terça-feira, 23 de dezembro de 2014

TOMBOS E TOMBOS

A AUTOMAÇÃO DOS SENTIDOS

- nada que nos seja oculto permanece inalterado -

 "Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for        desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas... Daqui para frente    levo apenas o que couber no bolso e no coração. "
                                                    Cora Coralina

                                          Justificado o primeiro tombo, a ribanceira convocou a pedra:
                                         _ O que faz em lugar tão inapropriado?
                                         _ Não faço! Aguardo!
                                    _ Aguarda? Mas esta é a minha função. Desdobre-se em outro caminho que por aqui não há lugar para tantos desfalques.
                                      _ Assoma-te em curva, infeliz ribanceira. Quanto mais pedras encontrarem em tuas costas, maior a chance de continuar onde está.
                                         _ Não compreendo...
                                         _ Já ouviu dizer que os homens preferem os caminhos mais árduos e perigosos?
                                         _ Peta! lorota! Tal pensamento não procede.
                                         _ Não? Pois observe:
                                         Ao longo da ribanceira caminhava um homem. Vinha só, até onde se pudesse provar a solitude dos passos visivelmente distraídos. Ausente, arrastava o olhar como quem faz do jugo a canga da vida. Desprovido de ânimo, aprumava nos ombros roupa de festa: casaco de longas mangas, camisa de gola limpa. A  calça frisada em vinco  destacava o corpo saudável e bem-cuidado. Os sapatos de verniz curado lembravam uma pegada com cheiro de novidade. Era belo, mesmo que aparentemente só, pois a beleza, na vida prática, necessariamente não se queda à trança de parcerias. Mas, assim como observava a ribanceira, aquele era um homem de méritos e condições. Passaria por ela sem esparramar o passo imberbe. E, à pedra que filosofava sobre as agruras humanas, falharia o argumento na generalização do exemplo. Quanto mais plano, mais fácil o caminho dos homens, quanto menor o número de pedras, menor a chance de estrumbicarem-se .
                                         Às pedras reserva-se o tempo da sabedoria inata: presente, sempre presente. Ao homem que içava os pés calçados pela ribanceira íngreme parecia faltar o momento. Se era uma descida o caminho de sua rota, quais trilhas ele embocara antes de chegar  ali? Roteiros da vida têm ladeiras e pedras, montanhas e abismos, pontes e margens movediças. Assim era! Contudo, a diferença na subida começa na base de qualquer descida. Subir e descer, descer e subir, alinham-se em paralelos contíguos. Basta um movimento para estar em um dos extremos, um passo, uma pedra...um homem!
                                         Quando a lágrima guardada deitou-se por sobre a pedra na ribanceira, o chão abraçou o sentido daqueles passos arrastados: um homem chorava a dor da existência consciente.
                                                                                         

                                             "É que tem mais chão nos meus olhos
                                              do que cansaço nas minhas pernas,
                                              mais esperança nos meus passos
                                              do que tristeza nos meus ombros,
                                               mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça."

                                              Cora Coralina
Texto: Ivane Laurete Perotti