quarta-feira, 28 de novembro de 2012




 A FONTE DE TRÊS 
         PRATOS

 Ivane Laurete Perotti


   Dedicatória:
    "À luz das histórias que se repetem em antigos candeeiros.”


                                     Eu havia torcido um pé. Coisa pouco, como dissera o médico. Mas exigia repouso.
                                    Isso, para um menino como eu, era um verdadeiro sacrifício. Preferia correr atrás da bola, dos passarinhos, dos cachorros que passavam na rua, da carrocinha de algodão-doce. Qualquer coisa seria melhor do que ficar parado. Sentado. Parado. Quieto... bem, quieto não era exatamente do jeito que eu me encontrava.
                                     Ah!...Conseguira encontrar um jeito de chegar até a fonte sem a minha mãe e o resto da casa perceber.
                       Ufa! Um pé em movimento era de muita ajuda, especialmente para carregar um corpo acostumado com a velocidade.
                      A música que tocava na vitrola e a preocupação de minha mãe com as novas alunas de balé deixaram-me alguns momentos em liberdade.
                      Até parecia que fora esquecido.
                      Esquecido?
                      _ Bruninho! O que você pensa que está fazendo?

                      Eu não estava pensando, já estava fazendo, mas minha avó com certeza entendeu que eu queria muito mais do que parecia olhando de longe.
                       E queria mesmo.
                       Ficar sentado no jardim olhando a fonte jorrar aquela água limpinha encheu a minha cabeça de ideias mirabolantes.
                       Ideias, ideias, ideias... onde eu as guardara até então?
                    Às vezes eu acreditava que minha cabeça não tinha fundo. Ou melhor, não tinha limites. E quando duvidava disso, alguém sabia insistir dizendo que “... eu não tinha remendo!” Ou remédio, dependia da boa vontade da pessoa que me observava.
                     Eu ainda estava no meio do caminho quando minha avó concluiu a frase:
                     _ Esqueceu-se das ordens do médico? Esqueceu?

                    _ Não, vovó! Eu só queria...

                    _ Ficar sentado. É isso que você deve fazer.
                    Ai!Ai!Ai! Minhas nádegas! (em casa, não me deixavam falar bunda, mas eu pensava bunda e não nádegas! Então, falava nádegas e não bunda!).
                   Ai!Ai!Ai! O que seria de mim, tão cheio de ideias, tão cheio de vontade e tão cheio de...

                   Era isso! Precisava encontrar uma forma de correr sem sair do lugar. Ou mudar o lugar sem sair correndo. Qual seria a melhor opção?
                    Minhas pernas eram tão fortes quanto minha vontade. Num impulso eu já estava sentado dentro da fonte: a bund... quero dizer, as nádegas mergulhadas na água fria e os pés balançando para fora do beiral.

                      Encontrara um jeito de estar no lugar onde me mandaram ficar, mas olhava agora por um novo ângulo. E era divertido olhar para aquilo que até então ficava às minhas costas.
                       Era muito inter...
                       _ Bruniiiiiiiiiiinho!!!!! Meu filho!!!!!!!
                      A voz de minha mãe estava mais gelada do que a água em minha bund... nádegas!
                     Sim! Era a minha mãe!
                      Por alguma razão ela resolvera chegar à janela e olhar para fora. Será que as alunas novas já haviam aprendido a dançar?
                           _ Meu filho! Você vai se afogar...

                          _ Não! Mãe! Eu só deixei a minha bun.. a minha... a minha... eu só sentei na água mãe! Estou respirando, ó!Ó!
                          __... vai pegar um resfriado!

                          E bund... nádegas ficam resfriadas? Ficam?                          
              
                           Não consegui argumentar por muito tempo.
                           Fui retirado da água pelos braços fortes de alguém que agora nem consigo lembrar quem. E embaixo de muita preocupação, precisei trocar as minhas roupas molhadas por outras que deveriam ser responsáveis por colocar-me algum juízo.
                        Pode? O que é que roupa tem a ver com a vontade de sair correndo? Eu só queria correr na rua, onde todos os meus
 amigos gritavam sem parar.
                          Mas os pais da gente sabem o que fazem. A roupa engomadinha que me obrigaram a vestir era nova e se eu a sujasse ficaria por mais tempo dentro de casa, assistindo a aula de balé. Não que isso fosse exatamente um castigo, mas as meninas dançavam balé com os dois pés, e isso me fazia lembrar que o meu estava machucado.
                         Ao final da aula de minha mãe, pude novamente sentar lá fora, junto da fonte, minha amiga inspiradora.
                          Por alguns segundos, acreditei que poderia ficar sozinho e organizar outra opção com as ideias que já apontavam no fundo sem fundo de minha cabeça.
                       Quando uma das ideias levantava minha bund... da cadeira, vi chegar de mansinho uma das meninas que eu amava: minha irmã mais nova!
                         Isso era golpe baixo. Eu estava cercado por mulheres que me obrigavam a ficar sentado! Era realmente uma prisão.
                        Todas as mulheres da minha vida grudavam os olhos em mim. Ah!... como poderia colocar minha bund... para fora da cadeira? Isso já era perseguição de mãe, de vó, de irmã...

                     Ai!Ai!Ai!

                    Não fiquei triste por mais de alguns segundos, pois as minhas carcereiras também sabiam ouvir o que eu pensava.
                                     Será que se eu pensasse em japonês (eu queria aprender japonês) estaria livre para pensar sozinho?
                  
                   Não naquela hora!
                   Minha irmã era especialista em me fazer rir. Contava as coisas mais engraçadas só para ouvir minhas gargalhadas.
                     E eu gostava de vê-la feliz. Deixava de pensar em qualquer ideia nova quando ela brincava comigo. Era mais velha do que eu, mas gostava de brincar comigo enquanto dizia a todos que estava me cuidando.
                  E eu gostava de ser cuidado por ela. Brincávamos até alguém nos fazer parar (e isso realmente acontecia). Pois a hora de tomar banho era tão exata quanto a hora de jantar e a hora de sermos colocados na cama para dormir.
                  Entre a janta e a hora de dormir, havia um espaço de tempo que era mágico: deixavam que ficássemos no jardim, ouvindo a água da fonte bater nos três pratos que a guarneciam.
                   Eu e meus irmãos sentávamos como que esperando por um verdadeiro espetáculo. E ele acontecia...
                 Bastava todos saírem da mesa do jantar para o encantamento começar. Todas as noites era a vez de alguém contar uma história para as crianças da casa.  Se a noite estivesse clara, limpa, a fonte acompanhava a voz que se erguia contando histórias de arrepiar.
                 Se a noite estivesse fechada, alguém contava uma história de anjinhos bonitinhos e crianças que ganhavam prêmios por bom comportamento.
                 Se a noite derramasse chuva, ficávamos olhando a fonte e imaginando cada um a sua própria história. Pois em noite de chuva, era a vez dos adultos da casa reunirem-se para conversar assuntos mais longos e que não deveríamos ouvir.
                  Ninguém reclamava. De um modo ou de outro, permanecíamos juntos ouvindo a fonte sussurrar histórias que apenas nós, as crianças, ouvíamos.
                A fonte jamais se negava a contar e contar e contar.
                Enquanto contava e cada um entendia do seu próprio jeito, fazia com que ouvíssemos as vozes de suas histórias.
               Uma vez era a doceira que chorava pelo doce que perdera, a outra era a voz do papagaio que imitava o seu dono, a outra era a voz da menina que queria brincar no alto da árvore e... eram muitas as vozes que ouvíamos enquanto a água descia e subia pelos pratos sobrepostos.
                   As flores do jardim também ouviam e participavam das interpretações, mas daí, esse era um detalhe que apenas eu sabia ver.
                    Meus irmãos, mais velhos, preferiam não notar o que acontecia em volta da fonte. Só tinham olhos para ela e eu até pensava que muitas histórias ficavam perdidas enquanto eles criavam as suas próprias.
                    Especialmente um deles...
                   Gostava da fonte, como todos nós, mas parecia que olhava para ela e enxergava outro lugar.
                    Ou... eu já ouvira dizer que ele estava gostando muito de alguém e que esse alguém aparecia na fonte.
                  Será? Disso eu duvidava e duvidava mesmo!
                  Essas coisas eram impossíveis de acontecer. Nem queria pensar muito sobre o assunto.
                    Do meu quarto, eu conseguia ouvir a água contando histórias diferentes quando nos recolhíamos para dormir.
                     Eram histórias com vozes de flores perfumadas, animais coloridos e nuvens nem sempre branquinhas.
                     Gostava dessa parte também e era meu outro segredo: guardava as histórias das flores, armazenadas em fila, dentro de minha cabeça sem fundo.
                      Quando eu ficava muito quieto e pensavam que estivesse doente, na verdade eu estava verificando a posição de cada uma delas. Observando se não faltava algum detalhe, se algum pedacinho não tivesse se extraviado, escondido, perdido, se alguma história não mudara de lugar.
                   Isso acontecia muitas vezes. Histórias parecem gelatina, ou manteiga mole. Se você se aproxima demais delas, elas derretem. É o calor do corpo que faz tudo isso, pois o lugar dashistórias é o fundo do poço sem fundo da cabeça das crianças. Eu acho que a minha tinha mais de um poço. Acho mesmo!
                      Em uma noite de muita chuva, eu ouvi os gemidos da fonte. Logo pensei que estivesse se afogando embaixo de tanta chuva. Ora! Eu e minhas ideias! A fonte era feita de... água? Cimento? A fonte sem água ainda era uma fonte? Ai! Eu escutara mais um gemido. Não dava para esperar até de manhã. Melhor levantar na ponta dos pés e olhar o que se passava.
                        Quando cheguei ao jardim, tive certeza de que a fonte chorava. Era desesperador ouvi-la tão triste! Com os olhos bem abertos varri o jardim até onde a vista alcançava. Tudo parecia molhado. Muito molhado e só isso! Se é que era pouco tanta chuva derramando-se sobre a cidade.

