domingo, 9 de agosto de 2015

ESTRELAS ABERTAS

TENTÁCULOS DA EDUCAÇÃO
-  braços são membranas cadentes, estrelas do conhecimento interno -

" ... o professor deveria ser polvo."
 Rosana Moura - professora

                                       Um sobe pela cortina entreaberta para espiar o compasso do dia. Outras notas, prazerosamente liberadas ao consumo da escrita empírica,  perambulam em busca de espaço nas linhas da classe regada pelo sol. No início da pauta, uma aula de Língua Portuguesa Brasileira: conjunto harmonioso de vontade e competência que, em muito, traz à memória sonora Guido D'Arezzo ( pequeno grande monge nascido na Toscana, em plena ebulição da Idade Média. Guido, criador  do sistema mnemônico que sobrevive cheio de dedos - e dados - na história da pedagogia como "Mão Guidoniana", fez esforço de polvo para ensinar a transcrição da altura das notas, transpostas em escala musical). À sintaxe da professora de LPB,  a regência de Guido agrega sentidos não ouvidos, suspeitável parentesco entre tempos e vontades partilhadas ao fundo das catedrais do saber. Ao fundo, pois que pelas abóbadas pouco celestiais gesticulam braços estelares, estendidos tentáculos humanos que transcendem o espaço aéreo das metáforas (escusas contundentes a Paul Ricoeur que, certamente, já foi elevado à tríplice dimensão de suas metáforas vivas!) e envergam - quando não vergam sob o peso das circunstâncias alheias à vontade política - o manto da esperança e qualificação professoral.
                                       Sol e descem ao mesmo tempo à mesma linha criando a dissonância do encontro para além do sítio demarcado na classe ensolarada.  Há um lugar para as notas e uma direção para as linhas. Desfeito o contrato, não há compasso nem pregas vocais que deem trato ao distrato: brumas desfazem-se ao beijo do sol,  ao sopro do vento norte,  ao poder das volubilidades humanas, especialmente aquelas que eclodem em épocas de pouco pito.
                                 e /do'/ , [dɔ] ou apenas dó parafraseiam as sílabas abertas na caixa de ressonância humana também conhecida pelo nick :boca  /'boka/ ou bocaberta e atingem em cheio o peito da professora.  Eis que surge o primeiro tentáculo da pedagogia humana. E não se pense que a palavra seja simples, pois ao som de tentáculo bailam as possibilidades morfológicas de juntar na mesma linha, em sucessivas cadências  semânticas, os pedaços que fazem da educação uma infinda tentativa oracular: / tenta+oráculo >  tentáculo = esforço divinatório/ ; longe, muito longe das compensações que a profissão deveria auferir.
                          Ré está embaixo do tapete, aguarda a definição de uma região qualquer entre o grave, o médio ou o agudo para manifestar o alcance do ensino inteligente na classe que o sol inunda. E não fica de fora: adverbialmente localizado, abraça  a professora que possui braços de estrela, estrela do céu, estrela-do-mar e nem se envergonha do hífen que vai e volta, vaivém, sem agradar a ninguém. Ah! Divina ortografia!
                           Si, em substantiva condição, briga para identificar o acidente - Bb (bemol) - e permanece  expletiva partícula de indeterminação, agregado reflexivo, apassivador inaudito: claro contraste na alteridade dos sujeitos sociais, estudantes passivos na escola da vida, até que um polvo os atinja o coração.
                            Polvo... o professor nasceu um: pragmática da profissão!


 * ESTE TEXTO É UMA NOTA DE ADMIRAÇÃO AOS PROFESSORES DESTE PAÍS, EM ESPECIAL, À PROFESSORA ROSANA MOURA, DIGNA ESTRELA DA PROFISSÃO!

Ivane Laurete Perotti