domingo, 17 de abril de 2016

TARAMELAS DA IMPROBIDADE

PORTAS ABERTAS À INTELIGÊNCIA

-  qualquer duto de repressão tem entradas e outras saídas -

“A dor, o prazer e a morte não são mais do que o processo da existência. A luta revolucionária neste processo é uma porta aberta à inteligência”
Frida Khalo

                                          Negar o direito ao próprio grito é tão grave quanto afogar um sorriso: natimortos na cordilheira das negações. Gritar sorrindo é uma heresia musical, mas possível aos habilitados. Sorrir gritando é uma nota licenciada pela estética das convenções: hipocrisia no cardápio dos temperos amargos. Temperos e sensações trespassam verbos na esgrima dos discursos vulcânicos e as portas  políticas têm dobradiças de língua dupla: eu e tu dialogam em grito catatônico, saudável aos interesses massificados, ou comportam os dizeres sociais, imprescindíveis à inteligência dos recursos equitativos. Em que trilhas ágrafas perderam-se os últimos?
                                         Um muro de vergonhas separa as mobilizações  no útero das diferenças que fatiam o Brasil sobre a tábua do pão ázimo: não conversam entre si os eflúvios de empoderamento das minorias. O manto da democracia brilha só, isolado nos trópicos desencarnados: Yo nunca estuve tan seguro! Ironia dos fidalgos, filhos de algo, por detrás dos dispositivos de segurança - teúdo e manteúdo contingente das sobra/s/de guerra, interna guerra que José Onofre, em 1982, reviveu nas páginas de sua obra-prima. O "país do eu não sabia", " naqueles anos estúpidos (...)" ainda é o país dos silêncios entalhados em anos e anos de repetidos erros e dilatadas corrupções.
                                          1964, 2016... um hiato na memória condiciona versos de eloquente verborragia: fecham-se as portas escancaradas no caos da improcedência. A pressão nas ruas está oca de saberes e direcionamentos. Os dutos do encurralamento estrangulam os brasileiros marinados em fogo baixo: acostuma-se mais facilmente às mazelas cotidianas do  que às dádivas do viver qualificado. O suor marcado lava as faces dessa terra eivada pelas histórias mal contadas: ganha um conto quem volta ao princípio dos fatos. Atos? Injunção de prerrogativas, barbas de molho não se apuram: ulceram-se. Barbas e orelhas não levam pontos, mas padecem do mesmo mal: o esquecimento de seus portadores ...“Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece." (Frida Khalo)
                                            Nas dobras do manto seboso, um cadete esbarra a antiga baioneta: os nós do tecido político abrem-se em rotundos rombos - Cyperus rotundus . Decocção! As costuras de linha podre não resistem à primeira cutucada. Em formação, o soldado assusta-se e deixa o posto. Deserção?  Abandonos  não são prerrogativas das forças instituídas por um Estado de fato. Mas, de fato, a um Estado cabe jamais abandonar a legítima constituição de sua natureza política.
                         Estado Novo? Novo Estado? Quem dera a situação brasileira independesse da colocação de um adjetivo e nem fosse Getúlio Vargas lembrado como a única porta às memórias desmemoriadas de nosso povo: ad eternum banho-maria.
                         Vai outro grito aí?


Ivane Laurete Perotti