                         _ Ai! Pobre de mim! Estou perdida!

                         Eu não sabia falar de volta para ela, apenas conseguia escutá-la. Era o pior de todos os lamentos que eu já ouvira.

                          Sem parar, a fonte gemia e falava as mesmas palavras:

                          _ Ai! Pobre de mim! Estou perdida!

                          Parecia cantar o seu choro sem fim. Eu quase conseguia ver as suas lágrimas brilharem sob a chuva forte.
                         
                          _ Ai! Pobre de mim! Estou perdida!
  
                          Tantas foram as exclamações que resolvi intervir. Entre fazer nada e fazer alguma coisa na qual eu acreditasse, melhor tentar.
                          
                           Até hoje eu não sei se compreendi a natureza daquele choro, mas depois que deitei, ela parou de gemer.
                           Difícil foi tentar explicar de manhã cedo para os meus pais o que aquele guarda-chuva fazia aberto em cima da fonte. E quem o colocara lá. E qual era a razão.
                           Não expliquei. Até mesmo porque eu não tinha certeza! Assim..... melhor silenciar.

                           Estava difícil manter o pé elevado. E foi por essa razão que resolvi criar uma cadeira movedora. Tudo muito simples se não fosse minha avó pensar que o cachorro da família não iria aguentar o meu peso. É claro que ele aguentava. Mas preocupação de avó a gente respeita.
                          Decidi chamar os meus amigos que continuavam brincando na rua para me ajudarem em uma grande invenção: o carrinho para o pé.
                          Depois de muitas marteladas e de várias interrupções sob a justificativa de que poderíamos nos machucar, eu entendi que minha invenção era melhor no fundo da frente de minha cabeça do que embaixo de meu pé. Deveria ter criado outra cadeira movedora.
                             Era isso!
                             _ Ô, pai! Empresta, vai. Eu prometo ficar quietinho! Não saio de dentro!
                             _...

                             _Deixa, vai!

                             _...

                             Com a ajuda das mulheres da minha vida que desta vez me libertavam (não sem antes me fazerem assinar uma declaração de TODOS OS CUIDADOS), meu pai terminou concordando em emprestar o carrinho de ferramentas (sem ferramentas).
                          
                             As mulheres da minha vida colocaram uma colcha dobrada embaixo de minha bund... de minhas nádegas, e ainda duas almofadas para eu encostar o corpo. Era a glória! A RUA INTEIRA PAROU PARA ME VER!
                            Puxado pelos meus amigos que também gostaram da ideia (mas graças ao meu pé machucado eu não precisaria ceder o lugar para ninguém...), retomei o meu lugar no mundo e na vida da rua. Estava salvo!
                            Sim, estava. Até a hora em que meus amigos decidiram jogar uma pelada.
                           Não era só o pé que doía. Minha bund... minhas nádegas estavam quentes de tanto ficar no mesmo lugar.
                           Palavrões não eram bem vindos à boca de meninos educados, mas no fundo de trás da cabeça... aí ninguém os descobria. 
                           Usei todos os que conhecia e criei outros que nunca mais precisei lembrar. Mas os meninos, enquanto jogam bola, não leem palavrões em pensamento. Nem ouvem aqueles que  gente pode dizer.
                           Enquanto a bola corria solta pela rua e os meninos se estatelavam atrás dela, eu bolei um plano.
                           Haveria de me vingar de toda aquela traição. Fora simplesmente esquecido por todos, naquela caixa de ferramentas colorida pelas almofadas de minha avó. Eu era um menino sem sorte, mas ideias não me faltavam para mudar a situação.
                        Quando todos correram para o mesmo lugar atrás de impedir um gol que parecia fantástico, gritei e esperneei bem alto:

                         _ Socorro! Socorro! Uma cobra jararaca! Uma jararaca cheia de dentes está aqui!
                         Até quem não havia enxergado o meu trono, viu o final de meu reinado e o sabor de minha vingança.
                           Melhor, o amargor de minha vingança. Pois, com o susto, as mulheres de minha vida puseram-se a gritar e a exigir que os homens encontrassem a cobra.
                         Meu pai, que era muito esperto, deduziu que eu jamais poderia ter visto os dentes da jararaca. E isso era só o começo.
                        Tudo bem. Da próxima vez eu tomaria algumas informações a mais antes de usar o nome de alguma coisa.
                            E foi assim que, em cumprimento ao meu castigo, meu pai ofereceu-me todas as informações possíveis e impossíveis sobre as cobras venenosas e não venenosas.
                             Eu queria sair rastejando, mas até para isso havia agora uma série de restrições.
                              Para segurança da família, meus pais mandaram colocar alho amassado por toda a propriedade e eu já não aguentava mais sentir aquele cheiro que subia do chão.
                             Cobras?
                             Sim, aprendi tudo sobre elas e consegui enfileirar mais uma dezena de histórias às minhas já conhecidas.
                             Até mesmo porque, cobras não têm pés. Ai!!!, eu lembrava outra vez do meu pé imobilizado e de minha bund... nádegas cansadas de tanto sentar.
                             Bem, para tudo há um jeito, ou uma ideia, e eu armazenava tantas que uma a mais que gastasse não faria falta.
                              Em um final de tarde, ainda nos dias de meu repouso forçado, esperei que minha mãe terminasse a aula de balé.
                                Esperei sentado, como só fazia nos últimos dias enquanto as alunas iam saindo devagarzinho.
                                E enquanto esperava, mergulhava a mão na água da fonte salpicando longas gotas. Muitas gotas, gotas compridas que se espichavam até os saiotes de malha cor de rosa. Muitas gotas, que ficavam cada vez mais grossas conforme aumentava a minha alegria e os gritos das meninas.
                              Se eu não conseguia chegar às brincadeiras, faria as brincadeiras chegarem até mim.
                              Pronto! Simples assim. E vão gotas e mais gotas recheadas com gargalhadas de puro prazer infantil.
                               _ Bruniiiiiiiiiinho!

