domingo, 31 de março de 2013

PALAVRAS DESENCONTRADAS


SOBRE AS PALAVRAS DESENCONTRADAS

                                                          Santas palavras sentidas
                                        
                                     
                        Era difícil viajar assim: carregada pelo tempo, marcada pelo uso, riscada e rabiscada, de boca em boca, de lugar em lugar, de idioma em idioma.
                        Camuflada, rodou entre paisagens secas e áridas, até encontrar um “alguém”. Era um “alguém” franzino, estatura baixa, olhos sem brilho.
                        Nem de longe esse "alguém" era ideal, mas independente das condições, ela precisava existir. Estava cansada de guardar-se dentro do dicionário!  Sofria trancafiada entre páginas e páginas, arqueada sob o tempo da espera. Esperar "nesse" lugar era um derradeiro pesadelo. O início do fim.
                        Os olhos sem brilho procuravam um algum lugar no entardecer.
                        Ela tentou acompanhar a direção daqueles pequenos e apertados orifícios preenchidos por esferas que serviam para ver, mas a força de milhares de sentidos aflorando em suas costas semânticas apressou-a para mais perto dele.
                        Ele, se é que fosse alguém, estava perdido entre onde permanecia seu corpo e para onde o levavam seus sentimentos. O que estaria olhando através do entardecer? O que buscava atrás de si mesmo? Conhecia muitas companheiras, parceiras de campo semântico, amigas que usavam o mesmo guarda-chuva para expressar essa distância observável, mas nenhuma delas se fazia presente naquele momento. O desespero tomara conta de todas elas depois dos últimos acontecimentos; cada qual procurava por si mesma encontrar uma forma de sobreviver.
                        Precisava aconchegar-se ao momento vivido pelos olhos sem brilho para alçar-se boca afora; para agenciar-se usável, funcional, necessária, importante. Mesmo que fosse apenas pelo lado de dentro dele, onde quer que esse lado ficasse.
                        Desejava ter mãos para puxar os cabelos daquele homem sem expressão, talvez ele respondesse ao chamado do colorido que pintava o céu e as árvores. Ela mesma engasgava-se diante de tão motivada possibilidade de existir e tornar-se empregável, traduzível, apenas pelo deleite de estar ali, no "agora".
                        O homem estava vazio. Vazio de todas as formas que ela conhecia. Nenhum sinal, nenhuma indicação de qualquer processo de reconhecimento entre os olhos sem brilho e as cores que se derramavam vagarosamente.
                        Palavras são teimosas por natureza de criação. Enroscou-se na ponta do olhar que se mantinha sem fim e foi se achegando, achegando, procurando no silêncio recheado de sentidos nascituros  agarrar-se a um deles.  Difícil colar-se à trilha daquele olhar, a cada tentativa escorregava para o chão da alma inerte.
                       Foram muitas as quedas. Foram muitos os arranhões em sua morfologia quase plástica. Resfolegante, foneticamente desgastada, deixou-se ficar sobre a terra umedecida pela grama que respirava alto. Sussurrou para si mesma que tal empreitada a levaria à morte. A ausência de uso já lhe tomara a cor. Sucumbia na esperança de ser usada em tempo e a tempo. Seria seu destino apagar-se assim, como se nunca antes tivesse servido a tantos?
                        Quando já fechava suas conclusões desanimadoras, os olhos sem brilhos mudaram de lugar. Baixaram-se até encontrar a ponta da incompletude onde permaneceram inertes e intocados.
