domingo, 13 de dezembro de 2015

BÍFIDAS ESCAMAS

GÁRGULAS BRASILIENSES

- desaguadouros políticos entopem os canos da vergonha pública -


"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” 
Ruy Barbosa

                                 La Gargouille , se foi ou não uma lenda francesa a espalhar tórrido medo sobre os aldeões de Rouen, reveste-se  aqui de atualidade  visceral que em tudo lembra o Brasil às margens do rio Sena e o seu próprio - impróprio - dragão insaciável, impassível a qualquer forma de exorcismo judicial.
                             O Estado Brasileiro - divisão político-administrativa que deu cria a inúmeros dragões fecundos e vorazes cuja "ninhada" acolhe a si mesma em "nichos" de complexo enredamento alimentar   - cospe fogo sobre os candangos espalhados por um território assombrado pela peste da impunidade institucionalizada.
                             Quanto engole um dragão elevado ao topo da cadeia política? Qual o tempo de sua vida útil? ( /útil/ = processo ativo e permanente de apropriação dos bens comuns tomados a pulso fino e sob os olhares de aprovação do mercado das negociatas administrativas  ad aeternum, para sempre, amém !) Que extensão percorre um dragão empossado pelo /de/voto popular na história das bocarras bem-dentadas ? ( em obediência à cartilha AINDA não sancionada pela senhora  president/a/ da república dos dragões, o hífen faz-se presente e diacriticamente inverso ao poder de coesão entre palavras e discursos : Dilma adia...adia a Dilma...é dia Dilma,alerta a confraria ...Suicídio inútil na linguagem padrão - padrão? Existe um? ) Parênteses cansam a vista e o espírito, mas personificam drasticamente ( draconianamente, e Drácon nada tem a ver com este texto. Tem? Que se chame às falas o direito do Direito antes que o dia termine) as locuções e os hiatos disfarçados em comuns pesadelos da população brasileira  mastigada em tempero de adiamentos e lacunas sem tratamento legal. Tudo igual! Nem mesmo a fraca rima sobrevive às repetições de nossa história hipócrita, abusiva e deteriorada. Dragões da Independência! Com todo o respeito, chore quem puder ! Pelas barbas ausentes do senhor Vice-Rei do Estado, a ordem régia de 31 de janeiro de 1765 deve lembrar-nos a fuga napoleônica que mais tarde reorganizaria a Cavalaria de Honra como resgate da tradição histórica. Outro apelo ao choro catártico e ao lugar da honra, do mérito e da vergonha neste país de muitos dragões alojados em intocáveis cavernas de poder. Quando deixaremos de alimentar as bífidas figuras escamadas que serpenteiam anônima e descaradamente sobre as nossas costas esfoladas?
                                  Gárgulas enfeitam o Planalto, mas os canos da corrupção entupiram-se sem mostrar a cabeça dos monstros que ainda não vieram a furo, nem virão. Claro! A mitologia é apenas uma forma icônica de escrever os medos e imputá-los aos que devem ser controlados... e dizimados.
                                   Se a máxima "... todo o povo tem o governo que merece ..." diz de nós o que não sabemos, onde começa o pecado e termina a penitência? Perguntas também cansam, e as respostas não secam as lágrimas de uma nação tripudiada, e sequer alcançam a fome da ignorância administrada.

"Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo."
Eça de Queirós


Ivane Laurete Perotti