                              O sinal do perigo. Aproximavam-se os algozes de minha alegria.
                            As mulheres que só faziam olhar para um pobre menino com o pé machucado.
                             Era só uma brincadeira! Uma simples brincadeira!
                             Além de mim e da fonte que sorria silenciosa, ninguém mais concordava com os meus argumentos.
                             Precisei desculpar-me pelas gotas compridas.
                             Na verdade, eu penso que as meninas gostaram da brincadeira, estava quente e o sol...
                              _ Brincadeira sem graça, Bruninho!
                               Tá! Mas enquanto meu pé repousava, minha cabeça aumentava o fundo das ideias. E minha mãe que gostava muito de pintar, não poderia deixar de apoiar minha última invenção.
                             Não era exatamente uma invenção. Eu queria aproveitar de uma maneira melhor, mais inteligente, mais colorida aqueles muros que rodeavam o jardim.
                            Muros brancos parecem frios, vazios, distantes. E algo me dizia que eu faria uma verdadeira obra de arte. Sem colocar o pé no chão, que era a maior preocupação naquele momento.
                            Enquanto todos descansavam logo após o almoço, pulei feito o Saci-Pererê até a oficina de pintura e lá carreguei todos os vidros coloridos possíveis em mais de uma viagem de leva e carrega, leva e carrega.
                             É claro que eu não pintaria o muro daquele tamanho com um pincel pequititito igual aos que minha mãe usava. Precisava de algo maior, mais rápido, mais potente.
                            Claro! A vassoura de piaçava! Ponto para a minha cabecinha pensante!
                            Ponto para o muro e sua beleza radiante!
                            Sobre a calçada derramei várias cores de tinta e com a vassoura mergulhada em todas elas iniciei a minha obra.
                             Várias vassouradas depois e muito suor escorrendo pelo corpo, entendi terminada a primeira parte de meu trabalho. As cores pareciam sair de dentro da terra e subir para fora do muro. Estava lindo. Lindo!
                               _ Meu Deus! Bruniiiiiinho!!!! O que é isso?
  
                              _ Minha obra de arte, mamãe. Quero ser igual a você!

                             Não sei exatamente se minha mãe gostou ou não daquele trabalho tão exuberante, mas posso lembrar com clareza que durante dias não se falava outra coisa em minha casa. Mas sem que eu levasse qualquer bronca, o que era sinal inegável do reconhecimento de meu talento. Puxara à mamãe. Era filho dela!
                             Não pude terminar todo o muro que logo, loguinho voltou a ser branco. Mas lembro com prazer dos riscos da vassoura sobre a tinta branca. Esse episódio com certeza marcaria minha vida profissional. Pois até hoje, não posso ver qualquer superfície sem cor que me sinto impelido a desenhar, riscar, escrever, criar...
  
                         Mas naquela época eu não pensava em crescer. Queria apenas correr e ouvir a fonte dos três pratos. Era o centro de nosso jardim e o centro de minhas especulações.
                         No final do verão de meus quase seis anos de idade, resolvi testar uma questão que não deixava minha cabecinha com fundo sem fundo parar de pensar: será que os sapos passariam pelo buraco da fonte? E, será que os peixes poderiam nadar para cima?
                          Não era possível saber sem testar.

                          Durante dias procurei os maiores sapos que a redondeza poderia esconder. Não fui eu a procurá-los, exatamente, mas a “encomendá-los”. 
                         Quando meus amigos souberam de minhas intenções, esmeraram-se em caçar todos os sapos da rua. Claros, escuros, gordos, magros, marrons e verdes ou amarelados (foi aí que eu conheci a rã-pimenta, famosa por sua reação diante do perigo), todos eles foram colocados à frente da fonte, em caixa ou sacos de plástico.
                        Ao todo, deveriam estar ali mais de 20 sapos.
                        Mas para a experiência ficar completa, faltavam os peixes que foram pescados diretamente do açude no final do quarteirão.
                         Os peixes pareciam tão feios quanto os sapos, mas eram peixes, nadavam e deveriam servir para fazer o teste.

                          Colocamos todos os bichos ao mesmo tempo dentro do primeiro prato da fonte.

                          Só fomos descobertos porque na alegria de pegar novamente os sapos que saltavam para fora, meus amigos se empolgaram e deixaram sair pela garganta uns gritos exageradamente altos.
                           Não consegui completar meu estudo. Sentado na cadeira e no meio de todos os meus amigos, ouvi um sermão comprido sobre respeito à natureza e ao espaço dos animais silvestres.
                             _ Os sapos eram aqui da rua...

                             O sinal de perigo aumentava se eu não soubesse calar e escutar.
                             Escutei. E juntos, eu e meus amigos limpamos a fonte. Escovamos os pratos e ainda devolvemos um por um os sapos encontrados.
                            Bem, novamente eu só olhei o serviço sendo feito pela rua, como se cada sapo fosse devolvido a sua casa.
                                    Dizem que eu cresci. Também acho. Mas não sou muito alto para a minha idade.
                              Minha cabeça aumentou o fundo e encheu-se de novas e mirabolantes ideias. Vivo delas. As ideias salvam a minha vida todos os dias.
                              A fonte dos três pratos continua comigo.
                             Agora, transplantada em outro jardim, sussurra histórias em um tom baixinho, como se cochichasse ou temesse ser ouvida.
                             Eu a ouço. E mesmo quando o barulho da rua parece apagar a sua voz, entendo que ela precisa de um guarda-chuva, ou de um cobertor, ou apenas de um pouquinho de silêncio.
                              Atrás da porta lá de casa, deixo sempre algumas coisinhas à mão. Mas ainda fica difícil explicar a quem não me conhece, porque não as guardo no devido lugar.
                             E logo para mim fazem essas perguntas. Logo para mim...
                           _ Bruno!? O que é que isso faz aqui?
                           _ Bruno!? O que você vai fazer com isso aqui?
                           _ Brun...

                         Ai!!! Quem disse que eu sei?
                         Onde está escrito que “coisas” não podem servir para outras coisas?
                        Sempre há um momento em que as coisas se encaixam, se acomodam ou mudam de lugar, de serventia. Sei lá!!!
                         Coisas são coisas... e isso já é bastante para pensar.
                         O que fazer com elas depende de cada um.
                         Pois não é que ainda jogamos fora a maior parte das coisas que usamos?
                        Então!!! Eu sou uma pessoa que pensa nas coisas como elementos          que têm muitos ciclos, muitos ciclos de uso e de reinvenção...
                        Coisas são ideias que tomaram forma e eu gosto muito de imaginar todas as formas que ainda podem tomar.
                        Para contar uma verdade, até hoje ninguém descobriu o que eu guardo no último prato da fonte de nosso jardim.
                         Às vezes, quando penso que as ideias de minha cabeça sem fundo mudaram de lugar, eu vou até a fonte, coloco a ponta dos dedos na ponta de cimento e... a “coisa” que guardo lá cria vida! Pula para fora, rola pelas minhas lembranças e enche meu peito de alegria.
                       É só uma “coisa”, mas para mim, tem a forma que preciso para acreditar que ainda pulo feito Saci-Pererê!
                      Quer visitar a minha casa?
                       Se encontrar dificuldade para localizar-me, dê uma olhadinha na parte mais alta de qualquer fonte que encontrar... você pode levar um susto! Ou, pode descobrir que muitas “coisas” não mudam de lugar.
                   Mudam?!
           





A FAZEDORA DE
                                          BONECAS
                                                                                 Ivane Laurete Perotti

Dedicatória:
                     "Para as avós que sustentam a infância de seus netos no seio da imaginação.”

                                        _ Mingas! Mingas! Não consigo encontrar a Florzinha! Será que ela... ! ?
                                     _ Não! Hoje o lobo está dormindo.
                                     _ Como você sabe?
                                     _ Eu sei. Está vendo aquela nuvenzinha arredondada, bem baixinha, perto das árvores cumpridas?
                                     _ Sim, estou.
                                     _ Aquela nuvem é o sonho do lobo.
                                     _ Sonho? Como assim?
                                     _ Lobos, quando sonham, criam nuvenzinhas de poder.
                                     _ E para quê?
                                     _ Nessas nuvenzinhas eles guardam o segredo de muitas gerações de lobos.
                                     _ E é!? Você nunca me contou isso antes...
                                     _ Você nunca perguntou...
                                     _ Mingas, e se ele acordar e sentir fome?
                                     _ Sim? Ele irá procurar comida.
                                     _ Mas... e se... ele... sabe!?
                                     _ Não! Não sei! O que eu deveria saber?
                                     _ Você sabe, sim. Ele já engoliu uma vovozinha uma vez, lembra? E se...
                                     _ Ah! Entendi! Mas não se preocupe, ele não gosta de mim.
                                     _ Quem disse isso?
                                     _ Eu disse e lhe garanto que é verdade!
                                     _ Você é vovozinha, ele...
                                     _ Eu sou uma vovó grandona. Ele jamais conseguiria me engolir.
                                     _ Você faz outra boneca para mim? Faz?
                                     _ Faço! Claro!
                                     _ E um vestido de princesa...
                                     _... bordado com pedrinhas azuis...
                                     _ É, vóvi, você não me deixou terminar.




