domingo, 15 de novembro de 2015

CLEMÊNCIA...

APAGARAM O SOL

- um fio de vida esconde-se das nuvens carregadas de ódio -


“Não é difícil escapar da morte. (...) O mais difícil é escapar da maldade, pois ela é mais rápida do que nós.”  Sócrates


                                Veio a dor depois da dor. Dor amarfanhada em camadas de pó de vidro: pontas cortantes alojadas dentro e fora do corpo enlutado. Dor do silêncio sem as vozes que passeiam pelos sentidos e emoções de vontade, parentesco, amizade e aconchego. Dor calejada no corte das alegrias carregadas em abraços quentes.
                               Braços sem vida pendem ao lado de corpos vazios, lágrimas criam sulcos pela face da perda, vultos assustados escondem-se por trás das portas escancaradas, olhos petrificam-se na injusta retirada; mãos alcançam o nada e voltam vazias de alguém.
                                 Alguém corre sobre o rio de sangue que plastifica a história atual em história processualmente antiga: perene história no vinco do tempo de hoje e de ontem, tresantontem, anteontem.
                                O conflito não pede passagem pelas vias dos acontecimentos: avança tomando o lugar de poder e maldade, bancada nefasta que instala conceitos triturados na máquina da violência investida; estratégias de poucos, morte de muitos.
                              A fornalha da iniquidade usurpa à boca grande os corpos sem nome, os sonhos interrompidos, as ideias sem esboço, a poesia a caminho dos versos. Mata-se o homem, enterra-se a esperança. Órfãos do amor e da paz procuram pelas mãos da justiça universal, comum ao ser social: contemporâneo hominídeo, homo erectus , primatas fossilizados pela ignorância glacial. Mata-se o processo da evolução na prancheta do tempo. Que tempo?
                               Morre o sol da carne, derrama-se o ventre da terra sobre a crosta de barbárie e as almas peregrinam pelas trilhas da partida impensada. O resgate da vida espreita das frias salas de convenções, dos espaços "politicus"  passados ao ferro dos interesses para além do Estado de fato. Fato! "... o homem é um animal político..." A máxima do filósofo de Estagira transpassa hoje um eufemismo irônico e doentio. Teria Aristóteles antevisto o animal sapiens em seu avantajado e ímpar poderio de esmerada devastação?
                               Um legado tortuoso encobre o sol da terra mas não abafa o grito de multidões: grito em uma única nota, tortuosa nota que inicia e termina em /dó/. Não há frases musicais, não se ouve a cantata das etnias esfaceladas em pré-interesses; mãos assassinas escondem-se por trás de decisões escusas, trucidam inocentes e cegos caminhantes da/s/ polis/poleis aglutinada/s/ em currais de abate: úteros violados.
                               Sacrílegos servos da intolerância inauguram mais uma era mortal. Que não se espere camadas de sal para encobrir os pecados sociais. Pois, em existindo pecado, há de se pensar que tem a face da indiferente apatia que nos guia e entorpece diante do mal. Em existindo o mal, que seja identificado nas carteiras  daqueles que não representam o bem comum, o senso de comunidade e nem fazem votos à sapiência confiada: nódulo aberto na espinha dorsal da humanidade.
                               Apaga-se o sol dos olhos viventes. Apaga-se o sol de um agora cristalizado em sangue inocente: o frio caminha a passos largos e os mantos foram recolhidos por mãos homicidas, nem sempre molhadas pela vida que escorre ao largo das calçadas.
                              Mãos assépticas comandam a história não contada, desfalcada das entrelinhas que explicam a intrincada trama dos interesses de poucos sobre os muitos desavisados.
                              Existem inúmeras nuvens entre o sol moribundo e o nosso desconhecimento controlado. Nuvens grossas e não identificadas pesam na abóbada das lideranças : o firmamento desfigurado não tem mais lastro para o choro que sobe da Terra. Choro de uma nota /só/. Choro que se anuncia em /dó/.

Ivane Laurete Perotti