sábado, 31 de outubro de 2015

AGONIA DE UMA ESPERANÇA

MULHERES  NA PRAÇA DA LIBERDADE

- o ENEM da vida ultrapassa os limites do Ensino Nacional -

    "É horrível assistir à agonia de uma esperança."
       Simone de Beauvoir

                                       Nesgas de lucidez  configuram  lucidez: ponto.
                                      Milhares de brasileiros no último final de semana configuram o ENEM, dois pontos: uma estratégia de avaliação empacotada em formas generalizadas de conhecimento não disponíveis nas lojas de atacado e escolas engessadas. Onde entra a lucidez no quadro dos hiatos invisíveis aos olhos ingênuos?
                                     A qualidade do entendimento permaneceu do lado de fora das salas abarrotadas por candidatos ansiosos, entre rosários de fervorosas jaculatórias e promessas de naturezas outras. Rogai pelas mães dos candidatos, únicas a manterem-se lúcidas e calçadas em inflamada fé prodigiosa. Assim é no paraíso das possibilidades.
                                   Longe da natureza discutível dos enunciados  e conteúdos entalhados nas questões retorcidas em avaliação, distintas mães mastigavam o lapso do tempo decorrido entre a hora da estreita passagem pelos portões bem guardados por seguranças uniformizados e a possível hora da saída pelos mesmos portões. Não! Já não eram os mesmos portões! Uma vez que engolidos foram os filhos precavidos, outros permaneciam do lado de fora a debulharem lágrimas sentidas  ou a encenarem ridículas pantomimas de duvidoso talento teatral. Há sempre os que choram o choro das carpideiras diante do luto alheio. Enfim, a natureza humana supera-se em bizarras estultices, como afirmava Umberto Eco: "Existe apenas uma coisa que excita os animais mais do que o prazer, é a dor."  E que se entenda por animais toda a fauna social não coroada pela lúcida humanidade - esta última é um prêmio que configura evolução, mas o tema é para outro quadro anedótico!
                               Na Praça da Liberdade, centro de Belo Horizonte, as mães esperançosas teciam brócolis. Sim, aquelas pequenas formas retorcidas em panos coloridos que também recebem o nome de "fuxico". Não fuxicavam as ditosas mães, pois mãe de candidato do ENEM  reza, ora, contempla, medita, intercede, tudo na mesma ordem e princípio do que interessa ao presente-futuro dos filhos no meio do caminho do Ensino Brasileiro. Bendito é o fruto do aprendizado, mas já não se faz estudo e estudantes como antigamente - uma vez que da escola retirou-se a curiosidade e do professor se fez um malabarista da boa vontade.
                            Desdita é a profissão que interfere nos sonhos desprovidos de iníqua qualificação, mas diante das promessas de sobrevivência e nesgas de lúcida vontade, as mães não entoam discursos esfarrapados: esfarrapam-se elas próprias para alcançarem aos filhos um olhar para a frente, à frente da realidade.
                           "Todas as vitórias ocultam uma abdicação" , deixou dito Simone de Beauvoir , mãe indireta de uma escola de pensamento que arreganha os dentes diante da incompletude do sujeito social. Mal sabia ela que um dia , não distante nem improvável, abriria  azedas questões de interpretabilidade sem garantias. Bem dito que elas não existem: as garantias, pois dizer é dardo lançado ao vento, fadado às intempéries  do tempo e da intencionalidade, alheias à "original" alteridade.
                          E lá estavam elas, as mães genitoras, e a intelectual que não pariu - pariu? são tantos os fuxicos malogradamente transcritos de última hora na/s/ Wikipédia/s/ da vida digital que afirmar sobre uma possível prole da pensadora é um "tiro no pé"!  - a atar os nós da esperança no mesmo cabedal de experiência. Liberdade?