                                     Antes que o lobo acordasse, Mingas dava conta de começar mais uma boneca. E eu sabia que esta também seria especial.
                                     Sentada no quintal sem fim, em frente à entrada da floresta encantada, ainda tentei reconhecer a nuvenzinha arredondada. Mas para mim, ela já parecia um camelo manco. Seria outra nuvenzinha de poder formada pelo sono do lobo?
                                     Queria entrar na floresta enquanto ele estivesse dormindo.
                                     Mingas explicava que quanto mais profundo o sono do lobo, mais invisível ele ficava aos olhos humanos.
                                    _ Lobo ronca?
                                    _ Não sei, querida. Nunca consegui chegar tão perto dele para saber.
                                   _ Eu acho que ronca!
                                   _ Por que você acha que ele ronca?
                                   _ A tia Lu sempre fala que o tio Fipe ronca porque é muito barrigudo.
                                   _ Sim, pode ser. Mas e daí?
                                   _ Eu acho que o lobo é muito barrigudo. Então ele ronca!
                                   _ E porque ele seria barrigudo? Será que...
                                   _ É barrigudo sim, vóvi. Ele é peludo e barrigudo. Tem focinho comprido e orelhas em pé. E é peludo. Não toma banho!
                                   _ Nossa! Que lobo...
                                   _ Eu vi. Eu vi a pata dele outro dia querendo sair devagarzinho de dentro da floresta.
                                   _ E saiu?
                                   _ Não! O Pepê cantou bem alto na hora em que a pata aparecia e o lobo voltou para dentro rapidinho, rapidinho!
                                   _ Nosso galo garnisé é um herói!
                                   _ Mingas... e se o Pepê não tivesse cantado!?
                                   Nem sempre ela me dava todas as respostas. Gostava que eu mesma encontrasse um jeito de descobrir as coisas perguntadas.
                                
                                   Minha vida era dividida em duas partes: uma dentro e outra fora do mundo de minha avó.
                                   Quando eu passava do portão da casa dela para dentro, sabia que tudo poderia acontecer.
                                  E esperava, esperava a hora de ir visitá-la.
                                  _ Mingas, você fez quantas bonecas nesta semana?
                                  _ Bem... as fadas tecedeiras têm andado muito ocupadas ultimamente. Assim, estou quase sem ajudante!
                                 _ Eu fico no lugar delas, eu fico!
                                E ficava!
                                 Ficava para ajudar a fazer moldes e a guardar mais um segredo: a massa que fazia parte do “fazimento” das bonecas vinha do outro lado da floresta, de uma fábrica ainda mais encantada que todo o resto do quintal.
                                 Mingas modelava as bonecas, as roupas das bonecas, os cabelos das bonecas, e tudo fazia com a participação das fadas.
                                Fadas e lobos não se misturam. São de histórias diferentes, mas como o quintal da casa de Mingas era muito grande, não havia risco de se encontrarem; além disso, as fadas conheciam uma passagem secreta para chegar à oficina de bonecas.
                           A oficina ficava perto da floresta, separada por um espaçozinho muito pequeno. Mas ali o lobo nem tentava chegar. Oficina de fazedora de bonecas é encantada e ninguém pode entrar sem permissão. Isso era impossível.
                            Além disso, quando minha vóvi resolvia entrar lá dentro, ninguém respirava. Era tanta ansiedade esperando para ver o que ela fazia que até mesmo o lobo, dentro da floresta, ficava em silêncio, quietinho.
                            Esse era um pedacinho do meu mundo com Mingas.
                            _ Vóvi! Eu estraguei o olho da Noemi.
                            _ Calma, Laurinha! Você não estragou, não.
                            _ Mas ela não quer abrir para eu ver se está acordada!
                            _ Possivelmente porque esteja dormindo!
                            _ Não! Ela acabou de conversar comigo, daí fechou só este olho, está vendo?
                            _ Estou!
                            _ Mingas, será que a gente pode dormir fechando um olho só?
                            _ Não sei, Laura. Eu nunca tentei!
                            _ Não? Pois então, eu vou tentar. Hoje à noite vou deixar um olho aberto para ver as fadas da limpeza, e...

                            Eu nunca descobri se meu olho fechava sozinho ou minha avó o fechava. Nunca soube.
                            Ela tinha muita preocupação com as fadas da limpeza. Dizia sempre que o trabalho mais difícil ficava para elas. E que nós só poderíamos enxergar o que elas faziam, no dia em que entendêssemos isso.
                          Eu achava difícil entender essa parte, não porque não soubesse que as fadas da limpeza faziam um serviço cansativo. Mas porque para estar dentro da oficina de Mingas eu faria qualquer tipo de trabalho, até mesmo o de polir as bonecas. Coisa que ela impedia qualquer um de fazer.
                          Quem sabe um dia, quando ficasse maiorzinha, Mingas me deixasse ver as fadas da limpeza.
                         E tinha ainda as fadas da costura.
                          Mingas sabia costurar como ninguém, mas eram tantos os vestidos para todas as bonecas que ela precisava de uma ajudazinha.
                        Cortar, costurar, bordar, experimentar... algumas reclamavam muito quando os vestidos não ficavam do jeito que elas queriam.


                      Houve uma vez, bem antes de eu nascer, que minha avó precisara de ajuda para vestir uma boneca. Todas as fadas tecelãs acudiram e... nada!
                      Chamaram as desenhistas e. nada!
                      Foram buscar a fada das cores e. nada!
                      Ninguém convencia a boneca “reticente” que aquela roupa ficara bem nela.
                      Tanto trabalho deu que as fadas costureiras pediram a Mingas que costurasse uma nova peça. Elas fariam o acabamento ainda antes do anoitecer.
                     Cheia de boa vontade, Mingas costurou e costurou e costurou. Fez um novo um vestido todo cheio de babados e um casaquinho para colocar sobre os ombros. Tudo na mesma cor, para combinar com os olhos da boneca.
                       Qual o quê! Ainda antes de a noite chegar, tentaram com muito esforço vestir a roupa na bonequinha. Nada! Ela nem descruzava os braços para o vestido passar.

                       Ficava lá, batendo o pezinho e fazendo ar de quem iria a qualquer momento começar um choro sem fim.
                       As fadas e Mingas já não sabiam mais o que fazer.
                      Todas estavam cansadas, pois não era apenas daquela boneca que precisavam cuidar. Tinham uma remessa de mais de 11 bonecas para entregar logo de manhã. Elas seriam levadas para um hospital, onde crianças muito doentinhas esperavam por elas.
                        Quanto mais se esforçavam, mais teimosa a boneca ficava.
                        As fadas foram desistindo, uma a uma. E ali mesmo na oficina, deitaram suas leves cabecinhas para tirar um cochilo antes de recomeçarem o trabalho. O dia era tão curto para tantas encomendas!
Que Mingas também descansasse e deixasse aquela boneca teimosa pegar um resfriado. Imagine! Ela ainda estava como fora feita! Sem uma roupinha sequer.
                        Quando Mingas ficava muito cansada, costumava cantar uma canção que hoje eu também aprendi.
                         E, cansada, Mingas cantou assim:

 "Costureira, costureira,
  Sabes bem o que fazer,
  Sabes onde está a alegria
  E os tecidos para coser.
  Costureira, costureira,
  Veste logo o avental.
  Em teus dedos delicados,
  Aceita este dedal.
  Vem de longe a tua procura
  A moça e a anciã,
  Todas as duas querem de ti
  A beleza da manhã.
   Costureira, costureira
   Receba o meu penhor,
   Pelas linhas e tecidos
   Por todo esse esplendor.
   Costureira, costureira...”

