domingo, 2 de agosto de 2015

TERRENOS MOVEDIÇOS

PARCELAS DA VIDA COMUM

- a paz é uma guerra ideológica que se alimenta da esperança alheia -

"Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra às guerras."
Pablo Neruda

                             E se pensava estar em paz!
                             Dorme-se!
                               Parcelados todos os sonhos, dormir ainda parece ser a  melhor forma de embalar o medo de não acordar.  Dorme-se para viver, vive-se para dormir e, no rol das veleidades insustentáveis, a vida comum lembra um barco raso cujo fundo não se anuncia antes de afundar. Uma paráfrase da necessidade humana de "afundar-se" um pouco a cada dia nos meandros nada aluviais de um sono r-e-p-a-r-a-d-o-r . Mesmo considerando o fato de que as planícies do sono humano não estão suficientemente maduras para sustentarem as possíveis variações dos terrenos psíquicos ao feitio do que ocorre na topografia de um curso d'água. E aí começa a primeira guerra pessoal contra a paz no mundo! Quem não dorme  sofre a tendência de parcelar os fatos da vida em contas distribuídas ao sabor das responsabilidades pessoais, sociais, como se tal fosse possível fora do campo das batalhas ideológicas. Se, então, dormir é um processo necessário para fomentar a paz, estamos todos em estado de guerra. Ou um, ou dois: o estado de guerra é campo minado por fontes de água viva, desenhos, sonhos e atrocidades. Como juntar elementos de natureza diversa no mesmo barco? Parcelando a vida! Atitude esta que aprendemos desde cedo, antes mesmo de operar com os elementos linguísticos que nos colocam em apoplexia verbal - derramamento de sangue em poesia continua sendo derramamento de sangue em prosa, verso e fronteiras da ambição. Os AVCs (acidentes vasculares cerebrais) também ocorrem na surdina da vida, das noites insones, no terreno do sono, dos pesadelos e dos fatos políticos, mesmo que externamente os movimentos em nada lembrem a privatização dos sentidos e... a suspensão da consciência.  
                         Dorme-se? Não! Parcela-se os sonhos e alimenta-se a esfera das guerras elaboradas em plataformas de esperança sem conferir sentido aos sinais previamente anunciados. E, enquanto descobrimos o fundo do barco, aprendemos a nadar em águas de turbulência calculada por quem domina o sono alheio e o traveste em investimento sem risco.
                      Tenho mastigado metáforas e perdido a poesia. Estou em guerra pela paz no léxico, uma insanidade que sustenta a insônia à qual agarro-me para continuar sonhando EM PAZ!

Ivane Laurete Perotti