domingo, 12 de janeiro de 2014

CAVIAR NAS PATAS SUCULENTAS DOS CARANGUEJOS SÓBRIOS


O MERGULHO DA LAGOSTA INDECENTE NOS BOLSOS SECOS DO POVO BRASILEIRO


“Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada.”
 Gilbert Chesterton



                                         Fios de esperança gasta arrastam sonhos sem títulos. Rolam sobre as veias inúteis do seio pátrio as últimas gotas do suor esvaído no trajeto da indignidade. Vêm de longínquas paragens e cobram o resgate do sequestro anunciado.
                                         Gemem os sonhos e os sonhadores. Esgaçam-se os fios tecidos entre homens simples, crianças queimadas, mulheres doentes, filhos desgarrados, velhos moribundos: todos politicamente abandonados.
                                        No espaço dos braços trêmulos, eles carregam em aberto a bandeira da palavra: virtual código da igualdade amealhado no quadro dos discursos vazios, dos projetos inacabados, das verbas adulteradas, da corrupção instalada em episódios de farta improbidade.
                                       Não gritam: choram. Não pedem: agonizam no útero da pátria amargamente surrupiada. Cena imprópria para a exposição gratuita frente a qualquer ser humano, gente, pessoa ou o que se valha. O que se valha! Valência é um conceito que dá à teoria de Tesnière um sabor de acontecimento verbal na cadeia sintagmática. Diferente do que ocorre na cadeia dos fatos publicamente constatados: repetem-se ad eternum. Improdutiva e dolorosa repetição ao feitio de fábulas sem moral. Passiva civilidade.
                                       Acima dos andantes desvalidos, entrevê-se a sombra de uma espessa colcha de iguarias: lagostas empapadas em uísque envelhecido adornam o buffet de canapés de caviar. Contrastam exímio gosto e exuberante fartura, enquanto abaixo, refletem-se brilhantes guarnições de cristal nas taças dos olhos chorosos, andarilhos da história nua. Uma boca vazia, duas bocas vazias, adultério da saúde pública, educação desigual, seguridade vencida! Fome de decência! O caviar e a colcha não cabem ao mesmo filho. Pelo menos por ora, nesta terra de engodos e falcatruas.
                                      Diante dos olhos cansados desfilam protocolos, cerimônias e sobremesas. Sobre a mesa dos que, abandonadamente, andam... sobra a mesa! Descarnada mesa vazia não partilha da glória nem do futebol recheado em boa vontade política e gastos à revelia. Mesa servida à margem da vida digna não expõe a toalha nova de linho branco. Óh! Não! Serviços e direitos dividem-se na aparência dos sonhos e dos horrores. Disseram alguns: atrocidade! Escreveram outros: licitação imprópria. Contestaram: prática notável do descalabro governamental. Folia de reis sem fé! Carnaval da impunidade. Farra da pajelança. Vergonhosa covardia, imprópria alegoria.
                                      Fome de decência!
                                     Os alimentos para as residências oficiais emaranham-se em apetitosas patinhas de caranguejo! Patinhas... patinh... patinhos...!Não se apontem os marezeiros. Não! Estes, servem-se da fome diante do mangue seco e são mantidos bem longe da rota dos comensais. País de fartos banquetes. Negue-se o absurdo da informação pouco crível. Chesterton conheceu o Brasil? Dizem que influenciou Gilberto Freyre! Casa Grande e Senzala? Pertinente! Ou... atual!
                                     Arrastam-se os fios da esperança gasta!