Ivane Laurete Perotti

terça-feira, 13 de outubro de 2015

DE OLHOS ABERTOS


PELO DIA QUE NÃO CHEGA

DE OLHOS ABERTOS

-  ensinar é uma via de várias mãos e muitos "caroços" -

 " O melhor mestre é o que conseguiu educar a si mesmo."
Cora Coralina

                               Aos pés do umbral de madeira, a porta da sala de aula gemia. Deixara passar uma lufada cega e fria trazida pelas barbas do vento norte, enquanto a figura alta a mantinha entreaberta.
                             Indeciso ou estratégico? Sensível à dúvida que parecia ser um movimento comum à cena, deixou que o vento se encarregasse de invadir outra vez os espaços recortados pelo corpo aprumado. Aprumado? O vento levantara a franja dos cabelos levemente grisalhos e deixara à mostra os vincos da testa larga: vincos esculpidos por cinzel teimoso e resistente. No entalhe da primeira linha, descrevia-se a profundidade das preocupações persistentes; na segunda, talvez mais fina e de maior fundura, as dimensões das angústias pessoais entranhavam-se sem melindres; mas era a terceira linha na testa do professor à porta da sala que deixava um lapso de entendimento pairar entre o volume do vento e os demais olhos que o aguardavam. Aguardavam? Não fosse uma sala de aula, diria a porta em suas considerações umbralinas, que, ou a recepção ao mestre era uma ovação feliz, ou estaria ela divagando sobre botões que não lhe pertenciam.
                          Enfim, a figura alta avançou até a mesa posta para a sua performance pedagógica. Mesa e cadeira recebiam a legitimidade do ato ensinatório ... e o falatório tomava a diretriz de um movimento sem tempo para calar. Ao redor dos olhos do professor, outros vincos mostravam a história de sua profissão amalgamada em caminhos que transitavam do profético ao ético, do político ao social, do antropológico ao acadêmico, do humano ao descomunal. O rosto sério e compenetrado era um livro escrito em radículas de esperança e tentativas de reconhecimento profissional: instrumento de risco, deslizava por fronteiras sem dono.
                        A escola, instituição a serviço de alguém, alguéns ou ninguém, espelhava um laboratório abarrotado de elementos químicos reagentes e reativos abandonados ao léu. Não! Não ao Leo, este a porta conhecia melhor do que qualquer um, pois bastava-lhe manter o gemido pelo  tempo de alcançá-lo e lá vinha ele, com o óleo em riste, pronto para banhar as suas entranhas expostas em nodosa substância. Calava-se a porta. Momentaneamente calava-se, pois ao cair da noite e no silêncio faltoso que as crianças deixavam, gemia em surdina, chorosa da solidão imposta. Conhecia o Leo, era do bem o senhorzinho fazedor de todos os reparos. Mais antigo do que a própria escola, talvez um dia , quem sabe, tivesse ocupado o cargo de bedel. Talvez, pois o vento levava e trazia palavras que ela nem sempre reconhecia. Há muito a porta não ouvia o nome que tão bem lhe soava: bedel.
                      O professor marcado a bisel, chanfrado pela rotina de aulas acumuladas em mais de uma escola no mesmo período, lembrava O Pensador, de Rodin: desnudo, nu, pelado!mas, não representava Dante Alighieri, nem a poesia épica, nem se postara diante do Panteão Parisiense. Antes, replicara-se e duplicaram-no em travestimentos profissionais que a liberalidade do trabalho permeava. O professor é um profissional do ensino? Ora, então, quem sabe pode fazê-lo tão bem quanto. Pode?
                      A porta não gostaria de ser consertada pelas mãos do professor sentado diante da classe e nem a classe gostaria que o professor propusesse uma cirurgia de cataratas em um mutirão pela saúde ocular. Melhor seria um Projeto Multidisciplinar  às Cataratas do Iguaçu com o professor de Geografia, ou o de Biologia, ou o de Produção de Textos, ou.... eram tantos e nenhum! Faltava ao professor um lugar depois do umbral.
                        Da mesa posta em lugar de conveniência - discutível anuência - ele expectava:   quando a politização ruiria com a história mal contada, mal paga e mal... reconhecida? Não! Não era ingênuo, pelo contrário, pensava investir na bolsa dos valores perenes. Pensava, acreditava, continuava. Se alguém um dia dissera que lecionar era uma espécie de "cachaça", cabia enviar o dito, o falado e o falante em pelo - outro ditado popular modificado pela simples acentuação desmarcada - ao verdadeiro teatro da vida, no qual a tragédia deixava  marcas na comedia anunciada.
                    Era assim... O Professor, de Todos Nós, em frente ao Panteão de suas alquimias pedagógicas: instituindo-se profissional! Homem sem igual, cuja identidade ainda passa pelo crivo da legitimidade social. Rima pobre, de propósito e com o propósito de chamar às falas quem pensa que o professor não ganha ma... Para poupar os ouvidos e desfazer o trocadilho, que  se abstenha o fonema / l / da fonética inferna... [ l ]. Ponto fin... fin..fin...deixa-se para lá!

" Nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas."
Cora Coralina


Ivane Laurete Perotti

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

ERA FLOR


UNHAS DO ARGUMENTO


ÂNGULOS


VÍRGULAS


INQUILINATO


ENTRE BRAÇOS


ISENTA PAIXÃO


ISENÇÃO É ESCOLHA DUPLA...



NO POIO, O ABRAÇO...

PARA QUEM ACREDITA QUE EDUCAR É RECEITA AVIADA PELA VIDA E PELO COMPROMISSO. MAIS UM APOIO À CAMPANHA PELA SAÚDE DA EDUCAÇÃO.



RITO DE PASSAGEM

A INFÂNCIA PEDE GUARIDA

-  um "rito" de passagem cobra "passagem" -

"Se a criança não receber a devida atenção, em geral, quando adulta, tem dificuldade de amar seus semelhantes."
Dalai Lama

                                Por fora, os traços marcados forjavam máscaras de uma adultice precoce e decadente. Os sonhos descoloridos grudavam-se ao chão com o poder de garras  amoladas na realidade desfocada. Pedras e moleiros construíam o mesmo castelo em cartas marcadas e masmorras emocionais: a infância escorria a céu aberto para lugares inalcançáveis.  Classificadas por categorias funcionais, algumas serviam ao propósito dos pais, outras ao propósito do estado - instituído em poder de guarda -, outras moviam o poder capital - objetos de persuasivas estripulias comerciais -,  ainda outras pagavam a pena dos genitores desconstruídos a sovéu curto; e havia mais, muitas mais, abandonadas, alijadas de seus direitos, esquecidas e violadas, assassinadas pela indiferença mundial, massacradas por interesses  grupais.
                             Poucas, poucas crianças contavam com o sol para fazer-lhes companhia, com as nuvens a desenharem-se em fantasias, com abraços e mãos em conchas de afagar. A fuga do "rito" passava por vias indiretas e traçava rabiscos sem graça pelos corredores dos shopping centers, abandonava as praças ao sabor das pipas esquecidas, camuflava as ruas abarrotadas de rostos desprezados, mutilava corpos nas guerras deflagradas por bandeiras que arrastam o terror.

                              "Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância."
Mário Quintana

Por que calçadas da vida caminham as nossas crianças?
                      Crescer tem gosto de prego enferrujado na boca dos pequenos desvalidos, ou transformados em jogos de querer ( na Gramática de Casos de Filmmore, /querer/ é analisado entre os verbos de entendimento e vontade que "afeta" o ser animado  pelo estado ou ação identificado pelo próprio verbo) ;  afasta-se o fantasma da responsabilidade alimentando as cadeias de um sistema em pirâmides de desejos criados fora da alça da infância. Com quantas sacolas carregam-se os desejos de um ciclo cujas manobras são típicas do aprendizado tutelado? - ou não! A tutela exige participação e a infância gera trabalho, planejamento, conhecimento emocional, limites, e sobretudo... sobretudo exige amor. O famigerado sentimento desbotado nas agruras da semântica visceral.
                             Entre as baleias, os golfinhos e as crianças, falta um Greenpeace para salvaguardar  as últimas dos Estatutos inoperantes, das leis impraticáveis e dos adultos sem tempo e sem lembranças.
                              A infância é um "rito de passagem" que cobra tarifas em um futuro presente/presente futuro: o passado é um presente quantificado em pacotes de comportamento sem liquidação.
                           A quem se destina este dia?
                            Se existe um destino e um dia, que a commemoratio nos traga à lembrança pragmática e aplicável os valores da criança primordial.

"Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me 'Por que um chapéu daria medo?' Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas."
  Antoine de Saint-Exupéry

Ivane Laurete Perotti








sábado, 10 de outubro de 2015

ANTOLOGIA

A LEITURA É UM DOS PILARES DA EDUCAÇÃO CONTÍNUAEM CAMPANHA PELA SAÚDE NA EDUCAÇÃO



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

UMA AFLIÇÃO


AINDA ACREDITANDO NA CURA


SEMPRE PELA EDUCAÇÃO SAUDÁVEL...


PELA EDUCAÇÃO


PELA SAÚDE DA EDUCAÇÃO


UMA AÇÃO E UMA PARTILHA

EM CAMPANHA PELA SAÚDE DA EDUCAÇÃO
PARTE I

DÉSPOTAS DA IN-DUCAÇÃO: FAMÍLIA E ESCOLA PRECISAM FAZER O DEVER DE CASA
- quando o respeito e o amor despregam-se de um educador sobra-lhe apenas a mão opressora -

"A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. "
 Paulo Freire


                                 Existe um tipo de coerção que se dá por veias invisíveis e penetra a alma exposta  drenando a vontade imberbe, afogando o sujeito em formação, cristalizando medos, desfazendo o respeito pela voz do outro, forçando verdades. Feito agulha no braço, invade a carne e fere mais fundo, mais fundo à medida em que se perpetua a força da pressão.
  
                                    Por que veredas escondeu-se a alegria e a boniteza do aprender escolar? Por que valas  da impaciência, da humilhação e do desrespeito vagam o espírito maduro dos educadores ? Perdemos a utopia necessária à voz da sala de aula?
                                   Tenho ouvidos machucados. Vejo janelas quebradas grudarem-se sem saída à palma aberta de estudantes perdidos, inquietos, desmotivados. Vejo portas fechadas que escondem professores perdidos, acuados, doentes e cansados.

"Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo."
 Paulo Freire

                                 Sinto os estilhaços de vozes iradas retumbarem em sentidos que não recupero: uma guerra de lugares marcados instalou-se na escola brasileira, território de inimigos declarados estabelece fronteiras de poder e opressão. Pais cansados abandonam os filhos à porta da INSTITUIÇÃO ou da ESCOLA? Professores esgotados sinalizam o abismo que se cava todos os dias diante de um ensino sem sentido. Dois lados debatem-se em profunda agonia.
                                 Onde foram enterrados os valores de partilha e cumplicidade na formação do homem social? Por que o ato de ensinar deve ser doloroso? Deve? Desprazer, desamor e limites rompidos chocam-se desalinhados pelas salas de aula esvaziadas de humanidade, cooperação e tolerância produtiva.
                                    Gentes  /de/formam-se dentro da INSTITUIÇÃO que poderia servir de lugar para a pedagogia da aprendizagem. Gentes atracam-se e combatem um combate fracassado pelas salas onde a "aula" deveria ser um princípio e não um fim despótico.

 "Me movo como educador, porque, primeiro, me  movo como  gente."
Paulo Freire

                        A mochila de peregrinos abatidos, acuados , dispersos e precocemente entediados pesa no lombo das instituições família e escola. Do estatuto do amor nada se fala. Do estatuto do respeito às singularidades, apagou-se a humanidade. Dos parágrafos da história que ensina as lições a serem revisitadas não se sublinham os métodos de aproveitamento.  Apenas a régua de medir resultados capitalizados se estende sobre cabeças e classes. Professores e alunos são vítimas do mesmo sistema.


"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade."
Paulo Freire

                                Vale o diálogo otimizado das vozes que se constituem e fundam em sociedade? Valeria, se os lugares dos sujeitos envolvidos tivessem instalassem  ouvidos de educador, ouvidos de pais, ouvidos de estudantes comprometidos.
                              Crimes silenciosos são cometidos diariamente e só sabemos da morte quando tomba o corpo diante das balas perdidas. Vilipendiar é um verbo transitivo direto: rebaixa o emissor e o destinatário.
                               Vale salvar a escola? Vale comprometer a família?

"Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor."
Paulo Freire


Ivane Laurete Perotti

domingo, 4 de outubro de 2015

NA CURVA DE UM ICEBERG

FILHOS: REFLEXO REVERSO DE UM ICEBERG

-  refluxo das lágrimas no paraíso das relações familiares -

  " Curvam-se ao domínio dos limites a presença qualificada e o amor que demanda tempo e espaço, gasta o verbo, demarca papéis e  repete-se por  lições que não têm hora nem data para a entrega de resultados: viver 'a' família é um processo estruturado em ininterruptos aprendizados conjuntos." Ivane Perotti

                                 Corria por entre os músculos retesados ao extremo a água doce desprendida da geleira polar. Mecanismos de defesa desciam em camadas vociferadas de um lado e de outro da montanha de gelo instalada bem no meio do quarto do filho adolescente.  Correntes submersas e ventanias às cegas moviam o bloco de gelo em sensível velocidade contra a parede dos papéis alterados.  O fuso neuromuscular instava reflexos miotáticos no  cérebro do que se encontrava pai, informando o alongamento dos músculos dos braços: retesados e no limite da distensão, elevavam-se em cadência sonora cortando o gélido ar do ambiente. O mesmo fuso acelerava os reflexos inversos do que se encontrava filho: mecanismos de defesa ativavam  os órgãos tendinosos de Golgi , situados em séries entre os tendões e as fibras musculares. Demorada tração, tensão ao limite, a produção da força prejudicada não favorecia a flexibilidade. Pai e filho mergulhavam no espelho das cobranças e das culpas admoestadas pela precária qualidade do diálogo inexistente. O gelo movia-se desnudando apenas 10% de seu volume presumido. A água doce solidificada não atingia o Polo Norte, onde as banquisas solidificam-se nos invernos amargos da vida familiar. Plataformas de gelo são  constantes adicionais nas relações humanas, mas naquele momento, o iceberg avançava pelo ártico do planeta espelhado no progenitor alterado. Razões? /Des/razões comuns ao universo que não se estrutura sem esforço, sem amor, sem investimento na saúde dos sujeitos continuamente constituídos.
                           Queria a primavera invadir a cena fria. Estações têm redes invisíveis de comunicação e ciclos, como se versos poéticos pudessem habilitar  ações do desabrochar longe do atrito imprescindível: explode a semente que perfura a terra para alcançar a luz do sol; deflora-se o botão em pétalas abertas; invade a página em branco a prosa sem ritmo. Ciclos da natureza humana estão sob o efeito do El Niño social: fenômeno antropológico, filosófico, psíquico, econômico de causas diversas, difusas e imprevisíveis - ou não! A depender do ângulo por onde os especialistas estabelecem o recorta da pesquisa em andamento. Um olhar objetual é um recorte marcado pelo olhar daquele que o recorta. Nem a ciência foge ao espelho carregado nas pipetas volumétricas, nos espasmos das /re/descobertas encobertas. O academicismo tem ritmo diligente e pessoalizado - perquirere! As famílias também, independentemente dos relatórios que as qualificam na /des/ordem social. Perquirere...
                   Perseverança! Procurar com persistência é um fator de risco: onde o campo semântico entre teimar e persistir afastam-se ou aproximam-se? Apenas a ignorância pode responder à qualificação de um ou de outro, pois os campos dos sentidos deslizam sem fronteiras pela interlocução do comportamento humano.
                   Perguntava-se o pai ainda no quarto do filho: " Quando um pai deve desistir?";  sem nada dizer, ardia em febre glacial o filho adolescente: "Por que ele desistiu de mim?" E permaneciam dependurados nas pontas do iceberg os dois homens que a vida aproximara por laços de liberdade dependente.
                 A primavera esperava, pacientemente, do outro lado da janela trancada.

 "No amor e na paz, a guerra é estratégia ultrapassada." Ivane Perotti


Ivane Laurete Perotti