domingo, 8 de dezembro de 2013

EXOTOPIA REFLEXA...

O PESO E A PENA DA LIBERDADE : EXOTOPIA REFLEXA!

                                                             "Algum dia em qualquer parte, em qualquer lugar,
                                                             indefectivelmente te encontrarás a ti mesmo, e
                                                             essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais
                                                             amarga de tuas horas."
                                                                              Pablo Neruda      

                  Nos buracos de minhoca de nosso universo pessoal habitam vozes. Algumas, potentes. Outras, débeis. Muitas sem rosto, sem nome, nem lugar para a desova dos discursos apopléticos. Todas embargadas pelo poder do espelho enviesado, fruto do olhar oblíquo de quem acreditamos ser: sujeitos que veem, são vistos e constituem-se através da imagem formada. 
                   E agora, Mandela? Em quantas sílabas bradará o povo? A cor da liberdade ecoa vozes surdas em tablados de madeira grossa. Bate e volta. Faz a curva da esperança e funda sociedades perecíveis. Natureza própria da ambígua faculdade humana de instalar-se onde estaciona o bonde da vontade política. Ao feitio prosaico das imagens refletidas, somos personagens de logias conectadas por enredos que se extraviam nos buracos de minhoca.  A relatividade geral prova-se na tipológica hipótese de que somos factíveis. Exequíveis. E virtuais. Somos humanos! De fato, também somos intangíveis: seres dependentes do que está posto dentro e fora do círculo concêntrico do ego costurado sobre parcas. Cloto, Láquesis e Átropos tecem fios, articulam vozes, dobram as penas dos endividados com o contínuum tempo-espaço subjetivo. Figuras cativas que dançam ao sabor de suposta autonomia.
                 E agora, Mandela? Por quantos corpos míticos enveredaremos a constituição da liberdade?
                   Escavar as perguntas filosóficas enterradas no sítio dos sujeitos obliterados é uma das ações da antropologia individual que exige cumplicidade. Cumplicidade e parceria: somam-se “eus” na matemática moral e nos depósitos históricos. Júbilo do homem fóssil e do homem vivo: capricho obrigatório enfrentar o próprio espelho nas faces remotas que perambulam pela terceira margem da identidade una e múltipla. Olhar de fora é olhar através do outro e ainda sobreviver à incompletude do encontro consigo mesmo. É ler a autobiografia em trechos impressos por petições a expensas de múltiplos encargos. Pois, o peso da liberdade é responsabilidade partilhada na cerimônia da vida. Casamento perfeito entre o estar no mundo e o fazer parte dele. Base para a indigesta afirmação de que não se divorciam sujeitos, separam-se identidades amalgamadas em topos alheios: lugares reflexos.
                   
                            
                  A independência da alma aprisiona o homem em vestes estreitas e mal talhadas: roupas invisíveis ao olhar do rei admoestado. Enquanto os inocentes enxergam o que desejam ver, todos nós, nus e solitários do outro lado do espelho, procuramos pelo abrigo das certezas que não vêm. Não existe atalho para transportar a densa matéria moral que nos funda e torna sujeitos sociais, livres e conscientes.  O fenômeno é pessoal e intransferível, mesmo acontecendo na garganta do universo coletivo.
                                        Sua liberdade e a minha não podem ser separadas. (...)”
                                                        Nelson Mandela