                        Sem forças, ela tentou mais uma vez subir pela trilha que se abria sem muitos sinais. Ficou na ponta dos pés que não possuía e colocou toda a energia que sobrara do último uso no impulso de grudar-se novamente.
                         Grudou-se. Possivelmente a posição ajudava, mas nada para além disso. Grudada à ponta do olhar descolorido esperou em suspense. Era tudo ou nada!
                         Esperou e esperou. Aquele ser humano indicava ter desistido de existir. Não compreendia tamanho vácuo em alguém com tão pouco espaço ocupado. Era um vácuo que crescia descomunalmente em proporção ao contexto limitado.
                         O sol ainda se fazia presente, banhando com os últimos raios que recolhia preguiçoso um cantinho da praça vazia.
                         Ai! Certo torpor ameaçava derrubá-la mais uma vez. Aquele olhar não se abria. Precisava subir a qualquer preço para conseguir instalar-se. Instalar-se! Era irônica e trágica a sua existência. Precisava instalar-se para não deixar de existir: era esse o paradoxo de sua existência verbal. Ir e vir, de boca em boca, sem saber onde poderia descansar sem  o risco de adormecer para sempre.
                         Ai! Quem dera constituir-se de material menos instável, flexível, mutável. Queria poder tocar aqueles olhos, beliscá-los, irritá-los, acordá-los.
                          Do bico dos sapatos sujos ela não saíra.
                          Já passara por vários mergulhos da alma e da mente humana, mas esse era abissal. Nenhuma nesga, nenhum sinal de que seria possível dar sentido àquele momento.
                          Pensou fechar os olhos que também não tinha e suspirou, por que suspirar lhe era possível: uma espécie de compensação por tantos e tantos anos de articulação e uso social. Quando aquela coisa molhada raspou sua trilha, deixou-se levar. Foi carregada por uma lágrima que manchava o bico empoeirado do sapato gasto. Lágrima gorda, redonda: era um bom sinal. Um bom augúrio para a sua condição semântica. Não afundaria, não morreria afogada, pelo contrário, fundiria seu âmago conceitual naquele líquido salgado.
                          Agora sim. Abria-se um caminho para a instalação de qualquer sentido que os olhos molhados "agenciassem".
                          Uma onda de esperança tomou-a por inteiro e mais que depressa se desfez na lágrima que se multiplicava.
                          Estava salva. Chamaria suas irmãs para um tempo de incubação. Ficariam estocadas em algum lugar até instalarem-se; brotariam naquele terreno fértil.
                          O pequeno homem chorava e seus olhos renovados criaram várias linhas de construção. Coerentemente, sintagmas apresentavam-se em prontidão. Que fossem usados pelo operário da língua. Que se fizessem gastar e renovar naquele plasma que é a alma humana. Da alma para a boca, encontravam-se os olhos no meio do caminho. Quando fechados, o desvio acontecia mais abaixo, pelos caminhos do coração. Quando excessivamente abertos, abriam trilhas até a razão. Lugares comuns tantas vezes visitados no momento de fonética explosão.
                        Ai! Sobreviveria! Por mais um tempo, articular-se-ia feliz pelo campo dos sentidos.
                        Outra vez o verbo se fez! Outra vez um homem sentiu, sentiu e sentiu e instalou a paz nas revoltas margens de suas dúvidas!
                        Salvem as palavras!
                        Salvemo-nos da guerra fria que começa onde o amor não encontra palavras para garimpar o coração humano.
                        Que santas palavras santas aportem em nós, apagando o pecado da inércia emocional.
                        Faça-se a luz pelas benditas palavras "bem ditas".
                     
