domingo, 11 de setembro de 2016

MOLUSCOS



O FLAGELO DAS MINORIAS

- a desigualdade social é uma estratégia para a manutenção do despotismo velado -

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.” Albert Camus

                                    Durante os invernos da alma, o homem constituído pela e na consciência tenta justificar o caos no qual se dá a própria imersão. Procura pelo invólucro social e encontra a concha da prisão individual; descobre-se caracol em isolamento. Olha o todo pelas frestas da casca calcária incrustada em zonas de segurança; não olha: bisbilhota o mundo com as mãos às costas da indiferença. Torna-se molusco, gastrópode terrestre: lesma! Não que as lesmas sejam indiferentes ao seu ambiente, pois proliferam com amplitude territorial e geográfica, mas mantêm preferência pelos jardins. Não por acaso, claro!  E quando povoam as terras livres, tornam-se produtos de consumo em requintados pratos à portuguesa, à alentejana, à moda do barreiro: outra obra que não advém do acaso. Estratégias gastronômicas de controle e consumo apurado. Estratégias do poder concentrado em habilidosas mãos.
                                 Entre os jardins obscuros de nossa sociedade, às lesmas cabem as panelas temperadas em banho-maria: água e óleo marinam moluscos atabalhoados. A pressão do fogo mantido à lenha de corte ceifa o direito às escolhas de viver, morrer ou suportar: Julgavam-se livres (...) nunca alguém será livre enquanto houver flagelos.” Abert Camus.
                                  Na ordem da justiça, Não há ordem sem justiça” (Albert Camus), as lesmas são minoria. A sopa social é antepasto no banquete do despotismo: os comensais identificam-se por jargões alinhados à mesa das decisões. Para poucos, muito; para muitos, quase nada. Nada além de discursos emocionalizados de convencimento e persuasão: modus operandi de governos arbitrários, coercitivos, centralizadores. E o habitat dos moluscos? Desviada a atenção sobre a fragmentação dos jardins, as lesmas perecem em colônias destituídas de poder de escolha, de educação para a cidadania consciente, de saúde para manter a casca calcária, sem prazo e fundos para o seguro social, desvalidos e desautorizados de seus direitos à sobrevivência digna.
                            O discurso da multiculturalidade esconde a exclusão devastadora; nos jardins obsoletos, os gastrópodes fenecem em panelas de desigualdade: nem todos nascem na cor das preferências, nem todos possuem o credo de preponderância, nem todos negam a origem quilombola, nem todos branquearam a herança indígena, nem todos... nem todos... nem todos... vivem a dignidade em parelha cidadania.
                            As lesmas e os homens perderam a liberdade, Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo.” (Albert Camus) e mantêm curta memória: “Todas as revoluções modernas contribuíram para o fortalecimento do Estado.” Albert Camus.
                           
Ivane Laurete Perotti