domingo, 20 de março de 2016

ESTRATÉGIAS DE UM DESTINO TRAÇADO

UM DERRAME DE CONFUSÃO

-  emocionalismos à esquerda do peito marcado -


"Acreditando apaixonadamente em alguma coisa que ainda não existe, nós a criamos." Franz Kafka


                               Uma jovem senhora sobe aos trancos o lugar que a transpõem no tempo e na esfera da condução social. Legitimada, carrega às mãos, uma bolsa de enxadrista: peças de madeira crua misturam-se aos objetos de uso pessoal. Cursada em técnicas de "problemistas", acorre ao tablado da ordem diária: ordinária ordem de um plano acima do posto. Da torre, por dentro dos panos duplos da bolsa cheia, a rainha espia: peões aturdidos, embotados, manipulados e perdidos; cavalos e cavaleiros dispostos em formação de ataque. Sobre a mesa fechada, o jogo principiado fere as regras ditadas pela FIDE (Federação Internacional de Xadrez). O tabuleiro, enfadado pelas circunstâncias,  invoca o direito de permanecer  no canto do gaveteiro empoeirado. Cabe à jovem senhora lançar mão de sua farta experiência e descalçar-se da obviedade herdada: estratégias idôneas comungam com a competência do xadrez  não dividido em  obscuros movimentos, agremiações clandestinas e falácias empobrecidas. No camarim do jogo, vestes camuflam as peças em andamento. Mas, vestimentas não impedem o reconhecimento da persona por detrás do hábito monástico, nem do uniforme disforme da cavalaria dasapercebida, nem das régias túnicas do rei nu.  No titubeio, os peões procuram  por um lugar no jogo obscuro: "... sacrifica uma peça... ganha uma peça...perde uma peça..." Emoções exacerbadas suspendem a razão da lógica concreta: " De alguma forma eu lutava contra sensações que continham pura abstração e nenhum gesto dirigido ao mundo atual." (Kafka)
                             Lutas inglórias apontam o destino daquela dama presa à torre dos fatos não passados a limpo. Rascunhos malcheirosos disputam um lugar marcado na prancha de trabalho esculpida em pau-brasil (Caesalpinia echinata, arabutã, arubatã, árvore-do-brasil, brasilaçu, brasilete, brasileto, brasil-rosado, ibirapiranga,ibirapitá, ibirapitanga, ibirapuitá, imbirapatanga, muirapiranga, orabutã, pau-de-pernambuco, pau-de-tinta, pau-pernambuco, pau-rosado, pau-vermelho, sapão). Madeira de lei! Resistente à umidade, ao tempo, ao clima e às pressões , sustenta os  lugares manipulados na direta razão de interesses dúbios - ou claros!, a depender da capacidade de entendimento dos peões estabanados e do ponto de observação das regras seguidas. " Na tua luta contra o resto do mundo, aconselho-te que te ponhas do lado do resto do mundo." (Franz Kafka) . A "madeira da lei" entalha martelos; bigornas do circo armado incendeiam-se dentro e fora da arena por construir.
                               Sob o peso dos  atravessamentos, a jovem senhora  pede um tempo ao tempo para que sejam zerados os relógios da história. Relógios não param. Ponteiros amarrados por antigas parcerias impedem o recomeço do sistema engatilhado: ao clamor da necessária sobriedade, conspurca-se o destino do grande tabuleiro. Lei da madeira ao relento!
                               E agora? " Os bons vão ao passo certo: os outros, ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa." ( Kafka). Grifo meu, pela indiscutível discussão acerca do que é bom e do que se faz certo. Certo?
                               Da torre, a jovem senhora aposta em incertezas.

Ivane Laurete Perotti