domingo, 22 de fevereiro de 2015

DRAMAS DE CONTROLE - disfarces da imaturidade

MÁSCARAS DO COMPORTAMENTO HUMANO
- toda a prepotência será cobrada, pois camuflam ditadores disfarçados em gente -

 " A agressividade gratuita e recorrente revela um comportamento infantil: o desejo de controlar a realidade e os outros, porque sempre eles, os outros, são os responsáveis pela minha inaptidão." ( Ivane  Perotti)

                                          Três vezes por semana ele assinava o livro de presenças. Permanecia no local parabenizando-se  pela astúcia: ninguém desconfiava de sua inexpressiva ausência,  nem ele mesmo. Há muitos e muitos anos frequentava um curso sobre amadurecimento humano e gozava de certa reputação entre os demais. Dizia-se um homem bom, justo, dedicado às causas alheias, caridoso e sempre pronto para ajudar; o seu lema era inegável:  sou um homem  simples, não faço o mal para ninguém! E sofria, sofria aquele homem, como todas as almas perfeitas sofrem quando a incompreensão alheia não toca harpas à sua lustrosa bondade e santificado caráter. Afinal, custava-lhe manter a postura maquiada  no teatro das relações e praticamente não dispunha de tempo para assumir o próprio drama: negava-se a crescer!
                                         Quisera fosse simples dizer sobre as máscaras que vestimos no decorrer da existência, especialmente as que nos viciam nos autorretratos distorcidos em suposta perfeição. Embaixo da primeira camada de civilidade que nos recobre residem complexos jogos de poder , transferíveis e palpáveis na rotina da sobrevivência do ego. Coexistimos com o "coitadinho de mim" - a eterna vítima -, com o "ego inflado" - o perfeito -, o "dono da verdade" - aquele que sempre e sempre tem razão -, o "sabe-tudo" - aquele que tem a resposta: a dele própria! -, o " bonzinho " - aquele que nunca e nunca deseja o mal -, o "ditador inteligente" - aquele que legisla sobre a eterna  culpa alheia -, o "prepotente" - aquele que convence os outros do quanto lhes presta favores -, o "emburrado" - aquele que domina pela agressão silenciosa -, o "agressivo" - aquele que domina pela agressão exposta - e, o rol é tão vasto quanto a nossa capacidade de nos fazer acreditar que somos bons atores.  Contudo, as peças da vida não permitem ensaio, nem remendo, pois não há coxia que dê conta de esconder por muito tempo o barulho de nossa imaturidade. O que está dentro é visível a olho nu, e bom seria  não temermos conviver com a dual necessidade de estarmos presentes no crescimento de nossa identidade.  Entenderíamos, com algum esforço que, a simplicidade é deveras complexa e não pode ser confundida com negar-se a participar da evolução pessoal. Infeliz daquele que precisa criar desculpas para esconder-se diante das dificuldades, dos limites, da própria intransigência, da crônica e doentia vontade de ser a única voz a ecoar nas interações. Pode que, por algum  um tempo, ele convença a alguns acerca de suas verdades, mas não há vento que não sopre sobre o pó das mentiras instituídas. Para isso servem os jogos de poder, os dramas de controle, e as complexas justificativas  que o ego cria para manter a invencibilidade: furtar-se às dores, às perdas e aos erros é pecar contra a inteligência do espírito, mas é o que mais nos convence a permanecer com as máscaras do comportamento, in-felizmente!
                                Custe o que custar, paga-se o preço da passagem nesta viagem pela vida: quanto mais se demora a crescer, maior será a cobrança sobre os movimentos perdidos.
                              Por quanto tempo um ser humano consegue enganar a si mesmo? Por  bem mais tempo do que consegue enganar aos outros, pois olhar a vidraça alheia carece de movimento interior.
                             E lá continuava ele a assinar o livro de presenças.


"Olhos vazios não se sustentam diante do espelho da vida: em algum momento, de alguma forma, terão de  enfrentar a si mesmos e sentirão o peso dos disfarces usados." (Ivane Perotti)

Ivane Laurete Perotti