                            Cada versinho vinha deslizando para fora do coração de minha avó.
                           Ela cantava como a avó dela ensinara; e que aprendera com a avó dela também. Eram muitas avós nos mesmos versos.
                           A música espantava o cansaço e trazia força para as mãos das costureiras.
                           As agulhas, mesmo que levinhas são como as enxadas que furam a terra para dar um bercinho às sementes.
                         As agulhas abrem espaço para as linhas abraçarem os tecidos. E como a terra, os tecidos às vezes também não gostam de ser invadidos. São firmes, resistentes, difíceis de furar.
                         As agulhas, incansáveis, precisam ir e vir tantas vezes quantas se fizerem necessárias para abraçar com segurança as dobras dos tecidos cortados. Se não for assim, no primeiro movimento de braços e ombros muito fortes, as linhas são expulsas de seus buraquinhos e o tecido abre-se inteirinho.
                   Vida de costureira não é fácil. Mingas cantava. Melhor cantar do que reclamar.
                   Enquanto ela cantava, a boneca teimosa ficara lá, emburrada, com o pezinho subindo e descendo sobre o tampo do balcão. Era a única a estar sem roupa. Todas as demais bonecas desfilavam umas para as outras mostrando seus belos vestidos, suas capas, suas saias de organdi, seus casacos de veludo.
                     Algumas exibiam chapéus finamente entremeados pelas fadas tecelãs.
                    Outras carregavam pequenas bolsas costuradas em couro e lona. Todas muito bonitas, esperando a hora de ser entregue a uma criança. Precisavam de uma criança para continuar sendo bonecas, essa é a lei da sobrevivência no mundo “bonecal”.
                    Nenhuma das bonecas queria ser esquecida em um lugar qualquer. Por melhor que fosse o lugar, sempre iriam preferir os braços de uma criança. Assunto acertado no mundo das bonecas e das crianças também.
                    Porém, tal não parecia fazer parte das preocupações da boneca ainda sem roupa.
                   Teria ela sido feita de outro material?
                   Seria erro na massa?
                            Algum encantamento desconhecido?
                            Uma doença que nunca antes aparecera?
                            Seria normal?
                            Apenas Mingas não perguntava nem reclamava.
                             Cantava como se fosse essa sua única tarefa. Cantava e cantava e cantava. Até suas mãos acompanhavam as notas da música.
                             De nota em nota, toda a oficina aderiu à melodia. Não havia um retalho sequer que não vibrasse em parceria.

                            As agulhas saíram dos agulheiros, as linhas enfileiraram-se em gama de cores, os dedais subiram à mesa de corte e ensaiaram passos de uma dança que acabavam de inventar.
                          As tesouras abriam e fechavam em leque, contando a cadência de cabeça para baixo.
                            Tecidos em rolos soltavam-se em longos véus, laçando cadeiras e máquinas de costurar.
                            Os carretéis que esperavam novos fios, devidamente guardados entre os objetos recicláveis, improvisaram uma participação triunfal: desnudos das cores que os legitimavam, enrolaram-se nos restos de tecidos que dançavam embaixo das mesas.
                           Os pequenos retalhos foram tomados de surpresa pela chegada dos carretéis. Normalmente sem muita serventia a não ser a de carregar linhas e fios, os rolinhos de plástico mostraram que sabiam mais, muito mais do que todos imaginavam. Dançaram com a leveza dos dançarinos experimentados. Repetiram passos do tango, da valsa, do merengue e sequer se perdiam da cadência ditada pela canção, que em nada lembrava nenhuma dessas modalidades musicais.
                     Era essa a magia que dava corpo à música das costureiras: cada um ouvia o que passava pelo centro do coração. Não que ouvidos não fossem importantes _ ao bem dizer a verdade, nem ouvidos nem corações estavam em pauta, pois o que se passava na oficina carecia desses detalhes _ mas, no momento em que a música ecoava, a última preocupação era “ouvir”.
                        Outros sentidos se faziam presentes. Difícil de explicar! Mas talvez uma palavra pudesse aproximar um pouco o que se passava do que se tenta descrever: sinergia!
                         Sinergia! A oficina de Mingas estava tomada por uma experiência diferente. Tudo era possível naquele momento!
           
                         
                         É claro que as fadas acordaram com tanta movimentação!
                       Quem poderia dormir enquanto a oficina dançava ao som da música cantada por Mingas?
                        Só a boneca sem roupa permanecia no mesmo lugar.
                         Em sua frente rolavam botões multicoloridos, ao seu lado saltavam miçangas douradas, com o cuidado de grandes saltadoras para não se perderem nas frestas da mesa.
                           Para cima e para baixo esticavam-se metros e metros de fita de seda.
                        As fivelas, as presilhas e os zíperes subiam pela cortina da janela e colavam-se uns aos outros, desenhando uma paisagem florida, alegre, resplandecente.

                         Nada demovia a boneca teimosa. Quanto mais dançavam ao seu redor, mais ela apertava os braços contra o peito, em sinal de que não estava interessada. Fechada em si mesma, a boneca continuava sem roupa.
                         Quando Mingas terminou de cantar, terminara também mais uma roupa para a boneca experimentar.
                        De uma vez só, todos voltaram aos seus lugares.
                         Nem os ilhoses ficaram para ver. Jogaram-se em carreira para dentro da gaveta recolhendo-se ao silêncio dos que sabem observar.
                          E lá seriam estultos em aguardar por alguma farpa que os atravessasse? Nunca! Não tinham estômago para tamanho descuido! A gaveta oferecia um excelente abrigo.
                          Era um vestido de baile!
                          Parecia não ter qualquer costura.
                           O tecido leve e vaporoso juntava-se em pregas suaves, dobrando-se a partir do busto.
                           As saias saíam da cintura, onde uma fita bordada com pequenas pérolas terminava em laço, atrás, nas costas.
                         Era lindo!!! Mais do que lindo. Não parecia ser real.

                         Os olhos da boneca brilharam diante de tamanha beleza.
                          Imediatamente descruzou os braços e deixou-se vestir. 
                           Realmente, era uma peça inigualável. Digna de uma princesa em conto de crianças... ou de fadas... ou de...
                            _ Ei! Não entendemos o porquê de tanta resistência diante das outras roupas. Esse vestido é principesco, mas os outros também são muito bonitos _ era a voz da fada desenhista, um pouco descontente, podia-se perceber.
                           Também pudera! Já ia noite adentro quando...
                           O silêncio pesara sobre a oficina.
                            Um tanto quanto desenxabida, mas nem por isso menos contente, a boneca agora vestida, deixava também que Mingas arrumasse os seus cabelos.
                            _ Bem, é que... sabe! Eu...
                              No final, depois de muito gaguejar, a boneca explicou que conhecia seu destino e que não seria outro a não ser o de uma princesa.
                               O silêncio quebrava-se diante de muitos óooooooohhhhsss!!!!!!!!!
                              Não era possível saber se de concordância ou contrariedade. Mas foram todos unânimes em mostrar espanto e surpresa e espanto outra vez diante da fala da boneca.

                              Sim, muito espanto!
                              Pois para quem quisesse saber ou duvidasse, só existia um destino para as bonecas criadas por Mingas. Um só: os braços das crianças que amavam bonecas.
                             Como uma boneca teimosa ousava entender que tinha um destino diferente?
                              Por alguns minutos, a oficina parecia fora de controle. Quem não falava, gesticulava, quem não fazia um dos dois, pensava e pensava e pensava.
                               Mingas nada dizia. O sorriso em seu rosto mostrava que ela estava compreendendo algo que para os demais passara longe.
                              Mingas entendera: aquela boneca já ouvira histórias em sua curta vida de recém-fabricada. Não era nada tão incomum assim. Bonecas também criam expectativas e essa!,.. bom, essa deveria ter ouvido a última história contada pelos alfinetes: CINDERELA!
                              Por entender esse detalhe, costurara um vestido igual ao da princesa da história.
                              Pronto!
                               Resolvido o problema da boneca, a oficina recolheu-se para dar espaço ao trabalho das fadas faxineiras. Elas esperavam há horas. E precisavam partir antes que o sol nascesse.
                              Essas bonecas inventavam cada uma!
                                Mingas era condescendente _ (cuidado com essa palavra! Alguém da oficina já a confundiu com título de nobreza... na dúvida, procure imediatamente o dicionário!) _ demais!
                              A qualquer momento as bonecas estariam decidindo a cor dos olhos e dos cabelos, o tamanho da boca, do nariz e o comprimento das pernas.
                            Um despropósito!
                            Um descaramento!
                             Um...
                              Já imaginaram a possibilidade dessas bonequinhas expressando vontades?
                             Hunf!
                             Hunf!
                             Hunf!
                              Era o muxoxo de uma das fadas que agora enfrentava com atraso o serviço da limpeza.
                             Imaginem só! E se essas coisinhas bonitinhas resolverem pensar?
                             E se pensando acreditarem que têm direitos e direitos e direitos de ter direitos?
                             E se souberem dessas histórias sobre sin... sin...
                            Sindicato!
                             Isso mesmo: sindicato! Já imaginaram a loucura que seria nessa oficina? E... nas outras oficinas? O que seria do mundo das fadas se as oficinas estivessem cheias de bonecas sindi... sin...
                           Sindicalizadas!
                           Isso! Sin... sindicalizantes!
                           Sindicalizadas!
                            Hunf! É tudo a mesma coisa! Bonecas cheias de vontade!!! Hunf!!!
                           Enfim, os discursos de desagrado tomaram o rumo do cansaço.

