domingo, 20 de setembro de 2015

VAZA O MUNDO

VAZA O FUNDO

- permanecem em casulos envelhecidos os que se negam à singularidade da comunhão –

 “Vê mais longe a gaivota que voa mais alto”
   Richard Bach

                                       No fundo do mundo mantém-se um baú. Forma indefinida e não palpável, derrama-se pelas frestas da cerrada tampa.
                                       Durante um tempo imensurável, arqueólogos de pensamento livre buscaram-no com afinco entre as geleiras polares, nos espaços abissais, no oceano das pirâmides pontiagudas, nos desertos siderais. Vãs tentativas favoreceram ao homem biológico o voo baixo e rasteiro, o isolamento defensivo, as guerras internas, a violência desenfreada, o aprisionamento da alma, a miséria do medo mascarado, a morte da fé – seja ela “o quê” quer que seja e para onde se dirija.
                                        Estruturaram-se justificativas para o comportamento limítrofe, para a negação da vida, para a mutilação do corpo, para a exploração do poder sistêmico e centralizado. Estruturaram-se leis e medidas angulares para as hipóteses do inesperado humano, da insustentável irreverência frente à vida puída e maltratada.  Em tempo paralelo, abarrotava-se mais o baú no fundo do mundo pensado “um”, literal e dimensível.
                                 Improváveis dejetos psíquicos criavam limo e pesavam na balança da/S/ natureza/S/ desamparada/S: rodava o globo da “coisificação” em velocidade ímpar. A ARTE perdia a “cola” nas rachaduras da interpretabilidade vazia. Sofria o homem, enchia-se o baú já cerrado indiferente ao guarda-chuva homonímico do cerrado sem água, ao sofrimento do serrado banco da esperança sem pés. Fadava-se a ARTE presa aos costumes inexpressivos e de validade vencida: inconsistências típicas da sociabilização do homem sujeito às consequências irreversíveis das escolhas inconscientes, incongruentes e falsamente dissociadas.
                                     Sopejado, o baú sinaliza-se instável.
                       Sensível, a essência da ARTE manifestou-se crua inspirando transpirados esforços em continuuns variados: da música à pintura, das letras à arquitetura, à dança, ao improviso; de Heidegger a Guardini, de Voltaire a Rousseau as tentativas de consolidar a leveza séria das obras investiam em novas fórmulas para a “cola” entre o pensamento moderno e suas raízes de valor canônico. Difuso, o eufemismo não ligava os estrados das diferenças, por si só singulares e em frêmitos transitórios. Residia onde e aonde o lugar-comum do entendimento endêmico? Pandemia da inconformidade. Baú cheio. Comunhão desconexa: insustentáveis redes tramadas no inconformismo. Abraços emudecidos, braços caídos, sepultamento do afeto simples.
                                  No fundo do mundo o baú vaza tempestades. A/S/ natureza/S/ encolhem-se diante do inevitável padrão de repetição: não se vê o horizonte enterrando a cabeça na areia do isolamento. E a /IN/comunhão sela os casulos blindados: “réquiem aeternam” à interação. Mozart desiste da liturgia aos mortos. Sem com/C/erto... sem com/S/erto?
                                   A gaivota suspende o voo... o baú permanece ao fundo, no fundo arquetípico do ego inacessível.

                                 Vaza o mundo!

Ivane Laurete Perotti