       
           
                   













domingo, 24 de março de 2013

SER OU NÃO SER VÍTIMA DO SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO



SER OU NÃO SER VÍTIMA DO SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO

                                                             UMA VISÃO ROMÂNTICA


                                                             "O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. (...)"
                                                             Bertolt Brecht

                                   Lançar um olhar de "fora da situação vivenciada" é tão somente um exercício de "isenção de ânimo" de cunho terapêutico para alguns e fatídico para outros, mesmo quando ditado pela necessidade. Frustrantemente perseguido pelos grandes escritores da Escola Romântica, o estado de distanciamento da realidade que nos cerca pode ser tanto uma escolha quanto uma patologia. Pode ser! Vivemos o eterno devir filosófico das verdades democráticas: pode ser, ou não!
                                   Minha identidade política vai à contramão de minha incapacidade romântica: acredito na primeira enquanto respeito a segunda. Parece-me que respeito é exatamente o crédito que nos falta na via comum dos dias, enquanto aguardamos ilesos pelo milagre da salvação social, política, econômica, religiosa...
                                   Ilesos e "isentos de ânimo" são duas impossibilidades humanas condicionais clarissimamente claras, em minha leitura, óbvio; em especial quando se espera por um milagre. Milagres acontecem com a participação do sujeito atingido querendo ele ou não. Independente do viés que se utilize para classificar o milagre, ou o sujeito envolvido. As alusões ao filme "A espera de um milagre" são uma figura alegórica ao dito aqui: o protagonista da trama morre inocente nas mãos do sistema que não pode ser revisto. Que sistema? A realidade que encarcera os sujeitos que a compõem e a constroem proporcionalmente ao elo de sua participação ideológica. Somos produto e produtores. Esse é o sistema nu e cru no qual se inserem todos os sujeitos sociais, absolutamente todos, independente de seu maior ou menor distanciamento da realidade circundante.
                                   A ladainha acima é culpa do Aedes aegypti, responsável por banalizar os sintomas da dengue ou do dengue, doença que evidencia nossa incomum capacidade de expressar manha, dengo - de acordo com a origem espanhola da palavra. Não estou em condições de lançar um olhar isento para a nossa situação dengosa, uma vez que a fêmea do infame inseto voeja por estas bandas e me faz prisioneira de sintomas nada desejáveis. Da fêmea do Aedes para a situação de nosso envolvimento no sistema político brasileiro é um passo obrigatório na clássica afirmação de que somos títeres de nossas próprias cambalhotas: manha não falta. Não! Nem manha nem fôlego para esperar pelo milagre que não produzimos. Culpa do Aedes aegypti que expõe a fragilidade insustentável do sistema de saúde brasileiro, culpa das chuvas que desmoronam encostas povoadas irregularmente, culpa do novo mandatário católico que se faz tão próximo dos fiéis e levou uma grande comitiva nada representativa a desejar conhecê-lo pessoalmente na cúpula romana. Outros Chicos gostariam de estar próximo ao Sumo Pontífice para fazer uma conexão imediata com Deus - que dizem ser brasileiro e nunca!, nunca!, nunca foi argentino - e pedir clemência sobre as penas que lhe atingem a vida desrespeitada. Esses Chicos não foram convidados.
                                   Louvo a fé expressa de nossa Presidente Presidenta, mas ela não poderia ter ficado hospedada em um lugarzinho menos onerosos aos cofres públicos? Admiro os sinais de fumaça - não! os sinais das sirenes - que indicam a chuva descabida que assola a região montanhosa do estado vizinho, mas não se poderia investir em sinais concretos de prevenção, educação e infraestrutura ecológica e politicamente adequada à situação?
                                   Eu avisei com antecedência que minha visão era romântica! Haja dengue! sic! dengo!

                                                                 "As pessoas que, desgostosas e decepcionadas, não querem ouvir falar em política, recusam-se a participar de atividades sociais que possam ter finalidade ou cunho político, afastam-se de tudo quanto lembre atividades políticas, mesmo tais pessoas, com seu isolamento e sua recusa, estão fazendo política, pois estão deixando que as coisas fiquem como estão e, portanto, que a política existente continue tal qual é. A apatia social é, pois, uma forma passiva de fazer política."
                                                               Marilena Chauí

domingo, 17 de março de 2013

UMA QUESTÃO DE COMPORTAMENTO UMA QUESTÃO DE COMPORTAMENTO





          UMA QUESTÃO DE COMPORTAMENTO 
                                                                                    ou
                                                               AZEDUME DA ALMA
                                                                                  
                                         "... a gentileza nos humanos tem o mesmo efeito do calor na
                                          cera."
                                             Arthur Schopenhauer