                           Aos poucos, muito aos poucos a oficina serenara. Não sem antes registrar mais algumas considerações sobre o episódio da boneca teimosa que acreditava em destino.
                          Bom! Ou não!
                           Essa história de destino servia para alguns e para outros passava longe.
                            Já imaginou se a história das bonecas pudesse sofrer todas as alterações que a própria boneca desejasse?
                             Parece mais coisa da vida humana, não da vida das bonecas.
                            Discutir sobre isso não dá!
                            Cada boneca que pensasse por si só.
                            E foi assim que Mingas contou acerca do vestido e sobre a boneca.
                              Entendera que naquele caso em especial, a boneca fabricada do mesmo modo e material com que todas as demais foram feitas, conseguira fazer-se singular.
                               Teimosia não é um exemplo de comportamento, mas com um pouquinho de paciência e muita sabedoria, qualidades que em Mingas sobrava , seria possível entender que a boneca estava tentando se expressar.
                             _ Se expressar? Mas vóvi!  Ela foi muito... muito... “mal-educada”!
                             _ Sim, concordo. Mas ela estava tentando encontrar uma maneira de dizer o que desejava.
                            _ Teimando?
                            _ A teimosia pode ser um mau sinal. Mas nesse caso...
                            _ Nesse caso?
                            _ Sim! Nesse caso eu prefiro... veja bem!, eu prefiro chamar de persistência!
                           _ Então!, persistência e teimosia é a mesma coisa?
                           _ De modo algum, nananinanão!
                           _ Não entendi, vóvi!
                           _ A diferença entre os dois é realmente muito sutil.
                           _ Sutil?
                             _ Isso! Quero dizer que é preciso prestar muita atenção para perceber que a teimosia não faz bem a ninguém. Já a persistência! Ah! A persistência só aparece naqueles que sabem o que querem.
                           _ Ai! Vóvi, me explica essas coisas outro dia...
                           _ Tem razão! Explicação demais sempre complica e... estraga a história!
                             _ Vóvi, faz um vestido de princesa para mim? Faz?!Hum... vovinha! Faz!?
                             Se avós atendem a desejos de bonecas, poderiam deixar de atender ao pedido de uma neta? Especialmente, em se tratando de uma neta como Laura?
                            _ E se um príncipe chegar aqui, vó?!
                            _ Eu o mandarei de volta para a história dele. Seu príncipe e você ainda precisam crescer muito!
                            Nessas horas eu conhecia a minha avó. Por isso o lobo não tinha coragem de engoli-la. Não era só porque estava “grande”, como ela costumava dizer. Minha avó era muito, muito forte.
                             Mingas era uma avó de verdade! Nem o lobo poderia negar!

                            Quanto mais eu crescia, mais queria conhecer os segredos da oficina, do quintal, da floresta encantada.
                             Não perdia tempo com quem me dizia que os acontecimentos que eu tentava contar não passavam de trechos da carochinha.
                            _ Carochinha? Eu nunca vi essa moça na casa de minha avó!
                           Moça?! Carochinha é... você sabe!
                            Eu vivia todo o movimento mágico da casa de Mingas. Sabia que ali o tempo era diferente, as coisas tinham outro valor e qualquer que fosse a experiência tinha sabor de coisa nova.
                           Sempre acreditei que casa de avó era assim e que todas as crianças conheciam lobos, fadas e bonecas conversadeiras.

                             _ Vóvi, eu quero entrar na floresta enquanto o lobo dorme.
                            _ É, isso pode ser interessante.
                           _ Mas você não pode ir junto.
                           _ Não?!
                           _ Vó!!! Lobos sentem quando uma vovozinha se aproxima.
                           _ Hummm! Talvez você tenha razão. Mas lembre, eu sou muito...
                           _ Forte! Você sempre fala isso! Mas, vóvi... fortinha ou não você é uma vovó! Só isso interessa ao lobo... então! Não pode entrar.
                            _ Hummm!
                            _ Você faz uma cesta de doces, eu levo junto e...
                            _ E come tudo antes de encontrar o bobo...
                           
                            Nossas gargalhadas espantavam os micos que moravam no jardim e buscavam comida na cesta de frutas da cozinha. Apenas Fräulein não estranhava. Há tanto tempo estava na casa de Mingas, que se acostumara ao jeito de todos nós.
                            Foi depois de uma olhada demorada em “Senhorita”, uma cadela gorda, muito gorda e troncuda da raça buldogue inglês (o nome em alemão foi ideia de Mingas, claro!), que teve início a maior e mais bem lembrada aventura de minha vida.
                           Ah! Como eu não pensara nisso antes?

                          Aqueles músculos todos (apesar da gordura exagerada e da teimosia típica da raça!), aqueles maxilares fortes e largos, o focinho curto e achatado, deixavam Fräulein com cara de cão bravo, muito bravo. Além disso, era uma raça fidelíssima ao dono. Com certeza cuidaria muito bem de mim. Com certeza cuidaria. Então...
                            _ Vó! Vozinha!!! Eu tive uma ideia!
                            _ Mais uma? Conta!
                            _ Bem, você confia em mim, não é?
                            _ É claro que confio, Laura! É claro!
                            _ E você diz para todo o mundo que eu sou muito inteligente...
                            _Sim, pois você é muito inteligente, mocinha.
                            _ Então, se confia em mim e eu sou inteligente, vou planejar uma expedição à floresta encantada e você me deixará ir.
                           _ Hummmm! Eu gostaria de ir também!
                           _ Não! Você fica para o lobo não acordar com o seu cheiro!
                           _ Mas... eu tomo três banhos por dia, Laura!
                           _ Ah! Vóvi... estou falando do cheiro de vovó...
                           _ Hummmm! Tá! Lembrei!
                           _ É, ele não vai querer saber de mim e de todos os meus guardas.
                           _ Guardas? Quem irá com você?
                           _ Isso eu explico depois. Agora vou planejar a minha viagem. Você faz um montão de comida para eu levar junto?
                          _ Faço, mas quando você pretende ir? E, quanto tempo irá ficar? Muita comida irá pesar na sua.. na sua moch... quero dizer, na sua bagagem!
                         _ Não tem problema. Já estou pensando em tudo. Cada um irá carregar um pouquinho. E eu quero ir amanhã bem cedo e só voltar depois de amanhã!
                         _ Laurinha!? Você irá dormir na floresta? Está falando sério?
                         _ Muito sério. Nós iremos dormir lá.

                         _ Nós... Quem você pretende convidar para essa expedição?
                         _ Depois, vóvi! Depois! Agora vou escrever meu planejamento.
                         Mingas levava a sério as minhas atividades infantis. Dizia que ser criança curiosa não era exatamente uma falta, como alguns acreditavam. Ela falava que a curiosidade, quando bem administrada, era um bem! Então! Eu estava fazendo bem em planejar bem! Sinal de minha inteligência.
                         No meio da tarde, eu apresentava à minha avó o planejamento da expedição:

EXPEDIÇÃO PARA A FLORESTA ENCANTA DA VOVÓ MINGAS

    
SAÍDA: terça feira, 8 horas da manhã.

RETORNO: Quarta-feira, de manhã (ainda não sei o horário. Dependerá da comida, se terminar, voltamos antes. E também, do lobo, caso ele acorde, nós voltaremos correndo e gritando).

“MAPA” DA EXPEDIÇÃO: fiz um desenho escrito do caminho (a minha professora disse que também se pode desenhar com as palavras...). Assim:


                 CASA DA VOVÓ:
a)        eu saio da casa da vovó pela porta da oficina para dar sorte.
b)        Chamo os meus seguranças e confirmo todos os nossos apetrechos para a viagem.
c)        Olho para a floresta com muita atenção para ter certeza de que o lobo ainda deve estar dormindo (eu acho que ele está, mas quero ter mais uma certeza... e isso faz parte de um bom planejamento).
d)        Olho para cima e para baixo, confirmo a temperatura e pergunto outra vez para a vovó se não vai chover.
e)        Olho mais uma vez para a minha mochilinha com os lanches só para confirmar que estejam todos no lugar em que os coloquei.
f)         Caminho para a floresta, lembrando de todos os passos que dou, para depois fazer o mesmo caminho de volta.
g)        Mais uma vez eu aceno para a vovó, para dar um pouco mais de sorte.
h)        Converso com os meus anjos de guarda (são mais de um, a vóvi disse que eu tenho pelo menos uns oito anjos que me guardam de noite e de dia), pois não quero que eles esqueçam o que combinamos.
i)          Mais uma vez penso sobre todos os sinais que me mostram que o lobo está dormindo e, se tiver alguma dúvida muito forte, ainda dá tempo de perguntar para a vovó.
j)          Entro na floresta e olho para trás para ter certeza de que a vovó está me olhando.

