transcrevi em desordem de atenção!
                              Palavras são emoções em atrito com o papel, lembrando que Joaquim Mattoso Câmara Júnior esteve a ponto de escrever algo parecido: mas, eu o li antes. Li Mattoso e queria tê-lo conhecido na época em que fazer academia era um grande mote à elucubração. Pensar, pensar e pensar  corresponde a malhar e malhar e malhar ( em todas as acepções da palavra emparelhada a ferro...). Que seja estimulada a ciência da musculação, contudo, eu aludia ao ato da potoca, da peta e do fino trato dado à capacidade humana de fofocar: carapetão!

                            O monge instalado não gosta de azaração
Texto: Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 11 de novembro de 2014

NUDEZ CALCULADA

SOMA DEMOCRÁTICA: FANTASMAS CAMARADAS, NUDEZ  E
DESABAFOS DELIRANTES
                        
   - a nudez resulta de um "cálculo" localizado na matemática dos efeitos: a democracia também! -

"Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu."     Nelson Rodrigues



                              Pergunta democrática:   Quando um "fio dental "  é insuficiente?
                              Resposta indecente: Quando os tubarões já foram alimentados, quando a praia  se encontra vazia e  quando chove os milímetros hídricos necessários para saciar a sede do povo.
                             Resumo argumentativo: argumentos dispensados.

                            Arrazoado: verborragia tautológica.

                            Que se comece o texto sob a alegação primária - e necessária - de que o discurso não dispensa a roupagem dos sentidos politicamente atravessados. Dispensa?
                           O estar no mundo dependura-se na formação de movimentos somados, opiniões deflagradas, interações mediadas pelo senso comum ( conhecimento vulgar?) e pela vontade de respirar. Respirar faz bem à saúde! Fantasmas também! Desde que provados e alimentados pela crença ou ... pela autoconsciência de cada um - de acordo com Giulio Rognini ( vale pesquisar o assunto da pesquisa dele, ou ler a pesquisa do assunto dele, ou simplesmente ler sobre ele: o assunto).
                          2014 é o ano dos fantasmas,  das selfies, da nudez calculada, das GoPro  com  cabo de aço e dos discursos vazios - sem palavras dignas de repetição: lembranças amargas para qualquer biografia que se preze, ou se ressinta de conteúdo! Imagino a desdita: 2014 terminou com festa! Trocadilho famigerado. Mas, pelo tempo que a ironia e a imaginação não se tornem vacináveis, nem exijam  tratamento excludente, tartamudeio e imagino em  continnum visceral.
                           Imagino Sartre escrevendo As Palavras em pelo, quero dizer: nu, desnudo, pelado,  despido... ah! deveras seria o quadro um  incentivo ao singelo  verbo desadornado; fausto libelo: articulação em primeira instância, pequeno martírio à sintaxe da razão, às figuras de evocação, às linhas intraduzíveis.  Valha-se Port Royal no escaninho gramatical de todos os favores sintáticos: nenhuma roupa custa a pena quando o  verbo não traduz o acidente . 
                          Nos volteios das expressões manifestas a censura é palha pequena e não cobre o rosto, nem dobra a língua, nem mitiga o tráfego de outras influências, especialmente, as que advêm de causas perdidas. Exemplos?  A taxonomia da vida pública,os delírios políticos, as corruptelas consentidas,  os desvios financeiros com aprovação do consenso nacional,  a fome de educação subsidiada por "bolsas miséria", a transferência de ônus, bônus e coisas tal. Ai! Aristóteles teria aprovado a nudez intelectual? Grave distúrbio pensar que se pode brincar com as palavras e acreditar que se permaneça ileso. O que é plausível nem sempre é comestível!
                           Plausibilidade não  faz bandeira na conjuntura atual: paradoxos da vida privada em cáustico declínio. Eu Descartes, Tu Descartes,  Ele Descartes... nós sem René de La Haye,  possível pai do pensamento moderno e do método que ele próprio desconstrói.
                     As ideias não nascem, vêm a furo na matriz do entendimento. Será? Dúvidas são necessárias para alimentar as verdades improváveis...
      
                      "Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos..."

                                       Nelson Rodrigues
Texto: Ivane Laurete Perotti

domingo, 2 de novembro de 2014

A BOBIFICAÇÃO DO CONSUMIDOR

BÔNUS VIDA
  - ganha quem perde sem esperar -
                
" Um poema como um gole d'água bebido no escuro..."
       Mário Quintana

                                     E dizem que se aferra ao medo aquele que o desconhece temporal e passageiro. Todo o medo é passageiro? Tremores líquidos não configuram inundação, se bem que poderiam, em nome das chuvas perdidas, não vindas, escassas, birrentas chuvas que não deságuam esperança sobre o leito do Chico.
                                     Espreme-se o Chico, aspira-se o fundo da Cantareira, espalha-se uma preocupação tardia pelos quartos hídricos da população ansiosa. Em quanto tempo  a chuva vem? Não vem! Vai? Talvez passe depressa demais, deixando às torneiras secas o trabalho de balançar as brilhantes teias das aranhas criativas. Gangorras de necessidade e apreensão instalam precárias caixas de armazenamento: a economia dita o verbo, impõe a flexão, indica o ponto final. Gritar, agora, só para conscientizar acerca dos imperiosos fatos: a água é um recurso natural esgotável!
                                     Aumentam as interjeições sem papas homográficas: todo o som vale a pena quando a água é um problema. É! Não exatamente a água, mas a proporção de nossa deseducação frente ao meio que bonifica a vida. A hidrosfera abunda na manutenção de sistemas inteiros: /abunda/, /abundou/, /abundará/, caso nossos gulosos  olhos batam as pestanas em continência consciente. O Planeta Água resseca os lábios em concha aberta: quem se habilita a contestar a histeria?
                                     Sim, de toda a  água, em várias formas e lugares do planeta, menos de 0,02% está disponível em rios, lagos e lagoas perfazendo um contingente de água fresca, consumível. Alarmismo ou estratégias de venda? Com certeza, um pouco do que se vê, muito do que não se sabe e excessivamente o que se desvaloriza enquanto atitude ecológica: a água é resultante do Ciclo Hidrológico, e parece inesgotável, parece... por que contaminá-la, poluí-la? Esgotadas as possibilidades de reutilização, esgotam-se os bônus creditados pela ação da científica criatividade humana. O mau gerenciamento da água é aposta política em um pé só. Mancando, mancando, mancando, faz-se a dança da chuva para enganar a torcida contrária, para agradar aos investidores e calar a boca dos consumidores. Consumidores bonificados, bobificados,  responsabilizados em/pela cadeia natural: de quem é a culpa pela escassez  d'água em várias regiões do país? São Pedro não mandou resposta, Santo Antônio recolheu-se ao frescor do último banho ( dizem algumas culturas brasileiras que molhar o santo casamenteiro é chuva na certa. Cadê as moças casadoiras? ) e São Cristóvão resolveu atravessar outros rios, dando preferência àqueles que ainda têm água.
                              Enquanto isso, vale lembrar que nem só de economia salvar-se-á o banho nosso de todos os dias. Na outra ponta do  perrengue, alguém lucra, engarrafa e multiplica para além dos invólucros e dos caminhões-pipa: robustos tanques da esperança líquida.
                              Dúvidas?
                              Disque água! Educação e gerenciamento demoram...demoram...

" Quem quiser permanecer limpo entre os homens deve aprender   a banhar-se em água suja..."

      Nietzsche

Texto: Ivane Laurete Perotti