            Em uma dessas tardes de sol forte que têm feito de nossos dias uma antecipação dos cenários de Dante (destaque-se aqui meu latente e comprovado otimismo ideológico), necessitei buscar na cidade, por entre os lugares comercialmente abertos a clientes famintos de algo, um objeto comum e casual. Estava despreparada para os contextos que me aguardavam.
            Sou inexoravelmente despida de pretensões consumistas, e para ser mais clara, nego os prováveis pressupostos femininos que dão guarida ao desejo ínfimo de visitar vitrines, lojas e centros comerciais. Sou avessa a compras. Mas urgia que eu adquirisse um determinado material de extrema necessidade. Na lógica de meu desgosto acalento um axioma: quanto mais clara e amável eu for, menos insalubre poderá ser o intercurso de minha experiência discursiva e social. É uma máxima que rege a coerência que tanto prezo. Pois sim, estou cá a elucubrar que algo "azeda" o mundo das ofertas rápidas.
            Entrei em um espaço específico, cheio de balcões muito bem dispostos e pessoas uniformizadas. Sorrindo, comecei a interlocução da seguinte forma: "Boa tarde! Por gentileza, senhor, eu gostaria de ...".
            Ai! Preciso com urgência de uma sessão de terapia, de descarrego, de ...  estou aberta a sugestões!
            Contundentemente recebi o seguinte retorno: "Vai direto ao ponto, dona. O que é?"
            Em segundos repassei meu comportamento, minha fala, a roupa que usava. Teria sido o sorriso? Na dúvida, respondi com uma frase direta e um quase meio sorriso: "Uma (....), por favor!"
            Não estava ao dispor tal objeto. Agradeci temerosa e em dúvida sobre o que no mundo da linguagem visual poderia chamar-se "minha performance".
            Andei pelo belíssimo cenário de nossa cidade procurando pelo produto em falta e amargando ser minha a responsabilidade pelo retorno que recebia: desatenção, mau humor, má vontade, desinteresse. Ai!  Sou junguiana de formação, então, assumo a responsabilidade pelos acontecimentos em minha vida. Que Carl Jung não se revolva nas camadas etéreas, mas, algo vai mal no paraíso das injunções cósmicas.
            Já nas calçadas, suando o resto da água que meu corpo retinha a custo, fui abordada por uma senhora que PEDIA. Isso mesmo: PEDIA ALGUNS TROCADOS!
            Parei e saboreei a gentil e consciente amabilidade usada na tentativa de me convencer a "doar" algo tão em falta no bolso de todos. Eu não possuía "pratinhas", mas convidei a senhora de mais de setenta anos para tomar um suco com pão de queijo. Amo pão de queijo! Precisava entender o que excedia ali e faltava lá. Claro! Óbvio! Claríssimo: ela "pedia" e sua condição a colocava na obrigação de me convencer, persuadir... Uai!, mas que barbaridade, tchê!? E porque é que o comércio investe tanto em campanhas publicitárias, escalas de ofertas, liquidação, etc., etc., etc.? A lógica não é a mesma? Certamente não é! Ou pelo menos, os balcões de venda estão muito longe dos apetitosos e ilustrativos cartazes de convencimento: é o papel da "obrigação"?
            Queria levar comigo a bela senhora morena que caminha por nosso centro para dentro de alguns locais de venda direta. Equilíbrio faz parte dos teatros da vida. E vender, ou pedir, podem fazer parte da mesma cena, mas não comungam do mesmo ato.
            Nos palcos de nossos dramas, temos escolhas a fazer e a gentileza, pode ser uma grande arma se direcionada parta as próprias fuças.
                                                                 
                              "Aprendi silêncio com os falantes, tolerância com os intolerantes, e
                               gentileza com os rudes; ainda, estranho, sou ingrato a esses
                               professores."
                               Gibran
            

domingo, 10 de março de 2013

NO ENCALSO DA NÃO VIOLÊNCIA


ODE AOS DIREITOS IGUALITÁRIOS
                                                  NO ENCALSO DA NÃO VIOLÊNCIA
                                              


                                            "A força do direito deve superar o direito da força."
                                             Rui Barbosa

