domingo, 28 de dezembro de 2014

PALAVRAS

PALAVRAS DESPIDAS

    - na linguagem dos sentimentos a emoção é um verbo irretratável -

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retêm-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler."
José Saramago

                                              O último vento da tarde batia em retirada. Recolhia-se às fronteiras do intangível sem negar o desejo de permanecer rasteiro e presente àquele mágico final do dia. Um piano soluçava notas perdidas: delicadas memórias recortadas de antigos trechos musicais. À janela do tempo, braços debruçavam-se em lenta aceitação. Marcas de várias vidas engrossavam as veias expostas: desvalidos caminhos por onde a história corria em gotas vermelhas.
                                  Encolhiam-se as sombras das árvores aguardando o aconchego noturno. A noite, sempre anunciada, servia de remédio àquele indizível sentimento de porvir: saudade do desconhecido limiar entre a vida e o que se espera dela. Nada que  pudesse  estar onde se procurava encontrar. Movimento unânime e involuntário cuja consciência se entroniza no homem como as raízes das árvores mortas pela escassez de água. Época das secas? A seca não faculta à chuva o seu dizimar, antes, muito antes, perscruta o tempo das nuvens e o movimento do sol. Assim faziam os braços debruçados às janelas  a quem coubera juntá-los ou separá-los. Feito míticas aberturas para o desejo de estar só ou buscar-se, as janelas padeciam aos pares: malmequer...bem-me-quer...malmequer...bem-me-quer... despetalada cantilena de culpa e responsabilização: Dai ao outro o que é do outro e buscai nele o que é seu. Como se, a alguém pertencesse o poder de fazer rir e chorar, viver e amar, sonhar e acreditar.
                                  Olhos de todas as profundidades cravavam-se em arco sobre a ponte da esperança : a realidade cobra alto pedágio aos que olham sem ver e lava em lágrimas os que teimam sentir. Dualidade líquida entre as margens cotidianas não formam um rio, mas transbordam em emoções  palpáveis quando o homem aceita ser quem é. Tarefa insana, lúdica faina aos que não temem colher : Dai a si mesmo o que é seu por mérito de nascimento. Ah! Frases que se perdem entre as notas do velho piano. Sombras cansadas de árvores cabisbaixas, florestas devastadas, caminhos dobrados em curvas, notas perdidas entre a dor e a saudade. Quando  a desesperança cria asas, as janelas da alma fecham-se em alinhada cadência e só a mágica de mais um dia pode quebrar o nostálgico  ciclo da desvalia. Melancolia? A tristeza se prende onde a ela dão guarida, seja nas fraldas do vento, seja ao bater da Ave-Maria.
                                 Pelas janelas do tempo, o vento fazia sua última visita antes de retornar mais livre e forte, para onde quer se soprasse a poesia.  Vários braços pelas janelas deixavam o sangue correr à deriva, sem molhar o bico da história na própria corrente fria. E o desejo de sentir, eterno devir, criava o palco exato  para o lapso em ato, mergulho de fato, de outra noite em mais um dia... outra via!
                                  Ao longe, muito longe, os soluços de um piano despediam-se.

                                     "Fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com  
                                      o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que
                                     estávamos tratando de negar com a boca. "
                                      (José Saramago)
Texto: Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TOMBOS E TOMBOS

A AUTOMAÇÃO DOS SENTIDOS

- nada que nos seja oculto permanece inalterado -

 "Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for        desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas... Daqui para frente    levo apenas o que couber no bolso e no coração. "
                                                    Cora Coralina

                                          Justificado o primeiro tombo, a ribanceira convocou a pedra:
                                         _ O que faz em lugar tão inapropriado?
                                         _ Não faço! Aguardo!
                                    _ Aguarda? Mas esta é a minha função. Desdobre-se em outro caminho que por aqui não há lugar para tantos desfalques.
                                      _ Assoma-te em curva, infeliz ribanceira. Quanto mais pedras encontrarem em tuas costas, maior a chance de continuar onde está.
                                         _ Não compreendo...
                                         _ Já ouviu dizer que os homens preferem os caminhos mais árduos e perigosos?
                                         _ Peta! lorota! Tal pensamento não procede.
                                         _ Não? Pois observe:
                                         Ao longo da ribanceira caminhava um homem. Vinha só, até onde se pudesse provar a solitude dos passos visivelmente distraídos. Ausente, arrastava o olhar como quem faz do jugo a canga da vida. Desprovido de ânimo, aprumava nos ombros roupa de festa: casaco de longas mangas, camisa de gola limpa. A  calça frisada em vinco  destacava o corpo saudável e bem-cuidado. Os sapatos de verniz curado lembravam uma pegada com cheiro de novidade. Era belo, mesmo que aparentemente só, pois a beleza, na vida prática, necessariamente não se queda à trança de parcerias. Mas, assim como observava a ribanceira, aquele era um homem de méritos e condições. Passaria por ela sem esparramar o passo imberbe. E, à pedra que filosofava sobre as agruras humanas, falharia o argumento na generalização do exemplo. Quanto mais plano, mais fácil o caminho dos homens, quanto menor o número de pedras, menor a chance de estrumbicarem-se .
                                         Às pedras reserva-se o tempo da sabedoria inata: presente, sempre presente. Ao homem que içava os pés calçados pela ribanceira íngreme parecia faltar o momento. Se era uma descida o caminho de sua rota, quais trilhas ele embocara antes de chegar  ali? Roteiros da vida têm ladeiras e pedras, montanhas e abismos, pontes e margens movediças. Assim era! Contudo, a diferença na subida começa na base de qualquer descida. Subir e descer, descer e subir, alinham-se em paralelos contíguos. Basta um movimento para estar em um dos extremos, um passo, uma pedra...um homem!
                                         Quando a lágrima guardada deitou-se por sobre a pedra na ribanceira, o chão abraçou o sentido daqueles passos arrastados: um homem chorava a dor da existência consciente.
                                                                                         