          
PERIGOS: o lobo, o lobo, o lobo. Mas a vovó irá ficar em casa.

GUARDAS DE SEGURANÇA:
                                    1- FRÄULEIN: ela vai caminhar na frente para assustar o lobo, caso ele acorde.

                                     2-FLORZINHA E BIBI: elas ficarão uma de cada lado, para não ter perigo algum.
                                     3- MYNDUYN: ele vai atrás da gente, porque ele ouve muito bem qualquer ruído.

COMIDA PARA A LAURA: a vovó vai fazer bastante comida: sanduíche que não estraga, frutas bem lavadas que não precisam ser descascadas, várias garrafinhas de água, biscoitos, pães de queijo que não endurecem, suco que não estraga, balas, chocolates para dar força, barrinhas de cereais para eu comer quando der fome, sequinhos de queijo, e batata doce assada e outras coisas que a vovó quiser. Guardanapos de tecido e duas toalhinhas para lavar as mãos no riachinho.

COMIDA PARA OS SEGURANÇAS: ração, água e mais ração. Cada um carrega a sua parte.

ROUPAS ADEQUADAS: vou usar uma calça comprida de moletom sobre um shortinho; para a tarde, se ficar muito quente. Vou usar uma camiseta da escola, boné e vou levar dois casacos, uma capa e uma galocha. Bom. Acho que a galocha não é necessária. Fica fora, para não ocupar espaço.

ROUPAS PARA OS SEGURANÇAS: eles já estão vestidos. CLARO!!! DÃÃÃÃÃÃ!!!

CUIDADOS: filtro solar e repelente contra insetos.

APARELHOS: um celular, óculos de sol para combinar com a camiseta e várias lanternas com muitas pilhas.

ONDE DORMIR: na parte mais próxima da casa da vovó, dentro da barraquinha que a Tia Lu me emprestou. Os guardas de segurança irão dormir em frente à barraquinha.

ONDE VOU FAZER XIXI: bem atrás das árvores, a vovó falou que a urina faz bem a elas.

EM CASO DE PERIGO: grito bem alto para a vovó ouvir!!!

IMPREVISTOS: já pensei em tudo, se acontecer alguma coisa que me assuste muito, eu ligo para a casa da vovó imediatamente.


                      Mingas aprovou meu planejamento.
                      Era só esperar; a expedição seria um sucesso.
                      Difícil dormir.
                      A gente vive antes aquilo que espera acontecer. Nem sei se já não acontece quando a gente pensa e pensa e depois só repete o que pensou.
                     Não sei... essas coisas da vida criança só vive, nem sempre entende.
                      Quando chegou a hora de partir, minha expedição estava pronta. Todos bem carregados com a sua própria mochila.
                      A meu pedido, Mingas ficou olhando da porta de casa enquanto entrávamos na floresta. Era um momento sublime. Eu até pedi a ela que fotografasse a saída da expedição.
                      Fräulien, com sua carga pessoal, encabeçava nosso grupo.
                      Eu ficava no meio, era um jeito inteligente de estar protegida todo o tempo .
                      Na entrada da floresta, após os primeiros passos dentro da mata, ouvi que as árvores sussurravam sobre nossa chegada. Queriam ter certeza de que minha avó ficara em casa. Claro que ficara! Não a deixaria correr esse risco. Imagine só!
                      Algumas árvores mais altas deitavam os galhos bem pertinho de nós, espionando, cheirando, escutando. Árvores são sensíveis e temerosas. Avisam uma à outra sobre qualquer visita aos seus domínios.

                      Os micos participavam dessa pesquisa. Os que eram nossos conhecidos não mostraram muito interesse. Porém, aqueles que viviam mais no interior da floresta, observavam-nos um tanto intranquilos.
                       Mas isso era um espetáculo para nós. Quanto mais bichos pudéssemos ver, mais teríamos para contar na volta.
                      A única preocupação era não fazer muito barulho. Dizem que lobos têm o sono levinho. Apesar de roncarem. E mesmo muito curiosa, preferia deixar o lobo dormir, pelo menos dessa vez. 
                      Árvores, arbustos, plantas que eu não conhecia, flores grandes e pequenas de cores variadas apareciam pelo lugar.
                       Não era possível cotar a variedade de pássaros que voavam entre as folhas ou pulavam de galho em galho cantando o seu próprio canto.
                      O sol entrava por alguns espaços, mas na maior parte dentro da floresta era muito fresquinho. Quase frio. O que me fez vestir o casaquinho que levava na mochila. E esse friozinho era a prova de que estávamos mais para dentro da floresta encantada.
                       Eu sabia que no meio dela existia um riacho, ou ribeiro, como vovó falava. Era um regato, com água pura, purinha correndo sobre pedras lisas.
                         Esse riacho cortava metade da floresta, e os animais costumavam beber água em sua cabeceira.
                         Estava a ouvir o barulho da água correndo sobre as pedras, quando Florzinha deu um sinal estranho.
                      _ O que foi menininha? O que você está cheirando?

                       Pela forma como Florzinha fuçava o arbusto ao nosso lado, entendi que ela percebera alguma coisa.
                        Logo todos os cachorros rodeavam a mesma planta.
                         Cobra não deveria ser. Mingas dissera que nessa época do ano elas ficavam escondidas, acasalando. O que me deixara bem feliz, porque não gosto muito de cobras, mesmo as que não são venenosas. E, sempre seria possível encontrar uma serpente encantada. Assim, melhor que elas estivessem em suas tocas. Muito melhor!
                       _ Vamos, amiguinhos. Vamos Mynduyn! Deve ser um gafanhoto comendo folhas. Vamos!
                       Eu mal acabara de chamar os meus guardas quando um animal peludo saltou do arbusto. Parecia um rato, parecia um coelho pequeno. Nossa!
                       O susto fora geral.
                       Os cachorros resolveram correr atrás dele e eu precisei correr atrás dos cachorros.
                     Eis aí um acontecimento imprevisto. Quero dizer, mais ou menos, porque os meus amiguinhos caninos corriam atrás de qualquer coisa que se mexesse. Qualquer coisa!
                       _ Voltem aqui! Calma! Fräulien... Florzinha... Bibi...

                       Eis uma prova de que à vezes os cachorros ficam surdos.
                        Nenhum deles me escutou. Só pararam de correr quando o animalzinho entrou por debaixo de uma pedra e desapareceu.
                       Eu precisava tirar o casaco. Correra entre as árvores e estava sentindo calor.
                       Procuramos a pedra mais próxima do riacho e sentamos para descansar.
                      Pelo tempo que caminhávamos, deveria ser metade da manhã. Melhor consultar o relógio do celular. E, aproveitar para fazer uma ligação para a vovó.

                       _ Sim, vóvi. Nós já vamos comer. Pode deixar. Vou lavar bem as minhas mãos.
                       Vovós são mães duas vezes. Por isso tanta preocupação.
                        Comi um lanchinho, enquanto os meus guardas de segurança preferiram apenas beber água do ribeiro. Bem que, se eu tivesse deixado, teriam ficado ali, brincando na água que corria e corria, lentamente, por sobre as pedras.
                          Não vou contar quantas vezes precisei parar para fazer xixi. Isso não tem muita graça. Mas fiz tudo direitinho, como a vovó me explicara.
                            Já os meus amiguinhos, especialmente o Mynduyn, paravam em toda e qualquer árvore que encontrassem. Não sei como conseguiam fazer tanto xixi. Não sei! Coisas de cachorro marcando o território... eu acho!
                            Quando senti uma fome maior, paramos para o almoço. Até aí eu já havia feito várias fotos. E estava curiosa para chegar à cabeceira do ribeiro, onde sabia iria encontrar muitos animais.
                             Comi e descansei.
                              Esperava que tudo continuasse assim calmo, já que o lobo parecia estar dormindo ainda.
                             Quase me esquecera dele!
                              Será que não sentira a nossa presença?
                              Eu estava certa em deixar a vovó bem protegida em casa. Se ela estivesse ali, conosco, o lobo certamente já teria cordado. E daí, adeus excursão!!!