            Balzac, em suas manifestações que, para muitos beiravam o pessimismo, admitia ser a igualdade um direito, mas desacreditava existir poder sobre a Terra capaz de torná-la um fato.  
                Honoré de Balzac nasceu em Tours (20 de maio de 1799) e faleceu em Paris (18 de agosto de 1850); tornou-se famoso enquanto escritor pela capacidade de "olhar" o mundo sob uma perspectiva realista.
            Rui Barbosa, jurista, político, diplomata e grande orador brasileiro, nasceu em Salvador (5 de novembro de 1849); notabilizou-se pela defesa do princípio da igualdade.
            Com a distância que o tempo físico confere aos que não convivem com os padrões de uma mesma época, os dois grandes pensadores atualizam-se no que urge seja tônica de discussões ressignificadas.
            A violência já foi compreendida como uma forma indispensável à manutenção da vida humana quando o mote da vida era o permanente "estado de guerra". Se em épocas remotas, antes da criação do Estado Democrático de Direito, a violência e seus correlatos eram considerados atributos sociais, há de se questionar os movimentos que nos levaram a monopolizar o uso da força em parâmetros abarcados pelas políticas de Segurança Pública.
            Como explicar a incivilidade desenfreada no contexto atual? Qual o papel da brutalidade, da violência, do uso da força física em espaços que não mais se distinguem pelo background social?
             A democracia é um processo em curso no Brasil. Possivelmente contínuo, se as boas energias nos cumularem de bênçãos e impedirem desistências pelo meio do caminho. Então, a esperança ainda é substrato do povo brasileiro e talvez, do homem universal. Ainda é?
            Rui Barbosa foi assertivo. Balzac também! Ao lado das brilhantes leituras que os dois homens legaram à humanidade, está o medo latente de que, visceralmente, o mais antigo deles tivesse razões palpáveis para o realismo fatídico.
            Qual a boa notícia da semana? Quais as boas notícias que se interpelam no universo pessoal e único dos indivíduos que as protagonizam? Afora as discutíveis questões ligadas aos impostos federais - discutíveis! -, como fizemos e o quê fizemos no palco shakespeariano da rotina que nos avassala agora?
            Parece pouco diante da força imperiosa de nos mantermos vivos sem a expectativa fustigante da guerra iminente. Só parece. Há de se aceitar e compreender que muitas guerras são travadas no interior de cada um independente dos processos contínuos que levam o homem social à modernização e à democracia. Possivelmente o espírito dessas guerras internas esteja a contaminar a nossa "lida" contemporânea e a estabelecer a sua rede nefasta de incivilidade crescente.
            Justificativa esdrúxula! Infelizmente, a violência não compõe versos cujas rimas permitam medir em sílabas mais ou menos tônicas as implicaturas de seu tema. É inevitavelmente tônica a temática da violência. Violência é sempre violência, independente da força e dos motivos que a instalam.  
            Que a ingenuidade seja perdoada, mas se Balzac têm razão, "... pare o mundo que eu quero descer..." não deu a Raul Seixas nem a Sílvio Brito o salvo-conduto sobre as guerras travadas.
            Quero e vou acreditar na raça humana até que os animais me provem o contrário.

                                            "Eu sou a favor dos direitos animais bem como dos direitos   
                                              humanos. Essa é a proposta de um ser humano integral."
                                               Abraham Lincoln
             


                                                 

PERDAS E PANOS


  PERDAS E PANOS
                                  Os limites da violência consentida

                                                                     "A violência, seja qual for a maneira como
                                                                      ela se manifesta, é sempre uma derrota."
                                                                      Jean-Paul Sartre

