terça-feira, 7 de julho de 2015

MÃES NÃO MORDEM

OUVI DE UMA MÃE

- mães não mordem -

" Boa aula, minha filha e ESTEJA FELIZ, MUITO FELIZ."

                HELEN, mãe de uma estudante de 6 anos de idade

                                           A frase mote deste texto é uma sonata para as cordas esticadas da vida presumida quando ir à escola passa a ser um grande dilema tanto para os estudantes quanto para os pais dos estudantes  - deixo para outra coluna o quanto pode ser ainda mais dilemoso ( termo inaugurado aqui pela necessidade de juntar etimologicamente o que a filologia já aponta em sua cátedra inegável: /dilema/  raciocínio que parte de premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que paradoxalmente terminam por fundamentar uma mesma conclusão [Em um dilema, ocorre a necessidade de uma escolha entre alternativas opostas A e B, que resultará em uma conclusão ou consequência C, que deriva necessariamente tanto de A quanto de B.]...com o sufixo derivado do latim - osus /oso/ que indica "força", "extensão" ) para os professores que, também, curiosamente, continuam indo à escola , ou não!
                                          Pois, ir à escola em um país que se esforça para anular os investimentos práticos e filosóficos na formação e qualificação de alunos e profissionais da educação é por si só, um grande e humano movimento de superação. Superação das pressões externas, das angústias individuais, das necessidades pessoais e expectativas sociais, das "garras oblíquas" das cobranças familiares, das intempestivas e cíclicas motivações internas, hormonais, neurológicas, emocionas, químicas, hereditárias e lá se vai  o vendaval de associações formando um tornado na atmosfera das possibilidades abstraídas. Ou abduzidas, arrebatadas de um contexto amargo e infrutífero, mesmo diante das pseudo-campanhas politicamente orquestradas e bem aquinhoadas de rubricas que recebem qualificativos não mensuráveis ( estou pensando grosseiramente em : roubo, rapina, furto,ladroagem e o mais que todos sabem, mesmo sabendo tão somente o que nos permitem saber - em quantias nada saudáveis ao bolso do povo desbancado dos tortos direitos aos quais paga com o peso da pena em tinteiro vazio. Excesso de uma nota só? Não! Realismo cáustico, cansaço epistemológico, estafa histórica e enjoo ideológico, fenômeno este  que avança pelo tubo estomacal e atinge o citoplasma neuronal  do sistema cardíaco da alma pensante - existe essa possibilidade? Não sei e nem desejo certificação. Uma vez que imagino, basta-me, pois de figuras rotundas a avançar sobre o leito moribundo do sistema escolar e o medo de fantasmas ébrios estou cheia até os tampos da racionalidade tardia. O que nega o ostracismo do medo em câmera lenta é a frase que abre essa coluna: " Boa aula, minha filha... e ESTEJA FELIZ! MUITO FELIZ!". A mãe sabe o que diz e o que deseja. Sabe, intui, almeja e expressa e determina uma possibilidade real. Aos imediatistas de plantão e aos fundamentalistas de capital interesse no progresso pedagógico, ser/estar feliz - especialmente na escola enquanto meio e contexto para a produção do saber desvinculado de emoções, interações e fascinações ( outra vez penso e sofro por fazê-lo, pois pesa-me a atitude e a decisão, quando em minha leitura o espaço escolar esvazia-se perigosamente do incentivo para a pergunta, para a pesquisa, para a descoberta, para a experiência científica e não apenas bibliográfica na contramão do ensino para a repetição de verdades mensuráveis , cobradas e recobradas em taxas de aproveitamento duvidoso: mea culpa, mea culpa, mea culpa...-  pode indicar pouco apreço pelos avanços da maestria futura, da qualificação para o trabalho, para o foco na manutenção de metas de longo e duradouro lucro. Mas, se UMA MÃE SABE, outras mães hão de sabê-lo e, então, haverá lucros no decorrer do túnel: estar feliz/ser feliz pode ser um objetivo de grande lucratividade, de fácil negociação e de muitas ações no mercado das pretensões humanas. À FELICIDADE PRODUTIVA, um espaço para o método natural e simplificado da sabedoria materna.


"Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos." Eduardo Galeano

Ivane Laurete Perotti