                                             "É que tem mais chão nos meus olhos
                                              do que cansaço nas minhas pernas,
                                              mais esperança nos meus passos
                                              do que tristeza nos meus ombros,
                                               mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça."

                                              Cora Coralina
Texto: Ivane Laurete Perotti

domingo, 14 de dezembro de 2014

MALFEITO


RUMORES


DISTÂNCIA


PARÊNTESES


MISÉRIA ATÁVICA

FRONTEIRAS DA INDIFERENÇA

                                                 " A distância não gera afastamento; apenas a indiferença
                                                    abre espaço para as fronteiras do esquecimento."
                                                         Ivane Perotti

                                                Entre as  gotas da cortina de chuva sobressaíam aqueles olhos: secos. Olhos de olhar para lugar nenhum. Olhos que desconheciam o calor da esperança e o motivo da redenção. A pele ao redor deles cobria-se com a capa da realidade crua como se muros fossem construídos na argamassa de almas esquecidas. Densos muros, altos muros, confrontavam existências tão distantes quanto o olhar que via e deixava de ver. Vários mundos debatiam-se no curto  espaço obliterado pela indiferença. Vários mundos chocavam-se violentamente no vácuo criado pela ausência de um significado comum: ver é uma questão de escolha. Escolher é um processo que exige consciência. Consciência é um caminho fisiologicamente demarcado pelas possibilidades de acesso ao que funda o conhecimento. Conhecer é uma questão de vontade política e aqueles olhos, dobrados pela crueza da chuva ininterrupta, desconheciam o caminho de casa.
                                                 Pelas calçadas molhadas assentavam-se ao trono da tristeza outros olhos, pares de olhos, tão secos quanto o primeiro, tão nus quanto qualquer imagem desfocada, tão duros e distantes quanto qualquer ilusão de humanidade. Mãos desfalecidas quedavam-se ao lado dos corpos destituídos de lugar: uma social individualidade premeditada nos padrões da desigualdade. Torpe era a  dança da época regida pela consciência fria e calculada a ponta de falsos valores, roubados penhores. Vil era o destino inexistente que jogava com vidas colocadas à margem de qualquer limite.
                                                  Assenhorados pelas mazelas ditadas, sujeitados ao dissabor das anestesias sociais, olhos sem brilho cruzam a ponte entre o homem e o homem. Sombras de um nascimento julgado a termo, reduzida sentença para os olhos vazios, secos, destituídos de sentidos outros. Sem sentidos, o homem desconstrói a rotina da criação, mata os embriões de sementes jogadas em terreno fértil e mitifica o ávido espectro da dominação. Querelas previstas e antecipadas na agenda das vaidades: ao homem destina-se o poder de ser ... ser... ser...
                                                 A vida solidifica a morte em vida  na vida  daqueles impedidos de escolher. E escolher pode ser a única salvação no cadafalso maldito das ruas tombadas pelo  mérito das desigualdades. Misericórdia para aqueles que enxergam  e não veem,  sentem e não reagem, testemunham e não falam, sabem e não escolhem, podem fazer e nada fazem. A história cobra o preço da consciência vilipendiada. Labirintos morais proliferam minotauros e não se fazem mais Teseus como no antigo mito.
                                                Olhos esvaziados furam o mundo do homem indiferente e desbancam conceitos de civilidade; assédio da modernosa ambiguidade: ter e ser dominam o mesmo campo semântico. Quando as desigualdades sociais deixarão de cambiar-se em moedas de poder e significação? Quando a humanidade alçar-se-á ao lugar de faculdade imanente?
                                                 Essencial à vida é o respeito à vida, e ao homem, singular por natureza, as diferenças são o prelúdio para o império da igualdade: de direitos, de educação, de acesso às escolhas, de informação, de representação. E este seria apenas  um começo para que os olhos locados às ruas da indiferença não se perdessem entre os muros da miséria atávica.

                                                 " Pelas ruas descalças perambulam almas destituídas do
                                                   homem social: miséria conduzida pela vontade política."
                                                           Ivane Perotti

                    Texto: Ivane Laurete Perotti