                       
             Somos frágeis instrumentos das emoções encarceradas na alma obscura?
             Títeres ou vilões, de quem é a responsabilidade pelo caminho do meio que tanto foge ao pendor da humanidade?
              O mundo subjetivo do homem moderno é uma ilha cercada de grandes e nodosas desculpas contextuais, farpas de um momento histórico que se representa pelo direito à palavra justificada. As formas que assumimos para "educar" as nossas emoções passam longe da responsabilidade social, filosófica, política, humana.  E não estão alheias aos nossos olhos e ouvidos. Basta espichar a orelha para fora do carro e ouvir a buzina que atropela o sinal verde no semáforo ainda por abrir. Ou sentir o estremecimento na fila do banco, do caixa do supermercado, da farmácia que é grosseiramente invadida por quem entende estar no direito de fazê-lo. Reveses do "estresse". Talvez.
             Deslizamos por limites intangíveis entre o "meu", o "seu" e o "nosso" direito de viver em sociedade, esquecendo-nos que, antes, muito antes, a individualidade se manifesta como célula identitária. 
            Quem é o sujeito social que marca a nossa época?
            Perdemos os "pavios curtos" e acendemo-nos diretamente aos barris de pólvora carregados em fardos pessoais. Os limites encurtaram-se e os níveis de paciência, tolerância, gentileza e bom-humor perfilam-se em taxas de inviabilidade e extinção.
            A gentileza deu lugar a comportamentos do tipo: "estou marcando o meu espaço". A tolerância murchou dentro do recipiente alquímico no qual era temperada com a maturidade, a compreensão, o entendimento. A boa-educação é metáfora de fraqueza e ausência de "pulso". O bom-humor feneceu no cadinho das mazelas antes que dele se desse falta. Falta. Falta porção de poesia em nosso mundo simplesmente humano.
            Um olhar ecológico faz bem ao estômago. Um sorriso vai além do dito ou não dito, um gesto de cuidado para com o lugar ou aqueles que nos rodeiam pode iluminar o dia. Claro! Claríssimo se essas frases não estivessem sob o estigma do discurso descontextualizado da autoajuda, deliberadamente encarcerada em objetivos logísticos e comerciais. Então, o que fazer com nossas emoções que estão a pino?
                Não sei! Mas pensar sobre o assunto me humaniza e cá estou eu a procurar lenitivos para as orelhas compridas, as palavras descuidadas, os olhares vesgos, a falta de jeito nas filas da vida. Se assumir uma atitude de consciente boa vontade contraria os códigos de conduta na sociedade contemporânea, então, gostaria de ter nascido na Idade da Pedra.  A rudeza era fruto do obscurecido pensamento rudimentar. Era!? Talvez!
            A palavra, meio de transporte de nossos sentimentos, serve a dois senhores: significa e é significada. Correr o risco de fugir ao sistema de sentidos cristalizados está para a garantia de voltarmos à origem da poesia. Se é que ela tem uma, certamente não sobreviverá por muito mais tempo na aridez de nosso comportamento.
            Falta-nos, além de uma boa dose de "humore" (em latim, sem o /h/, significa seiva da vida) a consciência sobre a violência ser passível de erradicação. Como? Bom, desde que não se use dela própria enquanto justificativa, podemos pensar          em homeopáticas fórmulas de vitória sobre o próprio ego empedernido. Ou, permanecemos espichando as orelhas.           
             

"SUTIÃS" À DERIVA



            "SUTIÃS" À  DERIVA


                                                  "Não se nasce mulher: torna-se."
                                                   Simone de Beauvoir

                                           
             Algumas décadas se passaram entre a emblemática manifestação ocorrida em Atlantic City, EUA, nominada pela mídia como Bra-Burning, (a queima dos sutiãs), e as manifestações feministas atuais. O que se pode dizer da história dessas manifestações e seu caráter difuso, entrecortado pelas normais discrepância e deserções que caracterizam os movimentos humanos?
            O feminismo é um movimento social de base filosófica e política que tende à igualdade de metas e direitos, independente de normas e gêneros. E dizer "tende" é optar com cuidado pelo caminho do meio, aquele que propõe uma leitura da história pelos meandros dos fatos não trazidos à luz.
             A ideia da sociedade liberta de padrões opressores de fundo segmentador alterou as perspectivas de crescimento da própria sociedade ocidental, reescrevendo-a desde a área da cultura até as dimensões do direito. Às campanhas feministas deve-se creditar o direito da mulher ao voto eleitoral, ao direito de propriedade, de contrato, de autonomia, de igualdade salarial, aos direitos trabalhistas; à integridade de seu corpo, o acesso à contracepção, aos cuidados pré-natais de qualidade, ao aborto; à proteção contra a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro.
            E?... Na história contemporânea, onde está a mulher?
            Já se vive o momento de arrolar análises do lugar conquistado?
            Quem é a mulher moderna?
            Os papéis sociais alternam-se; as exigências pessoais e econômicas colocam os gêneros e os transgêneros em estado de busca e ansiedade produtiva.
           A MULHER NO MUNDO EM UMA ENTREVISTA "PING-PONG" FICCIONAL
           Todas as falas são por direito de criação genuínas e identificáveis no contexto sócio-político mundial. Recolheram-se algumas "amostras" da legitimidade identitária indicando o país das entrevistadas, O QUE NÃO SIGNIFICA GENERALIZAR OU ESTABELECER UM PERFIL ÚNICO PARA A MULHER DO PAÍS EM QUESTÃO. O maior número de mulheres entrevistadas se deu no Brasil. A questão-chave é: QUAL É O BALANÇO QUE VOCÊ FAZ DE SUA VIDA ENQUANTO MULHER?
           

