terça-feira, 14 de julho de 2015

JATOS VERBORRÁGICOS

DIZER "NÃO" É UM ATO A FAVOR DA SAÚDE PÚBLICA

-  sim: mordem-se os lábios trincados pela negada negação  -


  "O homem é a criatura que, 
   para afirmar o seu ser e a sua diferença, 
   nega."
 Albert Camus
                                      
                                       Negar e dizer "não" são atos linguísticos - sociopsicolinguísticos - que orbitam em esferas performativas radical e complexamente distintas. Para colaborar com a subjetiva declaração, basta pensar nos movimentos internos que nos levam a dizer que somos quem não somos, ou o contrário: a dizer quem não somos, sendo! Na sina do ser e não ser  e do negar o sendo, cola-se a atitude social e psicológica de verbalizar um comportamento de contrariedade ou discordância com falas ausentes, silêncios eloquentes, assertivas capengas, atitudes de muro alto  - aquelas que mais decoram ( indecorosamente) a sociedade contemporânea com sujeitos (assujeitados)  empoleirados à moda de aves em confinamento. Bípedes, com ou sem bicos (rostros), também piam, ou chilram, ou gorjeiam, ou trilam, ou "cantam", apenas o homo sapiens e PELAMORDEDEUS, sem trocadilhos com a sapiência feminina - nego-me a repetir uma tal declaração ventilada nos urinóis dos discursos políticos deste país mas, expresso a minha NÃO concordância com a forma ou com o conteúdo dos tais ditos em jatos verborrágicos - é capaz de dialogar. Dizer "não" é uma forma de dialogar com o mundo, tanto quanto dizer "sim", ou de permanecer na berlinda dos muros sem Pilatos para lavar as mãos . Quanto a se estar certo ou errado depende da altura do muro, da alça do caixão, do peso do corpo, da porta de saída e de onde você pensa que quer chegar, como consequência direta da cegueira induzida de não saber que já chegou. Estar no mundo é um ato de incompletude instantânea, solúvel no quadrante das relações que se refazem até mesmo quando não as desejamos. Essa é a condição humana de existir em sociedade: manifestar-se em estado de condição sujeitável, ajustável, negociável dialeticamente, ideologicamente... ou não! Não? Nego-me a pensar que existo e eis-me diante de mim mesma nas entrelinhas ( pensei nas estrelinhas que ainda assolam as crianças que não têm medo de dragões e aprendem desde cedo que são diferentes das outras crianças por não decorarem o céu do bom comportamento com os adesivos de coloração duvidosa) deste texto - pretexto para explorar os muros que construí no decorrer de minhas abduções reacionárias. Não sou reacionária, não sou situacionista, não sou... quem sou? Ah! Se eu tivesse essa resposta  não desenvolveria este escrito, contexto no qual ainda nego dizer  como  penso o que penso, pois o muro da democracia tem altura e massa cimentária - algo como a mistura de cimento e doutrinação partidária. Desculpa de uma grande cara de pau ( seria mais elegante escrever  face de madeira?): diz-se sempre, de uma forma ou outra o que se nega deixar dito. Assim é, ou não! Depende do seguro saúde ao qual se está dependurado.


* A estrutura sem paragrafação deste escrito é uma representação morfofonêmica da  ausência de intervalos respiratórios entre os pensamentos negados.

Ivane Laurete Perotti