                              Decidi que andaríamos mais um pouco e escolheríamos um lugar para armar o pequeno iglu que a tia me emprestara. Era uma barraquinha colorida e só cabia uma pessoa dentro. Muito fácil de armar. Nem precisava fazer força.
                              Quando chegamos à cabeceira do riacho, um grande susto nos aguardava. Os meus cachorros de guarda também se assustaram. Que animal era aquele?
                              Bebendo água e cheirando o ar, nós vimos uma onça pintada. Eu sabia que não deveríamos fazer qualquer barulho, mas na hora do susto, a gente até esquece o que sabe.
                              Fräulien ensaiou um rosnado, mas eu a impedi de continuar. Melhor ficarmos bem quietinhos, escondidos, até a onça terminar de beber.
                              Foi difícil segurar a Bibi. Pequena e nervosa queria atacar a onça. Precisei segurá-la no colo e pedir várias vezes que se acalmasse. Essa parte foi ainda mais difícil. Bibi tremia. Parecia estar tendo um ataque.
                             A onça pintada parecia não ter ouvido nada! Ainda bem! Assim, de longe (não muito longe, na verdade!), ela lembrava um gato crescido. Um gato grandalhão.
                            Depois de beber calmamente, a onça se foi ainda mais lentamente. Eu pensei que ela era a rainha da calma. E a Bibi, a rainha do chilique.
                            O susto não passara ainda, quando um tucano conhecido do quintal de Mingas fez um voo raspando em minha cabeça.
                            _ Ora!... seu bico comprido! Que susto! Não sabe avisar que está chegando?
                             Desconfiei que fora mandado por minha avó para saber como ia a nossa expedição. Mingas confiava em mim, eu sabia disso, mas ela era a única que conhecia muito bem aquela floresta. Estava apenas tomando algumas precauções, como gostava de dizer.
                            _ Tudo bem! Pode olhar... estamos muito bem! (apesar do susto!) Não é amiguinhos?!

                            Bico comprido voou junto conosco, chamando outros tucanos para fazer companhia.
                            A expedição crescera.
                          O barulho das aves era tão alto que por um momento tive medo que o lobo acordasse. Mas foi só por um momento, pois como por encanto, elas pararam de fazer barulho e empoleiraram-se nos galhos de uma árvore muito alta.
                           As folhas desapareciam atrás das penas coloridas dos tucanos.
                            Eles haviam encontrado um belo lugar para passar a noite.  Então, eu armaria o iglu para dormir ali também.
                            Coloquei as lanternas uma ao lado da outra, e as pilhas de reserva emparelhadas a elas.
                            Desamarrei as mochilinhas de meus amiguinhos caninos e coloquei a quantidade certa de ração para cada um.
                            Claro que eu comi também. Mingas preparara tantas guloseimas além das pedidas por mim...  daria para ficar mais dias na floresta.
                            O riacho estava perto e foi lá que lavei o rosto, as mãos e os cachorros brincarem por um bom tempo.
                              Estava escurecendo quando voltamos para o acampamento.
                              Deixei duas lanternas acesas, só para poder olhar melhor a paisagem que escurecia.
                              E não é que dentro da floresta a noite parecia mais escura?
                              Melhor entrar no iglu e fechar o zíper. Os meus fiéis guardas de segurança dormiriam na porta dele, um pertinho do outro, como sempre faziam.
                              Ajeitei-me entre as duas lanternas acesas e não gostei muito do resultado.
                              Para dormir logo, antes que escurecesse ainda mais, resolvi brincar de desenhar sombras na parede da barraquinha.
                               Péssima ideia!!!
                               Sem querer, minhas mãos desenharam um lobo com a bocarra aberta. Depois dele, outro lobo com o focinho para cima. E mais outro, e outro.
                                Não conseguia desviar o pensamento do lobo que ainda não vira.
                               Ele deveria estar dormindo e Mingas dissera que quanto mais profundamente dormisse, mais invisível ficava aos olhos humanos.
                           Estaria dormindo?
                           Será que não sentira o cheiro das guloseimas?
                           Não! Lobo não gosta de guloseimas. Apesar de ser muito barrigudo, pançudo mesmo! Ele só era glutão em relação a...
                          E se ele sentisse o cheiro dos abraços de Mingas em minhas roupas?
                          Será?
                           Melhor dormir logo.
                          Se ele se aproximasse, meus amiguinhos dariam o alerta.
                            Além disso, o celular estava bem ali. Com a bateria carregadinha, carregadinha. Não havia perigo.
                            Não? Não mesmo?
                            Ai, não estava gostando naquele friozinho que começava a aparecer na barriga.
                           Estava quente ou estava frio?
                            Por que só os grilos faziam barulho? E isso? Seriam corujas?
                           Folhas tremem?
                           Galhos se mexem?
                            Eram grilos! Claro! E quando tem grilos é um sinal de que nenhum bicho os comeu!
                             Bichos? Ai!!!!
                              Melhor prestar atenção na conversa dos grilos. Não é exatamente por isso que eles são chamados de “falantes”?
                             Claro!  Muito claro! Existia até uma história interessante sobre um “grilo falante” que era fi... fisófolo... ou filósoflo... ou... bem! Não importa o que ele era além de falante!  Era falante e pronto! E quem é falante fala muito, muito mesmo, possivelmente, porque pensa muito também! Igualzinho a euzinha! Mas eu não estava falando, só pensando, porque a voz não estava falando para fora, só para dentro! A voz não queria sair para não me assustar mais e, além disso... eu poderia assustar os meus guardas de segurança! Melhor falar para dentro e ouvir a conversa dos grilos. Mas eu não aprendera “grilês”, e isso poderia ser um problema, porque para escutar a conversa de alguém, a gente precisa falar a mesma língua! Não! Não é a língua, porque a língua fala sozinha, ela se mexe, sai para fora da boca, igualzinha a minha língua que passava e passava saliva nos meus lábios. O nome deveria ser outro, porque língua eu tinha e pelo jeito os grilos também tinham, pois não paravam de falar. E não deveriam parar de pensar também!
                    Ai!!! O que será que eles falavam? Eu... eu bem que queria saber para não pensar tanto no medo que já estava esfriando as minhas costas!
                     Os grilos não sentiam medo, eles estavam em casa. Eu também!
                      Os grilos falavam, as abelhas falavam, as formigas falavam...

                             E!...e. e...
                             Grilos?
                              Grilos, formigas, minhocas, cupins...
                             ...a... ar... aranhas.!
                            Aranhas fazem barulho?Aranhas conversam?
                           ... a... ara... aranhas!!!
                             Não pensara nisso!
                             Esquecera-se das aranhas!!!!

                             _Vooooooó! Mingaaaaaaaaaaaaasssss!!!

                             Só no outro dia meu pai foi buscar minhas coisas.
                              As duas lanternas estavam com as pilhas descarregadas e as formigas haviam atacado minha comida.
                            _ Tudo bem! Tudo bem, meu amor! Você fez ótimas fotos e conseguiu não acordar o lobo.
                            _ Será, vóvi?
                            _ Com certeza! Está vendo a nuvenzinha sobre as árvores? Ele ainda está em sono profundo.
                             Além de mim, os meus amiguinhos acompanhavam a mão de minha avó apontando para o céu.
                             Não sei qual de nós quatro atravessou o quintal primeiro durante o tempo que durou o meu grito.
      
                             Odeio aranhas! E aranhas me odeiam!
                              Não sei como pude esquecer esse pequeno detalhe!
                             Não sei como chegamos... só sei que chegamos.
                              Vou demorar um tempinho para organizar outra excursão.

                            Por estes dias, estou envolvida em tentar enxergar o trabalho das fadas da limpeza. Até fiz um planejamento para acordar de madrugada e...
                            Não! Não vou contar agora! Esta história fica para outro dia, pois é muito loooooooooooooonga!
                             _ Laura!? O que é isso aqui na oficina?
                             _ Shiiiiiiiiiiiiii!!! Estou indo vóvi, não fale mais nada que essa parte já é da outra história.
                             _ Outra história?
                            _ Shiiiiiiiiiiiiiiii!!! Não fale... não fale!!!