domingo, 6 de março de 2016

ORELHAS DE GATO

O CONTORNO DOS FATOS

- atos e "gatos" têm pelos nas ventas: fossas da vergonha atemporal -

"Os fatos não deixam de existir só porque são ignorados" Aldous Huxley

Um caudilho pergunta a outro:
- Viu a caraminhola do capitão?
A resposta deu-se pronta:
- Vi, chefe! Pois que permanece onde a deixa: entre as suas orelhas !
O caudilho retruca:
- O que diz? Desde quando tenho orelhas?
- ...
                                      Assim é! Chefes não têm orelhas ! Têm pernas, mão ágeis e performance verbal que transcende o poder dos atores consagrados. Contudo, nos palcos erigidos para os massivos holofotes brasileiros, a demanda dos atos e deixas  configuram-se dignos de assombrosa estupidez : ao bom ator cabe acreditar no que diz, regra básica para convencer a plateia. Perde-se o jeito - figuras patéticas tartamudeiam discursos pisados - ou ganha-se tempo? Palavras frouxas, olhos de piedade conspurcada,  onomatopeico uso - centopeico? - do pronome "eles"..."eles"..."eles"... indicador inconcluso, obtuso e cansativo de uma secreta conspiração contra os inocentes e heroicos representantes do povo: divisão perigosa de quem se diz ser quem não é e faz uso do lugar de discurso de caudilho retirante para justificar o que não foi. Bagunça textual! Cansativo tema!
                              Protejam-se os felinos. Os "gatos" estão soltos e falam em gatês fluente, apesar das incongruências sintáticas .Toda ação suporta um sujeito, apenas em gatês, o sujeito oculto vem a público para desdizer o dito e convencer a si mesmo de que  os objetos faltantes não aparecem nas frases  da justiça. Aparecem !  No tempo da sensatez, aparecem! E dão nomes aos bois cujas cabeças estão amarradas em um único sovéu  - boiada abatida em família leva o selo de qualidade quando a carne é "free"  e  se permite vender no mercado  da  perpétua improbidade.
                         O que dizer das orelhas? "Os fatos são como os bonecos dos ventríloquos. Sentados no joelho de um homem sábio articularão palavras de sabedoria; noutros joelhos, não dirão nada ou dirão disparates, ou comprazer-se-ão em puro diabolismo." (Huxley)
                            Se aos fatos, os rabos dos "gatos" amarram cabeludos pelos, a quem caberá interpretar os atos? Vendam-se os olhos da justiça, mas ela espia silenciosa por detrás das pálpebras dobradas e espera na esquina da história pelos caudilhos sem orelhas.


Ivane Laurete Perotti