domingo, 6 de setembro de 2015

TERRA SEM CHÃO

MURO HUMANO
- valeria subir pelas paredes dos ombros se o sistema não se fechasse em conchas -

“A desvalorização do mundo humano aumenta 
 em proporção direta com a valorização
 do mundo das coisas.” 
Karl Marx

                                Da seca árvore restava a sombra tardia. Alma nenhuma disputava o espaço recortado no solo vazio. Sem engano, um tortuoso panteão formava-se acabrunhando Hades na escuridão dos subterrâneos abarrotados de mortos. Zeus abstinha-se de comentar o inexplicável.
                              Na superfície das almas sem pegadas, Hefesto incapacitava-se na proteção aos metais, ao fogo, ao trabalho: sobrepunham-se eles todos em camadas de ganância e poder, centro de um sistema construído sobre pirâmides desiguais. Enganavam-se os que esperavam prosperar pela ação dos ombros, das mãos e da valentia. Teimosa valentia, vislumbre de um passado não visitado para a compreensão da história humana – repetida história em lições insípidas aos olhares de pouco caso.
                             Entardecia e o sol disputava a esperança dos astros agnósticos.  Hermes despedira-se da diplomacia confessando-se impotente e esquecido. Ártemis perdera o selvagem poder de circular livremente pelas matas: abatida em uma caçada pelo prazer descabido, agonizava diante da lua e suas lágrimas prateadas debruçavam-se na janela do mundo real. Ao seu lado, as ninfas perdiam a sensualidade pura das antigas danças e as mulheres ainda pagariam o preço dos excessos não identificados. As florestas, violentadas e vazias de justiça, não mais protegiam a essência feminina, ícone da força silenciosa e constante. Postas a descoberto, as criaturas livres não reconheciam Crono e Perséfone limitara-se a guardar a primavera em um cadinho entregue às mãos de Éris, deusa da discórdia, talvez a única a manter-se viril e ativa, alimentada diariamente pela cumplicidade com Ares, o pai de todas as guerras.
                             À sombra da árvore seca, o espírito de Gaia decidiu lançar um desafio final: que se aproximasse um homem de boa vontade, que viesse, mesmo que só, mas que se apresentasse inteiro e disposto a olhar para além do próprio umbigo. Gaia ajoelhou-se em espera reverente.      
                             Crono conhecia a tenacidade telúrica daquela que clamava por todos e, em sucessivas tentativas, cedeu o próprio lugar para Deméter: mas as colheitas permaneceram abundante e repetidamente nas mãos de poucos; a Poseidon: os mares levantaram-se em vagas de aviso e nem os discursos catastróficos sublinharam o sentido do sinistro apelo; para Hera: os nascimentos na Terra há muito, haviam descontrolado a ordem natural da vida; a Eros: desconhecia-se; para Héstia: aguardava por um lar em um orfanato sem endereço; para Hebe: alheava-se em buscas insanas – juventude tornara-se consumo obrigatório; para Apolo: assumia-se poético tanto quanto comercial – dualidades aceitas na vivaz política de controle do investimento capital; ofereceu para Atena: ela sofria a devastação na própria alma, se é que um dia tivera uma; a Dionísio: multiplicava-se em sofisticadas faces... Crono chorou. Mas as lágrimas do tempo foram barradas antes de tocarem os joelhos de Gaia.
                           Mais tarde, muito tarde, quando a sombra da árvore seca se recolhera, Gaia descobriu que um menino tentara aceitar o desafio. Tentara, mas seu pequeno corpo fora encontrado em uma praia qualquer, com o rosto ainda voltado para o chão que não o recebera.


Ivane Laurete Perotti