sábado, 30 de janeiro de 2016

DO AMOR, SIMPLESMENTE...

PARA NÃO FALAR DE ZIKAS

- endêmicas crises matam o vírus da poética do amor -


"Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido." Vinícius de Morais




                          Água limpa em coração aberto tanto bate  até que entra. E quando entra, irriga os vasos modelados nas olarias das crenças: mecanismos de constituição social que identificam os mapas de nosso comprometimento; armadilhas conceituais que transitam pela fronteira do plausível; círculos concêntricos que mantêm-se na ideologia do "acaso" quando racionalizam sentimentos - se é que tal proeza se faça possível.
                       Vasos cardíacos são cumbucas poéticas e, mesmo quebrados, remendados, sem fundo, podem receptar o jorro do amor líquido na passagem de um estado  a outro: amor e não amor identificam-se pela oposição pouco ortodoxa entre as camadas de fino trato que empoam  a realidade de um e outro. Quando amar e não amar estiverem em paralelos não contíguos, o estado de amor poderá expressar-se em linhas entrecruzadas para fora dos limites conhecidos. Mas, se as crenças rondam a pele dos sentimentos reprimidos  - e elas rondam, ocupam espaço, determinam medos e rejeições, negam-se às entregas lúdicas, mancham as paredes dos olhos epiteliais ... - enquanto os vasos  alinham-se em antecipação às dosagens perniciosas - como se o amor se apresentasse em porções cristalizadas com rótulos de mais ou menos letais ( ou é letal, ou não é letal!, mas na retórica da paixão, a loucura é uma constante necessária!) - pode-se pintar palavras em todos os níveis morfológicos e ainda assim, ainda assim, amar não será jamais um verbo transitivo direto. E  menos ainda, pronominal. Culpa da gramática normativa! Culpa das crenças sobre o posto, ou o dado a conhecer fora dos limites normativos. Culpa do medo de tentar, da necessidade de instalar esquemas de segurança onde a segurança é uma fértil justificativa para a covardia.
                        Quando a água limpa bate e entra, os vasos abertos derramam flores. As pétalas da alma embebida em amor são translúcidas e não refletem a sombra de antigos remendos; remendos são cicatrizes apagadas no cadinho da novidade conhecida. "Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia." (Vinicius de Moraes)
                      Para não falar de Zikas é um texto com os pés - as mãos? - nos sofismas argumentativos, não para indicar direções difusas na tela das falas, sim para provocar uma rachadura nas considerações que cercam o cotidiano de nossos interesses. Que as Zikas, venham elas de onde forem, desnudem-se diante da vontade humana, na livre escolha  para estar onde se deseja e não onde desejam que estejamos. O vírus do amor prescinde medicação, hábitos e dosagens; antes, exige abertura para a vida,  inteligência para o reconhecimento dos sintomas, aceitação de um novo perímetro e, especialmente, entrega sem exigência de endereço fixo. Poético demais? Demasiadamente poético ... talvez! Mas a Zika promete apenas incômodos e, mesmo assim, consegue a atenção de todos neste planeta carregado de estatísticas insalubres. Se o vírus da família Flaviviridae colocou o mundo aos seus pés - essa "coisa"  de membros está desdobrando o meu discurso em fálicas tomadas : frames identificados, claro!- então, que se dobrem os sinos das possibilidades subjetivas e se dirija uma "poiesis"ao amor, pois essa capacidade também a possuímos, ainda!

"Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente."
Vinícius de Morais


Ivane Laurete Perotti