segunda-feira, 25 de agosto de 2014

PALPÁVEIS ...

PALPÁVEIS MUROS INVISÍVEIS

                                                      " O maior pecado para com os nossos semelhantes,
                                                         não é odiá-los mas sim tratá-los com indiferença; é a
                                                         essência da desumanidade." Bernard Shaw

                                                           A indiferença é uma desculpa descalça.
                                                        Quando o mundo interior cria calos por pisar indefinidamente  a mesma obscuridade, os pés da consciência alçada cedem lugar às justificadas cegueiras de ocasião, tão em uso na contemporaneidade: se o rojão da injustiça atingir o outro, desconhecido que vira notícia com data marcada para deixar de ser interessante, a indignação não sobe tão rápido dos intrincados labirintos da compaixão; mas, se o rojão dos fatos injustos viola as leis da particularidade, aí, os brados têm matizes da raiva reprimida, estocada, e o homem assume-se centro dos acontecimentos. Quando não cala, definitivamente, em função do baixo estoque de raiva amalgamada ou pela cristalização de situações repetidas sem fim e sem resolução. Depende. Depende sempre de quem é o calo, o fato, e a situação. Feito roda gigante com o eixo central mais para frouxo, carcomido, desregulado: os visitantes títeres sabem dos riscos, mas afinal, viver é um risco que deve atingir apenas o outro. E indignação é um conceito politicamente marcado: quando interessa a quem, o quê e em que ordem.
                                                        A indiferença descalça levanta muros externos e internos. Os internos, discutíveis pela natureza subjetiva e volátil; os externos, popularizados pela ordem do " sobrevive o mais forte ", quando,  por forte  se entende aquele com a menor capacidade de sensibilizar-se, envolver-se, " meter-se em cumbuca alheia".  É interessante, quando se tem estômago dialógico e dialético não muito irritável, mergulhar na plenipotência do jogo dos sentidos e das sensibilizações. Especialmente as que rondam apoteoticamente a feitura discursiva dos quadros ideológicos ( e torturantes) nos atuais ( e sempre!) ad aeternum/eternum  horários eleitorais. Para deixar a figura mais hiperbólica: todos os muros caem diante dos nossos sensíveis e bem intencionados candidatos. Alguns poucos até conseguem assumir verbalmente, labialmente, lexicalmente a espessura inabalável dos muros que constroem em torno de verdades e legalidades. Que medo! Que medo! Que medo!

                                                    Eis a riqueza de nossa social democracia linguística na convenção do que consegue convencer quem daquilo que mais interessa: quando sensível pode ser uma estratégia de campanha e quando os muros, altos e pesados muros do preconceito, da injustiça e da desvergonha nacional viram moeda de troca. Afinal, para que serve a dor alheia, se não gerar um projetinho aqui e outro lá, amparando as ambições politiqueiras de seres humanos inabalavelmente envolvidos com o bem comum, razão de tantos e tantos investimentos pessoais? Pois, falar de muros, indiferença e sensibilidade depende do contexto e do interesse. Nada é tão puro, pungente, tocante, instigante quanto os discursos ouvidos nesses períodos de eleição para representantes do povo brasileiro. Nada é tão claro quanto o que não se diz. Ou se diz sem dizer, ou se diz para não deixar o dito aparecer de repente e fazer um discurso por si só. Ironia sem freios! Como falar do bem sem manchar alguém? Os muros não são invisíveis, mas nós apreciamos que continuem assim, enquanto o contexto não esburaca pontos sensíveis de nosso próprio conformismo, comodismo e conforto instalado. E haja luz para  que, um dia, quem sabe, talvez, a indiferença seja motivo de real indignação.