domingo, 2 de fevereiro de 2014

OU UM...OU OUTRO...

PASSANTES DA HISTÓRIA OU SUJEITOS DA PRÓPRIA SORTE

"Desistir... eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que o cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça."
Cora Coralina


                                      Ela fazia doces.
                                     Amarrada ao avental das necessidades prementes fustigava a noite nas abas do fogão aceso. Estrelas e labaredas consumiam as nesgas caligens da escuridão recalcitrante.  Pelas frestas da casa velha o vento espremia-se, curioso na teimosa característica dos que espreitam e não se envolvem. Mas ela gostava do vento. Sentia-o derribar o rosto avermelhado, desalinhar os cabelos presos, soprar o vapor doce que se despregava das panelas. Era um carinho que chegava de longe, pendurando cheiros arrebanhados de outras misturas. Histórias apuravam-se lentamente no fogo da realidade crua. A colher do destino estava vazia e não lhe cabia pesar o bojo do que não escolhera. Enquanto os filhos dormiam, preparava o dia que se apresentaria inexoravelmente aberto e com tempo demarcado. Preparava-se. Cozinhar com desvelo não assegurava a opção do freguês diante do doce feito, mas conhecer o freguês lhe imputava ciência e sabedoria. Havia aquela moça que só acordava depois de conferir o sabor da canela quente, aquela outra que precisava negar várias vezes gostar de açúcar para só depois comprar o doce mais doce do tabuleiro e aquele moço que olhava com as mãos grandes todos os acepipes para, finalmente, comprar qualquer um. Ou nenhum.
                                     Não tinha letras, recordava as receitas da mãe da mãe de outras mães enquanto fazia estudarem os filhos, em penca de oito e pouquíssima diferença de idade. Soubera tê-los, fazia por merecê-los. Quando o cansaço arrastava os sonhos para dentro dos becos sem saída, voltava os olhos para o fogo crepitante: nem menos, nem mais. A fome das labaredas media a paciência com a qual mantinha as panelas: fechadas, entreabertas, à beira da chapa, mais ao cento do calor. Era um movimento de atenção e cuidado, uma escolha clara para chegar ao ponto apreciado. Doces são pedaços de palavras que ganham significado na boca de quem os prova. Gostar ou não é uma experiência particular e única, quase um segredo, um jeito de dizer as coisas que não podem ser ditas. Ou ainda, de fazer calar o coração choroso quando a saudade amarga a boca seca. Parecia pouco diante da pressa com que o dia varria a noite empurrando as estrelas para longe. Mas um sucedia o outro e, tanto a noite quanto o dia ocupavam o mesmo espaço, sem se repetirem em nenhum momento. Sentia mais do que via a passagem majestosa dos dois oráculos. Em épocas idas, perguntava-lhes a que vinham, quando tudo ao redor parecia caminhar em constância involuntária. Perguntava-lhes e esperava as respostas subirem das panelas cheias como que advindas da mistura adequada sobre o fogo bem feito. Noite e dia entregavam perguntas, não distribuíam respostas. Acostumara-se ao silêncio alto daqueles sinais onde o brilho da luz apenas trocava a moldura. Acostumara-se.
                                       Os pés inchados apontavam para a hora de receber o sol e diminuir o alimento das labaredas. Sem tempo para retoques, ela decorou os tabuleiros que os filhos do meio carregariam por entre as costumeiras ruas banhadas pela manhã. Uma velha renda branca cobria os doces: enfileirados, guardavam as marcas daquelas mãos recheadas de vontade.
                                       Ela fazia doces.  No avental surrado, uma frase escrita em letras quase apagadas impregnavam-na com o sentido jamais lido, diariamente vivenciado:


“Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma.”

Cora Coralina