MULHER (BRASIL): Em poucas palavras? Nossa! Estou levando as crianças para a escola antes de chegar ao escritório. Será que poderíamos agendar essa entrevista?

MULHER (EUA): Tenho hora marcada com minha terapeuta. Podemos conversar mais tarde?

MULHER (ÍNDIA): Não posso falar agora. Sofri um estupro coletivo.

MULHER (BRASIL): Eu levanto às 04h15min para deixar o almoço pronto para o meu marido. Largo as crianças na creche às 06h30min. Tomo o metrô e duas lotações para chegar aso trabalho. Não sei lhe responder.

MULHER (CHINA): Sou uma desafortunada. Acabo de dar à luz uma menina. Como vou explicar isso para o meu marido?

MULHER (BRASIL): Agora não dá. Tenho academia, massagista e depilação. Ou você acha que é fácil ser mulher hoje? A concorrência está forte, minha filha!

MULHER (RÚSSIA): Bem que o governo poderia aumentar o valor do "capital da mãe" para o segundo filho. Os 300 mil rublos que ele paga não são suficientes para sustentar a família com dignidade.

MULHER (CANADÁ): A luta continua, moça! Ainda não chegamos lá! As ONGs estão aí para provar isso.

MULHER (AUSTRÁLIA): Olha... eu não sou a mulher mais rica do mundo, não trabalho com mineração. Mas também não engordo as estatísticas sobre violência doméstica. Comigo essa história não cola. Mas perdi uma amiga, o marido... (corte)

MULHER (BRASIL): Mulher? Eu sou o homem da casa, minha filha. Faz tempo!

MULHER (ARGENTINA): Veja só, as Filhas de Vênus estão chegando onde querem. Aqui é a Kirchner, vocês têm a Dilma. Mas não se engane, não. O cabresto ainda existe!

MULHER (SUDÃO): Melhor eu não responder... não sei o quê o Código penal prevê sobre este tipo de questão. As chicotadas... o apedrejamento... ( corte).

MULHER (ARGÉLIA): Sou uma mulher Kabilia... calar é minha esperança.

MULHER (CONGO): Moro aqui, no campo de refugiados de Magunga... você trouxe comida?

MULHER (ARÁBIA SAUDITA): ...

MULHER (BRASIL): Nunca tive problemas. Mas sei que existe muita discriminação e violência por aí.

MULHER (MÉXICO): A gente tentou, né? Mas não foi ainda dessa vez...

MULHER (INDONÉSIA): Eu participei do último protesto em Jacarta e usei minissaia. Mas não acredito que o governo entenda o que agente quis dizer. Os estupros não acontecem por causa de nossas roupas. Você entende?

MULHER (IRÃ): Estão tentando me mandar de volta para casa... mas eu quero cursar uma universidade, quero ser ativa na sociedade.

MULHER (BRASIL): ...ganho bem mais do que meu marido. Não é um problema para nós.

MULHER (MONGÓLIA): Eu gosto de minha vida nômade. Esse ger é meu, herança de família. Aqui, mulher manda, moça. Sempre mandou.        

MULHER (PERU): Eu sou uma das sete mulheres a cada dez de nós que sofre com a violência doméstica. Sim, já fui à delegacia. Eu sou uma policial de trânsito.

            Algumas entrevistas foram cortadas desta compilação devido ao teor de suas revelações.
            Incendiária ou não, a relação igualitária entre gêneros, raças, e outras variáveis características da sociedade humana está longe de se tornar "ideal". Mas há de se admitir que progredimos muito! Ou não? Que se diga "en passant": não apenas os "sutiãs" tomaram outras formas, como também se transformaram os objetos de sua proteção: com silicone, sem silicone, expostos, cobertos, descobertos... é a natural evolução de nossos costumes sob a ótica de olhares sempre novos.
        
           
                                        "Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas
                                       de tornarem-se seres humanos na sua integridade."
                                        Simone de Beauvoir