domingo, 21 de fevereiro de 2016

VERGONHA

NO CALOR DE UM TEXTO

- eu sofro de vergonha alheia -

"As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara." Sócrates

                                Após as tormentas do verbo, as barricadas da liberdade alcançam as frases. Mais uma madrugada de lamentos não ouvidos varrem os fatos para debaixo do tapete puído, da cama sem lastro e da janela sem vidro. Houve um tempo em que uma canção levava o nome da música na moldura da pauta: quadros de vozes e instrumentos a favor da esperança. Houve um tempo em que sonhar não era um evento psiquiátrico e valia dizer por onde andava a vontade de fazer da felicidade um momento  real - mesmo que por míseros segundos de volátil solidez. Houve um tempo em que os heróis plantavam e colhiam a luta diária de manterem-se em pé sobre as dificuldades da própria história. Houve um tempo em que a história não era o resultado de tantos e tão portentosos jogos de manipulação: teoria da conspiração? Teoria da exterminação !
                            Então, o que deu errado?
                            Não sei..., parece justo e sábio argumentar em  legalizado estado de negação; mas,  envergonho-me pela desconfiança em sabê-lo, posto estar diante de retorcidos acontecimentos cuja ignorância alimentada pelo  desespero transforma-nos em joguetes de pouca monta. "Assim foi, assim será...", disse-me a senhora na fila de um grande Pronto-Socorro conveniado com um dos planos de saúde mais caros - para os assegurados, obviamente DESASSEGURADOS! - deste país de braguilha aberta. Cambaleava a senhora bem mais do que eu, ambas em estado de sintomática dengue e as suas escabrosas manifestações. Tanto crescia a fila da epidemia, quanto descia ladeira abaixo o atendimento no qual AINDA se colocava fé: fé e necessidade. " Que encontras de mais humano? Poupar a vergonha de alguém." ( Friedrich Nietzsche.  Que vergonha é essa que sentimos, quando se procura um profissional de acordo com a sua legítima formação e o que encontramos nos deixa em estado de lastimável  prostração? Que mercado da doença é este que não põe medida na moeda de troca e a libera ao uso e abuso do descaso? Tabelas de atendimento não atendem mais ao pague o que leva:  volta-se para casa sem o que se pagou e ainda, de crédito, carrega-se o estupor assintomático: a humilhação e o desrespeito! Ambos crescem na voluptuosa fecundidade do  Aedes aegypti  alimentado no calor de todas as estatísticas mercadológicas. Quantas picadas são necessárias para acordarmos?
                       Sim, sinto vergonha alheia... e assumo senti-la em minha pele, em meus olhos e na alma que teima habitar-me por tempo indeterminado. Sinto vergonha por não conhecer mais a medida interna de minha indignação e a manifestação externa de meu descompasso. Sinto vergonha acompanhada de uma dor sem nome, algo que teima em lembrar-me que ser heroico não prescinde de largos movimentos, que somos todos, absolutamente todos perecíveis... sim, esta é a palavra deslocada na frase das tormentas. Escolho-a a dedos tortos: p-e-r-e-c-í-v-e-i-s ! Somos falhos, certo. Mas a epidemia não é a dengue, como tanto repetimos. A epidemia é a política da desvalidação da humanidade. Nem o vírus Zika dará conta de nossa violenta transformação em zumbis da dignidade, em homens sem vergonha na face - face? sem vergonha na cara, na alma, nos olhos - corremos para o podium da descaração, do descaso, da brutalidade gratuita, da lei do mais rápido. Diria um infeliz e antigo conhecido meu: " Essa é a lei da natureza: sobrevive o mais forte...ao fogo, os demais!". Ao fogo do esquecimento, ao fogo do descuido, ao fogo do demérito, ao fogo da humilhação...à morte sem digna atenção. Talvez a natureza tenha leis inflexíveis por conta do universo no qual precedem a existência das coisas e a sucessão dos seres ! Mas, aos animais selvagens ainda há o crédito da irracionalidade.  Ainda, posto estarem a sinalizar a evolução de sentimentos e emoções que em nós rareia e desaparece.
                            Sinto vergonha.... e morre em mim a vontade poética de salvar este texto da desgraça verbal.
                            Às barricadas da verdade, que não se descubram obstruídas pelos pontos e vírgulas, eternamente presentes nas histórias que têm dois lados: dois? Penso na matemática das ilusões e imagino o novo prédio do seguro-saúde que teimo em pagar com a esperança de que seja FUNCIONAL. E os atendimentos públicos? Sem palavras... Para a escuridão de um único texto, basta começar por onde termino: morre em penúria o povo  deste país de lobos esfomeados. Peço desculpas retóricas aos Canis lupus, naturalmente fora do espectro desta metáfora triste!
                         O que deu errado?

Ivane Laurete Perotti